É possível viver sem um grande amor?

Mais desdobramentos sobre a ideia de que sem um pau a gente não é nada.

Pra começar, preciso dizer que só o meu descaramento explica posts como estes, já que teoricamente não tenho autoridade nenhuma pra falar disso. Nenhuma. Comecei a namorar o Cris quando tinha 27 anos, antes disso tive um namorado por uns meses quando tinha 24 anos, e antes dos 20 não fiz nada, a não ser sofrer paixões platônicas, a maioria delas devidamente declarada para os cabras. Dos 20 aos 27 teve esse namoro, casos diversos, muitos momentos pra se sentir desolada, sozinha, idiota, suicida, perguntando pro guruzinho quando eu ia conhecer um cara legal.

Então eu conheci. E vivi o conto de fadas, de ser a garota calada, estranha, sem graça, pobre, e que acaba se casando com um sócio-diretor da empresa onde vai trabalhar. E não é pouca marmelada: entre os vários motivos pra gente não dar certo, tinha o fato do Cris ter um filhinho pequeno. Mas que gostou de mim à primeira vista, e apesar de não ser filho de sangue, de muitas vezes termos conversas, discussões, piadas e trolagens mútuas como se eu fosse irmã mais velha em vez de madrasta, hoje entendo perfeitamente o ímpeto de sacrificar sua própria vida pela do seu filho. Eu morreria pelo Daniel.

O que eu sei sobre a vida sem um grande amor? Como posso defender a ideia de que as pessoas podem viver sem um grande amor?

Tenho reflexões e algumas certezas. E compartilho no blog, como mensagem na garrafa, porque talvez te ajude a também se sentir mais livre e dona da sua vida.

1 – Eu tenho certeza de que não há nenhum motivo realmente válido e concreto que obrigue uma pessoa a colocar a busca por um grande amor-família-filhos como um dos principais eixos da sua vida

Na maioria das culturas a noção de família, de casar e ter filhos é algo muito forte. Mas é apenas isso: cultura, costumes. Não acredito em relógio biológico, hormônios ou feromônios, programação de DNA, algum Deus ou o que quer que seja que obrigue um ser humano a buscar um par e procriar.

Ok, muita gente vai concordar que não há nada de obrigatório em ter filhos, aliás, parece haver cada vez mais casais que optam por não ter, o que não é problema algum pra espécie humana e pro planeta Terra, pelo contrário. Enquanto não acontecer alguma revolução trazida pelas super-inteligências artificiais, a diminuição da quantidade de pessoas na bolota azul só traz benefícios.

Entretanto, a ideia de que não existe nada que obrigue alguém a buscar um par, essa é mais complexa. Vamos lá.

 

2 – Eu acredito que a ideia de que precisamos viver com um par a vida toda, ou boa parte da nossa vida, é uma construção cultural

Ter um parceiro fixo facilita muito a criação de uma prole. Até pouco tempo atrás, era essencial pra você não ser estuprada pelos machos do grupo, e ajudava muito na sua própria sobrevivência.

Hoje as coisas são diferentes para um pequeno estrato da humanidade, tenho plena consciência de que na maioria dos lugares do mundo uma mulher que não tem um parceiro masculino fixo, e que imponha um mínimo de respeito, tem muito mais chances de sofrer abusos diversos.

Numericamente não somos nada. Mas se pertencemos ao privilegiado estrato que não depende da afeição de um homem para ter onde morar, ter o que comer e não ser violentada por estranhos (nem vou entrar nas questões de violência doméstica), o fato é que também temos voz para promover um estilo de vida em que as mulheres tenham cada vez mais poder.

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Não é errado querer viver um grande amor, família, filhos, entendam bem, não sou o anticristo. Mas o que eu queria promover é a consciência de que temos toneladas de motivos culturais para termos seguido esse padrão até agora – e que é fundamental reconhecer que somos fruto desse contexto. Ter consciência de que nossa historia como mulheres nesse planeta, a forma como a raça humana viveu até agora nos levou a esse padrão social. Mas ele é apenas uma construção, fruto de escolhas feitas por pessoas, geralmente as pessoas com poder na sociedade, os homens. Já há algumas décadas e cada vez mais temos capacidade, espaço e força para seguir outros caminhos. Mas raramente seguimos.

 

3 – Eu acredito no imenso peso da cultura de massa influenciando nossas escolhas

Como viver? Que caminho seguir? O que é o bem, o que é o mal? O que é o belo? Por que coisas ruins acontecem a pessoas boas? Estou fazendo o certo? Primeiro criamos a religião e os representantes religiosos para nos ajudar a responder essas questões existenciais. Mas além da religião ser algo fora de moda para muitas pessoas, o fato é que mesmo os religiosos não estão imunes à enorme influência dos meios de comunicação de massa, que nos mostram pessoas e historias de vida inspiradoras, lindas, sob uma luz incrível, narradas ou filmadas de forma emocionante e empolgante, que nos fazem querer ter aquela aparência, usar aquelas roupas, viver aquelas situações, ser imensamente feliz daquele jeito.

E aqui a vaca vai pro brejo. Porque na indústria de cultura de massa raramente há bons personagens femininos, e a humanidade tem seus sonhos alimentados pela indústria de cultura de massa, que sobrepujou fatality finish him exterminated as religiões e os mitos. É pelos filmes, livros e novelas que passamos a formar nosso imaginário do que é desejável, aceitável, odioso.

Não é só uma questão de haver poucos personagens femininos bons: pra começar, raramente há personagens femininos. Tantas historias em que a mulher é só um acessório, um pedúnculo pro herói ter com quem trepar ou flertar ou ganhar um colinho ou mesmo reencontrar sua fé e alegria, mas a mulher na forma de musa, não como uma pessoa de verdade.

Um dos vídeos no post das blogueirasfeministas, linkado abaixo. Se aparecer sem legendas, clique no ícone cc, depois no ícone de ajustes, aquele símbolo de engrenagem, tem a opção de legendas em português:

Quando as historias têm protagonistas mulheres geralmente são os Chick Flicks – os romances, que mostram… tcharam, mulheres em busca de um grande amor. No geral bem inconsequentes e previsíveis, já me diverti com vários – em geral dos mais antigos. De uns tempos pra cá parece ter uma grande onda de filmes em que as mulheres protagonistas são das mais toscas, neuróticas, fúteis e idiotas possíveis.

Há muito o que ler sobre cultura pop e feminismo. Este artigo é bem legal, e os vídeos da Anita Sarkeesian estão com legenda. O da Manic Pixie Dream Girl é bem engraçado (mesmo com toda a polêmica sobre o termo), e o da Smurfette também é ótimo:

http://blogueirasfeministas.com/2011/08/hollywood-feminismo/

E também lerei o http://feministfrequency.com/

 

É isso, meus queridos. Provavelmente os temas feministas vão passar um bom tempo rondado minha cabeça e meus posts. Não por odiar os homens, ou me sentir vítima do patriarcado, nada disso. Mas por acreditar que é possível lançar mensagens em garrafas e ajudar outras mulheres a se sentirem as protagonistas, e não coadjuvantes, de suas próprias vidas.