Coincidências e intuição

Minha mística de meia tigela, e os maldosos podem dizer que estou apenas procurando uma justificativa pra ser desorientada, mas juro que vejo acontecendo.

Eu tinha trocado emails com uns espanhóis que pediram algumas informações de lugares para passarinhar. Daí no sábado, indo pra Campos do Jordão, resolvi passar pelo arrozal de Tremembé. Estou lá numa estrada de terra, cruzo com um carro no sentido contrário, o carro tem um casal. O carro passou por mim e voltou, pediu pra abaixar o vidro e me perguntam: “desculpe. Você é a Claudia Komesu?”

Me reconheceram pela fotinho do Gmail. A mulher, Vega, disse que foi o Manoel que falou “acho que aquela era a Claudia Komesu”, “não, não pode ser, o que ela estaria fazendo aqui?”, “mas eu acho que era, e olha como ela está dirigindo devagar, deve estar vendo aves”, e daí decidiram voltar e me perguntar.

Ainda saindo de São Paulo eu errei uma indicação do GPS, segui reto em vez de virar, e isso me causou uns minutos de atraso. E na estrada decidi não parar num posto pra almoçar, e sim comer depois. Tudo pra dar o timing certo de encontrar com os espanhóis.

Papeamos um pouco e disse que ia mostrar pra eles uma área legal, “me sigam”. Mas faz tempo que não vou lá, e de novo fui pro lado errado. No rodovia virei à direita em vez de esquerda, andei umas centenas de metros e reconheci que estava indo pro lado errado, voltamos. E essa voltinha foi o timing exato pra dar tempo do irmão do Marco Crozariol chegar, quando estávamos pra ir embora porque não achamos alguém pra nos autorizar a entrar na propriedade. Se eu não tivesse dado a volta errada, poderíamos ter ido embora uns minutos antes dele chegar.

Teve um passeio na França, que eu e o Cris não sabíamos se estávamos longe do ponto onde queríamos chegar, se a gente deveria continuar ou voltar. Ficamos alguns minutos parados olhando pro chão. Foi o tempo de aparecer uma senhorinha, com um mapa na mão, pedimos informações “é fácil, vocês estão perto, vale a pena ir, pode ficar com o meu mapa”.

E também contei daquela vez que fui pro Fleury, errei o caminho, levei 15 minutos em vez de 10, e foi o timing exato pra na saída, na hora de passar pela lanchonete, dividir a mesa com a mulher que acabou me contando que estava em tratamento de câncer, que detestava o trabalho mas não podia sair por causa do plano de saúde etc. Que depois eu dei um abraço nela, e tive certeza de que meu atraso era só pra dar esse timing.

Essa viagem pra Manaus não estava nos planos. Os planos eram ir pra Ilhabela fazer fishwatching, já tinha até alugado uma casa de Airbnb. Mas, troquei umas mensagens com o guia, gostei dele, pensei “por que não?”, e marquei. Deu tudo tão certo, foi tão bom que curou meu trauma de Amazônia brasileira.

Não encontro a citação exata, mas há uma história sobre uma mulher que contava a Joseph Campbell sobre uma viagem que faria pra Grécia, descrevendo com detalhes todo o roteiro. Campbell se irritou, e perguntou como ela teria chance de se conectar com o divino se tudo estava tão esquematizado?

Acredito que há um fluxo com o qual podemos nos conectar se a gente se permitir. Fazer coisas sem saber o motivo, sem ter certeza, errar ou fazer coisas atrapalhadas e depois entender o sentido daquilo.

Talvez não exista nada disso. Meu misticismo é tão de meia tigela, que além de eu não seguir nada, nenhum grupo, nenhuma crença, eu também não sou capaz de jurar que existe. Tem o lado racionalista que vai dizer que as coisas que aconteceram são apenas eu dando sentido após os acontecimentos. Isso também é uma das possibilidades.

Mas acredite: a vida é bem mais divertida se você decide acreditar que coincidências não existem, que tudo faz sentido, e que quanto mais consciente dos eventos, mais você se conecta a esse fluxo.

Blogando: visões da ayahuasca e o reencontro com as criaturas fantásticas, nov/17, por Claudia Komesu