Curas demais pra mim

“A … me olhou com uma cara engraçada quando eu contei que no final de 2011 eu já tinha registro de 670 espécies, mas daí desencanei de ir atrás de lifers. Parecia que eu precisava da cura gay”

“Talvez precise mesmo”

“Cura gay, cura misantropa, cura feminista, cura birdwatcher… melhor deixar pra lá”

“São muitas curas. Mas eu cobro barato pelo pacote completo”

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Uns três anos atrás eu estava numa minicrise existencial. Hoje sei que sempre fui misantropa, mas naquela época ainda não conhecia a palavra e fazia as famosas perguntas “sou errada por não querer sair mais vezes? Deveria estar fazendo alguma coisa pra conhecer mais gente? O fato de eu gostar de poucas pessoas, de conhecer poucas pessoas, significa que estou fazendo algo errado na minha vida? Meus amigos, os Pretos, não me convidam mais pra sair com eles porque casei e algumas vezes que me convidaram eu não podia ir porque tinha compromissos com a família, e daí desencanaram, ou porque não gostam mais de mim? Sou chata e sem graça? Estou vivendo minha vida de um jeito errado? Meus valores estão errados? Essa ideia de viver na torre, isolada, é besteira?”

No começo de 2014 aconteceram três coisas. Conheci os Brancos (o nome dado a um grupo de amigos), descobri a palavra misantropia, e acabou minha crise existencial. Parei de pensar que era chata e sem graça (ou melhor, sei que sou chata e sem graça pra muita gente, mas esses não me interessam), voltei a blogar (o claudiakomesu.club é meu primeiro blog em que assumo meu nome, mas antes dele já bloguei muito anonimamente), tenho o prazer de volta e outra receber mensagens de outros misantropos que me escrevem pra dizer obrigado por me ajudar a ver que não sou errado no mundo, renovei a fé nos meus valores.

Mas ainda levou um bom tempo pra deixar de ser besta.

Eu sempre escrevo sobre a importância de você se valorizar, amor próprio. Mas hoje eu vejo que passei anos sendo idiota. Faz muito tempo que eu sei que os Pretos, meu grupo de amigos que conheço há 20 anos, fazem muitas coisas das quais sou excluída. É verdade que eu casei, que eles são solteiros. Mas também é verdade que sou uma casada que tem vários dias livres, e que com as coisas como conversas em grupo, não custaria nada me convidar, mesmo que metade das vezes eu não pudesse porque tenho compromissos com o Cris, o Daniel, a família do Cris.

Passei anos (vários anos) dando mais importância pra eles do que eles pra mim. Hoje consigo olhar pra trás e pensar em quantas vezes chamei-os pra jantar em casa, fiz compras, carreguei coisas pesadas (fardos de água com gás, de cerveja, as comidas), fiz a comida. Eles vieram aqui, comeram, rimos, conversamos. Eles vão embora. Eu arrumo tudo sozinha. Daí passa um tempo que a gente não se vê, sou eu que entro em contato e falo pra gente se encontrar. Sei que eles têm problemas de dinheiro, então em vez de irmos a algum lugar, ofereço de novo jantar em casa. Mesma coisa.

Enquanto isso, nas conversas aparece menções a outros encontros deles, entre eles, em botecos, restaurantes ou qualquer cosa. Também vejo que uma delas sempre tem dificuldade em encontrar data pra gente se ver, mas nas conversas ouço menções a outros grupos, outras atividades recorrentes, e entendo que nossos encontros são segunda, terceira ou quarta opção. Nunca trazem nada ou se oferecem pra ajudar a cozinhar. Nunca me ajudam a arrumar a mesa e a cozinha.

São meus amigos e se tiver alguma coisa que eu possa ajudá-los, vou ajudar. Assim como tem um deles em quem confio pra falar de coisas especiais e angustiantes. Mas passei tempo demais deixando que eles ocupassem um espaço na minha vida que é bem desproporcional ao espaço que eu ocupo na vida deles. E pior do que isso, sendo a trouxa que passa anos sempre falando oi, puxando conversa, que pergunta como a pessoa está, que convida pra vir jantar em casa, que traz lembranças de viagem, chocolate de free shop, prepara lembrancinhas de Natal, dá presente de aniversário e não ganha presente de aniversário. Converso com as pessoas por caixa de mensagem, conto algo sobre o que estou fazendo da vida, como estou me sentindo, e pergunto “e você, como está?”, a pessoa está há meses sem responder. Pra outra mando mensagem de feliz aniversário, nada de oi, nem sei se a pessoa leu. Troco e-mails, uma conversa de três, com assuntos sérios e pessoais da gente. Uma delas passa cinco semanas sem falar nada.

Talvez meus amigos sejam apenas bem ruins em função enfática ou sociabilidade? Talvez.

Ou talvez eu devesse acreditar em frases do tipo:

believe

Entre as várias curas que não terei (não deixarei de ser misantropa, feminista, pró-gay, slowbirdwatcher), tem pelo menos uma em que talvez minha alma esteja salva. Parei de investir tanto tempo, energia, dinheiro, lamentos, com pessoas pra quem não sou importante.

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Alguns Pretos leem meu blog. Avisei alguns que ia sair dos grupos mas que continuamos amigos. Pra outros talvez pareça uma afronta, ou quem sabe eles pensem que demorou pra eu me tocar. Só sei que fazer coisas explícitas e simbólicas tem seu valor. Depois que escrevi este post, já entrei em contato com três pessoas queridas que não vejo faz um tempo, mas que quero reencontrar quando voltar das férias (talvez o blog fique uns 20 dias sem atividade, a partir de amanhã). Com uma delas fiquei papeando uns minutos pelo WhatsApp e combinamos de almoçar quando eu voltar, a outra mandei mensagem e na hora me respondeu “Olá Clau, estou de saída agora, respondo depois, bjs”, e sei que vai me responder logo, mesmo não sendo nada urgente. E a outra acho que ainda não abriu. E consigo pensar fácil em 10 pessoas queridas que eu quero rever e encontrar sempre, e algumas delas vou procurar quando voltar.

Sensação boa de coisas resolvidas.

Viva uma vida feliz. Quando as pessoas te tratarem como se não se importassem com você, acredite nelas.