Demolidor do Netflix – este sim, um dos seriados que dá gosto de ver

Esqueça o filme com o Ben Affleck (que eu não assisti, mas só de ver as imagens de divulgação dava pra saber que não prestava). O Demolidor produzido pela Marvel em parceria com a Netflix tem personagens cativantes, escolhas ótimas de iluminação, maquiagem e figurino, consegue mostrar cenas de violência, sangue, cortes, espancamentos sem que você fique com uma sensação de nojo ou exagero.

Eu já tinha visto no Netflix há algumas semanas. Mas só decidi assistir depois de topar com uma imagem de divulgação no Shopping Eldorado: um Matt Murdock barbudo, cansado, com machucados no rosto, terno meio amassado, arrumando os óculos redondinhos de cego mas ao mesmo tempo com uma aura de poder, determinação, violência.

Cheguei em casa e fui ver. Assim como faço com livros não comecei pelo primeiro episódio. Comecei pelo terceiro, adorei, e em dois dias assisti aos 13. E fiz algo que raramente faço: rankeei no Netflix, merecedíssimas 5 estrelas.

Por que vale a pena:

– as pessoas não são de plástico! Muitos seriados e filmes ultimamente têm um tratamento pasteurizado da maquiagem, do cabelo, do figurino, da iluminação. Você vê uma imagem do filme ou do seriado, e desanima. Porque em geral esse tratamento baunilha-coxinha se reflete no roteiro, e por que vou perder meu tempo vendo um negócio que não há sangue ou suor, tanto no visual quanto na estrutura da historia?

– diálogos ótimos. Vários momentos de conversas afiadas e boas tiradas. Piadas internas com o mundo dos quadrinhos e de Hollywood.

– os personagens principais são cativantes.

– o pratagonista, Charlie Cox é bonitão, atlético, e consegue ter aqueles sorrisos de gente louca ou santa.

– a iluminação é maravilhosa, cheia de contrastes de claro-escuro. Eles filmam também no contraluz, em ambientes escuros. Talvez tenha algo a ver com geração nova de câmeras que conseguem lidar bem com isso? Bloodlines, outra série do Netflix (não é de vampiro), vi uns pedaços, e também havia cenas no escuro e no contraluz.

– não é anti-sexo, ao mesmo tempo não abusa de cenas de sexo como chamariz. Na verdade, até agora não teve nenhuma cena de sexo (o Rei e Vanessa acordam juntos na cama, mas não mostra eles se agarrando – o que seria meio weird), mas fica explícito que Matt tem uma vida sexual bem ativa, e nos diálogos entre Ben Urich e a esposa eles também falam sobre sexo. Mais um ponto na campanha contra personagens de plástico.

– Não há gente que voa, alienígenas, mutantes… é mais pra uma historia policial. Ao mesmo tempo há uma sutileza que traz os personagens pra fora de uma sensação de pura realidade-cotidiano, algo especial que acentua o brilho dos cabelos da Karen Page, o azul dos seus olhos – mas sem deixá-la com aquela sensação de personagem de plástico, mostra que ela tem uma pequena verruga, os pelos do rosto. E em muitos momentos ela está com o repórter Ben Urich, o ator Vondie Curtis-Hall, que aparece com a pele tão negra e brilhante que cria um contraste visual hipnótico entre os dois. Como se fosse um filtro que deixa as imagens mais gloriosas. É muito mais sutil, mas lembra algo de O Pacto dos Lobos.

– Faz anos que não acompanho mais as HQs. Mas na minha época de Demolidor, Matt Murdock era um homem atormentado e católico. Ser católico é algo bem fora de moda hoje em dia, ainda mais pra um heroi de quadrinhos. Caras, não é que eles conseguiram transpor esse aspecto pro seriado? Matt Murdock aparece na Igreja, tem longos diálogos com o padre, e tudo encaixa, nada parece absurdo.

– Havia a questão da violência na Cozinha do Inferno e em NY no geral no início da década de 1990. Hoje a imagem geral é de uma NY bem mais segura, como eles lidariam com isso? Não acompanho as notícias sobre NY, mas talvez o filtro de luz meio Pacto dos Lobos tira o peso dessa parte, nos transpõem pra um universo mais de HQ em que não faz diferença se a historia descola um tanto da realidade. Ainda que a gentrificação de NY seja fato.

– A iluminação é cheia de claro-escuro, mas os personagens não são preto no branco. O Rei não é o mal absoluto, Murdock comete erros, outros personagens importantes também saem da linha.

– Há uma menção à grega maravilhosa que Matt namorou na faculdade, temos esperanças de que Elektra apareça. E eu adoraria que fosse uma Elektra de cabelo preto, liso, comprido, com franjinha, não muito musculosa, e mais com jeito de garota do que de mulher.

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– O seriado é sombrio e dark, mas sem ser daquele jeito sangria desatada que você sabe que a maioria dos personagens vai morrer e passa a nem se importar. Nestes primeiros 13 espiódios, personagens importantes morrem e há perspectivas de outros momentos tensos, como os fãs da HQ sabem.

Estou ansiosa pela segunda temporada. Parece que todo mundo tem falado bem e espero que o sucesso da série crie uma tendência de seriados mais intensos e sombrios. Quem sabe Luther volta pauleira como foi na primeira temporada?