Das coisas que eu queria falar e não posso – não papeie comigo

Juro que fiquei intermináveis segundos com as mãos pairando sobre o teclado, pensando em como te falar isso. Depois vim pro Word e escrevi um parágrafo simples pedindo pra você sempre me falar de algo importante. Mas não mandei. Decidi ir fazer o jantar, que hoje é uma sopa de carne com curry, e incluía desossar um pedaço de peito. Fiquei lá só cortando a carne em cubos pequenos, separando-a do osso, e deixei passar a vontade de te mandar o pequeno parágrafo.

Como você sabe, não mandei o parágrafo. Mas aí veio essa ideia demoníaca, a de que posso postar no blog coisas que eu queria falar pras pessoas mas depois penso que é melhor não. O blog não é anônimo, e acho que vocês não acompanham, mas sempre há o risco, então parecia divertido e equilibrado o suficiente. Não é por me sentir incapaz de falar, é só por reconhecer que tem vezes que minha franqueza não me ajuda em nada e era melhor ter ficado quieta.

Eu não sei papear. Acho estranho papear. Evito festas diversas porque me sinto perdendo tempo papeando com as pessoas, ou melhor, sinto que é um desperdício do meu tempo, e do outro ser humano, estar ali simplesmente papeando.

Eu sei papear com desconhecidos. Pra fazer um primeiro contato. Pra passar o tempo num táxi. Pra fazer um social com familiares ou conhecidos. Mas ir de livre e espontânea vontade pra um evento, que eu não teria obrigação de ir, pra só papear, isso não. Ou gastar um tempo online papeando com pessoas – ainda mais com as pessoas por quem tenho consideração – isso eu não consigo.

As pessoas por quem tenho consideração eu gosto de conversar. De falar de coisas importantes. Ou de poder xingar e falar mal de coisas e pessoas sabendo que elas entendem perfeitamente. Quero compartilhar algo íntimo, que eu só poderia contar a elas, ou que conto a elas só porque elas fazem parte do grupo de pessoas especiais.

As conversas que pode-se falar pra qualquer um na mesa de um bar qualquer, entre pessoas quaisquer… essas são as situações em que tenho vontade de morrer. Ou de me matar. Ou de matar algumas pessoas. Essas situações afloram ao máximo minha misantropia.

Quando alguém por quem tenho consideração me pergunta como estou, me esforço pra contar algo importante. Algo que tenha ocupado meus pensamentos. Alguma reflexão sobre o mundo, sobre as pessoas, ou algo que está me incomodando. Porque esse é um momento pra nos conectarmos, certo? Só dizer “está tudo bem!” é pra querer matar, morrer, gritar…

Eu acho que essa garrafinha não chega até você.

Mas se você (não a pessoa pra quem escrevi esse post) se interessou pelo conceito, a ideia é simples: a de que com pessoas especiais deveríamos conversar sobre assuntos especiais, as coisas que só poderiam ser com elas e mais um punhado de outros queridos, destacáveis, honrados. Faça aqueles minutos valerem a pena. Pra falar de coisas inócuas, o melhor é não falar nada.

 

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