Como paquerar um misantropo

“Como paquerar um misantropo”. A frase não é minha. Foi um dos poucos termos de busca que o Google ainda me mostra, a maioria infelizmente aparece como unknown search term.

É uma pergunta boa. Posso dar algumas sugestões, com toda a autoridade de misantropa panfletária, mas que não paquera ninguém há mais de 10 anos. Ainda assim, vale a pena ler, minhas dicas são boas. Quem vê minha cara nem imagina quão pouca vontade passei nessa vida desde que enfiei na cabeça algumas ideias simples. http://claudiakomesu.club/inception-como-uma-ideia-pode-influenciar-sua-vida/

Como paquerar um misantropo? Não espere que ele vai sacar seus olhares e sorrisos. O misantropo é uma pessoa bastante observadora da natureza humana, mas pra isso ele precisa se interessar pela pessoa. Se ele ainda não está interessado em você, provavelmente você e aquele vaso de flores têm o mesmo valor.

Você precisa se mostrar uma pessoa interessante, digna da atenção de alguém que considera que o ser humano médio não vale muito a pena. Destaque-se. Não será pelas suas roupas. Você terá que falar coisas instigantes pro seu misantropo.

Aborde o cabra.

Faça perguntas diretas sobre os assuntos que você estudou e sabe que são do interesse dele, ou se você não tiver conseguido nenhuma informação prévia, chute alguma coisa que você acha que ele se interessa. Não faça perguntas que podem ser respondidas com sim ou não – um misantropo desconfiado pode ser uma pessoa bem sem coração. Faça perguntas que exijam elaboração de frases. Sempre é um bom caminho puxar assunto sobre livros, filmes, se ele parecer meio geek perguntar algo sobre celular ou câmera – coisas que pareçam que você tem dúvidas e precisa de ajuda.

Mas é preciso ser uma conversa de verdade, não pode ficar no nível superficial de dizer “assisti tal coisa e gostei, acho que você ia gostar também”. O misantropo tem desprezo por papo furado. A conversa precisa ter um conteúdo real, uma troca real. Você não pode levar a conversa no nível de bate-papo, de coisas que você falaria pra qualquer um. O tempo todo você deve ter em mente que está conversando com alguém especial, que vale a pena, e que você quer saber mais sobre a pessoa. “Por que você pensa assim”, “por que você diz isso?”, “por que você acha que tal coisa não vale a pena?”.

Comece com os assuntos seguros que são livros, filmes, objetos, e conforme a pessoa vai se mostrando mais à vontade, se surgir uma brecha pergunte de algo mais pessoal. Provavelmente em algum momento ele fará um comentário depreciativo sobre o mundo ou as pessoas, e ache um jeito de perguntar, num tom doce e de curiosidade genuína, como ele acha que as coisas deveriam ser. Como seria o mundo ideal pra ele. Ou como ele acha que será o futuro.

De preferência tenha leituras, citações, situações pra poder emendar na conversa, fazer referência a uma ideia que você achou interessante, e perguntar o que ele pensa sobre isso. Exemplo: Alain de Botton diz que vivemos num mundo em que sua profissão tem um peso enorme no julgamento de quem você é, e quando as pessoas se conhecem uma das primeiras perguntas é “o que você faz?”, no sentido de qual o seu trabalho. Mas que poderíamos imaginar um mundo em que perguntar a profissão não precisaria ser uma das primeiras perguntas e sim coisas como “do que você tem medo? O que você não consegue perdoar?”.

Exercite sua inteligência e tente imaginar perguntas que podem ser trabalhosas pra responder. E se for algo que ele nunca pensou, que sua pergunta exige que ele pense em algo pela primeira vez, isso te dá mais pontos ainda. Misantropos têm muito tempo pra pensar, e gostam de pensar (e geralmente escrever). Você não imagina como é deliciosa a sensação de ter uma pergunta cuja resposta não é fácil e imediata.

Tá. Não falei que era fácil paquerar um misantropo. Mas tem grandes chances de valer muito a pena. Possivelmente você descobrirá uma pessoa fascinante por baixo daquela maldita casca blasé, dissimulada, camuflada.

Mas importante: dê uma ou duas chances. Se nessas duas oportunidades ele não começar a se mostrar um cara legal com você, e que faz perguntas sobre você, sobre o que você pensa, desencane. Não vale a pena investir em gente tapada, burra, ou totalmente egocêntrica.