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Você é feia. Mas não existe conversou, assunto encerrado

Você já deve ter visto o vídeo de Mark Gungor que explica a diferença entre os cérebros de homens e mulheres. Basicamente mostra que no cérebro do homem tudo fica compartimentado, e que a favorita é a caixinha vazia – os momentos pro homem fazer nada, pensar em nada, e que geralmente as mulheres não entendem. E mostra que no caso das mulheres, não existem compartimentos – tudo se conecta com tudo.

Minha internet está péssima, não consigo nem mandar mensagem no Facebook, mas parece que este vídeo aqui mostra:

Nessas repercussões do meu latido de esquilo, temos momentos assim. O Cris achando que se conversamos durante horas, então está tudo resolvido e assunto encerrado. Eu chateada porque a primeira coisa que ouço na manhã seguinte, depois de termos passado horas numa discussão feia, é uma frase rude quando eu fui acordá-lo 12h30 – porque ele costuma reclamar quando a gente toma o café da manhã sem ele (12h30… nas férias às vezes nossos horários ficam bem malucos).

Na manhã seguinte à manhã da patada passei um tempo ouvindo sobre as preocupações dele, questões sérias e angustiantes, eu sei… mas umas horas mais tarde, depois do almoço às 16h eu pedi pra gente conversar. Falei pro Daniel jogar um pouco sozinho, que voltaríamos em 10 minutos (claro que levou 50, e porque o Daniel foi lá nos buscar).

Em resumo expliquei que estava me sentindo pequena, sem importância. Que eu sabia que as preocupações dele são coisas sérias, difíceis, há anos lidamos com isso, e que eu acho que no geral sou uma pessoa compreensiva e que o apoia. Mas que nesses momentos, quando ele me machuca assim, eu não consigo deixar isso de lado e só pensar que ele tem preocupações sérias. Ele me falou que eu importo muito, mas que ele achava que nosso assunto estava resolvido porque a gente já tinha conversado. “É? Uma discussão que a gente teve dois dias atrás. Quanto você acha que é um tempo razoável pra que uma discussão desse nível esteja apaziguada? Algumas horas? Um dia?”, ele falou que achava que se conversamos sobre o ocorrido naquele dia, então em um dia tudo deveria estar de volta à normalidade.

Ai putaqueopariu. Os momentos em que a gente tem vontade de bicudar os homens honestos e burros que a gente ama, e suspiramos pelos canalhas malandros que sabem perfeitamente que não é assim que as coisas funcionam. Eu já expliquei isso muitas vezes, mas acho que o Cris se recusa a aceitar porque ele gostaria muito que o mundo fosse assim: você faz uma cagada, conversa sobre o assunto, e pronto, está resolvido instantaneamente, sem repercussões. Ele não que aceitar que tem ferida, tempo pra sarar, cicatriz, lembrança.

Os homens honestos e burros acham que conversou, acabou. Os canalhas, ou os honestos com um pouco mais de cérebro, entendem o funcionamento do cérebro feminino e a importância de rituais. Um presente com um cartão pedindo desculpas. Um jantar ou um passeio especial, em que de novo se pede desculpas. Qualquer coisa que demonstre que a pessoa não esqueceu ou já arquivou o assunto, que ela está pensando em você, tentando encontrar uma forma de diminuir sua dor, e isso faz com que as coisas sarem mais rápido.

Agir como se nada tivesse acontecido não ajuda a sarar. Ou perguntar num tom de voz frio e formal “você está melhor?” de longe, fazendo outra coisa, também é péssimo, se é só isso que você consegue fazer é melhor não falar nada.

Eu tenho guardado até hoje um bilhetinho que o Cris me escreveu uma vez, anos atrás, pedindo desculpas por uma vez que foi rude comigo e discutimos. Eu teria gostado muito de acordar no dia seguinte da discussão e encontrar um bilhete amoroso. Em vez de eu ter que acordá-lo 12h30, e levar uma patada.

As coisas estão se resolvendo. Não sinto mais a dor e ódio de antes. Verdade verdadeira mesmo é que fiquei pensando várias vezes nele me falando “porque a Tatá tem essa cara feia natural”, ou “a mulher ficou olhando tanto porque não entendia como o Daniel podia ser tão bonito, se ele fosse seu filho” – sim, ele falou coisas desse tipo, e tem coragem de dizer que é tudo brincadeira, no mesmo nível de “a Tatá não sabe fazer contas”, e que se eu fico chateada é só porque eu tenho esse calcanhar de Aquiles com questões da minha aparência.

Eu sei que eu tenho. Mas eu também sei que o que ele falou não se fala pra ninguém, muito menos na frente da família, dos pais dele, do irmão. Numa dessas vezes a esposa do irmão dele chegou a falar “caramba! Que é isso, Cristian? Vai dormir no sofá. Sofá, sofá, sofá”. Tinha meus sogros e crianças à mesa, e eu realmente fiquei sem reação. Mas talvez o certo fosse no mínimo falar no ouvido dele “você é um cretino filho da puta sem coração, vai tomar no seu cu, e vai ficar um mês sem sexo”.

Você é feia, as pessoas de Okinawa são feias e atarracadas então sua família é feia, você é feia, minha família é bonita. O Daniel sendo tão bonito assim nunca poderia ser seu filho, ou seja, minha ex-esposa é bonita, e você é feia. Sua amiga que tem a mesma idade que você parece muito mais jovem, caramba que surpesa descobrir que vocês têm a mesma idade, eu nunca imaginaria isso.

Claro que essas são as exceções, que 99% do tempo ele me fala que me ama muito, que sou o amor da vida dele, que tem muito tesão por mim, que não vive sem mim, que mudei a vida dele, que por minha causa ele é uma pessoa melhor.

Mas estou aqui analisando as coisas. E não vou comprar a história dos atenuantes. De que falamos muitas coisas em tom de brincadeira, e que essa era apenas mais uma. Que só caiu pesado assim porque eu tenho essas questões com a minha aparência. Que ele fala muitas coisas sem pensar, sem intenção de machucar, e que é imperativo que eu entenda que ele não falou com intenção de machucar.

Eu expliquei que isso é pior. Que pra mim é melhor pensar que tem algo podre dentro dele que faz com que desde criança ele goste de falar coisas pra machucar, e que ele quer resolver isso. Do que só pensar que ele é burro-idiota-cretino e que acha que não tem nada demais em falar frases como aquelas.

Você é feia. O Daniel é lindo e nunca poderia ser seu filho porque você é feia. Você tem essa cara natural feia, então é fácil pra você fazer caretas e ganhar o concurso de alce-feio. Doeu como o latido do esquilo. Mas eu estou lidando com isso, processando, e encontrando formas de me proteger, de ficar mais forte, de não deixar você me machucar mais assim. Você é o amor da minha vida, não tenho intenção de me vingar, mas não posso ter essa fragilidade, ainda mais com alguém que diz que sempre fala coisas sem pensar e que é tão chato que as pessoas não te entendam.

Você vai ficar de saco cheio e irritado de ter que ficar ouvindo ou lendo sobre essa historia. Não sei por quanto tempo. Ao vivo provavelmente não vou mais falar nada com você, mas vou blogar sobre o assunto sempre que der vontade, e você merece todos os xingamentos que eu escrever.

 

O latido do esquilo: o Cris acha você feia

O que é beleza? O que é ser uma menina bonita, uma mulher bonita? Quando essas coisas passam a importar, e quando deixam de importar? O que você faz com pessoas amadas que falam coisas pra te machucar? Como não cair numa situação de engolir sapo, mas também não partir pra vingança ou infantilidades?

Sempre soube que não fazia parte do grupo das meninas bonitas e descoladas. Desde que eu tinha uns 12 anos eu sei conversar sobre muitas coisas com as pessoas, sei ouvir, vejo que as pessoas gostam de conversar comigo e me falam coisas pessoais, confidências. E nunca achei que isso significava alguma coisa. Pata. Idiota. Fucking padrão de beleza imposto pela mídia.

Saí de Limeira, fui pra faculdade, aprendi um monte de coisas. Recebi o aval da minha mãe pra namorar 🙂 Até então ela dizia que não podia, que atrapalhava os estudos. Mas daí quando sua filha vai chegando aos 20, e nada de apresentar um namorado, você começa a ficar preocupada que vai ter uma filha encalhada – uma ideia que me divertia bastante, confesso. Os anos de educação repressora pareciam bem vingados ante a preocupação de que sua filha não vai arrumar ninguém.

Mas eu não estava encalhada e sozinha, só não contava isso pros meus pais. Aos 20 e poucos anos eu já tinha feito a grande descoberta: o padrão de beleza não importa. Só homens idiotas ficam com alguém com base apenas na aparência. Tem muita gente procurando companhia e experiências, e eu tinha três grandes vantagens: saber conversar sobre muitas coisas, ser mulher, não ter medo de sexo.

Eu sabia que não era bonita como uma moça loira de olhos azuis é bonita, uma morena de longos cabelos e corpo cheio de curvas é bonita, ou uma ruiva de pele bem branca é bonita. Mas mesmo sendo uma japonesa baixinha de óculos e cabelo curto, eu me sentia bem na fita no meu nicho ecológico. Uma sensação boa de segurança, a ponto de só achar engraçado se um cara com quem eu estava saindo vinha me contar que fulana tinha falado mal de mim “ela falou que eu estou saindo com uma japonesa feinha”, eu sorria por dentro e pensava (mas não falava pra ele) “Inveja, sua gorda. Você é quem queria estar catando meu lolito”.

Hoje eu sei que quando comecei a namorar o Cris na consultoria, isso deixou várias pessoas pasmas. Por que um sócio-diretor recém-separado, descendente de europeus, 1,80m, vai gastar seu tempo com uma japonesa pobre, baixinha, feia, gordinha, sem graça? Por quê? Homens e mulheres se perguntavam isso.

Pois é. Estou recontando isso pra explicar o quanto eu estou acostumada e não me importo com os maldizeres sobre mim.

Muitas vezes já quis ter outra casca, já me senti uma Ferrari num chassi de Fusca, mas faz tempo que isso não importa mais. Há mais de 10 anos assumi um compromisso de fidelidade, e só tem uma pessoa cuja opinião sobre minha aparência conta. É o Cris. O cretino que é o amor da minha vida, e que em menos de um ano e meio conseguiu me fazer sangrar três vezes, ao falar coisas que ele disse que eram brincadeira mas machucaram muito. Ele é a única pessoa capaz de machucar tanto, porque é o meu amor. A única pessoa pra quem me importa se ele me acha feia ou bonita. E conseguiu três vezes me falar que estou velha ou feia.

Dói. Dói dele ter que aguentar minha fúria e se desculpar por horas. De me escorrerem lágrimas frias de ódio, de eu tremer de raiva e desgosto. Dói de na terceira vez eu falar “chega. É a terceira vez em menos de um ano e meio, é muita coisa. Eu não vou ser vítima disso, eu não quero me sujeitar a você. Vou parar de me importar com a sua opinião. Vou encontrar alguém que goste de mim como eu sou. Estou cansada de você me falar que eu sou feia, que as pessoas de Okinawa são feias e portanto que a minha família é feia, chega disso”.

Eu não sei bem o que eu ia fazer. Não estava pensando em separação, e sim em algo como voltar a usar roupas pra chamar atenção, talvez flertar por aí e me sentir paparicada por homens que iam gostar de papear com uma japonesa coxuda, relativamente peituda, de lábios carnudos, que gosta de fotografia de natureza, viajou pra vários países, sabe conversar sobre um monte de coisas. Recompor meu pedaço de amor próprio que meu amor-cretino é capaz de destroçar.

Horas discutindo. Não uma discussão. Eu vociferando, ele tentando apaziguar, explicar, se desculpar. Num dos momentos eu queria ter jogado ele pela janela do trem, se estivéssemos num trem “eu não sei por que faço isso. Fico envergonhado”. Envergonhado? Envergonhado? Constrangido? Aborrecido? Ah, mas vá pra putaqueopariu, enfia o constrangimento no cu. Não falei, só pensei, me sentia cansada demais pra xingar.

Por fim, o que trouxe a paz pra nos deixar dormir foi ele falar que desde criança ele fala coisas pra machucar as pessoas. Que ele não sabe por que faz isso, mas faz. Dizer que ele tem orgulho de ver que o Daniel se preocupa em ser gentil e falar coisas legais pras pessoas, e que ele sabe que isso tem uma boa influência minha. Que eu faço ele querer ser uma pessoa melhor, e que se a gente é uma família feliz e unida, é por minha causa, que ele não sabe como seriam as coisas se eu não estivesse. Eu falei como foi horrível ele dizer que estava envergonhado, e usamos uma das famosas técnicas de reconciliação, que é perguntar pro outro o que você devia ter falado. Diga “me perdoa. Você é o meu amor e não sei por que falei isso, preciso que você me perdoe”. Ele falou que queria ter falado isso, mas achava que ainda não podia, que ainda não merecia.

Porque ele estava sinceramente arrependido, e porque eu sei que é sério e verdade essa história de gostar de machucar as pessoas, eu perdoei. Dormimos. Acordei moída, tive os sonhos típicos de insegurança (sonhar que você não se formou na faculdade. Verdade verdadeira é que eu não sei se peguei meu diploma na USP, então é um motivo a mais pra sonhar com isso, mas eu sei por que esses sonhos acontecem). Já estávamos bem a ponto de nos abraçar, de não haver mais uma névoa de gelo ao meu redor deixando todas as outras pessoas do lugar levemente desconfortáveis.

Agora está tudo bem, como se nada tivesse acontecido?

Claro que não.

O Cris é o amor da minha vida, a pessoa com quem espero viver a vida toda, até o fim. Mas o papel de vítima passiva nunca combinou comigo. Uma coisa é você ser destroçada porque o amor da sua vida deixou de te amar, ou mudou de país, ou mesmo morreu. É uma dor horrível, mas é algo que acontece porque você amava muito, uma dor diretamente proporcional ao tamanho do seu amor. Outra coisa é você se sentir destroçada porque seu amor tem um lado sádico, e ele sabe qual é o ponto que é como enfiar a mão dentro de você e torcer suas entranhas.

Não tenho vontade de me vingar. Não é uma vontade de também causar uma dor grande – detesto vê-lo sofrer com qualquer coisa, seja dissabores do trabalho, ou alguma coisa do poker, ou mesmo quando tem um ponto de sangue no queixo porque ele se cortou fazendo a barba.

Não sei. Castigo talvez. As três vezes que ele fez isso foi na frente de outras pessoas, eu só fiquei quieta e depois quebrei o pau em particular. Não sei se vou mudar de opinião, mas neste momento a ideia de falar do assunto na frente de qualquer um se ele voltar a fazer me agrada. De estabelecer algum castigo. Algo como três meses sem poder ir ao clube de poker, e o dinheiro que ele iria gastar com os torneios ele tem que entregar pra mim, pra eu fazer o que eu quiser, pra eu gastar comigo ou doar pra quem eu quiser. Não temos questões com dinheiro. Eu gasto o que eu quero, ele gasta o que ele quer, porque somos dois capricornianos comedidos que nunca gastam demais. Mas a ideia da abstinência de uma das coisas que ele mais gosta de fazer pode ser o tchans.

Não sei. Alguma coisa pra não me sentir mais vítima… ele passou um bom tempo dizendo que era sem querer, que nós sempre brincamos sobre muitas coisas e que eu não me importo. É verdade que eu não me importo quando ele fala coisas zoeiras sobre eu ser burra, vileira, suburbana, não saber fazer contas, confundir palavras, não ler rótulos – nada disso me ofende e essas coisas só são faladas porque nós dois achamos engraçado, nós dois nos divertimos com isso. Mas ele sabe que a questão da aparência é algo que dói como o inferno, porque levou muitos anos pra eu aprender a gostar de mim, e eu não vou deixar que nenhum homem, muito menos o amor da minha vida, banque o sádico com o meu amor próprio.

Não engoli a história do sem querer, ou isso é uma questão sua. Ele sabe muito bem que minha aparência é uma questão pra mim, meu calcanhar de Aquiles, e recentemente já tinham acontecido dois incidentes em que o céu caiu na cabeça dele porque ele me falou uma frase ruim. Três ou quatro palavras com repercussões terríveis. Você sabe que isso machuca muito. Se você “esquece” que não pode falar aquilo, mesmo que ache que está num contexto de brincadeira, ou você é uma pessoa desalmada ou um idiota completo. Nenhuma das alternativas prestava. Ou melhor, se fosse isso, era algo pra considerar a separação. Porque eu não quero viver com alguém pra quem os sentimentos dos outros não importam, ou que é um idiota completo. Mas acredito que algumas pessoas fazem coisas pra machucar as outras… ainda mais se é algo que acontece desde a infância. O prazer sádico de saber que você pode falar algo que vai machucar muito. Isso eu entendo. Entendo, mas não quer dizer que vou aceitar tranquilamente. Ele vai ter que lutar pra mudar isso. E sempre que fizer isso vai ter minha espada sobre ele, tanto na forma de horas de sermão, como em algum outro mecanismo punitivo pra aprender a não fazer mais.

Estou expondo algo tão pessoal num texto comprido assim, e se você chegou até aqui, imagino que tem interesse no assunto. Por ser vítima ou abusador. Compartilho no blog meu lado mais frágil porque espero que este post te ajude a lidar com o seu lado mais frágil. A reconhecer que ele existe. E não permitir que as pessoas te maltratem, mesmo que seja o amor da sua vida, mesmo que sejam quatro palavras. Se doeu, tira a limpo. Exija perdão. Não deixe que o outro te diga que você está exagerando ou que aquilo é uma bobagem. A gente sabe onde dói. Não é uma questão de ser hipersensível, ficar ofendida com tudo, você entende que é um outro patamar, o patamar de lágrimas frias de ódio. Não permita que as pessoas façam isso com você. Se afaste da pessoa, ou se é como meu caso, alguém que você ama e não quer se afastar, no mínimo discuta o assunto à exaustão, e procure formas de ajudar a evitar que aconteça de novo.

No estágio de evolução moral, somos capazes de fazer ou não fazer coisas porque temos empatia e sabemos que aquilo vai agradar ou machucar alguém. Mas há um estágio anterior, em que deixamos de fazer algumas coisas só pelo receio da punição. O Cris sabe que me falar que eu sou feia me machuca como o inferno. Se isso não é o suficiente pra ele lembrar que não pode falar, a gente volta pro estágio punitivo. Três meses sem H2.

Por causa desse incidente, não consegui fazer o post de retrospectiva 2015, ou contar que consegui mesmo publicar o livro sobre o blog, ou agradecer pelos emails bonitos, desculpem. Mas esse era o assunto pungente do momento, e queria compartilhar aqui. Não seja vítima. Não deixe as pessoas te machucarem por prazeres sádicos. Se afaste da pessoa. Se não puder se afastar, encontre uma forma de discutir o assunto e procurar formas de diminuir as chances de voltar a acontecer. Aja com honra e justiça. Obrigada por acompanhar o blog, obrigada pelo carinho, nos vemos em 2016.

Quase esqueci do PS: o latido do esquilo é uma ideia boa de um livro do Rick Riordan (sempre dou uma passada de olhos nos livros do Daniel, pra saber o que ele está lendo, pra poder papear com ele sobre o livro. Nesse livro do Magnus Chase, mitologia viking, ele fala de um esquilo que guarda a árvore que leva aos portais dos nove mundos. O esquilo não só tem dentes e garras mortíferas, ele tem um latido que faz cada pessoa ouvir as coisas mais dolorosas possíveis, pra cada um é diferente. Eles dizem que o latido é pior do que a mordida do esquilo. Pensei que era uma ideia muito boa. Algo que faz você descobrir qual é a coisa que mais te dói. Acho que só por algum mecanismo mágico eu poderia ter certeza de que “você é feia”, falado pelo Cris, é a coisa mais doída que eu posso ouvir de alguém. Mas nesse momento parece ser. E pensar bastante no assunto, escrever sobre o assunto, publicar na internet, já faz doer bem menos.

Você é o amor da minha vida, Cris. Mas ninguém vai bancar o sádico comigo. Se o seu lado negro aparecer de novo, vai encontrar de novo a minha espada, na forma de horas de sermão – que eu sei que é um perrengue no porte de sabugo enfiado no cu. E provavelmente mais algum castigo, pela reincidência. O melhor é não deixar acontecer de novo. Mas se acontecer eu estarei preparada.

PPS: contei pro Cris sobre o castigo. Comentários contraditórios de sentimentos conflitantes. Dizer que eu era muito boazinha em pensar em três meses em vez de um ano, e depois dizer que três meses já era muita coisa. Garanti que não era. “E se eu não cumprir o castigo?”, “Penso num pior”, “E se eu não concordar, não cumprir?”, “Então a gente se separa”, “Imagina! Só estava brincando”. Eu não estava. Amo muito o Cris. Mas também me amo muito, e não serei vítima de abusos. Se ele perpetuar situações de me machucar, ele não merece mais o meu amor.

Apresentações de 20 segundos

A gente ainda não se conhece, fale sobre você.

Tenho bruxismo desde a infância… o Mauro acha que pelo desgaste dos meus dentes, pelo menos desde os 6 anos. Já perdi um dente porque dormia sem a placa, trincou, depois disso nunca mais dormi sem a placa, mas isso não faz muito tempo. Ele disse que meus dentes são como os de um aborígene de 60 anos.

Uau! Ele foi mau com você.

Não, não foi… ele só falou isso porque a gente ficou amigo. Não foi na primeira sessão.

— meu novo ortodontista. O querido Mauro realizou o sonho de muita gente e se mudou de São Paulo. O Cris é que me mandou procurar um novo ortodontista porque eu estava fazendo barulho demais à noite. Dizem que parece que a pessoa está mastigando pedras, quando está sem a placa. Eu com a placa fazia um barulho mais baixo, mas chato de qualquer forma.

Você sabe que a placa não impede o bruxismo, certo? Ela só evita o desgaste dos dentes.

Eu sei… só queria ter certeza de que não preciso de placa nova, que não tem o risco de eu perder outro dente.

Não, está tudo bem com a sua placa. Vou fazer uns pequenos ajustes.

Quanto ao barulho, tudo que eu posso dizer pro Cris é pra ele ter paciência, certo?

Sorriu, encolheu os ombros com as palmas das mãos viradas pra cima — fazer o quê?

 

 

Relacionamentos intensos e duradouros – parte 3 – como identificar o que é um assunto que precisa ser conversado. E um dos problemas mais comuns entre casais: homens que não demostram carinho

Tudo que incomoda devia ser motivo de conversa. Desde que você não parta do princípio de que tudo precisa ser do seu jeito, que só você está certa – essa é difícil, eu sei, mas tem formas de pensar assim e não agir como idiota. Basta lembrar sempre que temos origens diferentes, jeito de pensar diferentes, valores diferentes, e também lembrar das vezes em que você fez cagadas.

Também é importante que sejam diálogos pra falar como você está se sentindo, o que te incomodou, por que você ficou brava. Se a conversa puder ser feita num tom ameno e civilizado, ótimo. Se não puder – porque você ficou muito brava, então fale num tom bravo, quebre o pau. Mas fale. Não engula sapo e deixe se envenenar. Cada sapo engolido é um pequeno laço que se rompe. Não é divertido ter discussões e quebra-paus. Mas as discussões são feitas por pessoas que querem se acertar. A alternativa é ir engolindo sapo, se anulando, e de repente um dia você olha e se pergunta por que continua com aquela pessoa.

Se você não engole sapos e resolve na hora ou pouco tempo depois é mais fácil ter conversas. Se você engole sapos e deixa quieto, antes de chegar no estágio de sentir que não há mais nada conectando vocês, talvez você passe por um estágio de ter um rosário de reclamações sobre o outro. Reclamações que você pode fazer para outras pessoas, ou às vezes para a própria pessoa, mas é comum que as reclamações entrem naquele esquema de efeito nulo. O outro se acostuma a ouvir você reclamando, mas nem se importa. Um rosário de reclamações não é uma conversa. A conversa exige diálogo e muitas vezes compromissos com mudanças.

Pasta de dente destampada, sapato no meio da sala, quebrar o moedor de pimenta, deixar vazar a loção cara, não conseguir lembrar de manter a porta dos armários fechadas, nunca conseguir achar a chave do carro, ir pro supermercado e sempre esquecer de comprar alguma coisa, sempre chegar com pequenos atrasos – pense bem, tudo isso são coisas pequenas e sem importância. Você pode conversar, você pode pedir, mas se não rolar, não rolou, aceita.

Se você não consegue aceitar, é preciso pensar se você está sendo intolerante, ou se a sua irritação é sinal de que há algo mais sério.

Pense no outro. Como você o descreveria com toda a franqueza? É uma pessoa incrível, cheia de qualidades, que você não se imagina vivendo sem, que mudou sua vida, de quem você se sente muita saudade quando está longe? Mas tem essas coisinhas pequenas e chatinhas? Ótimo. São apenas detalhes. Você tem o direito de tentar acertar isso, basta fazer de um jeito bom. De preferência paciente, criativo, generoso, bem humorado. Mas nunca tirânico.

Mas se você pensar no outro e a primeira coisa que aparece é o rosário de reclamações? Ou, mesmo que o primeiro pensamento seja de tantas coisas boas que vocês têm juntos, o quanto você gosta dele e sente saudades dele, mas as coisas que incomodam não são no nível de tampa de pasta de dente, e sim em não se sentir valorizada, amada, desejada. Neste caso com certeza há motivos sérios e importantes para vocês conversarem.

Eu falei que não caracterizo grupos. Não digo o que são os evangélicos, o que são os japoneses. Mas pra mim há comportamentos masculinos e femininos, coisas que são mais comuns homens fazerem, mulheres fazerem. Vou falar de comportamentos típicos, com a grande ressalva de que falo apenas de coisas que já vi e ouvi falar em vários casais, mas é claro que nada determina que todo homem ou mulher seja assim.

É comum o homem ter mais poder na relação, ainda mais se é um casamento e não só um namoro. Às vezes vem pelo fato dele ter o poder econômico, mas mesmo que não tenha, os dois podem estar acostumados com a ideia de que é o homem que decide as coisas, que os desejos e prioridades do homem valem mais do que das mulheres. A vida do casal é direcionada para aquilo que o homem considera importante, seguindo os valores do homem. Se vão comprar uma casa ou ter uma alugada, quantas vezes por ano vão viajar, o quanto devem economizar por mês, padrão de vida e de gastos, vida social, o carro, frequência de encontro com familiares e amigos, intensidade de dedicação à carreira, filhos.

É comum os homens serem mais práticos, objetivos, áridos, racionalistas.

É comum os homens acharem que o amor não precisa ser externado. Essa é muito triste, porque sou capaz de pensar em tantos casais de pessoas boas, mas que a mulher vive tristonha ou insatisfeita porque ela não se sente querida o suficiente, valorizada o suficiente, desejada o suficiente. Deve ter um grande peso cultural, todos esses filmes e livros falando das grandes historias de amor, cenas românticas, jantar à luz de velas, Paris, presentes surpresa, sexo avassalador. Mas muitas mulheres sentem o mundo assim, gostariam de viver com mais romance. Você pode achar que isso é algo que faz mal pro mundo e combater esse comportamento, como nós feministas combatemos o machismo manifestado nos produtos culturais. Ou você possa entender e talvez até acreditar que a grande diferença entre machismo e querer romance é que o machismo é opressor. Tolhe, inibe, limita. Enquanto querer romance não é algo pra limitar o relacionamento ou impedir que o homem faça algo, mas incentiva a vontade de fazer mais coisas juntos, de se sentir mais conectados e amorosos.

Tantos canalhas prosperam e destroem relacionamentos porque muitos homens de caráter são incapazes de acreditar na necessidade que a mulher tem de sentir-se desejada e amada.

Aprenda: pra mulher não basta o “você me ama, eu te amo, nós dois sabemos disso, por que precisamos ficar trocando frases ou gestos amorosos?”

Essa é uma das maiores idiotices que um homem pode fazer. Quer matar seu relacionamento? Quer que ela vá embora fisicamente, ou então que o foco da vida dela vá pro trabalho, família, amante, ou qualquer outra coisa que não seja você? Vocês podem até continuar vivendo juntos, mas ela já não se sente conectada de coração com você? Basta ser um desses racionalistas filhos-da-puta, bom coração, bom caráter, mas totalmente idiota pra reconhecer anseios femininos.

Amor não é algo racional. Não basta saber. É preciso sentir, vivenciar no dia-a-dia. Comecei a fazer uma lista de coisas que as mulheres esperam dos homens, e acabou virando o post “Aprenda com os canalhas”.

http://claudiakomesu.club/relacionamentos-intensos-e-duradouros-parte-1-conversas-francas/

http://claudiakomesu.club/relacionamentos-intensos-e-duradouros-parte-2-como-diferenciar-assunto-importante-de-capricho/

 

Aprenda com os canalhas – 10 ações que todo homem de bem deveria praticar com sua namorada ou esposa

Seja inteligente. Todas as pessoas ou profissões ou instituições ou tipos ou grupos possuem um conhecimento especializado de algo que elas depuraram ao longo de anos, às vezes ao longo de décadas ou milênios (no caso de instituições e vampiros).

Uma pessoa inteligente é capaz de olhar para esse conhecimento acumulado e reconhecer o que há de sábio e bom. Assim Alain de Botton escreveu o ótimo Religião para Ateus, em que ele mostra os mecanismos sociais de sucesso das religiões, e lições que poderíamos tirar da forma como as religiões atraem as pessoas. E assim podemos aprender várias lições com as criaturas bem sucedidas em seduzir e ficar com quem elas quiserem, como os canalhas e as vadias.

Um canalha é alguém que usa seus atributos para o mal. Ele engana, mente, usa e joga fora, não se importa de verdade com a mulher com quem ele está se relacionando, ela é só um troféu numa coleção.

Nenhum homem de bem quer ser um canalha.

Mas acredite, o homem de bem deveriam olhar com mais atenção e aprender um pouco das técnicas que canalhas em geral e não-canalhas inteligentes usam para encantar mulheres. E assim, poderia viver de forma muito mais intensa e prazerosa, e com muito menos perrengues e dissabores, a relação com a mulher que escolheu viver.

O canalha é uma criatura com sensibilidade e instinto, ele sabe que a maioria das mulheres precisa de romance, aventura, diversão, sexo quente. Sentir-se desejada, única, especial.

A boa notícia é que o homem de bem também pode oferecer, com sinceridade e honestidade, uma vida cheia de paixão e diversão, ele só precisa enfiar na sua cabeça dura a ideia de que em geral as mulheres vivem mais felizes num clima de romance. Não precisa ser rico, não precisa ser sarado como o Hugh Jackman, não precisa e talvez nem deva saber dançar tango. Bastam pequenos gestos, more than words, e o mundo inteiro fica diferente. Veja algumas das lições que canalhas sabem:

  1. Seja galanteador. Elogie. Faça ela ter certeza, todos os dias, do quanto você a admira, gosta dela. Pra casais que têm vida sexual, tem que haver certeza de que você acha ela bonita e tem tesão por ela.
  2. Olhe. Seque. Olhe com orgulho, desejo e prazer. Olhe até saírem faíscas. Nunca deixe de olhar. Parar de olhar pro outro é um péssimo sinal no relacionamento.
  3. Seja gentil. Preste atenção no ambiente, e se você estiver mais perto, abra portas. Se você é mais forte, se ofereça pra carregar uma sacola, ou ajudá-la a abrir uma garrafa. Se ofereça pra ir buscar algo ou pra dar carona pra algum lugar, ande lado a lado e não na frente. Faça ela sentir que o tempo todo você está olhando e se preocupando com o bem estar dela — ah, e não precisa ser gentil só porque ela é mulher, pense que você está sendo gentil porque gosta dela.
  4. Faça agrados. Podem ser pequenos presentes na forma de comida, ou bebida, ou flores, ou objetos, ou música, ou livros, ou ver um filme, um show ou uma exposição de coisas que ela gosta. Mensagens no meio do dia. Bilhetes carinhosos. Preparar um jantar. Ver um por do sol em algum lugar bonito, na companhia de um vinho e algumas besteiras pra comer – não precisa ser em restaurante, pode ser numa praça, ou mesmo de uma sacada. Sem precisar ser data especial, apenas faça de vez em quando (eu tinha escrito “quanto mais, melhor”, mas e o medo da mulher virar uma frescolina mimada? Isso seria péssimo. Então a dica é: mime, paparique, dentro dos limites da dignidade e contando com uma boa dose de reciprocidade).
    São as demonstrações de que você está sempre pensado nela, que você presta atenção nos gostos dela, no que ela te fala, e que você quer agradá-la. Parece bobo? Juro que não é, você não imagina quantos pontos você ganha por demonstrar com more than words o quanto você gosta dela.
  5. Vida sexual picante. Mesmo que ela pareça ser mais comedida ou tradicional. Envolva-a. Convide. Faça algo inusitado. Um lugar diferente, posições diferentes, ardor diferente, acessórios diferentes. Você pode se surpreender, de repente você descobre que sua mulher pode ser muito mais fogosa, só faltava a faísca certa.
  6. Não economize desculpas ou ações na hora de se desculpar por algo. Compense suas bolas fora com coisas bem legais. Furou o jantar porque ficou preso numa reunião? Esqueceu uma data importante? Falou coisas muito idiotas? Desculpe-se. Desculpe-se de todo o coração, sem economizar nos adjetivos negativos pra você ou pra situação “aquela droga de reunião, o pessoal só repetindo os mesmos argumentos, eu ficando agoniado em pensar que ia atrasar, depois fui vendo que ia perder, estava tão bravo com aqueles cretinos porque eu queria era estar com você”, “como eu pude ser tão burro? Por que eu sou tão esquecido assim? É claro que é importante, eu fui idiota, me desculpe, sabe que eu sou ruim com datas, mas nada justifica não ter colocado um lembrete no celular, me perdoe, vamos fazer alguma coisa bem legal, neste final de semana que ir pra tal lugar, ou pra tal restaurante, ou…”
  7. Não aja como um racionalista idiota, seja político, seja maleável, seja malandro. Aprenda como negociar as coisas. Não fale o que você quer ou planejou, fale de uma forma que você possa ser bem sucedido no seu intento. Por exemplo: você quer ter um dia da semana pra jogar poker, ou Playstation, ou sair pra beber com seus amigos ou sei lá o quê. Você não diz “toda quarta eu farei tal coisa”, ou “uma vez por mês farei isso”. Uns dias antes ou umas semanas antes você fala “na próxima quarta – ou no próximo fim de semana, estava pensando em fazer tal coisa. Queria saber o que você acha. Se você não quiser eu não vou. Tem alguma viagem que você queria fazer, quer combinar de sair com seus amigos?”. De preferência faça isso logo depois de terem feito ou de terem combinado algum programa legal pra fazer juntos. Em geral a mulher não exige que você passe o tempo todo com ela, ela sabe que você quer fazer outras coisas também, basta você fazer as coisas de um jeito que ela sente que é importante, mais importante do que seus amigos, do que seu hobby. E plim, é claro que ela aceita.
  8. Invente programas e passeios, mostre que rotina e mesmice não é com você. Mas tudo precisa ser focado em coisas que ela vá gostar, não vale serem programas de coisas que só você gosta. As coisas que só você gosta você faz no tempo que não estão juntos. O objetivo aqui é mostrar que você se importa com ela, quer diverti-la, vê-la feliz, que você está sempre pensando nela.
  9. Não tenha receio de se mostrar sensível e frágil. Os canalhas na verdade só parecem ser francos e verdadeiros. Mas você como um homem de bem pode ser franco, verdadeiro, falar de coisas importantes, se abrir, mostrar que você confia nela pra falar de coisas delicadas, difíceis. Isso só vai fazê-la te amar mais.
  10. Ande sempre bem vestido, use roupas que te valorizam, cuide sempre dos itens básicos da aparência.

e é claro: nos próximos dias escrevo um “Aprenda com as vadias”.

Relacionamentos intensos e duradouros – parte 2 – como diferenciar assunto importante de capricho

Não vou falar que é fácil, porque a convivência e a intimidade muitas vezes nos deixam míopes, intolerantes, folgados.

Mas há algumas formas de pensar que ajudam muito.

Primeiro enfie na cabeça a ideia de que vocês têm origens diferentes. Famílias diferentes, experiências diferentes, às vezes faixa econômica e social diferentes, podem ser etnias diferentes. Ou então pense nos seus irmãos: mesmo tendo mesma família e mesma tantas coisas, como vocês podem pensar diferente em tantos assuntos.

A pessoa com quem você está tentando compartilhar sua vida tem muitas experiências, jeitos de fazer as coisas, rotinas, manias, vícios, tudo pode ser bem diferente dos seus. Você tem que entender que nesse caso não existe certo ou errado: vocês simplesmente vão chegar a um acordo sobre como serão as coisas. Se vão ser do seu jeito, do jeito dele ou, o melhor cenário: quando é uma combinação dos dois, quando cada um consegue ceder um pouco e reconhecer a validade das vivências do outro.

Exemplo simples: há várias exceções, mas é comum a mulher ser mais preocupada em manter a casa limpa e em ordem, enquanto o homem não. Ainda mais se o homem nunca morou sozinho, há diversos processos que talvez ele nem saiba como acontecem. Que pra ter cuecas limpas na gaveta alguém pegou a cueca do chão, levou pro cesto, depois lavou, depois pendurou, depois passou, depois guardou. Se o homem morou sozinho antes, e supondo que ele não tinha empregada que cuidava de tudo, será uma pessoa com mais noção sobre o funcionamento de uma casa.

É comum haver o embate entre os hábitos da mulher e do homem. Se uma pessoa dá mais valor do que a outra pra limpeza e organização, que tal chegar a um meio termo? Quem é mais bagunçado combina quais são as coisas básicas que precisa manter em ordem, quem é fissurado em organização aceita que a casa não estará impecável o tempo todo, porque pra pessoa com quem agora você compartilha sua vida, isso não é importante.

Você deve agir como adulto sempre. Identificar o que é acidental do que é crônico. Mesmo entre as coisas crônicas é preciso ser compreensivo. Dificilmente uma pessoa vai deixar de ser atrapalhada só por levar broncas. Ou deixar de ser esquecida. Ou ficar mais inteligente. Você tem que aceitar que o outro é assim, e se há coisas incomodando muito, você devia ajudar o outro. Se o outro é atrapalhado ou esquecido, ajude a cobrir isso. Tente ficar atento a objetos em beiradas, em coisas frágeis, pergunte sobre coisas importantes, incentive o outro a criar check lists. Aja com generosidade de quem ama e sabe que todo mundo está sujeito a erros. O Cris em geral é o esquecido e atrapalhado. Mas fui eu que já fiz coisas como esquecer o plate do meu tripé e lembrar disso quando já estávamos há 1h30 na estrada, e tivemos que voltar pra casa, e assim encompridar uma viagem que já era longa. Teve uma vez que o Cris guardou uma loção dele aberta na nécessaire: abri a mala, roupas manchadas. Era uma embalagem novinha de algo caro. Fiquei triste de ver o estrago, mas não briguei com ele, falei “tudo bem, acontece, podia ter acontecido com qualquer um”. Os diversos raladinhos em volta do nosso carro são todos do Cris, ele fica muito mais com o carro, ele faz balizas, eu não. Mas o grande prejuízo, quem já conseguiu dar um totó no segundo portão da garagem do prédio, ganhar uma conta de R$ 600 (isso há uns 5 anos atrás), e atrapalhar a vida de todo mundo do meu prédio durante uma semana, fui eu. Um motivo a mais pra eu nunca reclamar se o carro chega com um novo raladinho.

Acho que uma das atitudes mais importantes pra você não ser um nazista na cobrança do que o outro devia estar fazendo, não agir como um pequeno tirano, é nunca esquecer das cagadas que você já fez, das vezes em que o outro foi tão generoso e compreensivo com seus erros e burradas. Todo mundo faz coisas idiotas. Acho que se sempre tivermos em mente que o outro tem vivências diferentes, que é errado pensar que só o nosso jeito de fazer as coisas é o certo, e sempre lembrar das coisas erradas que já fizemos, isso acaba com a implicância, caprichos e crueldades.

Só tem um ponto que pra mim não há desconto: ser rude com quem não merece. Pra mim nada justifica tratar mal os outros. Faz parte do seu desenvolvimento como ser humano aprender a não agir de forma rude, injusta, não importa que você esteja cansado, com fome, estressado, com medo, com raiva. Não descarregue em quem não merece, isso é algo desonrado. Converse com o outro. Se precisar de silêncio, explique “preciso ficar quieto agora, desculpe, vai passar, depois eu te falo”. Mas nunca trate o outro mal, porque ele não merece. Brigue com o motivo do seu dissabor, não com a pessoa que só quer te ajudar.

http://claudiakomesu.club/relacionamentos-intensos-e-duradouros-parte-1-conversas-francas/

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Relacionamentos intensos e duradouros – parte 1 – conversas francas

Estou aqui. Falando o tempo todo que viver um grande amor não é o único caminho possível, e que não há nada de errado em viver solteira, seja aventureira ou tranquila. Mas o fato é que eu vivo um grande amor, e eu e o Cris às vezes nos perguntamos se os outros casais fazem o que a gente faz pra viver bem… E como são coisas que parecem simples (simples, mas não fáceis), queria compartilhar, porque talvez ajude outras pessoas, seja pra quem quer viver um grande amor, ou seja pra alguma relação passageira.

Eu e o Cris já brigamos muito. Muito. Muito. Há vários motivos pra isso, mas o que é preciso dizer é que foram inúmeras discussões, a maioria delas causada por mim. Vocês sabem: o mais comum é que homens não briguem. Homem fica em silêncio. Ou é sarcástico e deixa pra lá. Ou dá uma patada e esquece. Ou vai beber com os amigos e esquece. Ou vai se distanciando física ou emocionalmente da namorada ou esposa, e vai esquecendo. Mas DR não costuma ser iniciativa masculina. Homens em geral detestam confronto, perrengue, situações pra resolver. Enquanto puderem empurrar com a barriga, esquecer, relevar, eles vão levando.

Eu não deixava. E quando passaram a acontecer situações em que eu estava tão cansada das discussões que não queria mais discutir, que quando acontecia alguma coisa eu só ficava puta da vida mas não falava mais nada, era o Cris que não deixava. Daí eu ficava duplamente brava: pela coisa ruim que ele tinha feito a meu ver, e por ainda ficar me atazanando só porque não suportava meu olhar furioso. E daí, de tanto ele insistir, pedir pra eu falar, ou então ficar falando injustiças, eu acabava falando. Na verdade, em geral vociferando fogo.

“Meu Deus”, “coitado do Cris”, eu sei, eu sei. Sei o que os homens pensam. Mas as mulheres sabem que, a não ser que você esteja surtada ou seja uma vaca, todas as broncas que um homem leva são merecidas. E eu nunca surtei nem fui uma vaca.

Como sobrevivemos? Como foi possível atravessar essa fase tão conturbada, e chegar no nível de casal que acha que é pra vida toda, conversam sobre tudo, contam pro outro das conversas com o analista, confiam totalmente no outro, cozinham juntos, viajam juntos? Quando parece que não tem como sermos mais próximos, acontece alguma coisa e nos sentimos mais conectados ainda, mais cúmplices, mais enamorados. Como?

Fomos purificados pelo fogo. Você sabe: o que não mata fortalece. Começar a compartilhar uma vida é muito difícil, há tantas diferenças de expectativas, de formas de viver. E quando você espera muita coisa daquele relacionamento é pior ainda, todos os pontos de atrito são intensificados. Mas nós escolhemos o caminho de sempre querer nos sentir muito intensos e verdadeiros um com o outro. Eu sou uma flor de frescura: capto qualquer alteração no tom de voz, no jeito de olhar, numa fração de segundos a mais pra responder, na sensação de que a pessoa está com a cabeça em outro lugar. Sou apaixonada pelo Cris, e no início de uma relação a paixão costuma ser um fogo quase devastador. Sempre exigi muito, e ficava brava e triste quando não me sentia próxima, conectada. E ele não suportava a mudança no meu olhar. Era assim que a gente tinha que conversar sobre tudo que incomodava.

Foi terrível, é claro. Teve dias de eu pensar muito seriamente que devia voltar pra minha república. O Cris… não sei, talvez ele só quisesse me matar 🙂

Mas passou.

E hoje sou grata por essa fase de ferro e fogo, porque sei que foi graças a essa decisão de ter que conversar sobre tudo, de não engolir sapo, de ter que sempre se sentir próximos e conectados, é que somos um casal tão unido e até babões um com o outro.

A primeira dica é: não se envenene. Não estou dizendo que tudo tem que ser do jeito que você quer, de jeito nenhum. Mas tudo tem que estar combinado, acordado, resolvido, processado. Se não estiver, volte a conversar sobre aquele assunto, até vocês chegarem numa decisão no mínimo razoável pros dois. Mas não pode só engolir e deixar pra lá, porque cada sapo engolido é veneno lento nas veias… se forem muitos sapos, uma hora você explode. E daí acabou.

Parta da ideia de que você tem que viver feliz e satisfeita com a pessoa que você quer compartilhar sua vida. E que se tiver algo incomodando, vocês precisam conversar sobre o assunto. Mas que é preciso escolher os temas: separar o que é importante daquilo que é mais pra capricho seu, ou o jeito como você queria que fossem as coisas, e também reconhecer as coisas que são muito importantes para o outro. Entender que o outro também vê coisas que ele queria que fossem diferentes, que se relacionar é conseguir aceitar diferenças – mas saber conversar sobre o que realmente conta.

Nos próximos posts: reflexões para diferenciar o que é importante e o que é capricho; como ter conversas difíceis sem se matar – viagem no tempo, dizer o que o outro devia ter falado, a purgação pelo ridículo; conversas pra resolver em vez de críticas constantes, etc.

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