Como saber se eu sou misantropo?

Olá …,

Já recebi vários e-mails de leitores que se identificaram com a misantropia, mas em geral é “descobri que não sou errado no mundo”.

Mas o seu… Não que eu tenha lido algo estranho, é só por sentir que seria leviano da minha parte. Posso só te contar como eu sou, ou coisas que já li em sites ou de e-mails. Será que consegui explicar? Desculpe pela frescura… quando alguém me escreve dizendo “descobri que sou misantropo”, converso com a pessoa, falo até de impressões e sensações sobre a personalidade dela. Mas acho que eu não devia te falar se você é ou não, e sim que é você quem deve decidir isso.

Pelo o que eu saiba a misantropia não é algo que tenha um diagnóstico. Já há algum tempo existe o conceito de introvertimento (que não é a mesma coisa que timidez), que tem muitos pontos em comum com a misantropia, e há estudos que mostram diferenças na configuração cerebral das pessoas cujas entrevistas diziam que a pessoa era introvertida. Não sei se você viu este post:

Misantropos têm uma nova palavra para se identificar: introvertido, mas não no sentido de ser tímido. Leia que você vai gostar.

O site quietrev.com também é recomendado. Pessoas que assumiram que não há nada errado em ser introvertido contam sobre a vida delas. Estratégias pra sobreviver a eventos familiares (cantinho de descompressão, ajudar em tarefas como lavar a louça, colocar a mesa, tirar o lixo, e assim dar a sensação de que você está participando, mas não precisa ficar conversando o tempo todo com as pessoas, ter horário pra sair), gente que conta que passa o Natal ou o fim do ano só a esposa, o marido e os filhos, sem participar de nenhum grupo grande, gente que conta como é possível ser introvertido e ser respeitado no trabalho, gente que mostra em histórias em quadrinho como é ser introvertido.

O que eu posso lhe dizer é que nada do que você me descreveu pareceu estranho. Entendo suas dúvidas, porque a gente olha ao nosso redor e parece que todo mundo está agindo diferente, é compreensível que a gente pense “tem algo de errado comigo? Preciso de psicólogo? De psiquiatra?”. Eu não sei se você precisa, mas tem coisas que posso te falar.

– não tem nada de errado em gostar de ficar sozinha. Eu adoro ficar sozinha, não só gosto como preciso, e quando passo vários dias sem poder passar um tempo sozinha, começo a ficar estressada.

– nunca gostei muito de TV, e faz vários anos que desisti. Tenho Netflix, Itunes, e escolho o que eu quero assistir.

– também não gosto de redes sociais. Aquelas em que o pessoal se mantêm em contato pra ganhar elogios ou pontos, pra pedir “vai ver o meu pra curtir, pra votar” – tenho vontade de vomitar. Não sei papear com as pessoas. Quer dizer, eu sei ir pra uma reunião de família, ou encontrar conhecidos e papear. Mas não gosto de papear online, me sinto perdendo tempo demais, tenho outras coisas pra fazer.

– também não participo de grupos de WhatsApp. Estou em alguns, tem dois atualmente que eu dou uma passada de olhos. Um de família, em que tento sempre dar feliz aniversário, felicidades (mas em geral faço isso atrasada, todo mundo sabe que eu sou o Rubinho do grupo), parabéns pela gravidez, pro nosso encontro posso dia tal. Mas não consigo papear no dia a dia. E tem um outro grupo de birdwatchers que às vezes respondo algo que parece que só eu tenho a informação, mas não consigo acompanhar o bate-papo do dia a dia.

– Tenho Facebook. E acho bem engraçado ter mais de mil amigos lá, mas sou totalmente imprestável pra redes sociais. Não participo de nada, não comento posts dos outros. Uso meu Facebook principalmente pra divulgação de birdwatching. Quando posto algo e outros aparecem pra comentar, então eu sou civilizada, respondo, agradeço, e é de coração, tenho muita consideração pelo tempo dos outros. Mas não consigo ficar acompanhando as postagens, mesmo de gente que eu gosto bastante. A dinâmica do negócio não serve pra mim, ele é feito pra quem gosta de olhar aquilo todo dia, às vezes várias vezes por dia. “Você devia ter um Twitter”. Deus me livre. Eu sei que poderia ajudar bastante com divulgação da natureza, mas a ideia de ficar o tempo todo olhando e respondendo coisas, isso parece tortura demais.

– eu também não dou satisfação da minha vida, também não gosto de me ver obrigada a interagir. “Por que você não divulga suas fotos no Instagram? Você quer divulgar a natureza brasileira, o virtude-ag.com, divulgue lá, lá é onde todo mundo vê”. Eu divulgaria. Se não fosse a caixa de comentários. A ideia de que as pessoas vão comentar algo e eu tenho que responder, ou ficar com a imagem de metida sem educação… me ver obrigada a papear parece tortura. Não me importo muito que pensem mal de mim como pessoa física, mas no birdwatching e no Virtude eu sou pessoa jurídica, represento coisas. Tenho que ser chapa branca, impecável como assessoria de imprensa.

– quando vou usar o Facebook, em geral só abro bem tarde da noite, respondo ou posto o que preciso, e fecho de novo. Tento não abrir durante o dia pra não correr o risco do chat.

– fujo dos eventos não essenciais.

Sou antissocial, nasci velha, sou chata e sem graça. E gosto de mim assim. Gosto muito de mim. Tenho uma lista enorme de qualidades e motivos pra gostar de mim. Me sinto feliz a maior parte do tempo. Tenho uma rotina com muito tempo só meu, em que posso ler, escrever, desenhar, passear, fotografar, fazer nada. Não vou ter filhos não porque não goste de crianças, adoro crianças. Mas não quero deixar de ter esse tempo meu, todas as obrigações que vêm com o filho, inclusive a interação com a escola e os outros pais.

 

Várias pessoas que me escrevem estão com alguma inquietação. Gente que se identifica com a misantropia, mas que também sente que tem algo faltando na vida. Sempre recomendo aventura. Conhecer outras pessoas, interagir, namorar, quebrar a cara, viver.

Não que grande amor seja essencial pra vida, tenho certeza de que ninguém é obrigado a casar, ou estar sempre se relacionando. Mas acho que todo mundo devia experimentar, que se relacionar com o outro nos amadurece como pessoas de um jeito que nenhuma outra experiência pode proporcionar.

Mas você. Eu não sei o que você não me contou. Mas o que você me contou descreve a rotina de alguém que não está com nenhuma grande inquietação. Pelo o que você me contou, você parece feliz com a sua rotina, seu tempo, suas escolhas, e você só me escreveu porque as pessoas ficam te falando que você está errada, porque você vê todo mundo agindo diferente, e é natural que venha a pergunta “será que eles estão certos mesmo e eu devia mudar?”

Não tenho nenhum direito de dizer o que você deve fazer, o que você é. Mas posso te falar que nada do que você descreveu me pareceu esquisito. Muito do que você descreveu é o que eu faço, ou como me sinto, sei que muitas outras pessoas também são assim. Não acho que tenha algo de errado comigo, na verdade, não tenho vontade de fazer terapia porque eu não me sinto com problemas. Meu marido fica inconformado. Você já deve ter ouvido as pessoas falarem “todo mundo devia fazer terapia”, eu até fiz por dois meses, a pedido dele, mas havia essa data limite pra eu poder falar “quero continuar” ou “quero parar”, e quando chegou essa data eu falei que queria parar, ele respeitou. Ele acha que eu não quero ter filhos por traumas familiares. Eu acho que não. Falo pra ele “Gosto muito de mim, da minha vida, me sinto feliz a maior parte do tempo, por que eu preciso fazer terapia?”

No meu entendimento o egocentrismo significa que você não está levando o outro em consideração, você só pensa em você, só enxerga você. Não tem necessariamente a ver com misantropia ou introvertimento, pessoas extrovertidas podem ser egocêntricas. Você falou da sua mãe. Se na relação com a sua mãe você não pensa nos sentimentos dela, no que é importante pra ela, esse seria um comportamento egocêntrico. Mas tudo dentro de limites, certo? Minha vó queria que eu tivesse filhos, me dizia que eu ia sentir falta. Mas eu não teria e não tive um filho só pra deixar minha vó contente. Mas apesar de, por escolha, preferir ficar em casa, raramente não participo de algum encontro na casa da minha sogra porque sei que isso chatearia ela e meu marido. Pra mim o comportamento egocêntrico seria: você tem alguém com quem você compartilha sua vida, seja um namorado, ou que você faça vários programas com a sua mãe. E tudo é sempre do seu jeito. Você nunca pergunta pro outro o que ele quer, não há uma divisão democrática de hoje vamos fazer o que eu mais gosto, na semana que vem você escolhe.

Espero ter ajudado. Me pergunte o que quiser 🙂