Chega de Fiu Fiu

Queridas leitoras, e queridos leitores que não são cabeça-de-bagre: chega de fiu fiu. Que ninguém se engane: o tal “fiu fiu ” só é divertido pro abusador, pra mulher não é nada divertido. Por que a gente tem que viver tensa e com medo? Mulheres não são objetos, mulheres são pessoas.

Ah, você quer fazer um galanteio, qual o problema do galanteio? Então eu pergunto: qual o objetivo do seu galanteio? Você se apaixonou instantaneamente pela mulher e quer tentar namorá-la? Então você vai ter que ser esperto. Tente encontrar uma situação para puxar assunto sem parecer assustador, e veja se consegue fazer a conversa evoluir a ponto dela confiar em você e você ter a chance de um encontro.

Não, não, nada disso, é claro que eu não quero todo esse perrengue, eu só quero falar que ela é gostosa, qual o problema, um homem não tem mais direito de se expressar quando a mulher é bonita?

Não, meu senhor, não tem. Bestas solitárias podem fazer o que quiserem. Quem vive em sociedade tem que levar em consideração que o que  se faz publicamente repercute sobre todos os outros. Suas palavras, ações, e olhares lascivos sobre desconhecida alimentam um universo de medo e abusos. Você só quer se expressar, e dane-se se isso deixa a mulher assustada, com medo, ou com raiva? Isso significa tratar o outro como um objeto. E mulheres não são objetos do seu prazer e diversão, mulheres são pessoas, seres humanos com sentimentos e toneladas de motivos pra ter medo.

Se você realmente só quer fazer um galanteio, sorria. Quando eu vejo algo bonito, em geral crianças, casais se abraçando, velhinhos de mãos dadas e outras cenas fofas eu sorrio. Se você ficou muito impressionado, nada impede que você preste uma homenagem solitária à mulher que você viu na intimidade de um lugar privado, o que você faz da sua vida íntima é problema seu. Mas nas interações sociais há regras sociais de respeito mútuo. Eu entendo os motivos históricos que fazem com que os homens tenham sido os dominantes por tanto tempo, mas faz tempo que isso não faz mais sentido. Homens e mulheres têm os mesmos direitos.

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Compartilhei o texto abaixo no site http://chegadefiufiu.com.br/. A proposta da campanha é:

“Ninguém deveria ter medo de caminhar pelas ruas simplesmente por ser mulher. Mas infelizmente isso é algo que acontece todos os dias. Pouco se discute e quase nada se sabe sobre o tamanho e a natureza do problema. A Chega de Fiu Fiu foi criada para lutar contra o assédio sexual em locais públicos. Mas queremos aqui também lutar contra outros tipos de violência contra a mulher.”

Depois fiquei pensando… e provavelmente vou escrever mais duas. Contar de quando eu tinha 11 anos e um pedófilo-ou-alguém-muito-estranho me agarrou no Cine 180 do Playcenter, e de quando eu tinha 20 anos, estava num McDonald’s da Paulista, acho que é um que não existe mais, era uma casinha branca com mesas na varanda, eu estava sozinha nessa varanda, um homem chegou e sentou numa mesa próxima, de repente tive a impressão de que havia algo estranho estranho com a mão dele, como se fosse deformada, olhei de novo e vi que ele estava com o pau pra fora batendo punheta. Não sabia o que fazer, pra sair de lá tinha que passar perto da mesa dele, antes de eu pensar se gritava ou o quê ele levantou e foi embora. E lembrei de uma historia do colegial, uma amiga, a gente tinha 15 anos, ela contou que estava andando na rua, um homem foi falar com ela, ela não entendeu o que ele falou, achou que ele estava pedindo informação, ela se aproximou e pediu para ele repetir, o cretino falou de novo com a maior tranquilidade “perguntei se você é boa de meter”.

Não vale dizer que na Índia, na maioria dos países da África, no Iran e no Afeganistão é muito pior. A gente tem que lutar por um mundo menos machista. Lidar com um problema passa por reconhecer, expor, quantificar se possível, mostrar que é geral e escabroso.

Compartilhe sua história também. Chega de fiu fiu.

— x — x  (Texto que mandei pro Chega de fiu fiu. Adaptei as primeiras linhas pro blog)

No feriado de 12 de outubro fui pra Brasília. Passarinhei três dias e depois descansei. Fui almoçar num shopping perto do hotel, uma caminhada de 20 minutos, estava andando na calçada, um carro desacelerou pra gritar o tal “gostooosa”. Por ser de dia em um lugar movimentado eu não fiquei com medo, só xinguei mentalmente.

Quando soube da campanha Chega de Fiu Fiu quis compartilhar essa história porque me fez lembrar da minha adolescência em Limeira – SP. Sou descendente de japoneses, tenho 38 anos, e quando era criança e depois adolescente às vezes sofria bullying nas ruas. Nem sabia que tinha esse nome. Só sei que até hoje eu não consigo olhar no rosto de gente que passa perto de mim na rua, sou capaz de cruzar na rua com um amigo e não vê-lo se ele não falar comigo porque me condicionei a não olhar no rosto de ninguém. Em Limeira as pessoas mexiam comigo, gritavam “Banzai!” “Arigatô!!”, “Japonês, neeeeéee”, ” Eaí, japoronga!!”, ou então ficavam andando do meu lado, puxando o canto dos olhos e falando coisas que eles achavam que soava como japonês. A partir dos 10, 11 anos, quando meu corpo começou a mudar, além do bullying também tinha as secadas*, assobios, aquele som nojento de aspirar o ar entre os lábios, ou o “gostosa”. No caminho da minha escola pra minha casa tinha dois bares, eram os pontos em que eu mais sofria. Às vezes eu voltava pra casa em zigue-zague, atravessando a rua cada vez que via ao longe um homem ou um garoto com jeito de que poderia mexer comigo. Ou então fazia um caminho mais longo, pra não passar por aquela rua, apesar de ser o caminho mais curto entre minha escola e minha casa. Levou vários anos pra eu ser capaz de andar na rua e não ficar tensa quando vou passar por um grupo de homens, sempre tinha medo de que ia ouvir alguma coisa desagradável. Viver em São Paulo, onde ninguém olha pra ninguém, me ajudou a perder isso.

Eu achava que essas histórias eram feridas cicatrizadas, mas descobri que não são. No feriado de 7 de setembro fui pra Brotas – SP, fazer passeio de rafting e KR, e teve dois momentos em que sofri de novo. Quando meu marido perdeu o voucher, voltei à agência pra pedir reimpressão do papel, a moça que nos atendeu no dia anterior só queria saber se eu estava em excursão de japoneses, porque tinha muitos por lá, e enquanto falava ficava puxando o canto dos olhos. E durante o passeio, houve um momento em que nosso KR (é um caiaque inflável grande) passou perto de um bote de rafting, em que havia japoneses, e meu condutor gritou para o outro condutor “a gente pode trocar!”, “é, podemos! Pior que se cair na água a gente não sabe qual é qual”, afinal, japoneses não são pessoas, não têm individualidade, é tudo igual. Eu fiquei triste, me calei, não quis falar com meu condutor na hora pra não pesar o clima do passeio pras outras pessoas, mas ele viu que eu fiquei quieta e tentou puxar conversa comigo. Nosso condutor era um senhor bem simpático e gentil, depois expliquei pro meu marido que eu não quis falar nada porque sentia que não adiantava, “isso é o interior de São Paulo, é assim que eles tratam os japoneses”.

Quando eu era criança e depois adolescente não falava disso com ninguém. Uns dois meses atrás, antes do 7 de setembro em Brotas, conversava com meus pais, eles me contaram que na época que eles eram jovens em Limeira também sofriam esses assédios na rua, diziam que era até pior. Falamos sobre isso mas não foi doído, talvez porque parecesse coisa do passado. A trolagem em Brotas foi desagradável, mas me sentia uma adulta capaz de falar “no interior de São Paulo é assim mesmo”. Entretanto, a verdade é que o incidente reabriu a ferida, porque agora não sou mais capaz de falar do que acontecia comigo em Limeira sem meus olhos encherem de lágrimas, e às vezes chorar bastante.

Tenho um blog e faço questão de sempre comentar temas relacionados com machismo, xenofobia, discriminações sexuais, tacanhices diversas. Nas redes sociais vejo muita gente que é esclarecida em temas diversos, mas quando chega nos tópicos relacionados com os abusos que as mulheres ou qualquer minoria sofre, dizem que é frescura, exagero. Gostaria que essas pessoas fossem capazes de desenvolver algo cada vez mais raro hoje, a empatia, a capacidade de se imaginar na situação do outro. Ou, às vezes, quando estou com raiva, fico desejando que elas passem por alguma situação de serem humilhadas, assediadas, pra ver se isso as torna mais humanas.

 

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*Pra quem acompanha o blog, por que é ofensivo um desconhecido passar na rua te medindo de alto a baixo com olhar lascivo, e por que eu digo que um dos meus orgulhos é dizer que levei uma secada do Angeli numa Bienal? Sou hipócrita? Quer dizer que se o homem é bonito ou famoso então tudo bem? O tal “cantada só é ofensiva quando o homem é feio?”.

Não, não é. Vou explicar.

Homens e mulheres têm o direito de se olhar e se pegarem e etc. Quem me conhece ou acompanha o blog sabe como eu sou a favor de um mundo menos moralista, com menos miséria sexual.

O problema são as relações de desigualdade, o medo. Você está num bar ou numa festa e recebe um olhar lascivo? Ainda que aconteçam casos de estupro em situações assim, no geral nesses lugares você está lá no pique pra arrumar alguém, você se sente segura o suficiente pra ou ignorar o olhar sem sentir medo, ou retribuir.

Pra mim uma Bienal cheia de gente (ou um torneio de xadrez, como diria o Dr. Reid) são uma dessas situações de paquera e segurança. Reparei no Angeli porque é o Angeli, poderia ter sido outra celebridade, ou de repente um desconhecido muito bonito: guardaria a lembrança do mesmo jeito, como uma pequena anedota pra se orgulhar.

Mas se estivesse andando na rua, num lugar com pouca circulação de gente, não importa quem fosse: eu ficaria ofendida e com medo.

Minha mãe é o tipo de gente que acorda bem cedo (e dorme bem cedo). Ela costumava fazer caminhadas numa avenida perto de casa. Sozinha, porque às 6h meu pai preferia continuar dormindo, obrigado. Numa dessas caminhadas um carro passou e mexeu com ela. Ela parou de fazer as caminhadas. Esse é o tipo de consequência que o seu fiu fiu pode ter.

Em lugares movimentados, em que o risco é baixo de você ser atacada, você aprende a tolerar o fiu fiu. Como falei, em Brasília não fiquei com medo. Na verdade, na hora só pensei algo como “olha só… é a capital do país, mas de certa forma é como se fosse o interior do Estado”. Em lugares em que é improvável você ser atacada tem mulheres que até gostam do fiu fiu. Elas se vestem pra chamar atenção, e quando recebem o fiu fiu, sentem-se valorizadas. Mas imagina como é triste a vida de uma pessoa que precisa de elogios toscos de desconhecidos, como deve ser carente de relações de verdade.

Eu sempre defendo que as mulheres podem se vestir como quiserem, e nunca admito o tal argumento de “se vestindo desse jeito, foi ela que pediu”. Pedido é dizer de livre e espontânea vontade “quer fazer sexo comigo?”. Usar roupas provocantes é direito de qualquer um, homens ou mulheres. Agir como uma besta e agredir e forçar o outro porque você é um animal incapaz de segurar suas vontades, isso não tem justificativa nenhuma, você merece ir pra prisão porque não sabe viver em sociedade.

Ainda sobre as secadas, no meu caso em Limeira, esses trajetos da casa pra escola, ou inglês, ou natação, ou casa de amigos, o risco de ser atacada era baixo, eu só andava de dia em horários que a avenida era movimentada. Mas ter que lidar com isso, ter que passar por uma calçada estreita próxima de homens que te olham dessa forma, às vezes fazem comentários, quando você tem 11, 12, 13 anos é algo que nenhuma menina deveria ter que passar. É algo que marca pro resto da vida.

Esse post surgiu porque vi a notícia dos pedófilos e retardados que se manifestaram sobre a menina do MasterChef Jr. Por algum link acessei o Chegadefiufiu.

Homens e mulheres, ou homens com homens, mulheres com mulheres, têm todo o direito de se relacionar. Mas não tem nada que justifique tratar o outro como uma coisa. Mulheres (ou qualquer outra minoria) não são objetos pra prazer, chacota, humilhações. São pessoas, seres humanos como sua mãe, sua filha, sua irmã, e você sempre devia pensar se suas palavras e ações estão contribuindo pra um mundo com menos desigualdades, ou mais babaquices e violência.