Como me tornei escrava de estranhos bípedes emplumados

Antes que alguém se assuste ou se anime: escrava. Não escrava sexual. Os bípedes emplumados são as aves mesmo, e este é um texto sobre birdwatching, não sobre bestialismo.

Imagino que pra maioria das pessoas não acontece num átimo. Afinal, bem ou mal todo mundo já viu aves – pardais, sabiás, gaivotas, pombos – e a maioria não se torna birdwatcher por causa disso. Sei de vários casos em que as pessoas foram se impressionando com as fotos na internet, começam a fazer suas próprias fotos, descobrem o Wikiaves, e nesse ponto em geral danou-se. Se você tem propensão a gostar de fotografia e/ou de passeios na natureza, é fácil ficar enlouquecido com tanta foto bonita de bichos incríveis, feitas por pessoas como eu ou você, em lugares como Ubatuba, Campos do Jordão e mesmo dentro das metrópoles.

Eu também fui me aproximando aos poucos, mas tenho marcos. Um deles é o tangará-rajado, um bostinha de 9cm, que me fulminou como se fosse paixão à primeira vista, graças a esta foto do Nick Athanas:

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Não conseguia tirar os olhos dessa imagem, ela me assombrava. Ainda mais com a informação de que a ave era mansa, foi vista perto da sede, que todos puderam fotografar. Final de 2008, a primeira vez que decidi um destino de viagem só pra ir atrás de uma ave. Mal sabia que depois dessa, eu faria dezenas de outras viagens, atrás de outras aves.

E foi assim que começou de verdade. Eu já fazia passeios com o Cris pra ver aves, já tinha contratado alguns guias, mas febre mesmo foi a partir do tangará-rajado.

Não vejo muita gente se referindo ao birdwatching como escravidão… vejo até gente falando “é nosso hobby”, e aí eu penso “nós quem, cara-pálida”. Pra mim não é hobby. É vício, dependência química, escravidão.

Quem assistia a Grey’s Anatomy, lembra do episódio em que eles descobrem o berçário? Que não importavam as merdas gigantes que tinham acontecido durante o dia, eles podiam ir até o vidro do berçário e redescobrir por que tudo valia a pena? Bom, é mais ou menos isso. Passarinhar são algumas horas pra esquecer que existe corrupção, maldade, pobreza, miséria, desigualdade, crueldade, burrice, mesquinharia, cretinices, manipulação. Claro. De vez em quando você topa com coisas, ou surgem assuntos, ou você vai nas companhias erradas, e não rola. Mas com alguma experiência você descobre como fazer pra ter o seu momento, as suas horas ou alguns dias em que tudo que importa será acordar cedo, respirar, ver cenários lindos, ver e sentir o céu mudando de cor, ter o privilégio de observar o comportamento de seres fabulosos, com alguma sorte conseguir fotos bonitas.

É fácil se viciar nisso. É fácil alegremente tornar-se escravo das aves.

A forma mais comum de escravidão é pela diversidade de espécies. Só no Brasil, mais de 1.900. No mundo todo em torno de 10 mil. Você deve fazer ideia do que um colecionador é capaz de fazer, quanto dinheiro ele pode gastar, pra obter mais itens pra coleção. No mundo todo milhões de birdwatchers são movidos pela adrenalina de ver uma espécie nova. Há rankings mundiais, com ingleses que viram mais de 8 mil espécies de aves.

Tive minha fase de valorizar bastante os lifers. Acredite: eu fico falando de contemplação, aves em parques, aproveitar cada momento, não se importar se é uma espécie rara ou não, mas isso é uma vertente de que eu e alguns colegas brasileiros fazemos parte. Mas somos minoria. O birdwatching nasceu como e sempre foi uma atividade competitiva. O Wikiaves.com.br, o maior site de aves brasileiras, não tem um quadro pra destacar quem faz atividades pra ajudar a natureza: na home mostra fotos mais votadas da semana, e tem tabelas de ranking de quais cidades e quais pessoas têm mais espécies. Um cara é capaz de te conhecer, e a primeira pergunta é “quantas aves você já registrou?”, juro, aconteceu com um amigo meu. Homens. Sempre querendo saber de quem é o maior. E claro, muitas mulheres também aderem.

Durante um tempo eu fazia parte do ranking . Em janeiro de 2012 eu já tinha mais de 700 pra bater na mesa. Mas conseguir espécies novas significa ir cada vez mais longe, geralmente em viagens em grupo, e nessas situações há variáveis demais, que em geral não resultam num momento berçário.

Em junho de 2011 tive outro marco: um encontro especial com o gaturamo-rei, outro merdinha, mas esse com 2cm a mais. A fêmea e o macho têm cores incríveis, parece que estão de capacete retrô. Eu tinha acabado de me aposentar da consultoria, minha primeira viagem, sozinha, no meio da semana em Campos do Jordão, e de repente tenho esse encontro com o que pra mim é uma das aves mais bonitas do Brasil, mas só tinha visto uma vez de longe, depois de ficar mais de 1h sentada em frente a um ninho esperando eles aparecerem. Dessa vez pude vê-los por horas e o macho cantava muito, cantava de encher o coração. Quando eu os perdia de vista, era só seguir a direção do canto, e encontrava de novo.

E então aconteceu.

Não bastava a alegria de poder vê-los por tanto tempo, mesmo sendo um terreno íngreme e eles um tanto no alto, sem poder usar o tripé, com os braços doendo de sustentar a câmera. Teve um momento em que o macho desceu na altura dos meus olhos, e parou a menos de 2m, não cabia na minha lente, eu nem sabia o que fazer. Entortou um pouco a cabeça de lado, como se fosse gente, me encarou por alguns segundos, se afastou um pouco, e depois subiu de novo.

Foto sem crop, do momento em que ele se afastou um pouco a ponto de caber na lente.
Foto sem crop, do momento em que ele se afastou um pouco a ponto de caber na lente.

Não pensei isso na hora, pensei só depois. Atribuí um significado, inventei um significado. E pra mim foi isso o que aconteceu:

“Oi Claudia. Você diz que gosta tanto da gente, o que você pode fazer pra nos ajudar a viver?”. Sem maldade, sem pressão, sem ironia. Uma pergunta simples e honesta, do meu merdinha querido de 11cm. Eu já tinha começado a pensar num plano, no briefing do www.virtude-ag.com, não sabia direito como fazer, mas alguns meses depois consegui colocar em prática. Fui aprender WordPress na marra, tenho centenas de horas de leitura, pesquisa, pedido de ajuda em fóruns, tentativa e erro, apanhando de coisas simples, mas por fim consegui montar a estrutura, e depois tive o privilégio de muita gente contribuir com material.

Uma das minhas formas de escravidão é essa. Na época da montagem do site, 12h ou 14h do meu dia, todos os dias, inclusive em fins de semana, de oferenda aos bípedes emplumados. Hoje consome bem menos, mas às vezes quando me empolgo com algum miniprojeto novo é a mesma coisa: horas e horas seguidas de doce entrega, de me sentir tentando dar uma resposta ao gaturamo-rei. Ter a alegria de saber que ajudo pessoas a mergulharem no birdwatching, e sei que algumas são gente que faz a diferença nas questões de preservação.

Meus mestres às vezes exigem que eu me deite de bruços, rasteje, e com frequência, que eu me ajoelhe. Mas aí pra ser justa devo falar que não são só as aves: são os mestres da fotografia também, que falam “quer tirar uma foto de um ângulo boboca ou quer tentar algo mais interessante? Então nada de compostura, vai pro chão”.

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Os mestres emplumados exigem que você saia da cama bem antes do sol nascer, se vista com roupas ridículas, se besunte com protetor solar e com repelente, e que às vezes passe sede, fome, frio, ou muito calor, ou sofra o flagelo de pernilongos, carrapatos, aranhas, formigas. Os mestres não pedem, mas frequentemente você decide acrescentar um elemento a mais nessa relação SM, que é o prazer de ter um equipamento DSLR. No meu caso, são mais de 3kg de equipamento (pra alguém que tem 1,60m), mas no fim do dia pesam 5kg, e no fim de uma semana de campo parecem pesar 10kg, inclusive com marcas roxas nos ombros.

Claro que nada disso importa. Ou melhor, importa, mas no sentido contrário. Todos os perrengues rotineiros – a humilhação das roupas feias, os insetos ou as intempéries, passar fome, ter mordidas de carrapato pelo corpo, ou de formigas no traseiro, ter uma mancha na perna de uma vez que caí num buraco de erosão de mais de 2m de profundidade… tudo isso só torna a atividade mais valiosa e querida. Me pergunta se eu troco tudo isso por algum lugar em que eu vá com conforto e mordomias, e com a certeza de que verei os bichos bem de perto numa situação ótima? Fuck you. Então por que não vai ao zoológico ou ao Paraíso das Aves de uma vez?

Uma vez ouvimos sobre uma dessas viagens pra Tanzânia. Hotéis de luxo com enormes piscinas de fundo bem azul, tomar café da manhã às 9h, sair às 10h, chegar no local de avistar os bichos depois das 11h (com o mormaço já distorcendo qualquer chance de foto boa). E eu pensando “meu Deus… meu Deus… por que estou tendo que ouvir isso, nada disso é legal, parece relato de pesadelo”.

As aves são meus mestres. Quando estou a serviço delas, são elas que dizem a que horas vou levantar, quando poderei comer, onde devo ir, como devo dançar (ah, você faz ideia do quanto elas podem fazer os birdwatchers dançarem e rodopiarem como baratas tontas de um lado pro outro?). Elas te mandam pro chão, te fazem virar estátua, se elas demoram pra agir a não ser que você esteja com tripé seus músculos começam a doer de sustentar o peso ou posição, mas você vai tentar aguentar pra conseguir o registro do momento do voo ou de alimentar um filhote. As aves me fizeram aprender WordPress e a passar muito do meu tempo tentando divulgar os encantos das aves, na esperança de conseguir novos escravos.

E, como todo bom mestre, as aves não fazem tudo isso de uma forma egoísta ou infantil. Servir às aves é servir a nós mesmos. Acho que ninguém dúvida de que a preservação do meio ambiente é essencial para a qualidade de vida de todos os seres do planeta. As pessoas que continuam destruindo a natureza apenas não se importam com ninguém, exceto elas mesmas.

Sou escrava dos estranhos bípedes emplumados. Com orgulho e, se tudo der certo, pra sempre.