Dispersão e procrastinação em misantropos

Dispersão, pré-ocupação, angústia, frustração e outras inutilidades diversas, além da grande mazela da atualidade, a procrastinação. Quem não está sujeito a?

Sempre falo que todas as pessoas são únicas, especiais, incríveis, e que todo mundo devia se sentir incrível. Mas dentro da humanidade, há um grupo por quem tenho um interesse especial, por identificação. Os desenquadrados. Os que não conseguem se identificar com uma tribo, que estão o tempo todo percebendo e analisando as pessoas, o ambiente, mesmo que não queiram. Gente que já desejou muito a troca de personalidade, a lobotomia e/ou o já considerou seriamente o suicídio. Em geral coincide com os misantropos.

O padrão social é ser extrovertido. Ninguém acha que tem algo de errado com as pessoas que falam bastante, que gostam de festas, barulho, aglomerações. Mas se você é misantropo, quem já não te ofereceu ajuda pra ser mais falante? Ou sugeriu que você devia sair mais?

É possível perder tempo e energia com muitos pensamentos errados. Tenho poucos amigos. Não sei contar piadas nem ser o centro das atenções. Devia ser magra. Preciso ter um emprego mais impressionante. Preciso fazer passeios mais impressionantes, esses que eu posso divulgar e receber muitos likes. Devia me aproximar das pessoas mais populares. Preciso acompanhar as tendências de cabelo, maquiagem, moda.

Pra misantropos o risco é principalmente a dispersão de tempo e energia tentando ser alguém diferente. Mais falante. Mais social. Mais baladeiro. É sério, eu já tentei e provavelmente você já tentou. Se você não sabe como é sofrido, imagine que deve ser algo como ser hetero e ter que fingir ser homo. Desprovido de julgamentos moralistas, já pensou como é chato ser homem e ter que beijar um homem sem sentir tesão por um homem? Nas festas a gente é assim: resignados em tentar fazer de conta que não estamos morrendo de vontade de ir embora, mas tendo que nos comportar, sorrir, fazer cara de paisagem serena.

Tentamos não ficar pensando em tantas coisas boas que poderíamos estar fazendo em casa, tentamos participar um pouquinho das conversas do salão e, pra quem é solteira ou solteiro, a gente se esforça pra não se chatear com os comentários, piadas ou cobranças sobre o status celibatário.

E sabe qual o pior de tudo? A gente adora conversar sobre assuntos que nos interessam. O problema é que ouvir repetições de notícias de portal, reclamações do trabalho, da família, de doenças, da cidade, da dieta, tentar falar mais alto e cortar os outros só pra mostrar que você tem o que falar – isso não é conversa. Então somos quietos, respeitosamente quietos, taxados de esquisitos por sermos quietos. Às vezes temos pessoas próximas que nos falam abertamente que devíamos tentar ser diferentes, às vezes não temos esses conhecidos, mas analisando o ambiente social, obviamente tem algo errado no nosso comportamento e é assim que você acaba digitando no Google “tratamento pra misantropia”.

Não estou mais na primeira página do Google (acho que foi por causa da viagem pra Áustria, em que fiquei três semanas sem postar), mas pelo pouco que não aparece criptografado, várias pessoas conheceram o blog digitando algo como misantropia tratamento. Espero que eles tenham lido os posts que os ajudaram a ver que não existe tratamento pra o que não é doença.

É o velho ponto de sempre: saiba quem você é, invista em auto-conhecimento, em se analisar, em gostar de você (se você ainda não viu estes posts, passeie pela categoria “Como ser mais feliz“). Fortaleça quem você é por dentro e o que as pessoas e o mundo tentam te impor não será mais um fardo. Todo mundo devia fazer isso, e pra misantropos tem a parte de reconhecer, de coração, totalmente, de verdade, que não tem nada de errado em ser misantropo. Que provavelmente nem é uma questão de respeito à diversidade de personalidades, talvez seja uma diferença da anatomia do cérebro.

O outro ponto em que você pode estar perdendo tempo e energia é na dispersão da procrastinação. Você não fica pensando que tem algo errado com você. Mas também não consegue realizar coisas. Eu sei que você pensa muito, talvez até tenha alguns rascunhos de projetos pessoais, mas não leva isso pra frente.

Você já deve ter lido muitos textos sobre procrastinação e como combater a procrastinação. O Tim Urban escreveu vários textos caprichados: http://waitbutwhy.com/2013/10/why-procrastinators-procrastinate.html. O que posso falar de diferente?

Minhas sugestões pra combater a procrastinação, além do que a maioria fala:

– Julgue-se. Pense em você como se estivesse olhando de fora, mas com conhecimento sobre seus podres, sua procrastinação, as coisas fabulosas que você poderia estar fazendo se não estivesse o tempo todo adiando.

– Você já ouviu falar que misturar esferas é bom? Há boas práticas em qualquer lugar. O ambiente de trabalho fica melhor se as pessoas topam inserir elementos de mais gentileza, tolerância, informalidade – quase como se fosse família ou amigos. O ambiente familiar melhora se você aplica práticas do trabalho, como prazos, disciplina, clareza no que foi combinado, feedback. E sua vida pessoal também pode se aproveitar do que o ambiente profissional destilou como melhores formas de fazer as coisas. Pense em você como um projeto.

– Analise-se, julgue-se, identifique os pontos falhos, o que você queria estar fazendo e não está, e mude isso. Como se fosse uma tarefa designada. Escreva. Escrever traz mais concretude pras coisas. Se possível faça uma promessa pública ou pra alguém querido. Escreva um projeto sobre o que você quer fazer, com etapas, prazos, e as penalidades se não cumprir.

Tudo que não tem um chefe, cobrança ou consequências é fácil ficar de lado, é fácil não fazer. Imagino que o que você quer fazer, mas está procrastinando, é algo bem legal (ou não seria um desejo), mas que exige sair da inércia, e todo começo é mais difícil. Enquanto você não chega na parte em que aquele trabalho engrena, force-se, crie alguma forma artificial de te obrigar a começar.

Outra técnica que ajuda é arrumar um parceiro pro projeto, se possível alguém que também esteja animado, e leve a sério essa questão de compromisso com um planejamento. As coisas rendem bem mais assim, porque um incentiva o outro. Claro que achar um bom parceiro ou sócio é difícil, mas mantenha no radar, de repente a oportunidade aparece. Se não for algo sigiloso, saia falando por aí o que você quer, que você está procurando alguém com tais características. Às vezes o universo conspira a favor.

O começo é sempre o mais difícil. Mas tenho certeza de que você consegue traçar um plano bem eficiente, tanto de cronograma, quanto de cobranças e penalidades. O bom de conversar com misantropos é que você sempre pode ter como premissa que está conversando com alguém inteligente.

Você consegue sair da procrastinação. É só você realmente querer.