Divagações sobre ser chata e difícil

– em geral não tenho problemas pra comer. Não consigo comer comida muito salgada, oleosa, ou muita fritura, mas acho que aí não é uma questão de frescura, e sim de saúde.  Tenho predisposição genética a pressão alta. Ainda não comecei a tomar remédio (como meus pais e irmãos tomam, há anos), mas um dia vou ter que tomar. A maioria das pessoas sabe o que é pressão alta, então se peço pouco sal, ou se falo que não posso comer porque está muito salgado, e digo que tenho pressão alta (é mais fácil do que explicar que tenho predisposição a), todo mundo entende, ninguém acha que é frescura.

– não tenho problema pra dormir. Durmo em qualquer lugar, em qualquer canto, a qualquer hora.

– consigo ouvir toneladas de bobagem e fazer cara de paisagem. Não preciso responder tudo de que eu discordo, sou capaz de ouvir muitas atrocidades e ficar quieta, se decidir que não vale a pena falar.

– além de ser capaz de ouvir atrocidades, sou capaz de ouvir conversas chatas e não dar mostras do quanto aquilo é chato. Ouço e até interajo.

– raramente falo demais. O mais comum é falar de algo de forma breve, e só vou falar bastante sobre o assunto se a pessoa estiver realmente interessada. Mesmo quando no grupo as pessoas focam em mim, perguntam de alguma viagem, eu falo de forma breve e logo emendo com um “mas e você, pra onde vocês foram nessas férias?”

– tenho um timbre de voz baixo.

– não sei contar causos ou piadas. É uma falta de charme social, mas ao mesmo tempo fará com que eu nunca seja a sem noção do grupo que vai contar causos ou piadas repetidas, todas as vezes.

– em geral não fico enchendo o saco das pessoas pra fazerem alguma coisa de tal forma. Ou aceito que não sou eu que estou fazendo, e que as pessoas fazem as coisas de formas diferentes, ou então assumo o comando e eu mesma faço. Mas é muito raro ficar dando ordens sobre como as coisas devem ser feitas.

– não sou totalitária. Qualquer coisa que eu faça com outras pessoas dou espaço pros outros darem opinião ou manifestarem seus gostos.

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Acho que o principal motivo do Cris dizer que eu sou difícil, muito difícil, como sou difícil é essa minha mania idiota de prestar atenção no que as pessoas falam. Avaliar palavras e motivos. Dizer que a tal “brincadeira” tem uma motivação, uma mágoa, um espinho, uma indireta e que eu quero falar sobre isso. Ou dizer que a tal brincadeira me machuca, e eu já pedi várias vezes pra não falar assim, por que você continua?

Por exemplo, o Cris pode brincar o quanto quiser sobre eu fazer coisas burras, não me importo. Porque não tenho nenhuma dúvida sobre minha inteligência em temas que me importam, e em geral eu também acho engraçado os comentários sobre as áreas em que eu faço coisas idiotas.

Mas eu já expliquei várias vezes que meu calcanhar de Aquiles é minha aparência, e quando ele faz brincadeiras sobre eu ser feia, daí o céu cai na cabeça dele.

Ou quando ele diz “quem aguenta essa Claudia”, eu nunca aceito que foi só uma brincadeirinha, uma frase sem consequências, e eu que sou chata demais em ligar pra isso. Ainda mais porque já tivemos longas conversas sobre o quanto eu discordo da ideia de que ninguém mais se interessaria por mim além dele, como é algo ruim falar isso de alguém, que eu me considero uma pessoa cheia de qualidades e atributos e não vou permitir que alguém mine essa confiança de mim, e que os casais que dão certo são os que cultivam elogios mútuos, grandes e generosos.

Qualquer pessoa tem inúmeros aspectos pra se criticar. É uma escolha se você vai focar nos pontos que você criticaria, ou nos pontos que você aprova. E infelizmente muitos casais fazem a escolha errada, e o casamento acaba, ou são pais que decidem focar nos pontos pra se criticar do filho e criam uma pessoa cheia de tristeza e insegurança.

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– Provavelmente meus colegas do primeiro grau me consideram bem chata e difícil porque eu decidi sair do grupo, porque fiquei mortalmente ofendida que um dos membros falasse que todo mundo que foi torturado pela ditadura brasileira mereceu — e as pessoas aceitavam e riam.

Se eu topasse com frequência com situações em que as pessoas tratam com leviandade a violência contra o outro, se tivesse que lidar com gente machista, xenofóbica, homofóbica, racista, com certeza eu teria fama de gente bem chata — supondo que houvesse espaço pra eu me manifestar. Entendo que há situações, quando você tem um comércio, por exemplo, é a escolha entre fazer cara de paisagem ou perder o cliente.

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– Lembrei de uma outra situação em que sou chamada de MUITO CHATA assim, com maiúsculas, pela minha mãe. Quando ela tem que marcar médico e enrola pra marcar. E eu ligo pra ela todos os dias, às vezes três vezes por dia, até que ela marque. Sou a chata por ajudá-la a cuidar com rapidez de algo de saúde, que se for protelado corre o risco de se tornar algo grave. Mas esse é um caso extremo, em geral não cobro as pessoas.