Dança das cadeiras – o intervalo, de Michael Ondaatje

O próprio Ondaatje lendo o poema, lado a lado com outras vozes, em várias línguas – pena que não aparece português

texto original pode ser lido aqui:

http://www.leonardcohenforum.com/viewtopic.php?f=16&t=13197

Esta tradução mambembe feita por mim mesma, mas gosto tanto desse homem que não resisti.  Um tradutor muito melhor do que eu (aquele do encosto) me disse que tentou traduzir o poema e desistiu. “Por quê?”, “Porque você tem que ser poeta para traduzir um poema”.  Há pessoas com escrúpulos. Não eu.

Dança das cadeiras – o intervalo
de Michael Ondaatje

“Nada que eu li me preparou para um corpo tão injusto”
John Newlove

“Até apodrecer, que não sejamos ceifados”
Geofrey Chaucer

* Aqueles que são alérgicos ao mar.

* Os que resistiram à depravação.

* Homens que se barbeiam em etapas, fazendo pausas para tirar fotos.

* Astros americanos de rock que usam blusões do time de hóquei Toronto Maple Leafs.

* Aqueles que (durante uma visita a um país estrangeiro) perderam a pontinha do cotonete dentro da orelha e foram incapazes de explicar o problema.

* Cavalheiros que encostaram um microfone no estômago de uma mulher pelada após uma refeição e, após distorcerem o som tornando-o bem lento, venderam a fita como canto de baleias.

* Todos atores e poetas que cospem na primeira fileira durante a apresentação.

* Homens que temem dirigir um cortador de grama porque acham que podem cochilar e acabar dentro da piscina.

* Qualquer convidado que tenha ingerido, junto com a sobremesa, a desaparecida lente de contato do anfitrião.

* Quem já teve o seguinte sonho: você está numa estação de metrô. No final do corredor há uma máquina de expresso. Você põe duas moedas. Em vez do copinho descartável, cai o Santo Graal. Então começa a cair sangue no cálilce.

* Qualquer um que se viu obrigado a pegar um elevador com todos os Irish Rovers.

* Aqueles que já responderam uma pesquisa bilíngue confidencial sobre porcos, para o Departamento de Estatísticas do Canadá (Une enquête sur les porcs, strictment confidentielle).

* Os que já escreveram para a antiga irmandade dos Rosacruzes, pedindo um exemplar gratuito do livro “O Domínio da Vida”, com o objetivo de atingir um grau superior de autoconsciência e experimentar (na privacidade do lar) vôos fugazes da alma.

* Os que já se grampearam acidentalmente.

* Qualquer um que já tenha sido penetrado por um membro da Polícia Montada do Canadá.

* Professores universitários que já tenham dançado com um cartaz em tamanho real da Jean Genet.

* Pessoas que, sem querer, ficaram presas dentro de um saco de dormir em uma loja especializada em artigos de camping.

* Qualquer mulher cujo diu tenha ativado um alarme no aeroporto.

* Aqueles que, depois de nadar, consideram erótica a sensação da água escorrendo das orelhas.

* Homens que nunca tocaram um galgo.

* Mulheres que desistiram do acordeon devido a seios prensados.

* Os que já mijaram da carroceria de um caminhão em movimento.

* Aqueles que, ao acordar, encontraram pegadas molhadas de um pavão por todo chão da cozinha.

* Qualquer um que já tenha arruinado os joelhos praticando atos sexuais no elevador.

* Os que já pensaram por muito tempo na possibilidade de, na posse de dois isqueiros bic, aproximar-se sorrateiramente de um inimigo, apertar os dois botões de gás ao mesmo tempo – um em cada narina – e assim sufocá-lo até a morte.

* Críticos de literatura que já nadaram no rio Lete.

* Todos os amantes que já entraram numa floricultura, no Dia dos Namorados, e pediram clitóris em vez de crisântemo.

* Os que já viram o próprio número de telefone junto com insultos na porta de um banheiro de um terminal rodoviário.

* Aqueles que já usaram as seguintes técnicas de sedução:
– papo-furado em uma convenção de falcoaria;
– entrar num spa disfarçado de Ford Madox Ford;
– fazer movimentos eróticos com a pélvis, atrás das cochias, durante a cena da tempestade do Rei Lear;
– sublinhar frases sugestivas nos prefácios do Joseph Conrad

* Qualquer um que já tenha sido testemunha de um cachorro em um tribunal.

* Qualquer escritor que já tenha sido fotografado, para a capa do livro, em uma dessas poses:
sentado na traseira de um Dodge 1956 com dois galos; de smoking, com à Sydney Opera House ao longe; contemplando uma latinha de Dutch Cleanser; em frente a um túmulo, sob luz dramática; usando um nariz falso; nos arredores de Macchu Pichu; ou então sentado no escritório, olhando com intensidade o próprio livro.

* A pessoa que emprestou meu Martin Beck, leu-o numa sauna, o que fez com que as folhas descolassem e caíssem no chão, grampeou-as todas juntas e me devolveu o livro, achando que eu não ia perceber a diferença.

* Os que já se desfizeram em lágrimas dentro de um Liquor Control Board.

* Qualquer um com dor.