Conversas de jantar com amigos

“Não sei, às vezes penso que devia arrumar uma mulher”

“Não, mulher, não! Mulher dá muito trabalho. Você vê, eu, por exemplo, nunca arrumei uma mulher. Porque sei que é só dor de cabeça”

“Sei lá, às vezes penso que poderia dar mais certo com mulher”

“Eu entendo… bom, tinha aquela loira de quem eu gostava”

“É, eu lembro que você falava dela. Também gosto de loiras. Tem muitas morenas bonitas, mas as loiras têm alguma coisa”

“É, fazem a gente pensar em coisas. Loiras peitudas. Você acha que é Hollywood que faz isso com a gente? Ou é só nosso lado japonês?” (como todo mundo sabe, japoneses adoram loiras. Tenho vários primos que namoraram ou casaram com loiras)

“É isso, pensar em coisas… Talvez seja porque a gente tem atração pelo o que é diferente”

“Talvez. E tem as ruivas, adoro as ruivas”

“Mas são ruivas mesmo? A maioria é falsa, é raro ver uma ruiva de verdade”

“Não, vejo várias nas ruas (só hoje pensei que minha lembrança de ruivas nas ruas não se restringe a Brasil, e talvez o “várias nas ruas” seja porque estou considerando as viagens), com sardas, autênticas. Sempre me fazem virar o pescoço”

“Algo do porte?”

“Não. Por ser ruiva mesmo, gosto das grandes, das pequenas. É a mistura de cor do cabelo, com a pele branquinha e as sardas”.

Na sala, um amigo que também é descendente de japoneses, decidi perguntar pra ele: “E você? Também tem atração por loiras?”

“Por loiras… não, acho que não… mas quando eu era criança, tinha atração por loiros. O Aquaman por exemplo, eu achava o maior barato. Já o Thor, não. Mas o Thor não é loiro”

“Como assim o Thor não é loiro??” – eu e minha amiga, indignadas

“Não é. E usava aquele capacete”

Eu não lembrava do capacete, e defendi que ele não usava nada na cabeça, mas depois vi que é uma contaminação com as imagens dos filmes atuais. Nos desenhos antigos, é como eles falaram: um capacete com peninhas dos lados.

“Por que você não gostava do Thor?”

“Ele usava um martelo. E quando você é criança, você sabe: martelo é aquele negócio que sua mãe usa pra bater carne. Eu não gostava do Thor. Já o Aquaman andava de jet ski, era muito mais legal”.

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O jogo de São Paulo e Corinthians. Eu não tenho mais TV a cabo faz tempo, achava que minha TV só servia pra Apple Tv, DVDs e videogames. Depois que o Cris chegou, descobri que a gente tem um pacote básico da Net pra ter TV aberta, não HD, e que minha amiga não precisava ter assistido ao jogo no meu computador, mas isso a gente só descobriu aos 45 do segundo tempo.

“Minha vizinhança é toda corinthiana. Em dias de jogo, quando tem os gols, ouço vários gritos vindos dos prédios vizinhos”

Nessa noite só teve gols do São Paulo. Quando saiu o primeiro, falei pra … “Pode ir até a varanda gritar, eles merecem” – ela foi, gritou aquele “Goooooool” com toda alegria, e a gente riu muito. Foi o único grito. Nenhuma outra comemoração de são paulinos, nenhum corinthiano xingou.

“Da próxima vez que eu aparecer na varanda, vai ter um sniper me esperando”

“Sniper corinthiano. Bom título de filme”

Melhor ainda foi o segundo gol, que ela comemorou com um som que não era uma palavra, era desses sons que significam “se foderam e estou adorando”, e nem sei se ela conseguiria repetir se eu pedisse – mas era tão engraçado, eu já estava sentada no chão da sala, e tive o prazer de poder deitar pra rir.

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Descobri que uma das minhas amigas, pra quem eu tinha falado bem do Demolidor, não gostou. “Achei chato. Cenas de luta demais, é chato ver essas cenas de luta” – concordei que dava pra cortar bastante as cenas de luta, que elas eram parecidas e mais longas do que precisavam ser. Mas não sei, talvez por gostar de HQs e por estar tão feliz em ver um seriado dark, com personagens interessantes, nem me importei com as lutas. Falamos spoilers pra um amigo que está gostando de assistir, mas ainda não conseguiu ver os 13 episódios, depois ele se vingou, mas não lembro com o quê.

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Minha amiga estava me mostrando as fotos dos aplicativos de encontros. “olha este. E este. E este! Como é que o cara pode achar que isso é uma foto boa pra colocar? E este aqui. Eu não sou fotogênica, mas jamais colocaria uma foto assim. E este aqui então. Olha isso”

“Você devia escrever, você sabe”

“Sobre os aplicativos pra encontros?”

“Sobre eles, e várias outras coisas. Algo não sobre comida, não anônimo. Pra falar do que você pensa”

“Não, não. Tenho preguiça. E penso em coisas que seriam ofensivas pros outros, que deixariam as pessoas chocadas”

“Por isso que você deveria escrever. Considero uma questão moral: a gente devia fazer tudo que está ao nosso alcance pra mostrar que o mundo é um lugar mais divertido, mais rico… as pessoas ficam com medo de falarem coisas que podem soar ofensivas pros outros, de falarem o que pensam de verdade, e a gente vai perpetuando essa sensação de que todo mundo é de papelão. Por um mundo menos ordinário, sabe? E você não devia se preocupar com quantidade de pessoas que vão ler. Eu tenho o meu blog, se entre 100 pessoas que passaram os olhos, tiver uma pra quem o que eu escrevi faz sentido, que a ajudou a tomar uma decisão, a fazer algo por uma vida melhor, pra mim já está valendo”

Acho que não convenci, acho que ela não vai ter um blog, apesar de falar de vários assuntos interessantes. Por exemplo, um dos temas atuais das nossas conversas é o quanto as pessoas são moralistas e contra sexo, seria ótimo se ela escrevesse sobre isso. Mas acho que consegui deixá-la um pouco pensativa.

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E compartilhamos historias diversas de apuros pra pegar um voo. Contei quase todos os detalhes de como a gente quase perdeu o voo de volta pra Brasil, no aeroporto de Madrid, das várias vezes que tenho que ir pra Guarulhos rezando, fazendo mentalizações “está tudo bem… não vai ter trânsito… não vai ter congestionamento… vai dar tudo certo… chegaremos a tempo de embarcar”, sobre ter comprado passagem pro dia errado na viagem pra Patagônia, da vez que nos ferraram em Amsterdã, por fim carimbaram o passaporte, e a gente teve que sair correndo pelo aeroporto, correndo mesmo, pra não perder o voo. A sensação deliciosa das raras vezes em que se chega com 20 minutos, meia hora de antecedência, e você pode ficar sentado, vendo as pessoas andarem no aeroporto de lá pra cá. Eles falaram sobre estar no dia errado no aeroporto, sobre ir pra Guarulhos quando na verdade saía de Congonhas, sobre a mãe da … falar “não me diga que você já conseguiu ter seu nome nos alto-falantes do aeroporto, em três continentes”, lembramos como eu fui parar no Sul da França – porque no dia que a gente ia embarcar pra Nova York, antes de sair de casa, folheei nossos passaportes e vi que o visto do Cris estava vencido, e tivemos que ficar meia hora deitados abraçados na cama, nos conformando que a gente não ia embarcar.

 

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