Como ter conversas tensas e difíceis e ser bem sucedido. Inclui viagem no tempo e humilhações cômicas

Do meu livrinho-feito-como-aposta-comigo-mesma, Seja Protagonista da sua Vida. Um dos capítulos da seção “Aprenda a falar ou morra louca”.

Nunca deixe de conversar sobre algo que magoou ou incomodou

Ou você aprende a falar, discutir e resolver, ou a raiva-mágoa apodrece dentro de você e aos poucos vai te apodrecendo também. De repente você descobre que não tem mais um pedaço do coração, da alma, até do cérebro (…)

Como ter conversas tensas e difíceis e ser bem sucedido. Inclui viagem no tempo e humilhações cômicas

Qualquer conversa que não é exibição de retórica, qualquer conversa em que você realmente quer ter a chance do outro mudar de ideia, e talvez você mudar de ideia, precisa ser levada principalmente no nível emocional.

Como já falei várias vezes eu sou da opinião de que discussão não leva a lugar algum. Já participei de várias, principalmente em fóruns ou grupos de discussão, mas era só por exercício de retórica, diversão. Não lembro de ver alguém mudando de opinião durante uma discussão pública, simplesmente porque não é esse o objetivo de um debate. Um debate não é a vitória do melhor argumento. É puro circo pra alimentar sua vaidade ou pra tentar ganhar as opiniões do público, que no geral gosta da apresentação mais emocionante.

Você precisa conversar sobre um assunto bem difícil e espinhudo, que precisa ter uma evolução? Não é num debate que você consegue isso. Se realmente quer resolver algo, você precisa ter uma conversa privativa em condições favoráveis à abertura e confiança.

Vou falar de algumas situações possíveis.

Na conversa com seu parceiro, o mundo ideal é conversar deitados na cama, abraçados, olho no olho, voz mansa, clima ameno. E, claro, com muito tempo e sem qualquer interrupção. É uma conversa recheada de generosidade, perdão e amor, com frases sobre o quanto vocês gostam um do outro, com pedidos de desculpas sinceros e sem condicionantes. Você pede desculpas por ter chateado a pessoa, não importa quem estava certo no mérito do argumento. Se for necessário, use viagem no tempo e humilhações cômicas, já explico isso. Esse tipo de conversa resolve a maioria dos problemas porque intimidade, franqueza, carinho, às vezes a catarse que vem do riso: essas coisas curam feridas.

Há umas situações em que a conversa não leva a lugar algum, e termina com a sensação amarga de que vocês chegaram num beco sem saída. Tive umas poucas conversas assim… uma delas foi quando falei pro Cris que ele não era mais birdwatcher, que ele não gostava mais de fazer os passeios de natureza, que ele só queria saber de poker. Ele me falou que gostava de viajar e passear comigo, mas que realmente não se divertia em ter que acordar cedo pra fotografar natureza, que ele já tinha feito isso muitas e muitas vezes. Lembro que essa conversa terminou com o tal gosto ruim. Mas se vocês têm um relacionamento forte, com o tempo as coisas se ajeitam. Às vezes eu viajo só com amigos, naquele estilo de viagem pra acordar cedo e fotografar o dia todo. Quando viajo com o Cris ou faço um passeio sozinha de manhã, ou também vou dormir tarde e acordo tarde e tudo bem.

Antes de falar das conversas difíceis com gente que não é o seu amor, vou finalmente explicar sobre as tais técnicas avançadas. Elas são muito simples e bestas, mas funcionam, e não sei por que as pessoas não usam isso com mais frequência.

Viagem no tempo e humilhações cômicas

A viagem no tempo é o reconhecimento de que você pode perdoar. Quando o outro chega falando uma bobagem, ou se é rude, e daí vocês brigam, você joga na cara do outro a grande besteira que ele falou, o quanto aquilo te chateou, às vezes ele esperneia, às vezes reconhece rápido que estava errado. Então ele pede desculpas e pergunta se podemos voltar no tempo. Sempre podemos. Às vezes inclui a teatralização de sair do apartamento, abrir de novo a porta, e falar algo legal e amoroso, em vez da patada injusta caída do céu.

Não sei se é só minha memória seletiva junto com a minha tendência de achar que estou sempre certa, mas não lembro de alguma vez que eu tenha tido que voltar no tempo… em geral é o Cris. Não entendo e não aceito frases como “falei sem pensar. Falei qualquer coisa. Você dá valor demais pras palavras”. Nunca deixei passar barato. E acho que aos poucos tenho conseguido enfiar na cabeça dele que se ele fala sem pensar, precisa mudar isso. Porque somos seres em que as palavras são o principal elemento de comunicação, que se ele é estabanado e fala sem pensar, não pode ficar chateado quando as pessoas ficam bravas com o que ele falou.

Em resumo é isso: falou uma bobagem grande, fez cagada? Peça desculpas bem sinceras, e pergunte se pode voltar no tempo. Por mais besta que pareça ser, juro que funciona. Você imediatamente esquece a raiva e só quer abraçar a pessoa.

Quando a cagada é muito grande, ou a raiva é muito grande?

Nesses casos, em vez de viagem no tempo a gente usa as humilhações cômicas. Não basta a pessoa tentar refazer a cena falando algo bom, ela precisa se humilhar. Não sei quem inventou essa… talvez tenha sido o Cris, por me pedir “então me explica como eu devia ter falado isso pra você”, e eu dou as frases certas. Se ainda estou bem brava, as frases incluem auto-xingamentos do tipo “eu sei que sou um frutinha frescolino besta sem coração que em nenhum momento pensou em como você ia se sentir sobre…”, e nesses casos o uso de palavras ridículas ajuda nos dois lados, mesmo que a pessoa reclame um pouco “vou ter que falar frescolino?”, “vai”, a raiva passa mais rápido, logo os dois estão rindo.

Outra forma boa de amenizar a situação quando você faz cagada é chegar com um presente, oferecer um jantar ou alguma coisa especial pro outro. Qualquer coisa que demonstre arrependimento, e o quanto o outro é alguém especial e importante pra você. Coisas que os canalhas fazem com um pé nas costas, e os homens de bem demoram ou nunca entendem a importância.