Category Archives: Vida de casada

A intervenção federal nem começou, mas já rendeu

É ridículo, eu sei. Mas a verdade que foi só falar de analista, marcar primeira sessão, e já tive um sonho desses que se conta pra analista. Um sonho dentro de um sonho. No sonho dentro de um sonho eu dizia pro Cris que não queria mais ficar com ele, e aquela era nossa última noite juntos. Estar deitado ao lado de alguém que você ama, e saber que é a última vez que você olha pra essa pessoa, não dá nem pra escrever sobre isso sem chorar. Ele aceitava minha decisão, e dizia que continuaríamos sendo amigos, mas que seriam muitos anos até a gente se ver de novo, que ele ia sumir no mundo. Esse foi o sonho dentro do sonho. Quando acordei (ainda no sonho), tentava contar isso pra alguém que não lembro quem era, mas não conseguia nem falar, só chorava.

Então acordei – dessa vez de verdade, o despertador do Cris já tinha tocado, contei o sonho pra ele. E mais tarde naquele dia, ele contou meu sonho pro analista dele, e eles passaram a sessão falando sobre o relacionamento, e a conclusão é que eu demando muito tempo e dedicação, ainda mais porque não sei dar desconto, deixar barato, deixar pra lá, fazer de conta que nada aconteceu. Tudo tem que estar sempre claro e resolvido. Fazemos muita coisa juntos e temos que estar sempre satisfeitos e felizes um com o outro, e quando surge algo que turva isso, a questão precisa ser debatida até o final. É claro que cansa deveras, mas a conclusão é que o Cris gosta. E o próprio analista do Cris comentou que ele nunca reclamou disso.

A intervenção federal nem começou na prática, mas já rendeu seu primeiro resultado. Sentir-se ainda mais próximo e conectado um com o outro.

Pode ter começado com o bater de asas de borboleta, reflexões sobre liberdade e feminismo, e eu posso ter xingado num primeiro momento, pela ideia de ter que fazer algo que eu não tinha vontade. Mas tenho certeza de que vai ser bom. E reafirmo as vantagens de falarmos e escrevermos sobre os assuntos que julgamos importantes, principalmente os temas que podem ajudar alguém a se sentir menos sozinho, mais forte, mais corajoso pra fazer alguma mudança na própria vida. Mesmo que sejam temas que ganham o rótulo de assuntos desprezíveis, fora de moda, em baixa. Digo sempre: um grande foda-se pra opinião pública sobre o que é in ou out. Você é a melhor pessoa pra julgar se algo é digno do seu tempo e atenção ou não.

Sofri uma intervenção federal

Vou compartilhar o krau pra te deixar mais feliz, caso você seja do tipo que de vez em quando se pergunta como eu posso ser tão topetuda.

Numa daquelas conversas de casal em que o outro diz que não te obrigou a nada, mas você sabe que não é bem assim, é daquelas situações em que simplesmente só tem uma resposta: ou é sim, ou você é um monstro sem coração. Foi num jogo de cena desses em que me vi obrigada a dizer “se é o que você quer, eu vou fazer terapia”.

Não sou contra terapia, muito pelo contrário. Eu sei como terapia ajuda as pessoas. Fiz durante uns meses, muitos anos atrás, mas daí desisti, apesar do Cris ter ficado inconformado. Outro daqueles momentos de topete grande “eu gosto de mim (a maior parte do tempo), não me sinto rompida com meus pais, não tenho medo de sexo, acho que nasci pra ser feliz, pra que eu preciso de terapia?”.

Mas aqui estamos, muitos anos depois. Não que eu seja maravilhosa, sei que teve muitos momentos em que o Cris gostaria de torcer meu pescoço, ainda mais por pensar que muitas discussões que tivemos poderiam ter sido evitadas se eu tivesse continuado com a terapia. Mas eu não tinha vontade, e até então, nada muito grave. Ele aceita minha mania de achar que estou sempre certa, que é compensada pela cara que eu faço quando descubro que estou errada, aceita minha misantropia, felizmente não acha que eu preciso de cura gay ou cura misantropa.

Só que nós temos essa questão… uma das grandes questões pra um casal, algo que já separou muita gente. Começa com F, mas não é Facebook. É filhos. Ele queria ter mais um filho. Eu não quero ter nenhum. Ele diz que queria muito ter, mas que teria que ser comigo, que não existe o risco de querer se separar para ter filho com outra. Que aceita que eu não queira ter. Mas aceitar racionalmente não significa que o coração entendeu, o que me rende momentos como esse:

“Quando o Homem de Ferro falou que fez vasectomia, eu fiquei pensando se devia fazer também”

“Por quê???”

“Porque daí acabava com isso. Não ia mais ficar pensando que podia ser diferente… mas daí pensei que não devia fazer, porque vai que você morre” – mais tarde disse que na verdade pensou que eu podia mudar de ideia, mas de qualquer forma me fez rir muito. O filme em questão é o Chef, que tem o Robert Downey Jr numa ponta, fazendo papel de playboy como sempre. Mas a ideia de que o Homem de Ferro te faz pensar em vasectomia é engraçada demais.

E fico aqui blogando. E como um bater de asas de borboleta, algumas das coisas que andei escrevendo fizeram nevar em Moscou. Cris acordou, leu vários posts, ficou pensativo, não quis conversar, explicou sobre o que estava pensando mas que não queria argumentar porque se fosse argumentar eu ia ganhar como sempre, que era só algo emocional. Sobre a tristeza de não termos filho. Sobre como ele queria estar ocupando o tempo dele. Sobre eu ter questões do meu passado que podem ter bloqueado a vontade de ter filhos.

E foi assim que eu me fodi, de novo.

 

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Outras armadilhas da empatia: pensar em como seria pra você em vez de tentar se imaginar na situação do outro

Você fez o post sobre o atendente da NET?

Fiz, postei ontem

O cara ficou insistindo?

Ela falou umas duas vezes que ele estava sendo invasivo e que era errado, mas ele continuou o diálogo, com muita certeza de que não estava fazendo nada demais.

Caramba… mas ela pediu também.

Como assim?

Por que ela deu corda pra ele falar?

Ela não deu corda. Ela disse que era errado entrar em contato com ela usando os dados do cadastro de cliente, que era algo invasivo.

Daí ele respondeu, e ela respondeu de novo… se fosse eu só teria bloqueado o cara.

Se fosse eu, teria feito a mesma coisa que ela.

Por que ela colocou no Facebook? Por que ela só não bloqueou o cara, não falou mais com ele? Não é estranho? Ela reclama de uma invasão de privacidade, e depois coloca a historia no Facebook?

Ela colocou no Facebook com um objetivo.

Eu não teria feito isso. Teria apenas bloqueado o cara, pronto, fim da problema.

E se você fosse mulher?

Como assim?

E se você fosse uma mulher, que está sabendo de várias historias de outros atendentes de telemarketing e taxistas que têm usado os dados de sistema para “cantar” mulheres. Ela não é a única, tem várias outras historias.

Se eu fosse mulher eu teria feito uma denúncia pra NET, mas não teria me exposto como ela fez. A não ser que você seja uma jornalista procurando uma historia.

Eu teria feito a mesma coisa que ela.

Você é um tipo de jornalista. E você tem um dom pra comunicação.

Não, sou uma pessoa comum, e qualquer um poderia fazer uma denúncia dessas. O que esse atendente fez foi errado.

Mas daí ela coloca no Facebook? Agora que ele vem pra cima dela.

Não. Acho que a historia repercutiu e vai fazer com que as pessoas fiquem mais ligadas. No mínimo as empresas precisam fazer treinamento constante tocando o terror nos funcionários, pra explicar como eles precisam entender as questões de privacidade de dados do cliente.

O Facebook é um lugar perigoso, as redes são um lugar perigoso, ela está se expondo.

Como assim?

Aquelas historias que a gente vê, de como a repercussão desses casos alimenta a satisfação dos caras que são doentes.

Eu acho que as historias que a gente vê mostram exceções, e que são poucos os casos de pessoas doentes assim. Acho que a maioria dos caras que usaram os dados de cadastro são apenas gente sem noção, que não entende que o fato dele saber o número não significa que ele pode usar o número. O que a moça fez foi certo, tem muitas coisas que você só consegue resolver se colocar a boca no trombone, se fizer escândalo. Ela fez isso pra que outras mulheres não passem por situações como essas. Essa historia de que cada um vive a sua vida é errado, a gente vive em sociedade, temos que pensar em como o que a gente faz repercute na vida dos outros. Inclusive pra correr alguns riscos se tiver a chance de melhorar a vida das pessoas.

Fomos pegar comida no buffet, ficamos em silêncio por alguns momentos, e depois ele me falou “Você tem razão”. Fiquei feliz por ele entender e fiz um carinho na bochecha dele.

Quando essa conversa começou e tive que ouvir a famosa frase “mas ela pediu, hein?”, usada pra tantas avaliações machistas, meu sangue ameaçou ferver mas consegui controlar e usar a famosa técnica de pedir pra pessoa falar mais, e depois ir fazendo perguntas. O ponto mais importante era ele entender que não estava pensando sob o ponto de vista das mulheres, e sim sob o ponto de vista dele. Quando chegamos nesse ponto, foi fácil.

Então, #ficaadica: se você quiser se juntar à marcha das vadias e qualquer outra luta contra o machismo sob todas as suas formas, mantenha a cabeça fria e tente a técnica de fazer o outro se imaginar na situação.

PS: eu nem sabia que a Marcha das Vadias de São Paulo era hoje… se não fosse pelo Tanquã, acho que teria ido.

PPS: saca só: a organização disse que a passeata reuniu 2 mil pessoas. A PM disse que foram 100. Só nesta foto do G1 tem pelo menos 300. Será que nossos queridos PMs são machistas?

O machismo disfarçado de compreensão

Ontem assisti só a 10 minutos do vídeo da Chimamanda, mas vi que era incrível e indiquei. Hoje terminei de ver. Meia hora de vídeo que vale muito a pena, concordei com tudo, o trecho em que ela fala que as mulheres são obrigadas a fingir que gostam de algo mesmo que não gostem – e depois não é uma surpresa que elas façam da capacidade de fingir uma arte, isso me trouxe lágrimas. Sempre critiquei as futilidade e falsidades femininas, nunca tinha parado pra pensar o quanto isso também é peso da cultura.

Abri o vídeo no Youtube, e fiz aquela auto-tortura que é ler a caixa de comentários. Homem dizendo que o vídeo é legal masssss tem o problema de ser muito centrado na Nigéria, e ela mesma fala dos perigos da “historia única”. Caralho. Qual o problema de ser centrado na Nigéria? Ela começa o vídeo explicando que vai focar na Nigéria, que é a realidade que ela mais conhece e o país do coração. Eu assisti ao vídeo inteiro não com um interesse antropológico, mas me identificando com tudo que ela falou. Sou uma brasileira neta de japoneses e concordo com tudo.

Daí aparece outro cidadão para comentar o trecho em que ela conta de uma vez que deu uma gorjeta para um guardador de carro, e o cara olhou pro amigo dela, que a acompanhava, e falou um “obrigado!”, bem emocionado – na suposição de que eles eram um casal, e que podia ser a mulher entregando o dinheiro, mas que com certeza o dinheiro era do homem. A Chimamanda também fala dos restaurantes em que os garçons só cumprimentam os homens e nem olham pra cara das mulheres – outra realidade brasileira, que já me fez pensar muitas vezes que é porque eu sou uma japonesa baixinha, o Cris é um europeu alto, e que é por isso que sou ignorada. Bom, voltando, o cidadão em questão comenta que essa coisa dos homens se cumprimentarem e ignorarem as mulheres é uma “forma de respeito por elas estarem acompanhadas”.

Esse homem não consegue entender o quanto essa historia de homens falarem com homens e ignorarem as mulheres é outra grande manifestação da desigualdade, o quanto as mulheres ou são cidadãs acéfalas de segunda classe, ou então são criaturas traiçoeiras e perigosas, e que se você puxar conversa com uma delas logo ela vai pular em cima de você, te agarrar e querer fazer sexo com você no meio de todo mundo e você vai ficar lá com aquela cara de bobo, se sentindo culpado por ter tentado conversar com ela.

Outro comentário equivocado do Youtube é sobre a historia da professora da Chimamanda ter lançado o desafio “quem tirar a nota mais alta neste teste poderá ser o monitor da classe”, e a nota mais alta foi da Chimamanda, que não pode ser o monitor porque o monitor só podia ser um menino, a professora não explicou porque achava que era óbvio. O comentário foi “e o mais incrível é que era uma professora, uma mulher”. Ha. Como se o fato de nascer mulher te livrasse dos condicionamentos culturais. Não livra. As mulheres podem ser tão machistas quanto um homem, tão equivocadas quanto os homens na visão do que é adequado ou não a uma mulher fazer. Porque é cultural.

Chimamanda fala que um amigo dela, negro, perguntou por que ela diz “eu, como feminista”, em vez de falar “eu, como ser humano”. Mas é a pessoa que fala “eu, como homem negro”. Precisamos de palavras específicas para tratar de temas específicos.

Me perguntaram por que feminismo deveria ser algo positivo, se machismo é algo negativo. Ora, não é óbvio? Porque culturalmente ser macho tem sido sinônimo de abusos de poder. E ser fêmea tem sido sinônimo de ser a parte abusada. Por isso as duas palavras têm significados tão antagônicos.

Ontem falei pro Cris que descobri que sou feminista, e que ler e escrever sobre o feminismo tem me trazido alegrias que o birdwatching nunca trouxe. Tantas coisas pra ler, assistir, me identificar, ver como é um terreno amplo para panfletar e tentar influenciar amigos e conhecidos. Como é bom encontrar pessoas que concordam com a ideia de que o silêncio e omissão são errados, que é preciso falar das coisas que são importantes, que conversando sobre isso podemos mudar a cultura e a vida das pessoas.

É um terreno árduo. Mesmo pessoas esclarecidas, cultas e descoladas ainda acham que feminismo é odiar homens, ou então dizem que não é preciso falar disso porque o mundo mudou e hoje todo mundo é igual. Não é. Mas talvez seja daqui a algumas gerações.

 

É possível viver sem um grande amor?

Mais desdobramentos sobre a ideia de que sem um pau a gente não é nada.

Pra começar, preciso dizer que só o meu descaramento explica posts como estes, já que teoricamente não tenho autoridade nenhuma pra falar disso. Nenhuma. Comecei a namorar o Cris quando tinha 27 anos, antes disso tive um namorado por uns meses quando tinha 24 anos, e antes dos 20 não fiz nada, a não ser sofrer paixões platônicas, a maioria delas devidamente declarada para os cabras. Dos 20 aos 27 teve esse namoro, casos diversos, muitos momentos pra se sentir desolada, sozinha, idiota, suicida, perguntando pro guruzinho quando eu ia conhecer um cara legal.

Então eu conheci. E vivi o conto de fadas, de ser a garota calada, estranha, sem graça, pobre, e que acaba se casando com um sócio-diretor da empresa onde vai trabalhar. E não é pouca marmelada: entre os vários motivos pra gente não dar certo, tinha o fato do Cris ter um filhinho pequeno. Mas que gostou de mim à primeira vista, e apesar de não ser filho de sangue, de muitas vezes termos conversas, discussões, piadas e trolagens mútuas como se eu fosse irmã mais velha em vez de madrasta, hoje entendo perfeitamente o ímpeto de sacrificar sua própria vida pela do seu filho. Eu morreria pelo Daniel.

O que eu sei sobre a vida sem um grande amor? Como posso defender a ideia de que as pessoas podem viver sem um grande amor?

Tenho reflexões e algumas certezas. E compartilho no blog, como mensagem na garrafa, porque talvez te ajude a também se sentir mais livre e dona da sua vida.

1 – Eu tenho certeza de que não há nenhum motivo realmente válido e concreto que obrigue uma pessoa a colocar a busca por um grande amor-família-filhos como um dos principais eixos da sua vida

Na maioria das culturas a noção de família, de casar e ter filhos é algo muito forte. Mas é apenas isso: cultura, costumes. Não acredito em relógio biológico, hormônios ou feromônios, programação de DNA, algum Deus ou o que quer que seja que obrigue um ser humano a buscar um par e procriar.

Ok, muita gente vai concordar que não há nada de obrigatório em ter filhos, aliás, parece haver cada vez mais casais que optam por não ter, o que não é problema algum pra espécie humana e pro planeta Terra, pelo contrário. Enquanto não acontecer alguma revolução trazida pelas super-inteligências artificiais, a diminuição da quantidade de pessoas na bolota azul só traz benefícios.

Entretanto, a ideia de que não existe nada que obrigue alguém a buscar um par, essa é mais complexa. Vamos lá.

 

2 – Eu acredito que a ideia de que precisamos viver com um par a vida toda, ou boa parte da nossa vida, é uma construção cultural

Ter um parceiro fixo facilita muito a criação de uma prole. Até pouco tempo atrás, era essencial pra você não ser estuprada pelos machos do grupo, e ajudava muito na sua própria sobrevivência.

Hoje as coisas são diferentes para um pequeno estrato da humanidade, tenho plena consciência de que na maioria dos lugares do mundo uma mulher que não tem um parceiro masculino fixo, e que imponha um mínimo de respeito, tem muito mais chances de sofrer abusos diversos.

Numericamente não somos nada. Mas se pertencemos ao privilegiado estrato que não depende da afeição de um homem para ter onde morar, ter o que comer e não ser violentada por estranhos (nem vou entrar nas questões de violência doméstica), o fato é que também temos voz para promover um estilo de vida em que as mulheres tenham cada vez mais poder.

— x – x —

Não é errado querer viver um grande amor, família, filhos, entendam bem, não sou o anticristo. Mas o que eu queria promover é a consciência de que temos toneladas de motivos culturais para termos seguido esse padrão até agora – e que é fundamental reconhecer que somos fruto desse contexto. Ter consciência de que nossa historia como mulheres nesse planeta, a forma como a raça humana viveu até agora nos levou a esse padrão social. Mas ele é apenas uma construção, fruto de escolhas feitas por pessoas, geralmente as pessoas com poder na sociedade, os homens. Já há algumas décadas e cada vez mais temos capacidade, espaço e força para seguir outros caminhos. Mas raramente seguimos.

 

3 – Eu acredito no imenso peso da cultura de massa influenciando nossas escolhas

Como viver? Que caminho seguir? O que é o bem, o que é o mal? O que é o belo? Por que coisas ruins acontecem a pessoas boas? Estou fazendo o certo? Primeiro criamos a religião e os representantes religiosos para nos ajudar a responder essas questões existenciais. Mas além da religião ser algo fora de moda para muitas pessoas, o fato é que mesmo os religiosos não estão imunes à enorme influência dos meios de comunicação de massa, que nos mostram pessoas e historias de vida inspiradoras, lindas, sob uma luz incrível, narradas ou filmadas de forma emocionante e empolgante, que nos fazem querer ter aquela aparência, usar aquelas roupas, viver aquelas situações, ser imensamente feliz daquele jeito.

E aqui a vaca vai pro brejo. Porque na indústria de cultura de massa raramente há bons personagens femininos, e a humanidade tem seus sonhos alimentados pela indústria de cultura de massa, que sobrepujou fatality finish him exterminated as religiões e os mitos. É pelos filmes, livros e novelas que passamos a formar nosso imaginário do que é desejável, aceitável, odioso.

Não é só uma questão de haver poucos personagens femininos bons: pra começar, raramente há personagens femininos. Tantas historias em que a mulher é só um acessório, um pedúnculo pro herói ter com quem trepar ou flertar ou ganhar um colinho ou mesmo reencontrar sua fé e alegria, mas a mulher na forma de musa, não como uma pessoa de verdade.

Um dos vídeos no post das blogueirasfeministas, linkado abaixo. Se aparecer sem legendas, clique no ícone cc, depois no ícone de ajustes, aquele símbolo de engrenagem, tem a opção de legendas em português:

Quando as historias têm protagonistas mulheres geralmente são os Chick Flicks – os romances, que mostram… tcharam, mulheres em busca de um grande amor. No geral bem inconsequentes e previsíveis, já me diverti com vários – em geral dos mais antigos. De uns tempos pra cá parece ter uma grande onda de filmes em que as mulheres protagonistas são das mais toscas, neuróticas, fúteis e idiotas possíveis.

Há muito o que ler sobre cultura pop e feminismo. Este artigo é bem legal, e os vídeos da Anita Sarkeesian estão com legenda. O da Manic Pixie Dream Girl é bem engraçado (mesmo com toda a polêmica sobre o termo), e o da Smurfette também é ótimo:

http://blogueirasfeministas.com/2011/08/hollywood-feminismo/

E também lerei o http://feministfrequency.com/

 

É isso, meus queridos. Provavelmente os temas feministas vão passar um bom tempo rondado minha cabeça e meus posts. Não por odiar os homens, ou me sentir vítima do patriarcado, nada disso. Mas por acreditar que é possível lançar mensagens em garrafas e ajudar outras mulheres a se sentirem as protagonistas, e não coadjuvantes, de suas próprias vidas.

Preciso do seu olhar pra saber quem eu sou

Quando comecei a namorar o Cris uma das coisas lindas que ele me falou é que precisava do meu olhar pra saber quem ele era. Minha cara está aí, em posts diversos. Imaginem o quanto não chocou a burguesia quando correu a notícia que um sócio-diretor recém-separado estava saindo com alguém como eu. Cristian ficou louco. Só macumba explica. Não entendo.

Contrariando tanta torcida e energia positiva, durou. Mais de 10 anos já.

Teve alguns motivos pra gente ter dado certo (e muito mais motivos pra não dar certo). Mas no balanço de tudo, acredito que esse foi um dos motivos fundamentais: o meu olhar. O que você faria se encontrasse alguém que te ajuda a saber quem você é? Alguém cujas observações ou perguntas fazem você se entender melhor, se construir, se dilapidar, ser mais feliz. Mas não é no divã uma, duas ou três vezes por semana, e sim ao longo do seu dia, às vezes diluído, às vezes intensificado pela convivência como casal. E é um olhar amoroso, de quem te conhece mais do que você mesmo, e ainda assim te ama.

Tenho inúmeros motivos pra ter me apaixonado pelo Cris, mas na historia que construí, se fosse pra explicar pra alguém, a primeira frase que me vem à cabeça é que me apaixonei por ele porque ele não tinha medo de mim. Pareço uma criatura com opiniões e franqueza demais? Imaginem como eu era 10 anos atrás. Muita fúria e certezas juvenis mas sinceras, se chocando frente à indiferença, descaso, medo, tacaquinhes. Foi a pessoa que fez eu sentir que não era errado viver com essa tempestade por dentro. Mais do que isso, que era possível alguém se apaixonar com alguém com uma tempestade por dentro.

O Cris é meu amor. Hoje tenho tido tomado o cuidado de panfletar que ter um grande amor é apenas um dos caminhos possíveis, que é possível seguir outros, mais difíceis eu sei, já que temos poucas referências no imaginário sobre como é ser mulher e viver sem um grande amor. O Cris é meu amor, a pessoa com quem quero viver a vida toda. Mas não é a pessoa que me traz essa sensação de conforto do olhar.

Hoje, por algum motivo que não sei explicar direito, senti saudade da pessoa que me trazia essa sensação deliciosa de ser observada atentamente, analisada, e aprovada. Não passei muito tempo com ele, mas todas as vezes em que ficamos juntos, ele estava lá, comigo. Não de corpo presente e a mente divagando, nem havia esperto-fones ainda, mas já era uma qualidade ser capaz de estar inteiramente em um lugar. Uma pessoa com um raro entendimento e compaixão pelos seres humanos – assim me parecia, foi por um post que demonstrava tanto carinho pelas pessoas que me interessei por ele, e depois conheci e catei. Olhos lindos que me encaravam sorrindo, com um ar de quem estava se divertindo por eu ser peralta. E destemida. Alguém pra pegar a carteirinha da UNE da minha mão pra analisar minha foto e dizer como parecia outra pessoa, ou pra pegar um papel em que escrevia números… talvez meu telefone?, e comentar o quanto meus oitos são desencontrados, que eles nunca iriam se encontrar. Pra conversar sobre qualquer assunto. Alguém tido como muito culto e inteligente, e que conseguiu no mesmo dia me fazer uma ofensa que eu rompi com ele e nunca mais o vi, e também um elogio sem tamanho que nunca vou esquecer.

A ofensa foi um momento de fraqueza. Eu sabia que ele tinha um encosto, não me pergunte como, mas eu sabia. E sabia também que era influência desse encosto a noite que ele chegou pra me falar disparates, frases cheias de sarcasmo e injustiça sobre um assunto idiota, nem era sobre mim, era sobre algo que eu teria feito pra magoá-lo. Ficou falando, falando, até me fazer chorar. E quando eu já tinha decidido ir embora e nunca mais olhar pra cara dele, de repente ele voltou a ser a criatura doce que eu conhecia. Mas então já era tarde demais.

As últimas palavras que ouvi dele, o elogio sem tamanho já que era vindo de uma das pessoas mais brilhantes que eu já tinha conhecido,  foi me falar “mas me diga que eu estou errado… me convença que eu estou errado, como você sempre faz”.

Olhando pra trás, a conversa que me fez chorar não seria motivo pra romper com alguém. Sei que teve uma parte de orgulho e humilhação pública, foi na frente dos conhecidos, e eu também tinha o meu blog e a minha imagem de criatura independente e amoral. Mas nessa época eu também estava saindo com um outro cara, e os motivos se juntaram. Não havia motivo algum pra eu ficar ouvindo desaforo daquele.

Mas sinto saudade. E se não fosse pelo outro, acho que eu teria engolido a humilhação e feito as pazes.

— x — x

E esta é minha garrafinha de hoje. Se por algum motivo maluco você estiver lendo este post, só queria dizer que sinto saudades e torço pra que seu fatalismo e crença num destino trágico tenham se quebrado frente a alguma mulher muito legal, que te provou o quanto você estava errado sobre tantas coisas.

Juras de amor eterno, quem não entende, não sabe nada da vida

Se você não for capaz de fazer juras de amor eterno, de todo coração, não tenho nem palavras pra expressar sua pobreza. Você está perdendo pelo menos metade da diversão. Da vida toda.

Porque a linguagem da paixão é absurda e ridícula assim, como uma jura de amor eterno. Quem é capaz de garantir qualquer coisa, por um ano, uma semana, um dia que seja? Nada é garantido e coração só entende essas coisas ridículas e absurdas como “eu vou te amar pra sempre”, “você não sabe o quanto eu te amo”, ou “nem eu sei o quanto eu te amo”, “você é a coisa mais linda que eu já vi”, “how could I dance with another / when I saw her standing there?”

É assim que a gente conversa com o coração, é só desse jeito

Dizer “eu gosto muito de você porque você é inteligente, divertida, passamos bons momentos juntos e gostamos dos mesmos filmes e cantores”. Blarghhh!! Serve pra explicar pra sua vó porque você gosta de alguém, ou melhor, talvez pro seu contador, nem sua avó engoliria essa.

Ser apaixonado é ser ridículo. Pede pra alguém te explicar por que você ama o (a). Se a sua alma está ok, se não tem nada machucando, a resposta pra essa pergunta esquisita é um olhar abobalhado, olhos úmidos, um suspiro, dedos retorcidos, algum detalhe patético do outro que só faz sentido pra você.

Amar de verdade, sentir de verdade, querer viver de verdade é se expor ao ridículo o tempo todo.

A vida é breve demais pra gente ter que avaliar, a cada momento, o que os outros estão pensando de nós, o quanto estamos sendo observados e julgados com notas baixas. Foda-se o que os outros pensam, a sua vida só quem deveria viver é você.