Conte pro mundo que não é ok apelar pro argumento de “você nem sabe escrever”

Uma Editora entrou em contato pedindo pra usar uma imagem em que o Cris aparece de binóculo. Ótimo, divulgação pra natureza, pra observação de aves. Meu contato escreveu “observação de pássaros”, o que me ligou um alerta sobre questão do conteúdo. De qualquer forma eu daria uma olhada no Google. A primeira pesquisa com o nome deles mostrou uma história ruim no Reclame Aqui, em que uma mulher reclama da qualidade de um dicionário deles que ela foi obrigada a comprar porque era indicação da escola — mas o mais absurdo foi a resposta da Editora. A pessoa que recebeu o email de reclamação respondeu na linha de “você comete erros de concordância, você nem sabe escrever, como pode criticarnosso material?”. Essa história foi há 2 anos, mas me deixou encanada. Sabem que facilito a circulação de imagens de natureza, mas neste caso, tentei descobrir mais sobre a história e esta foi a troca de mensagens com o contato:

“oi [nome do contato],

Fico contente em saber que vocês pretendem falar sobre observação de aves, tenho interesse em apoiar a divulgação da natureza brasileira. Sou birdwatcher há vários e costumo facilitar a circulação de imagens de divulgação, mas no seu caso tenho algumas dúvidas, peço desculpas pela chatice:

1 – O texto terá revisão de um ornitólogo? Eu posso ver? Por exemplo, é só um detalhe besta nerd, mas o certo é observador de aves, não de pássaros, porque os pássaros são um grupo dentro das aves (pardal, canário, pintassilgo são pássaros e também aves. Mas um tucano ou um gavião não são pássaros, só aves). Um detalhe não tão nerd é que o Brasil é o país onde a câmera fotográfica é mais popular do que o binóculo, e seria interessante que o autor do texto tenha familiaridade com o tema, conheça o Wikiaves, saiba que somos um dos países com a maior biodiversidade de aves, talvez o maior.

2 – Sei que uma empresa é formada por muita gente, mas quando você entrou em contato, dei uma olhada no Reclame Aqui e vi o incidente de 2015, em que um funcionário destratou uma mulher, apelando pro argumento “você nem sabe escrever”. Quero contribuir pra divulgação da natureza, mas não gostaria de ter minha imagem associada com uma empresa arrogante. Vi que a empresa publicou uma resposta dizendo que aquele texto não representava a empresa… mas acho que o que queria perguntar é se de lá para cá houve investimento no atendimento, e mesmo na qualidade do material, porque as queixas sobre as deficiências do dicionário me pareceram legítimas.

Estou fazendo perguntas difíceis demais pro mero uso de imagens? Desculpe se estiver. Eu realmente tenho interesse em divulgar a natureza brasileira, mas sou um tanto zelosa com o destino das imagens.

Se ainda assim você tiver interesse nessa foto, eu teria que perguntar pro meu marido se ele permite o uso da imagem, mas é improvável ele não deixar. Se eu puder ver o texto, também posso eventualmente oferecer outras imagens de natureza.

obrigada, abraços,
Claudia”

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“Cara Claudia,

As fotos serão utilizadas em uma galeria de fotos no livro digital, que faz um trabalho de leitura de imagens relacionado com o livro impresso. Teremos apenas as legendas informando local e data dos observadores retratados, portanto não há informações extras a serem revisadas. Os detalhes da atividade de observação serão informados ao professor no manual, e este conteúdo está sendo produzido ainda. Como trata-se de um livro de língua portuguesa, o tema da observação dos pássaros será feito dentro do pilar de interdisciplinaridade da coleção, será realizado um trabalho de apresentação do trabalho dos observadores de aves (e não de pássaros, não se preocupe) no livro impresso, com o objetivo de trabalhar o respeito à natureza.

Sobre a questão da queixa, a editora reafirma que a resposta não reflete a posição da empresa, que tem como pilar um projeto de educação pautado em valores e na construção da cidadania.

Entendemos a preocupação com o destino das imagens e temos o mesmo cuidado com nossos conteúdos, inclusive na escolha de nossos fornecedores. Se houver interesse em continuar a conversa, por favor, nos avise.

Obrigada,”

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“oi [nome do meu contato],

falei com o meu marido, ele não permitiu a divulgação da imagem. Como é apenas uma imagem em meio a uma galeria, tenho certeza de que não atrapalha seu trabalho. Desculpe por tomar seu tempo.

Você pode parar de ler o email aqui, ou pode continuar lendo se quiser saber como uma pessoa do público percebe essa interação.

Qualquer pessoa ou empresa está sujeita a erros, ninguém é infalível, o que faz diferença é a atitude após o erro.

Vivemos nesse mundo de internet e redes sociais, em que todo mundo conversa com todo mundo. Em qualquer tipo de interação, o aspecto humano, a forma de se comunicar pesa cada vez mais. Ontem à noite quando falei com o meu marido sobre a foto, a história da mensagem desaforada foi o que fez meu marido dizer “não quero que você mande minha foto pra eles”. Se você tivesse me respondido “aquele foi um incidente bem ruim mesmo, todos da empresa lamentamos, não é a forma como a empresa pensa. O funcionário foi severamente repreendido, e temos um treinamento anual pra reforçar a questão dos nossos valores, e como fazer o atendimento ao público, principalmente para identificar situações em que estamos sob pressão, estresse, e recebemos uma crítica”. Se você tivesse me respondido algo do tipo, e se sua resposta sobre a parte de conteúdo fosse menos evasiva, eu falaria com o meu marido para convencê-lo a mudar de ideia.

É só uma imagem entre várias, não vai lhe fazer falta. Se fosse importante pro projeto, eu também agiria diferente, porque quero divulgar a natureza brasileira.

Estou te falando dessas coisas não com o objetivo de brigar ou ofender, espero que você não esteja lendo assim, porque não é meu objetivo. Parei minhas outras atividades pra te falar disso porque gostaria de ver um mundo mais humano, em que as pessoas entendessem que o argumento do “você nem sabe escrever, você comete erros de concordância”, é algo grave, ainda mais sendo para um cliente, e tratar disso como “já falamos que não representa a postura da empresa” — pare de falar sobre isso, também não é a postura que atrai simpatia.

Não sou ninguém. Você pode só me xingar e rir de mim, contar pros colegas que topou com uma louca. Mas se você quiser experimentar interações mais humanas, é provável conseguir resultados melhores.

Desejo sucesso no seu trabalho. ”

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Outra situação de promoção de valores foi um encontro com uns amigos de Limeira que não via há 20 anos. Teve um momento que perguntei (eu nem conseguia achar as palavras, porque nunca tinha tido um papo assim), mas era a ideia de o que vocês estão fazendo pelo bem do mundo? Eles me contaram, e o engraçado é que uma delas estava com uma dificuldade de executar um projeto que o irmão dela tem um contato que pode ajudar. Ele respondeu na hora “é só falar com fulano, eu faço isso” — e descobri que eles nunca tinham falado sobre o assunto.

Então é isso. Tudo que você achar que é importante, fale sobre isso. Fale que é importante, fale cada vez mais. Quanto mais a gente pratica, mais destrava.

Uns dias atrás ouvi um comentário bem machista vindo de um colega, a ideia de que “mãe serve pra isso”, e eu não quis comentar na hora, não queria discutir com ele. Mas deveria ter falado algo. Assim como deveria ter falado que teria sido importante mostrar o beijo gay do Sulu com o marido, e quando meu pai falou “ainda bem que não mostraram, tem coisas que são desnecessárias” eu devia ter respondido como homofobia é um assunto sério.

Quero cada vez mais sair do armário e promover meus valores, mesmo que isso eleve minha fama de chata ao infinito.