Corte de custos e sobre os pequenos prazeres em tempos de crise econômica

“Corte de custos” são palavras que hoje em dia não exigem explicações adicionais. Você fala “preciso cort…” e as pessoas já estão balançando a cabeça com aquele olhar de que entenderam.

Hoje demiti a empregada que estava há mais de 10 anos com a gente. Ela só vinha dois dias na semana, mas tinha pedido pra ser CLT logo que foi contratada, o Cris topou, e esse foi o problema. O salário mínimo paulista é de mil reais. Mais 30% desse valor pra INSS e FGTS. Uma mulher muito boa, de confiança, eficiente. Mas sofria da maldição de ser CLT nesse país em que os impostos pesam tanto e se revertem em quase nada.

Eu fiz a demissão, o Cris participou um pouco. Ele tinha a cruz dele, hoje também iam demitir a moça que trabalhava como secretária pros sócios da empresa. Alguém que eu conhecia, um amor de pessoa. Imagina o valor que você dá pra alguém capaz de resolver qualquer pepino burocrático.

E agora vamos viver a vida de quem tem diarista, e não empregada. E não tem secretária.

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Fizemos mais ações a favor do corte de custos:

– compramos computadores novos, lindos maravilhosos. Não é contrassenso porque é uma das diversões mais baratas que você pode ter (comparando com viagens). Também são instrumentos de trabalho, e vão fazer diferença nesse período de menos passeios.

– Trabalhei loucamente no fim de semana e arrumei coisas que estavam há anos bagunçadas, ou meio quebradas, ou encostadas. Não terminei a arrumação geral, que inclui armários, maleiros, gaveteiros, mas já fez uma boa diferença, fico andando pelos cômodos me sentindo em comemoração mental. Nessa arrumação achei até tesouros “de onde surgiu essa garrafa fechada de Jack Daniels?” E consegui transformar um dos móveis da avó do Cris numa ótima prateleira pros gibis, que não estão mais encaixotados ou no fundo da estante.

– Agora esta é uma casa que tem flores naturais. Quer dizer… o moço me falou que elas são naturais. Elas têm uma cor meio absurda, sempre pensei que eles espetavam essas flores nos cactos, e se elas nunca morrerem vou descobrir que estava certa. Preciso ver se elas fenecem, não tenho coragem de tentar arrancar e correr o risco de matar uma flor de verdade. Inspiração do Death Valley.

(Acho que não seria capaz de cuidar de plantas que você precisa regar todos os dias, mas admiro cada vez mais os cactos. Durões, espinhudos, sobrevivem em ambientes insalubres. Com essa beleza peculiar. E ainda capazes de atos tão inusitados, como essas flores de cores incríveis. Será que essa admiração tem algo a ver com os meus valores?)

– Fomos ao Zaffari e fizemos nossa compra semestral monstro. Muitas carnes no freezer, muita cerveja e espumantes (da assinatura da Wine) na geladeira. A conta do supermercado é salgada, mas se você se abastece de coisas gostosas fica bem mais fácil se animar pra cozinhar em vez de sair. Jantar fora está quase proibitivo. As bebidas então… Olho a carta de vinhos e me recuso, “vamos pedir só água. Os vinhos bons estão caros demais, e não vamos pagar R$ 110 por um vinho ruim”.

– Não temos mais secretária, então criei vergonha na cara pra cuidar de burocracias. Fui até a Barão de Limeira encerrar minha conta no Bradesco (“Você era funcionário da Folha?”), depois tentei resolver meus problemas no HSBC e passei pelo mico de descobrir que eu não conseguia entrar na área do site em que você pode fazer transferências, e o atendimento telefônico só me dava a opção de fazer seguros porque eu não sou correntista (o Cris fez um cartão pra mim, mas esqueceu de pedir pra me incluir como correntista).

– Analisei nosso extrato bancário. Fui investigar meu consumo do celular e descobri que é pouco, e mudei meu plano de R$ 170 pro de R$ 90. Vou me policiar, usar mais WhatsApp e Skype e tentar pagar o mínimo possível de interurbano.

– Vou usar mais Urb, andar a pé, transporte público. E menos táxi.

– Nunca fui de comprar roupas ou sapatos caros, mesmo antes da crise. Para usar uma frase iluminada da querida Ana, “tenho dinheiro pra comprar roupa de grife, mas compro roupa em supermercado e é isso que eu ensino pras minhas filhas”. Supermercados em Dubai. Em São Paulo é mais precário, mas tem C&A, Renner. Outro dia encontrei o Daniel e a mãe dele numa C&A. Ele falou “oi!”, olhou pra mãe dele e disse “eu falei que ela comprava na C&A”, ela respondeu rápido “ah, eu também”. E depois desse encontro ainda reforcei essa história. Num almoço qualquer, eu, Cris, Daniel comentei como a gente não se importa com roupas, que a gente prefere gastar nosso dinheiro com viagens, computadores, câmeras. Todos sorrimos satisfeitos e orgulhosos.

– Com a crise então, fico lembrando de frases como “temos roupas pra 20 anos, mas todos os meses saímos pra comprar coisas novas” – de algum artigo num blog, e penso que é verdade. No inverno passado me lancei um desafio “não vou comprar nenhum casaco novo neste inverno, tenho um monte”, e consegui não comprar nenhum casaco novo, mesmo tendo tantas coisas bonitas nas lojas. E agora acho que poderia pensar em coisas como “vou passar 3 meses sem comprar nenhuma roupa nova, porque realmente não preciso. E se eu começar a ficar meio triste quando olhar pro meu armário, vou é criar vergonha na cara e caprichar mais nos exercícios aeróbicos e na restrição ao álcool, emagreço mais um pouco, e a maioria das roupas ficam bem mais bonitas com uns 2kg a menos”.

Eu sei que essa história de não comprar é péssima pra economia de um país. Falta de confiança do consumidor fode com tudo. Mas é impossível negar que o país não tem dado muitos motivos pra merecer confiança.

Fim das mordomias. Mais trabalhos domésticos. Ficar mais em casa. Viajar menos, passear menos, jantar fora muito menos.

Fora a tristeza pelas pessoas que perderam os empregos hoje (mas que foram devidamente indenizadas), o resto não é tão difícil. Dando uma arrumada na casa e caprichando um pouco nas compras do supermercado dá pra aumentar a sensação de pequeno refúgio, alegrias simples, orgulho por ser capaz de tomar essas medidas de precaução sem precisar esperar a situação piorar ainda mais.

A vida não está fácil pra ninguém. Imagino que hoje em dia até mesmo corruptos têm que ter um mínimo de preocupação em não virarem notícia de imprensa. Mas não dá pra viver tanto tempo em clima de deprê. Precisamos procurar os pequenos prazeres, as pequenas alegrias, e valorizá-las o máximo que pudermos.