Começou com 20 centavos, e agora é motivo de impeachment

Lembram das manifestações de junho de 2013? Que começaram com os protestos pela nova tarifa de ônibus, e depois viraram um incêndio pra diversas outras reclamações? E depois as manifestações de março de 2015?

Lembram?

Você lembra o que você pensava e falava na época? Você lembra o que seus amigos e parentes falavam na época?

Eu lembro.

E tenho posts pra provar que não é agora que virei a bandeira.

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Não fui à manifestação de domingo nem em nenhuma anterior. Discurso a favor, tento convencer pessoas, mas ir à rua, nunca. (1) eu sou medrosa, medrosa mesmo. Tenho medo de apanhar da polícia, da turba. Talvez porque um amigo tinha uma amiga que apanhou da polícia, quase perdeu a visão de um dos olhos, desenvolveu síndrome do pânico e não podia mais ficar sozinha, teve que ir morar com a irmã. Sempre penso “podia ser com qualquer um, inclusive comigo”. (2) sem nem precisar falar da misantropia.

Não sou capaz de ir pra rua, mas defendo. E nesse período, que parece ser uma fase de colheita (da uva), esse é mais um tema em que posso fazer a minicomemoração mental.

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Pra quem criticou, reclamou, disse que era só bagunça, que aquilo era algo sem consequência, sem direcionamento, sem efeito. Pra quem reclama e fala mal do ativismo de sofá. Pra quem disse que as pessoas pedem coisas abstratas e que o combate à corrupção e à impunidade nunca ia acontecer de uma hora pra outra: repito o comentário sobre a publicação da Portaria Normativa 236/2016 que tirou os birdwatchers da bandidagem.

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não estou achando que está tudo resolvido, ou que todos os corruptos, principalmente os peixes grandes realmente estão sendo punidos, de jeito nenhum. Mas é uma senhora mudança, não?

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Pra quem reclama de manifestações, feminismo, ou qualquer outra reivindicação: você já fez trabalho em grupo alguma vez na vida? Já teve que chegar num consenso com outros 2 ou 3 colegas de classe, ou num projeto numa empresa? Uma relação horizontal, em que não há um chefe pra falar “vai ser assim e ponto final”?

Quem reclama parece que sabe absolutamente nada sobre os seres humanos, e sobre o quanto é difícil convencer ou mobilizar as pessoas pra qualquer coisa. Eu tenho dificuldade pra fazer birdwatchers gastarem alguns segundos pra protestarem ou apoiarem assuntos que interferem diretamente na nossa atividade. Imagine temas como combate à corrupção, violência contra a mulher. Como é que alguém pode cobrar coerência, sentido e organização?

Também não entendo essa reclamação sobre a elitização do evento. Mesmo tendo como objetivo só cultivar e manter um curral eleitoral (que funcionou), os programas assistencialistas do PT melhoraram a vida dos mais pobres. É verdade que as coisas são montadas para que essas pessoas continuem nessa faixa razoável de pobreza, que elas não tenham acesso a educação, cultura e outros perigos que fazem você começar a enxergar as benevolências com outros olhos. Mas diminuiu sim fome e pobreza. A Bolsa Família, o Minha Casa, Minha Vida vão ser extintos se o PT cair? Há uma boa chance do assistencialismo diminuir mesmo. E depois reclamam que as manifestações são elitizadas, que não há uma parcela grande da população mais pobre indo apoiar com alegria o fim da era PT.

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Neste glorioso 13 de março (em que passarinhei e não vi nada de notícias o dia todo), o Brasil teve a maior manifestação pública da sua história. Mais de 3 milhões de pessoas nas ruas, talvez mais de 5. Provavelmente não há brasileiro, morando no Brasil ou não, que não esteja acompanhando a situação. Corrupção, impunidade, problemas da cultura de jeitinho brasileiro e a necessidade de termos honestidade em todas as nossas ações são assuntos cada vez mais comuns. É desordenado, é uma bagunça, mas é um começo.

Os 20 centavos foram a gota d´água.

E agora espero que transborde muito.

 

http://claudiakomesu.club/manifestacoes-de-marco-de-2015/

http://virtude-ag.com/lado-b-rodada-7-junho-de-2013-especial-manifestacoes-brasileiras/