É fácil não falar coisas babacas: pense sempre em alguém querido

De vez em quando passo os olhos por notícias e caixas de comentários. Como disse um amigo, é o tipo de coisa que sempre diminui sua fé na humanidade. Mesmo assim, faço. Talvez pra me sentir mais por dentro dos argumentos da mediocridade.

Destaco três comentários que representam erros comuns de lógica. Os autores acham que estão sendo descolados:

  1. um comentário sobre a notícia do atendente da NET que foi demitido porque gostou da voz da cliente e decidiu pegar os dados cadastrais dela e adicioná-la no WhatsApp. Ela colou os diálogos em que ele diz “oi, sou eu, gostei da sua voz e fiquei curioso” “você não pode fazer isso, é invasivo” “relaxa, é só seu telefone (…) vai tentar me processar? Pode tentar”

– o comentário era “qual o problema? Um homem não pode mais cantar uma mulher? Se tivesse sido uma mulher passando a cantada teria sido louvada?”

  1. notícias que falam de pessoas ou grupos que foram multados ou indiciados por declarações ou manifestações de racismo ou homofobia.

– sempre tem o queridão que vai falar “gente, cadê a liberdade de expressão desse país?”

  1. um post de uma mulher contando que estava andando na rua e foi abordada por um cara que lhe falou “gostei do seu cabelo, achei você bonita. Quero te atacar”

– e um cara perguntando “ok. Mas quero que alguém me explique como é que um homem pouco atraente pode falar pra uma mulher que gostaria de fazer sexo com ela”.

A maioria das pessoas terá lido os comentários e revirado os olhos mesmo antes de pensar por que essas pessoas estão erradas. Alguns poucos lerão e concordarão com os autores dos comentários citados. Vou explicar como é fácil entender por que os comentários causam repulsa nas pessoas com valores morais minimamente calibrados.

O que está errado, o que torna o comentário babaca, é a incapacidade de empatia do autor da frase. Ele não consegue pensar no outro como um ser humano. Se fosse capaz disso, jamais teria escrito essas idiotices.

Pra não cair nessa armadilha, é fácil: basta reler a notícia e substituir “fulana de tal” por “minha mãe”, “minha irmã”, “minha esposa” ou qualquer um querido, e daí você entenderá.

1 – “Um atendente folgado da NET achou a voz da minha esposa sexy e acha que tem o direito de pegar o cadastro dela e ficar mandando mensagem pelo WhatsApp e deixar ela com medo. Vou quebrar a cara desse filhodaputa!”

2 – “Uns cretinos acham que tudo bem ficar falando que negro [ou homossexuais, ou travestis, ou nordestinos, ou pobres] merecem levar porrada, só porque são negros, que isso é só liberdade de expressão. Mas a minha madrinha, a tia Lurdes é negra, e se alguém encostasse num fio de cabelo dela, nem sei o que eu faria”

3 – “Um maluco chegou pra minha irmã, do nada, ela andando na rua na dela, e disse que achava ela bonita e que queria atacá-la. Filhodaputa covarde, se ela estivesse acompanhada por um cara ele nunca teria falado isso. Ah, se eu estivesse perto”.

E respondendo à pergunta “como um cara pouco atraente pode falar pra uma mulher que quer fazer sexo com ela”, a resposta é “não importa se você é atraente ou pouco atraente – se você apenas quer fazer sexo com uma mulher, sem qualquer risco de rejeição, contrate uma prostituta”. Senão, conforme-se com a ideia de que uma mulher não é uma buceta ambulante, e sim um ser humano, com quem é preciso criar uma relação ou no mínimo uma super-fagulha de excitação antes de ter relações sexuais. Se você é pouco atraente, mude isso. Cuide-se. Mude suas roupas, seu corpo, sua postura, seu papo. E, principalmente sua mente.