Dúvidas sobre o feminismo

Ontem talvez eu tenha entendido alguns dos motivos que fazem pessoas do bem acharem que o feminismo não é pra elas. Vou escrever aqui o que respondi. Se você ainda não é feminista, dá uma olhada, talvez sejam dúvidas suas também.

 

– O que é o feminismo? O feminismo não é um machismo de mulheres?

O feminismo é muitas coisas porque ele é um movimento feito por milhões de pessoas, em dezenas de países, há décadas. Ele não tem um dono, um presidente, uma centralização, por isso ele pode ir pra várias direções, inclusive aquelas que me deixam morta de vergonha de pensar que uma mulher que defende tal atrocidade também se diz feminista.

O feminismo como eu vejo, e como muitas pessoas que eu considero esclarecidas e sensatas também defendem, é simplesmente a luta para que as mulheres parem de ser estupradas, assassinadas, espancadas, mutiladas, aterrorizadas, assediadas, xingadas, abusadas.

Algumas pessoas falam muita bobagem e denigrem a imagem do feminismo, mas entenda o seguinte: a maioria das pessoas fala muita bobagem. Por que na hora de falar sobre o feminismo seria diferente? Gente tosca pode ser tosca em qualquer assunto, infelizmente, inclusive no feminismo.

Como reconhecer o feminismo do mal? Em geral é fácil: o feminismo do mal é injusto, prega violência e humilhação pros homens só por serem homens, e não por ser algo relacionado a uma ação específica. É feminismo do mal se prega retaliação por motivos fúteis, como a tal estudante universitária que diz que foi forçada a fazer sexo, porque o namorado ameaçou terminar o namoro. Se tivesse batido nela, se tivesse ameaçado com uma faca, se tivesse falado que iria matar os pais dela… mas dizer que terminaria o namoro, a uma estudante universitária independente, morando numa cidade grande, essa foi a violência e chantagem? Que vergonha dessa dita feminista.

Ainda há muitos casos de assassinatos, estupros e mutilações impunes, mas não é só deles que estamos falando. O feminismo legítimo pede punição pra homens que machucam e aterrorizam mulheres. Machucar no nível de tapa, socos, chutes, esganar, cortar. Aterrorizar no nível de perseguir, ou ameaçar demitir se a mulher não se sujeitar a ser bolinada ou a ter relações sexuais, chegar agarrando, falar que ela deve ser boa de foder, quero enfiar o pau em você. Porque espancamentos e estupros são tão comuns, mesmo a secada também pode ser amedrontadora. Dizem que olhar não tira pedaço, mas no caso das mulheres, você nunca sabe se além de olhar ele não vai te dar um soco e te estuprar. E não importa a aparência do homem, se é peão de obra, se é um homem bonito e bem vestido: quando você está sozinha, se não há outras pessoas em volta, a primeira reação é de pavor. Quando é uma situação de segurança, com mais gente em volta, e você tem certeza de que não será atacada, aí você pode até se sentir lisonjeada com o olhar. Mas se há risco, se é um lugar isolado, não assuste uma mulher. As mulheres têm milhões de motivos para viverem alertas e com medo.

O feminismo pede o fim dessas situações em que um homem se sente totalmente à vontade pra passar uma cantada grosseira, e se é repudiado, ele xinga e ameaça ou até bate mesmo nela. Ou como aquele caso que circulou no Pinterest: a moça estava no ponto de ônibus, um grupo de rapazes estava com um laser e começaram a apontar pros peitos dela. Ela foi até lá tirar satisfação, dizer como era ruim e errado o que eles estavam fazendo, foi recebida com uns risinhos, mas um dos rapazes abriu os braços, pediu desculpas, disse que ela estava certa, e perguntou se podia dar um abraço nela. Ela ficou meio na dúvida, mas acreditou nele, ele se aproximou, abraçou e apertou a bunda dela. E quando ela tentou denunciá-los pra escola, pra polícia, a resposta era “garotos são assim mesmo, isso não foi nada, foi só um apertão, ele não te machucou, não te estuprou, deixa isso pra lá”.

É com a certeza da impunidade, e da proteção do sistema, que os abusadores podem continuar abusando à vontade. Se não matou, se não estuprou com violência, por que a mulher está reclamando? Ah, e estupro significa penetração peniana. Muita gente acha que só agarrar e forçar um beijo, ou passar a mão pela genitália da mulher, à força, mesmo que for adolescente, isso não é estupro.

A certeza da impunidade, que a mulher não poderá reagir, e que não haverá consequências da ação, faz com que um homem possa sentar na mesa ao lado, colocar o pau pra fora e começar a bater punheta. Porque a moça que está na mesa ao lado está sozinha, não há outras pessoas em volta nessa varanda. Aconteceu comigo. Ou estar com o seu pai pescando num barquinho, cada um virado pra um lado, e de repente você olha pra frente e tem um cara sentado à margem do rio, com o pau pra fora, batendo punheta e olhando pra sua cara. Aconteceu com uma amiga minha. Ou ele pode se aproximar de uma moça num ponto de ônibus com o pau pra fora, e começar a bater punheta, como eu li numa das histórias do #chegadefiufiu. E quando a moça foi falar disso com a mãe, a resposta foi “mas o que você estava fazendo? Alguma coisa você fez, deve ter provocado, ele não ia fazer isso de graça”. Ou eles também podem bolinar mulheres em trens e ônibus, ou por o pau pra fora ficar batendo punheta até gozarem e a porra jorrar na calça da mulher. Situações comuns no Brasil, que motivaram os vagões exclusivos pra mulheres.

O machismo está totalmente relacionado com a certeza da impunidade. Os homens falam desaforos ou fazem coisas obscenas ou desrespeitosas para mulheres que estão sozinhas, ou só com outras mulheres, por terem um grau razoável de certeza de que nada vai acontecer com eles. Mas se elas estão acompanhadas por um homem, principalmente se for um homem grande e forte, esses abusadores covardes se comportam.

O feminismo é o único movimento disposto a mudar essa situação. Não é a igreja que vai fazer isso, não é a polícia ou o exército, o governo é feito principalmente por homens e não vai mover uma palha se não for por pressão pública. O único caminho para acabar com tanta injustiça passa por essa situação caótica de milhões de pessoas reivindicando causas diversas, algumas vexatórias e odiosas sob o mesmo rótulo, mas que fazem o assunto ser colocado em discussão, fazem as pessoas refletirem sobre isso e, bem lentamente, vão se transformando em leis mais efetivas, em ações nas escolas, na temática de filmes, livros, peças de teatro, novelas, denúncias constantes e, finalmente, em mudanças culturais.

 

– feminismo é uma palavra ruim.

Talvez seja, principalmente porque num primeiro momento faz pensar que é um machismo de mulheres. Mas não há outra palavra, humanismo não é a mesma coisa. Estamos falando dos graves abusos que uma pessoa sofre só por ser mulher, então a palavra tem que ter explícito a ideia do feminino.

 

– feminismo não é um movimento de uma elite, uma coisa white people? O que o feminismo pode fazer de fato pelas mulheres e meninas pobres, como isso pode chegar até elas?

O feminismo não é movimento de elite, não. Sem nem precisar fazer qualquer pesquisa, porque eu realmente nem sou tão inteirada, mas tenho certeza de que há muitas mulheres e meninas de periferia se ligando e lutando pelas causas feministas.

A internet democratiza tudo. O feminismo não é um debate a portas fechadas dentro de uma universidade, ele está nas ruas, nas redes sociais, nos blogs e por isso é tão importante falarmos sempre, debatermos sempre. Com a disseminação de notícias e reflexões, uma menina pode ter uma família e um ambiente bem machista, talvez até com um padrasto ou tio pedófilo, mas de repente começa a ler notícias e descobre que ela não é a errada na história, que outras pessoas também sofrem como ela, que é possível denunciar e lutar por mudanças.

Durante as ocupações das escolas em São Paulo, algumas delas tinham como matéria (que os próprios alunos se organizaram), o feminismo. Não foi uma elite branca que colocou isso na cabeça da garotada, partiu dos próprios estudantes.

Qualquer pessoa pode se mobilizar e começar uma luta. Você viu, a campanha contra os abusos no metrô de São Paulo partiu de duas moças, uma de 22 e uma de 23 anos. Elas viam os abusos acontecendo, e sabiam que seria possível fazer uma campanha para incentivar as denúncias, diminuir os casos. E venceram.

Temos que sempre falar e falar do feminismo, e divulgar as histórias de mulheres, ou mulheres e homens que conseguiram mudanças, porque assim a gente incentiva mais pessoas a também agirem.

 

– essas mulheres da mídia ficam se aproveitando do movimento. Qual a relação da realidade delas com a das mulheres de periferia?

Acho que a minha amiga estava falando de atrizes de cinema que reclamam do salário. Por ganharem US$ 30 milhões, mesmo tendo um papel mais central, enquanto o colega ganha US$ 60 milhões. Acho que não cheguei a responder especificamente essa, porque emendamos com outras ideias sobre a periferia e ações efetivas, mas posso escrever aqui: eu sou a favor de qualquer luta feminista, feminismo de verdade. Diferença de salário é um motivo real. Porque os valores são grandes a gente pode ficar tentado a achar que é fútil “ela já ganha 30 milhões e ainda reclama??”, mas não importa a grandeza de valores, talvez aja mesmo uma injustiça. Se ela também tem projeção, se o nome dela também traz muita bilheteria, ou talvez seja a maior parte da bilheteria, por que o salário dela é menor?

E se fosse uma mulher dizendo “eu trabalho mais do que o meu colega x. Mais horas, entrego mais, e mesmo assim eu ganho R$ 500 e ele ganha R$ 1.000”. Isso parece injusto?

Podem dizer que ela negociou mal o salário. Dizem que os homens conseguem negociar bem melhor essas situações, são mais agressivos. Talvez se ela tivesse sido mais agressiva na primeira negociação, teria conseguido um salário maior. Mas homens ganharem mais do que mulheres nas mesmas funções é um fato na maioria dos países em diversas esferas, e acho que todas as mulheres têm o direito de reclamar por aquilo que elas consideram errado, desde que não se torne o machismo das mulheres, ou seja atitudes em que não há argumento lógico.

 

– o que eu não gosto do feminismo é porque é tudo tão confuso, tem tanta gente falando tanta coisa, às vezes se contradizendo, feministas pró-aborto, feministas contra o aborto, eu não entendo

As coisas são confusas e sempre serão confusas, por aqueles motivos que já expliquei. Tenha claro pra você quais são os seus valores: a importância de não abusar de ninguém, ainda mais de quem não pode se defender, luta contra comportamentos truculentos, a luta pelo direito ao próprio corpo, a ideia de que a mulher não é a culpada por princípio, que nada justifica um estupro. Tenha certeza sobre seus valores, entenda seus valores, e você vai escolhendo que lutas têm a ver com você e quais não têm.

 

– o feminismo é uma luta por igualdade?

Eu não vejo assim. Não quero igualdade entre homens e mulheres, muito menos superioridade das mulheres sobre os homens. Quero o fim das injustiças.

Eu acho que homens e mulheres são diferentes, sempre serão diferentes, e não tem nenhum problema disso. Temos anatomias diferentes, hormônios diferentes, cérebros diferentes, visões de mundo diferentes, coisas que só um homem têm como vivenciar, coisas que só uma mulher tem como vivenciar. Tudo bem. Não tem nada de errado nisso.

Errado é achar que nossas diferenças, o fato de em geral as mulheres terem menos força física justifica abusar e violentar o outro. Não precisamos que todos sejam iguais, só precisamos que as pessoas entendam que não há nada que justifique abusar de quem não pode se defender. Não há nada que justifique escravidão, tráfico de pessoas, estupros e outras violências contra mulheres e outras minorias.

Queremos igualdade nos campos em que não há motivo para uma mulher ser tratada como inferior. Trabalhos que não dependem de força física não há motivo para uma mulher ganhar menos. Você avalia o rendimento, a eficiência, o resultado do trabalho, e não deveria fazer diferença se é homem ou mulher para decidir a remuneração.

 

Essa não foi um tópico da conversa de ontem, mas leio sempre nas caixas de comentários. Grandes falácias do pensamento machista:

Atacar o feminismo contrapondo serviço militar, licença maternidade, mulher poder se aposentar antes, mulher viver mais:

– não foram as mulheres que inventaram o alistamento obrigatório de homens. Vão brigar com os homens que inventaram isso. Porque algo é ruim pra um grupo, a solução é foder todo mundo em vez de reivindicar que o alistamento pare de ser obrigatório?

– cuidar de um bebê é uma tarefa extremamente desgastante, importante, amorosa. A luta dos homens devia ser pra que os pais possam ficar mais tempo com os filhos. Não foram feministas que decidiram discriminaram os homens. Foi o machismo, que acha que cuidar de filho é obrigação da esposa, que tinha destinado só 5 dias de licença pro pai.

– se aposentar mais cedo. Caramba. Se a previdência brasileira fosse algo espetacular, até dava para entender tanta mágoa de quem reclama. Mas não é. E fora ser algo pequeno, frágil, cada vez mais ameaçado, o fato é que na maioria dos lares a dupla jornada é da mulher: trabalhar fora e também cuidar da casa e dos filhos. A situação tem mudado, mas em geral os serviços domésticos são executados pela mulher, e se você acha que só isso já não justificaria as mulheres poderem se aposentar antes, então vai, além do seu trabalho rotineiro, limpar a casa lavar e passar roupa, fazer compras, cozinhar, lavar a louça, arrumar a casa, cuidar das crianças todos os dias. Faça isso por um mês e me diga qual o valor da dupla jornada.

– “uma das provas de que não existe machismo é que no geral as mulheres vivem mais do que os homens” – juro que li até essa. O que o autor da frase esperava? Que o machismo só pode ser considerado um problema grave se chegar ao ponto da maioria das mulheres morrer assassinada por homens, principalmente as com mais de 60 anos?

E nem vou comentar os “argumentos” machistas que apelam pro “essa é uma baranga mal comida, ela quer pau, por isso fica tentando chamar a atenção, elas ficam reclamando de coisas ridículas mas quando fura o pneu do carro procuram um homem pra não sujar as unhas”.

 

Não cansa de me admirar a monstruosidade, como parecem comentários ou de pessoas totalmente burras, ou de psicopatas. De um lado estamos falando de estupros, assassinatos, mutilações, humilhações, viver sempre com medo. A crítica a essa luta é “elas são sempre barangas, isso é chato, elas reclamam do machismo mas querem ajuda pra trocar o pneu, elas têm licença maternidade e podem se aposentar mais cedo”. O que as feministas realmente tiram dos homens? O direito de falar e fazer qualquer merda, pra qualquer mulher, seja feia ou bonita, jovem ou velha, e nunca ser punido? O direito de espancar a namorada ou a esposa? O direito de agarrar, bolinar, estuprar? Com o feminismo os homens são obrigados a assumir a visão radical de que a mulher também é um ser humano, e que ele não pode agir como quiser?

Não consegui encontrar a palavra pra definir essas pessoas. Ainda não encontrei uma palavra que pudesse descrever a união de tantos motivos fúteis, tanta falta de consideração com a dor do outro. E não é nem questão de ter que imaginar como é o sofrimento de um outro povo num país distante. São violências que podem acontecer com a própria irmã, esposa, mãe, prima, amiga. Há mulheres anti-feministas, mas as críticas mais pesadas em geral vem dos homens. Tão desumanos que não conseguem nem se imaginar na situação do outro, tão burros que não conseguem pensar “e se fosse com a minha irmã, com a minha esposa”.

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Indicado por uma amiga bem querida, feminista, e que agora tem uma filha e disse que é desesperador pensar que daqui a 15 anos o mundo ainda será assim