Como a gente se apaixona?

Algo que considero bastante irritante em enredos de filmes românticos dos últimos anos é a quantidade de mulheres neuróticas e sem graça que de repente têm caras lindos, charmosos e legais a seus pés.

A única coisa que faz sentido é pensar que esses filmes são feitos para os milhões de mulheres neuróticas e sem graça no mundo sonharem com uma vida feliz. E só.

É verdade que muitas vezes não sabemos explicar direito nosso interesse por alguém. Ou então, você é capaz de dar uma lista de defeitos e problemas da pessoa, às vezes exagerados, e mesmo assim não consegue resistir.

Também acontecem os casos de paixão fulminante à primeira vista, acredito, e já vi.

Mas também vejo os casos de pessoas com quem você simpatiza, nutre um pequeno interesse secreto, e de repente acontece algo que transforma aquela pessoa aos seus olhos. Uma frase, um gesto, uma situação, e de repente você passa a ver a pessoa de um jeito que nunca viu antes.

Nos filmes esse é o caminho mais seguro pra tornar um roteiro crível: colocar os protagonistas em alguma situação tensa, ou a sós, em que eles podem se conhecer melhor, em que a câmera pode mostrar um se encantando com o outro. Mas muitos filmes dos últimos anos decidem ignorar essa parte, e só te deixam pensando “por que um cara desses vai querer ficar com essa bruaca?”

Mesmo as comédias zueira são capazes de mostrar o nascimento da paixão. A câmera que dá um close por alguns segundos nos peitos da loira ou no bíceps do mocinho, ou mesmo em sorrisos em câmera lenta. Patético, eu sei, mas que paixão não é patética? A paixão nos torna patetas por definição.

Tentei achar uma lista de filmes, e descobri que realmente assisto a poucos filmes na vida, especialmente comédias românticas. Mas qualquer um sabe do que estou falando.

Crédito do que me fez pensar na paixão: London Boulevard, filme com Colin Farrel e Keira Knightley. Demorei pra ver porque pela sinopse parecia caído, mas gostei da filmagem, do ritmo, da interação entre os dois (além da minha queda por bons moços). Não me importo de ser previsível como são os filmes de gangsters. Me divertiu e me fez pensar nos mecanismos de um romance.

Keira: Okay, I’m going to be very brave here. I’m going to be very bold and very brave. If I fell a little in love with you in the countryside, what would you do about it?
Colin: Anything. (silêncio por alguns segundos)
Everything.

Anything e everything. São palavras que em português não têm a mesma poesia e sonoridade pra uma situação como essa.

E diálogos muito engraçados como este, num enterro:

– Where’d you get the Scotsman?
– Outside Marks and Spencer.
– Who’s paying him?
– I am.
– With what?
– I gave him a wank while pretending to be his mum.
– Fuck sake, Briony. Shh.
– It’s common in Scotland.
– Did he tell you that?
– No, I just know it.

E um PS:

Quer descobrir se alguém vale a pena? Consiga situações pra conversar a sós com a pessoa, ao vivo ou por um chat. Ah, óbvio demais? Juro que não é, tem gente que está sempre cercado de amigos, parentes, melhor amiga, nessas situações de grupo o mais provável é a pessoa ter seu comportamento de grupo. Tem que ver como ela é no mano a mano. Principalmente nas situações que não têm um objetivo.

Aliás, dizem que também é assim que nascem as grandes amizades: você ter a oportunidade de passar um bom tempo com alguém, não necessariamente fazendo alguma coisa, mas com bastante tranquilidade e ócio. E é exatamente por isso que é tão difícil conseguir novos amigos na vida adulta, porque a maioria das pessoas não está mais disposta a fazer nada com alguém. Ou melhor, também é raro as pessoas estarem fazendo nada, sempre estarão mexendo em alguma coisa do maldito esperto-fone, o que torna bem mais difícil ser capaz de perceber alguém.

Mas não precisa ser assim. Lembre do Tolkien: “Not all those who wander are lost.”