Como se foder muito: dê uma entrevista que vai pro Youtube sem olhar no espelho antes

Fui pro Avistar no domingo. Sem saber bem como seria, me sentindo meio aérea e desconectada. Um daqueles dias de se sentir mais não-birdwatcher do que birdwatcher. Na verdade, se não fosse o compromisso de conversar ao vivo com dois colegas sobre uma questão política, a tal maldita proibição de fotografia em parques públicos, acho que eu não teria ido. Não havia proposto nenhum tema de apresentação e consegui não ser convidada a participar do Birding Ladies deste ano.

Soube que um amigo foi perguntar pra organizadora por que eu não estava lá. Disseram que eu estava muito ocupada. É verdade, sempre estou. Mas não me convidaram pra participar neste ano. Não sou astro de cinema, muito pelo contrário. Mas sou uma pessoa de opiniões francas, polêmicas, e cuido de um site sobre birdwatching, além de estar sempre militando em questões de preservação da natureza e, há uns meses, feminismo. Não havia a menor obrigação de me convidar, mas a falácia da resposta é que me incomoda. Custava falar a verdade? “a Claudia não faz rede de relacionamentos, não curte fotos, não posta no Wikiaves, não papeia, e ainda por cima é chata e encrenqueira, fica discordando de que o importante é ser feliz. E insiste na ideia de que ser birdwatcher exige compromisso com a natureza. Achamos melhor não chamar alguém que poderia trazer discórdia pro grupo”. Pronto, está no direito delas. Só não façam de conta que eu falei “não posso”. Meu lado câncer da classe teria se divertido bastante, mas sabem como são os vampiros: não podem entrar se não forem convidados.

O evento era sexta, sábado e domingo. Fui só no domingo, Cris foi comigo. Conseguimos ter uma DR no caminho, porque ele tinha passado a noite em claro jogando e estava cansado, com fome e de mau humor (e eu não tinha pedido pra ir comigo, ele que se ofereceu). E eu sou o tipo de gente que não dá desconto. Talvez traumas de infância. Meu pai tinha muitas variações de humor, hoje não suporto gente mal-humorada me tratando mal. DR na padaria. Finalmente as pazes, finalmente chegamos ao Avistar.

Como em todos os anos, o encontro é cheio de gente legal que vem conversar com você e te falar de roteiros maravilhosos, ou papear um pouco, ou falar que tem saudade do passeio x, ou dizer que precisamos passarinhar juntos, ou agradecer por alguma coisa que eu fiz de divulgação ou de contatos. Como disse o Guto, são dias cheios de abraços calorosos e sinceros. E tudo mérito desse Guto Carvalho, que há 10 anos organiza os eventos na unha.

Quando você está lá no meio, até se pergunta “por que não vim nos outros dias e participei de todas as atividades, inclusive as culturais noturnas?”. Mas depois passam os meses, você volta a se envolver em alguma discussão em que os birdwatchers dizem que cada um faz o que quiser da vida e que não precisamos panfletar pela questão da preservação da natureza, e sua fé esmorece.

Num certo momento, a dupla que faz o http://www.clicandoeandando.com/, Chris Dornellas e Elton Olegário, me abordam e perguntam se posso dar uma entrevista. Hesito. Explico que não sei se teria coisas muito boas pra falar, que não tenho sido uma figura bem vista, que nem fui convidada pra participar do Birding Ladies. Que talvez as pessoas não queiram ouvir essa história de que ser birdwatcher exige compromisso com a natureza. Os dois sorriram e me disseram que concordavam totalmente comigo, que achavam que precisa sim ter compromisso, e que gostariam de gravar.

Então eu falei. Falei um pouco sobre o Avistar estar bem melhor no Butantan do que no Villa-Lobos, sobre ser necessário dar o segundo passo, além da busca pelos lifers, e entender que precisamos ter compromisso com a natureza, e expliquei o que é o www.virtude-ag.com.

Hoje eu fui pesquisar uma outra coisa no youtube, meu único videozinho lá, a lagoa de sapos em Puerto Iguazu. Digitei meu nome. A primeira entrada é a entrevista deles. Lá estou eu. Com essa voz de taquara rachada, gorda, (não sou magra, mas no vídeo fica a sensação de estar mais gorda) e, o pior de tudo: três fiapos de cabelo fora do lugar, atravessados na testa, como se fossem aqueles carecas que tentam esconder a calvície e atravessam os fios restantes sobre o topo da cabeça. Mas no meu caso era na testa.

E foi assim que eu me fodi.

Fico contente de ter passado, ainda que de forma suave, minha mensagem sobre o que é ser birdwatcher. Vou ficar me zoando por um bom tempo pela imbecilidade de nem ter me olhado na câmera do celular antes de começar a gravar.

Agora, só me resta uma alternativa: produzir mais vídeos com o meu nome, e com uma aparência menos tosca. Ou fica essa minha imagem oficial rodando na internet.

Pedir pra eles tirarem não é uma alternativa, o trabalho deles é super-legal, e pior do que o vexame dos fiapos na testa é o vexame de motivo fútil. Posso fazer qualquer mimimi no meu blog pessoal, mas nada justifica jogar no lixo o tempo que eles tiveram em gravar, editar, publicar, só porque eu não sou fotogênica, além de ser burra e idiota de nem querer olhar no espelho antes de gravar.

E pra coroar, seguem minhas fotos que começaram como bagunça, e terminaram como concurso de alce: