Desafios misantropos: como tornar uma interação social um momento prazeroso

Quando converso com alguém os dois aspectos mais chamativos pra mim são (1) auto-conhecimento somado com humildade e a sensação de ausência de máscaras e (2) bondade-generosidade-carinho. Que prazer encontrar pessoas que lhe falam sem afetações, com sinceridade, simplicidade, lhe contam algo importante sobre a vida delas, em geral algo que tem um quê de vexatório, íntimo ou sigiloso, mas elas lhe falam… talvez porque sintam que podem confiar em você, não acho que elas contem pra todo mundo, é só a sensação de que você está ouvindo e e é confiável.

E não é assim com todo mundo? Não, meu senhor, não é. A situação que eu descrevi tem o sabor doce de verdade e intimidade. Na maioria das situações o que ouço é conversa de salão, small talk que se fala com qualquer um.

Quando converso com amigos ou recém-conhecidos, sempre tento falar de algo importante, íntimo, não banal. E daí o outro tem a oportunidade de entrar no campo das conversas que valem a pena, ou não. Os meus amigos também me contam coisas importantes, quem eu achava que era meu amigo não muda a sintonia e continua com a small talk e esses saem da lista vip, os recém-conhecidos alguns sacam na hora que estão com alguém pra se conversar de verdade, outros mantêm a casca ou talvez sejam só aquela casca mesmo.

Falar de viagens é sempre um assunto fácil e seguro, mas depois da minha crise de choro na saída do Death Valley, em janeiro deste ano, sempre conto essa história e vejo o que acontece. No restaurante em Los Angeles tornou nossa conversa mais legal ainda, a mexicana me olhou com carinho e falou “eu sei como é”, o asiático fez questão de nos pagar bebidas. A conversa já estava boa, mas gosto de pensar que tem a ver com isso.

Teve um jantar com um amigo do Cris e a namorada do amigo, primeira vez que a víamos. Joguei a isca também, mas não rolou, eles não mudaram de sintonia de conversa, e posso falar que depois do jantar, demos notas baixas pra essa namorada, e comentei que apesar desse amigo do Cris ser alguém muito inteligente no sentido clássico de inteligência, pras questões emocionais ele é uma anta (há outros motivos pra eu ter falado isso, não vêm ao caso agora).

Na passarinhada no Rio Grande do Norte tive dias maravilhosos, graças à companhia. Os três ornitólogos que conheci são bem legais, mas um deles é dos poucos pra quem tiro o chapéu, que me fez pensar “queria ser assim”.

Bondade. Humildade. Mansidão. Generosidade. Tudo que conversamos sempre tinha esse tom de respeito ao outro, de tolerância, educação, mundo mais gentil. Por uma questão de discrição não vou reproduzir os diálogos, mas ele contou histórias sobre si que outros não contariam, mas que ele podia falar, porque não precisava fazer pose de nada, ele simplesmente era: uma pessoa boa, honesta, gentil, inteligente, e que não precisava provar nada pra ninguém, nem impressionar ninguém.

A gente fez dois passeios de sair às 4h (4h, não 16h. Sair da cama às 3h30). Num dos dias passamos mais de 6h no carro, rodamos 500km. Não senti esse tempo pesar porque conversamos o tempo todo, ou então ficava ouvindo a conversa dele com o outro ornitólogo.

Acho que esse clima bom foi porque logo no começo do passeio expliquei que não estava atrás de lifers, que não tinha problema se víssemos pouca coisa, que meu objetivo era passear, ver a natureza, e que eu não entendia por que as pessoas passarinhavam como se fosse um trabalho, a ponto de voltarem bravas ou frustradas quando não conseguiam os lifers que elas queriam.

Falamos de tanta coisa, até mesmo de política. Senti que ele era contra o impeachment, como tantos universitários, mas não discutiu comigo ou tentou provar que estou errada. Quando falei que apoiei o impeachment porque a meu ver Dilma não tinha mais como governar, tinha perdido toda a base, ele falou “não tinha pensado por esse lado”. Imagine o tipo de gente capaz de, nos dias de hoje, falar isso numa conversa sobre política.

Que passeio bom. Que oportunidade pra renovar a fé na humanidade.

Confesso que em vários encontros familiares eu me resguardo muito mais, e é melhor ter imagem de alguém que não tem o que falar do que entrar em terreno perigoso. Escolho não falar o que penso sobre games, computadores, aborto, sexo, gente que se conheceu pela internet, religião… Ouço, faço uns comentários esporádicos, mas não me enrolo.

Mas pra situações em que não há risco pra sua imagem, a recomendação é essa: faça o encontro valer a pena, tente direcionar o tema pra assuntos interessantes, de preferência que tenham um quê de intimidade e verdade.