Derek Morgan

não bastou ser uma tristeza da porra, ainda teve discussões com o Cris, e nem era ciúme. Ele sempre diz que não sabe o motivo, que pode ser por nada. Eu ainda quero acreditar que tem razão, como por exemplo, ter grávida ou bebês por perto e ele vai enlouquecendo e depois precisa me tratar mal.

Fomos no aniversário do meu irmão e tinha um casal com um bebê de um mês e pouco. À noite, depois de jantar ótimo, eu comentei como ele tinha sido gafento com o meu pai, que estava falando que gostava muito do Demolidor porque era um seriado diferente dos outros, era mais profundo, e o Cris me fala “Nossa, mas então a segunda temporada mudou muito, porque a primeira era bem história em quadrinhos” — eu comecei a falar por cima do Cris e mudei de assunto, mas à noite disse que ele não devia ter falado aquilo. O baguá não só quis reforçar o direito dele de expressar sua opinião — e eu tentando explicar que foi rude, que ele vê meu pai uma ou duas vezes por ano, que meu pai tem quase 70 anos e ele não pode falar com ele do jeito que fala com qualquer colega — como também quis espezinhar minha tristeza pelo fim do Derek Morgan.

“Você não devia estar triste por isso. Derek Morgan é só um personagem de um seriado, ele não é uma pessoa, existem dezenas de outros seriados e logo você vai encontrar um que você goste”.

É, foi cuzão assim.

Bicudou feio. Mas não deixei por menos. Não só discuti com ferocidade, como depois da volta de Minas, contei pro Daniel o que ele tinha me falado sobre o fim do personagem que eu gostava. O Daniel olhou bem firme pra ele, disse que ele estava errado, e depois me cochichou planos de vingança do que vamos fazer com ele no Ark, tanto pelo o que ele falou pra mim, quanto pelo Cris matar vários dos nossos dinossauros por ser atrapalhado, e não demonstrar luto suficiente quando os bichos morrem. Achei legal esse comentário, significava que o Daniel tinha entendido na hora qual era o problema: o Cris menosprezar nossa tristeza, ou achar que tem o direito de decidir o que pode nos deixar tristes ou não.

O Cris já se desculpou várias vezes, e não estou mais brava com ele. Mas não acho que tenha consertado. Ando traumatizada com bebês ou grávidas. Num restaurante em Tiradentes, um bebezinho veio brincar comigo. Estava engatinhando pelo chão, veio até nossa mesa e mexeu na minha perna. Olhei pra ele, brinquei de esconder o rosto, e quando parava de olhar pra ele, ele tocava de novo na minha perna, sempre sorridente. Fofura total. Mas falei pro Cris “não vai me tratar mal depois só porque encontramos esse bebê”. E na questão de menosprezar sentimentos, é uma discussão antiga, lembro das tantas discussões no início do relacionamento, e uma delas era a reclamação do quanto eu me magoava ou me entristecia com as coisas, que eu não devia sentir tanto. E vocês imaginam qual era a minha resposta a alguém que tentava me dizer o que eu podia sentir.

Não tem mais Derek. Não tem mais Grissom. Só os momentos de mané do Cris pra ele me dizer que existem dezenas ou centenas de seriados e que eu posso facilmente encontrar um personagem de quem eu goste.