Diálogos diversos 2

Ela via duendes na cidade?

Mas o que você sabe sobre duendes???

Ah, eu sei o que todo mundo sabe, que eles são ligados à floresta, à mata. Na cidade tem outra ecologia… leprechauns, sacis… não, saci também é do mato. Quem é aquele que esconde coisas? Leprechauns? Acho que na cidade tem mais anões. Principalmente anões de jardim. Em vez do Coloradotrails ou Fairy Tales, você poderia fazer um guia de fairytrails pra cidade.

— eu e o Cristian. Cristian, que não acredita em nada, filosofando sobre as criaturas urbanas sobrenaturais.

— x — x

Você tem certeza de que não vai por meia?

Não quero

Você nunca morreu com os pés congelados?

Parece que não… já que hoje estou aqui

Não morreu. E não ficou com os pés peludos como um Hobbit. Será que os Hobbits ficaram com os pés peludos porque andavam descalços, sem meias? Não conte pra ninguém que eu falei isso, é como se eu falasse que a girava ficou com o pescoço comprido porque precisava comer as folhinhas mais altas da árvore.

… Mas por que ela ficou com pescoço comprido?

Por variação genética, algumas girafas nasciam com os pescoços mais longos. As que nasciam com os pescoços mais longos tinham mais vantagens pra se alimentar, e era mais provável conseguirem ser fortes, saudáveis, e passarem seus genes adiante. Depois de um tempo, todas as girafas que nasciam tinham pescoços longos por causa dessa propagação genética dos mais aptos. A evolução é a vitória do mais apto. Eu brinquei sobre os pés dos Hobbits, mas não é que o frio deixa os pés peludos. Os indivíduos que tinham mais pelos nos pés estavam melhor preparados para sobreviver aos rigores do inverno, e assim foram passando seus genes pra frente.

Tá, tá… quem se importa…

Um dia isso ainda vai cair numa prova de ciências e você vai lembrar dessa conversa. Mas não fale dos Hobbits, melhor falar das girafas.

Não vou falar das girafas, vou falar das Tatás.

O que as Tatás têm a ver com evolução???

As mais baixinhas sobreviveram.

Como assim????

Porque os passarinhos viam menos, assim elas podiam fotografar mais.

Ri muito. Tenho cada vez mais orgulho dele. Não me importa que ele não me respeite muito, e que o Cris chegou e falou “não vai sem meia”. Foi pegar as meias e ele vestiu na hora, sem reclamar. Ele é tão brilhante.

— x —

Você realmente acreditava que não precisava fazer mochilão porque um dia ia viajar pela Europa com namorado, carro alugado, hotéis reservados?

Sim. Não pensava com esses detalhes, só pensava que não precisava fazer mochilão.

EU fiz mochilão.

— olhei pra ele e fiz aquele gesto francês que é meio um encolher de ombros, um pouco de bico com os lábios, e um pequeno gesto de mão, com a palma voltada pra cima, que é uma mistura de “lamento”, “não é culpa minha”, “não posso fazer nada”.

Eu e o Cris, que também não acredita em força de mentalizações, apesar dele ser a prova viva de que minhas mentalizações funcionam.

— x —

Mas vocês sabem: o problema das mentalizações é que você precisa pensar com a maior riqueza de detalhes possíveis. É que nem quando você está jogando Ludo (Ludo de dois dados, é uma invenção nossa, você joga com dois dados e pode escolher o número mais conveniente que sair), e fica mentalizando “seis-seis-seis-seis-seis-seis” ( quando você tira seis, além de andar um montão ainda tem o direito de jogar de novo. Dá pra rodar quase o tabuleiro com um pouco de sorte. Em geral pra ser comido quando você está perto de entrar na sua casa, sob muitos gemidos e gritos – comido no sentido de um jogo infantil, não é o que você está pensando), e daí você tira seis. Só que em dois dados: dois três, ou um quatro e um dois. O certo era ter pensado “seis-em-um-dado- seis-em-um-dado- seis-em-um-dado”.

— eu num jantar na casa dos pais do Cris, explicando os princípios da mentalização. Sem as explicações entre parênteses, eles conhecem o Ludo que a gente joga em Campos do Jordão. E eles não acreditam de verdade em mentalizações, era apenas small talk em jantar familiar.