Combatendo a timidez e os monstros todos os dias

Não se preocupe. Eu sei que é difícil, mudanças não são uma linha reta ascendente, e sim uma espiral, mas uma espiral pra cima e que se desvanece. Você vai passar pelas mesmas encanações muitas vezes, mas sempre será um pouco mais forte.

Todo mundo tem problemas, todo mundo tem esqueletos no armário, todo mundo é material danificado. Todo mundo. A encanação com a sua família, sua casa, é pura bobagem, porque é algo externo a você. Te falei algumas vezes e falo de novo: só o que importa é você.

Você vai conhecer uma garota legal. Vai demorar alguns encontros, às vezes meses, pra começar a falar sobre conhecer família. Quando chegar essa hora, você conta pra ela o que ela vai ver, e pronto. Sem drama. É simples assim. Pensa bem: se ela não quiser ficar com você porque sua casa é feia, sua família tem problemas, ela é muito burra, e por mais que seja dolorosa uma separação, melhor assim. Sua família não é você, sua casa não é você, e se ela não consegue enxergar isso, ela é burra e materialista.

Essa coisa de ser magro demais também é bobagem da sua cabeça. É como eu, adolescente, pensando que ninguém podia se interessar por mim porque eu tenho uma cara esquisita, cabeça grande demais, porque não sou loira, porque não tenho cinturinha. É, meu amigo, é besta assim. Você pode ter ficado traumatizado porque sua colega falou que você não tem bíceps, ou por ficar ouvindo as mulheres falando ou ficando com os caras fortões. Mas isso é só um estereótipo, fetiche, fogo no rabo. Ser fortão saradão te dá as vantagens de ser loira bunduda, morena peituda, esse tipo de coisa, mas é só isso. É uma vantagem inicial, mas olha só: pessoas dos mais diferentes formatos namoram e casam e são felizes.

Você é tão bom quanto qualquer outro, merece muito ser feliz, e tem um pouco mais de obrigação de ser feliz do que os outros, porque você é misantropo e tem essa consciência aguda sobre tantas coisas. Inclusive sobre a brevidade e preciosidade da vida.

Mata a timidez. Timidez não serve pra nada. Faça algo, mesmo que seja pensando que é uma promessa pra mim, uma missão pra cumprir. Volta pra loja que tem a caixa que te encarou, descobre os horários dela, pergunte algo sobre coisas da loja, algum dos produtos expostos, e pode falar do calor, ou da chuva, ou da praia, ou de algum acidente ou notícia de jornal. Sei que tem gente que gosta, mas eu desaconselho o “seus olhos são lindos, seu sorriso é incrível”, mesmo que isso esteja passando pela sua cabeça. Repare se tem algo dos acessórios que ela usa, ou das roupas, que dê uma dica do que ela gosta. Convida pra ir tomar um suco, um sorvete. Não precisa provar nada pra ninguém, não precisa impressionar ninguém. É só papear, sabe? Como a gente faz com taxistas, senhoras em supermercado, gente na mesma fila. Basta se livrar do nervosismo por ser uma mulher bonita, porque o fato é: se for pra rolar, rola. Se não for, se não rolar sintonia, afinidades, não rolou.

Você pode conversar com qualquer um sobre qualquer coisa.

Vai guardando as histórias. Você pode falar pra uma mulher que você quer almoçar só com ela, sem ter o peso de uma cantada, de um encontro, explicando que você gosta de conversar com as pessoas e que nos grupos nunca dá pra conversar direito.

Lembra da história do restaurante em São Francisco? O cara queria papear com a gente (eu e o Cris), e ele simplesmente falou um “Com licença, desculpe incomodar, mas vocês costumam vir aqui? É que é a primeira vez que eu venho, não sei o que pedir” – nem sei se era mentira, afinal, ele morava em São Francisco, e a gente estava lá só de passagem, mas funcionou pra um início de conversa.

Lembra que quando a internet só tinha começado, e ainda eram bem estranha a ideia de conversar com desconhecidos, eu fui até o cara bonito da minha matéria optativa e falei “oi. Me dá seu email?” (o tal que eu descobri depois que era gay, mas que rendeu muita diversão).

Se estiver muito difícil se livrar da timidez, considera aquela ideia de fazer as aulas de teatro.

Mas acredito que é possível vencê-la com algum mantra… o meu era “só se vive uma vez, só se vive uma vez” (mantras de gente que cresceu espírita e depois rompeu com a religião 😛 ), e sempre que eu estava receosa de fazer algo, esse mantra me ajudava a me dar coragem.

Sobre a mulher do show, você não precisava ter conversado algo com ela, era um show e ela estava naquele pique, você podia só ter dançado com ela. Mas se avexou. Porque tem essa falha-base, essa fantasia maluca de você vai conhecer uma garota e ela vai falar “oi. Posso conhecer sua casa e seus pais, agora?”. Pode rir, porque é ridículo assim.

Meu amigo, não tem nada de errado com você, nada que exija você contar de cara.

Coisas que eu acho que precisariam ser postas na mesa numa primeira conversa: se você fosse casado, se você tivesse HIV ou alguma doença terminal, se você fosse procurado pela polícia, pelo PCC.

Você não é uma farsa. Não é pecado morar em casa feia ou ter família complicada, e não falar isso de cara não é enganar as pessoas.

Se livra da timidez. Pode tentar a minha técnica de fazer algo difícil pra ver se com isso destrava (a tal história de eu ter chamado na minha casa o garoto por quem eu era apaixonada, quando eu tinha 15 anos, pra falar “eu sei que você não gosta de mim, que você gosta da fulana, mas preciso ouvir isso de você”), de usar os mantras, ou ir pra aula de teatro. Mas tem que fazer alguma coisa.

E tem que combater todos os dias os pensamentos de que casa feia, família complicada, ser magro te impedem de alguma coisa. Não impedem. Está só na sua cabeça. Tão besta quanto eu pensando que ninguém podia se interessar por mim porque eu era uma japonesa feia e esquisita.

Você vai combater todos os dias. Todas as vezes que o pensamento vier, você vai pensar como é idiota e errado, e se estiver difícil afastar o pensamento, você vai escrever sobre isso. Pelo menos uma página, de por que é errado, besta e idiota. Não precisa me mandar a lição de casa, mas se quiser, pode.

Eu queria poder te mandar sorrir pra uma garota que está olhando pra você, mas entendo que com a falha-base, só bate o terror e você desvia o olhar. Então por enquanto vou te dar duas missões:

– combater os pensamentos errados, mesmo que seja pra ter que escrever sobre isso toda semana, ou mesmo todos os dias;

– papear com desconhecidos. Qualquer um. Pra ajudar a destravar.

É claro que eu não posso te obrigar a fazer nada. Mas espero que você realmente se dedique nos próximos meses a acabar com a timidez e com os pensamentos errados. Você pode ter outras estratégias, não precisa ser o que eu mandei fazer. Mas precisa trabalhar nisso. Sem corpo mole 🙂