Diversões antropológicas no aeroporto

Deve ser coisa de quem passa o dia ou às vezes dias sem ver ninguém exceto o Cris. E não sei se teria essa sensação em qualquer lugar… na rodoviária do Tietê, por exemplo, é bem mais difícil. Mas é o aeroporto de Guarulhos numa noite do final de fevereiro, muita gente de chinelo, camiseta, shorts. Apesar das roupas não serem das melhores, deve ser principalmente a expressão das pessoas. Ansiedade-expectativa de quem espera alguém chegar, abraços, felicidade espalhada no ar, uma vez vi até aquelas cenas em que um rapaz de terno aguarda com um ramalhete de lírios. A cara boa de quem chega.

Eu não chego assim. Desembarco com olheiras de quem assistiu tvzinha demais no avião, de quem dormiu torto, de quem tem cabelo oleoso e não achou ainda uma embalagem de shampoo a seco pequena o suficiente pra poder passar pelo raio-x e carregar na bolsa, e também meio descabelada, porque fico sonhando com o spray milagroso, mas a verdade é que nem me repenteio, nem carrego pente, não retoco a maquiagem.

Mas estou sendo rigorosa. Talvez, apesar de tudo isso, eu também desembarque com essa aura de alegria e pilhas recarregadas de quem voltou de férias felizes.

Esperando gente querida vindo de Casablanca. O voo atrasa. Fome. Não sei se eles vão ter jantado no avião, se terão fome ou não, eu sou o chofer, vou fazer o que os chofers fazem: comem num horário que não atrapalhe o trabalho.

Tostex, perto do desembarque internacional. Atendentes simpáticos com toucas engraçadas, como se fossem gnomos de uma fábrica de gomas coloridas. Fotos bonitas dos lanches, execução ruim. Excesso de margarina, uma das fatias do meu pão pingava. Pouco tomate. Nada grande coisa. Orgulhos bobos, como poder balançar um não com a cabeça quando a moça pergunta açúcar ou adoçante pro cappuccino, eu falando com o Cris pelo celular, sorrio e recuso. Capuccino já é tão doce.

Enquanto esperava meu lanche, eu já tinha reparado na criatura. Uma das mais assustadora pra se topar num aeroporto nos dias de hoje, ainda mais no desembarque internacional. Um pernilongo pousado na mesa ao lado. Penso várias vezes em matá-lo, mas:

1 – sou vesga, erro 70% dos tapas, ou mais

2 – não parece apropriado alarmar as pessoas ao meu redor

Então em vez de exterminar mais uma das ameaças aéreas ambulantes, fico só olhando, tentando não achar que talvez estejam picando minhas pernas, minhas costas, e é claro que em algum momento o pernilongo some de vista. Mas parece que não levei picadas. Ainda.

Porque daqui a algumas horas estarei numa cidade do interior de São Paulo, dessas que estão com epidemia de dengue. Meu pai pegou dengue. Eu tinha pensado em passar pelo ridículo de ir com minhas roupas de trilha, calça comprida, camisa de manga longa, repelente. Sou um atrator de pernilongos, se estou perto, outras pessoas não são picadas. Mas veja bem, é fácil esquecer essas coisas quando você está jogando Minecraft e interrompe pra fazer sua mala, e em vez de pegar as improváveis roupas de trilha, pega só uma muda de roupa, uma escova de dente, o notebook e acha que está pronta pra sair.

[meus queridos chegam. A partir daqui escrevo dois dias depois]

Meus queridos aparecem na minha frente. Minha irmã com aquela cara de quem procura alguém, até que me vê. Eu só fecho a tampa do notebook, meu sobrinho vem correndo, rindo, gritando um “Tataaaaaá”. Ajoelho pra abraçá-lo e tento erguê-lo. Nada. Não devo ter segurado direito, pego nele pelas axilas com firmeza, tento de novo. Nada. Só me resta levantar, pego ele pela mão e vamos ao encontro da minha irmã e do meu cunhado. Beijos e abraços e depois os comentários sobre meu fracasso:

Minha irmã: “Você tentou pegar ele no colo e não conseguiu, pensa que não vi? éh, minha filha, 28kg, acha que é fácil?”

Meu cunhado: “tinha um homem que viu vocês, ele ficou rindo”.

Vinte e oito quilos. Como é que ele cresce tanto? É com muita dificuldade que troco o galão de água, de 20 litros, e sempre com ajuda de uma cadeira de apoio, pra primeiro colocar o galão na cadeira, e depois subir galão e suporte pra pia. Minha mochila de câmeras-notebook pesa uns 12kg, e já é uma tortura. Vinte e oito estava mesmo além do meu alcance.

Caminhamos um pouco, porque eu sempre esqueço que pra pegar alguém no terminal dois eu tenho que estacionar o carro pras bandas da esquerda, e não da direita, e logo estamos no carro. Acomodamos a bagagem com facilidade e seguimos rumo à casa dos meus pais. Seria uma das viagens mais tensas que já fiz: chuva o caminho inteiro, caminhões espirrando água pelas rodas, daquele jeito que atrapalha muito a visão, água acumulada na pista e às vezes o leve pânico de sentir o carro não totalmente colado no chão – isso porque eu caí de 120 pra 100km/h, às vezes até 90. Sentia que estava pressionando a mandíbula, contraindo o abdomem, segurando o volante forte demais e sabia que uma parte da tensão era a responsabilidade por levar uma carga tão preciosa.

Enfim, chegamos. É um trajeto curto, duas horas e pouco de viagem, sem trânsito, sem problemas, só a chuva. Pra voltar pra São Paulo no dia seguinte, logo depois do almoço, é mais chuva, meia hora parada na Bandeirantes porque houve acidentes com cavalos atropelados, e depois errar o caminho do Waze por não confiar totalmente no que ele está me dizendo, tentar ir pra outro caminho, ir parar pros lados de Osasco, pegar a marginal sob chuva intensa e ainda ter que ficar lendo avisos “alagamento a 500m”, várias vezes. Não é um atraso grande, chego 15 minutos depois do que podia ter chegado, ainda a tempo de participar do almoço tardio do Cris e do Daniel.