Coisas que me estragaram

– Amigos. Algumas criaturas que eram capazes de me falar de coisas que eu achava que só passavam pela minha cabeça. Com quem eu conseguia falar de coisas difíceis, de coisas que eu nem entendia direito, que era difícil achar palavras. Pessoas que compartilharam momentos preciosos na forma de uma confissão, um pensamento, um sonho, um medo. Pessoas pra quem posso xingar um assunto ou uma pessoa, com muitos palavrões, e a pessoa nunca vai me repreender ou falar mal de mim, e sim me apoiar. Gente interessada em saber o que eu pensava sobre as coisas, não apenas em falar, falar, falar.

Essas pessoas me estragaram pro resto da vida. Começou aos 13 anos. Com certeza ajudou a alimentar minhas tendências misantropas, porque depois de saber o que é realmente se relacionar com alguém, as conversas de salão, as notícias de jornal, o nível raso das conversas e sem qualquer elemento de íntimo e pessoal é exasperante. Eu sei exercitar a paciência e alimentar uma conversa educada, mas papear com pessoas sobre coisas que não são importantes nem pra mim nem pro outro é desperdício do meu tempo.

Tenho poucos amigos. Mas estar com esses amigos, ou poder trocar e-mails com eles é tão bom que são eles ou nada. O silêncio e a solidão não me incomodam. O que incomoda é estar com pessoas que não sabem a delícia que é se sentir à vontade, verdadeiro, intenso e querido na companhia de outro ser humano. Ou por não saberem mesmo, ou por olharem pra mim e não me enxergarem de fato.

– A Isaac Azimov Magazine. Ajudou a tornar meu mundo grande. Mas também faz com que eu não consiga pagar pau pra vários filmes de fantasia ou ficção científica que as pessoas consideram “geniais”. Eu penso nas historias da IAM e em geral tudo fica simplório ou pouco original .

– Michael Ondaatje e Cees Nooteboom. Com seus textos totalmente elegantes e personagens com quem você jantaria ou faria longas viagens de carro… não é fácil ler outros livros de literatura depois de ter conhecido esses dois.

– Começar um hobby em grande estilo. Comecei a passarinhar com o Cris. Passarinhar foi uma vertente de passeios em que a gente saía de carro pra andar por estradas de terra, munidos das câmeras e uns lanches, em geral coisas como pães, frios e frutas do Santa Luzia. A gente acordava tarde, saía tarde, nunca via muita coisa, mas no meio do passeio teria um intervalo pra comer uma ciabatta tostada pra ficar com a casca mais crocante, com salmão defumado ou presunto cru.

O Cris parou de passarinhar comigo. Descobri o birdwatching hardcore. Também descobri que meu barato não é ter a maior life list, a maior quantidade de likes. Meu barato é me sentir feliz durante o passeio, ter a companhia de pessoas especiais e queridas, sem estresse, ansiedades ou cobranças. Foda-se minha life list.

– Interesse em artes plásticas. Klimt, Munch, Schiele, Turner, Vettriano, Monet, Lautrec, Sorolla, Edward Hooper. Quando comecei a ver os fotógrafos queridos do Cris, como Ansel Adams, Art Wolfe, Bresson eu já tinha um olhar artístico, eu e o Cris já concordávamos sobre o que era uma foto boa, e ele já confiava em mim pra ser a editora ele, apesar de eu ter evoluído bastante com o passar do tempo. Mas o fato é que, apesar de no início do birdwatching ter passado por um período de deslumbrada com a ave em si, hoje pesa muito mais luz, enquadramento, composição, expressão corporal e do olhar do bicho. E isso faz com que eu não consiga apreciar as fotos de aves como meus colegas fazem. Não é só não apreciar: é vontade de contestar comentários, explicar o que é composição, explicar qual é o problema de perseguir o fundo mais limpo e homogêneo possível.

– Lobo Solitário e outras leituras ou filmes que me fazem pensar em pessoas determinadas, totalmente éticas, amorais, fortes, duronas e ao mesmo tempo repletas de bondade, ternura, redenção. É difícil aguentar pessoas fragmentadas ou subpessoas. Tenho pouca paciência com pessoas que não são gente, com quem não cultiva individualidade, inteligência, compaixão, auto-conhecimento, pensamentos sobre o bem do mundo e o papel de cada um.

E esse é um dos motivos de eu me sentir rompida com o birdwatching. A vontade de divulgar o birdwatching era alimentada pela crença de que mais observadores de aves significariam ter mais gente empenhada em lutar pela natureza. Hoje eu acho que mais observadores de aves significam mais listeiros, mais gente aficionada por life list grandona, aves raras, likes em fotos. Hoje me parece que o ganho pra natureza é muito marginal. Meus colegas já me falaram que só de visitar um parque ou divulgar as fotos pra família já estamos ajudando muito. Pessoas que estão quase todo fim de semana na mata, que gastam milhares de reais, às vezes de dólares por ano, pra ir atrás dos seus lifers. Mas que acham que pagar ingresso de parque já é sua contribuição pra natureza. E que eu não devia ficar levantando esses tópicos de discussão, porque cada um faz o que quer e o importante na vida é ser feliz.

– Viajar com o Cris. Viajar com o Cris faz com que eu saiba o que é andar em lugares maravilhosos na companhia do amor da sua vida, que além de ser seu amor também é uma pessoa inteligente, culta, divertida, com quem me comunico por infrassom. Com quem posso compartilhar impressões e análises, sejam baseadas em cultura e dedução, sejam meras frases ofensivas especulativas zoeira. Viajar com o Cris também significa que nunca terei problemas pra pedir algo do cardápio (seja em inglês, francês, espanhol, romeno… e provavelmente alemão. E o Cris também já foi pra Rússia, Ucrânia, Coréia e China, e se virou). Sem problemas pra me hospedar, pra alugar um carro, encher o tanque, tirar dinheiro, fazer uma ligação, andar de metrô ou de trem. O Cris cuida de tudo, sabe tudo.

Isso faz com que eu não tenha vontade de viajar apenas: eu tenho vontade de viajar com o Cris. Há lugares que eu gostaria de conhecer, mas não me imagino fazendo essas viagens sem o Cris.

– Minha equipe do Marketing. Durante um tempo fui coordenadora de uma pequena equipe de marketing de uma consultoria, que cuidava principalmente de finalização de apresentações e relatórios, mas também fazíamo site, impressos, alguns eventos internos e externos. Eu sei o que é trabalhar com gente competente, dedicada, leal, engraçada. Se alguém estava atolado com um trabalho, os outros ajudavam como podiam, se não podiam ajudar era capazes de ficar até mais tarde fazendo outras coisas (e sem contar no banco de horas), só pra fazer companhia. Eu tinha uma garrafa de tequila e bebericávamos nessas noitadas. As pessoas traziam guloseimas, em geral castanhas, nozes, às vezes algum doce, e outras pessoas da empresa iam na nossa sala pra papear, desabafar, roubar uma guloseima, fazer um break.

Foi um período de uma feliz coincidência de encontro de pessoas com sintonias semelhantes. Não tenho vontade de voltar a trabalhar, me sinto bem ocupada com minhas coisas pessoais. E porque não gostaria de ter que me sentir nostálgica, dando notas baixas pras pessoas, com saudades da minha equipe.

– Cozinhar com o Cris. Valorizo o frescor do alimento, prato bem executado, ponto certo, tempero, contrastes, combinações. Não importa se o lugar é pé sujo ou arrumadinho. Aliás, se é arrumadinho e caro, já começa com a obrigação de ser muito melhor do que um lugar pé sujo. E quando é restaurante estrelado e caríssimo então, precisa ser divino para se justificar. Mas infelizmente vários restaurantes acham que a aparência do local importa muito mais do que o sabor da comida. É assim que muitos restaurantes bem falados não passam no nosso crivo.

Pro restaurante ser aprovado tem que ser no mínimo tão bom quanto o que faríamos em casa. De preferência com sabores e texturas que a gente não consegue atingir.

– O Daniel. Queria poder dizer que é o restaurante de NY, isso seria fácil de resolver, mas não é, é o Daniel meu enteado. Talvez uma pequena fração da vontade de não ter filhos é a consciência de que não será fácil não comparar com o Daniel. E não é fácil superar o Daniel em inteligência, rapidez de raciocínio, senso de humor, doçura, perspicácia, sensibilidade, criatividade, preocupação com o outro, beleza. Além de termos uma grande empatia. O que acontece se você tem um filho e os seus santos não batem? Se você não gostar do seu filho como pessoa? Se, independente dos seus esforços, ele vai se tornando uma pessoa com várias características que te irritam? E tudo piora se você tem a experiência com outra criança pra comparar.

– A Bacio di Latte. Não é fácil tomar outros sorvetes agora. E nunca mais tomei Häagen Dazs.

– Carro automático. Depois de uns anos, simplesmente desaprendi a dirigir carro normal.

 

Você tem uma lista de coisas que te estragaram?

 

“Heart is like this

Blessed and ruined

Once it has known divine beauty”