Churrasco na laje

[dezembro de 2012]

Ontem fizemos uma Black Party em casa: o grande encontro anual de pretos e cornos, ou seja, nós. Duas pessoas que conheci por causa do meu antigo emprego e que se tornaram grandes amigos, os outros amigos de longa data, e a N que entrou fácil no circuito de old friends.

Os anos passam e permanecemos totalmente à vontade uns com os outros, nos xingando, nos estapeando e, um grande orgulho pra mim: compartilhando pratos, copos e talheres, na bagunça da pequena mesa da varanda.

Olha só, o início do movimento: um cara fazendo musculação, sem camisa, no teto do prédio da frente. Tinha gente que nunca tinha usado um binóculo bom, ficaram encantados. Com o binóculo, não com o cara. Mais tarde o M2 chegou e, vasculhando o cenário com o binóculo, encontrou um apartamento com um pé de maconha de mais de 2m. Não era uma árvore de Natal. E é claro que provavelmente não era um pé de maconha, só uma planta de apartamento super-desenvolvida, mas a vida é muito melhor imaginando que era maconha.

O C deu um passo a mais na amizade: quando as costelinhas foram colocadas no prato, ele picou em pedaços pequenos e foi dando na boquinha de nós chopins. Aceitamos a primeira rodada, depois ele foi fazer de novo e eu disse “Deixa de dar comida pra vagabundo, quem quiser pega um prato e corta pra si”, mas ele me ignorou e continuou nos alimentando.

Entenda: é uma única mesa pequena, e só duas pessoas podiam se sentar à mesa, os outros ficavam numa roda de cadeira afastados, então realmente era uma gentileza.

Uma das cornas da festa agora roda pela Europa, vem uma vez por ano visitar a família e os amigos no Brasil. Olha a prova de amizade: trouxe várias garrafas de cerveja belga pra gente. Carregando sozinha duas malas grandes.

Churrasco sem carne de boi. Expliquei que esta é uma casa contra o desmatamento, mas que não somos xiitas, e que eu compraria carne de boi se alguém me dissesse que churrasco sem boi não é churrasco. Mas todos toparam, então tivemos uma festinha com costelinhas de porco, linguiça, drumet, pão-de-alho, batata assada, e polvo. Tudo muito gostoso, graças às habilidades do M1, que foi o grande churrasqueiro. Ele me olhou com uma cara engraçada quando chegou, e me encontrou papeando com a M na varanda (sim, vivo cercada por Ms e Ns), belas e folgadas, e com a churrasqueira apagada.

Das comidinhas, destaque para o polvo, que é muito fácil de fazer: compre fresco no supermercado, coloque na panela de pressão, sem água, sem sal, sem nada. Deixe na pressão durante 20 minutos. Desligue, tire da panela. Depois pode fazer na churrasqueira (pouco tempo, poucos minutos de cada lado), ou numa frigideira com um pouquinho de azeite. Na frigideira, se quiser pode picar em fatias grossas, um pouco na transversal. Fica muito macio e saboroso.

Nunca compre cru congelado, não vale a pena. É comum eles injetarem água para aumentar o peso. Tentáculos pré-cozidos geralmente são bons, mas o fresco na panela de pressão nunca falhou.

Tentamos compartilhar nossas melhores fofocas de conhecidos ou colegas desconhecidos: ninfomaníacas, strippers bi-sexuais, implante (de silicone, não de pênis), gays e a comunidade gay. Viagens, lugares bonitos, músicas e filmes favoritos. Claro que nunca falamos de política, religião, assuntos de jornal. Claro que sempre fazemos menção à famosa declaração do Nando Reis, sobre o porquê dele não tomar café, e se você não sabe, precisa saber:

“Não tomo café porque se tomo café me dá vontade de fumar, se eu fumo me dá vontade de beber, se eu bebo me dá vontade de cheirar, se eu cheiro me dá vontade de dar o cu”.

Então, da próxima vez que alguém te disser que precisa muito de uma café, você já entendeu a mensagem.