Category Archives: Vida de casada

Sobre homens burros e homens inteligentes

Ainda tem muito pra se falar de Nova York, mas queria abrir um parêntese pra falar de homens burros x homens inteligentes.

É compreensível que uma pessoa tosca seja tosca em vários aspectos. O que não me faz sentido é por que há tantos homens tão inteligentes em várias facetas: menos quando chega nas questões feministas.

Vocês sabem, estou sempre reclamando disso. Hoje eu e uma amiga querida estávamos falando de um conhecido que é muito articulado, bacana, compreensivo, inteligente pra vários assuntos. Menos os que se referem às injustiças e sofrimentos das mulheres. Nesse ponto ele buga.

É como o meu semideus das frivolidades internéticas. Tão inteligente em vários aspectos, mas não sobre mulheres. E, no caso dele, tem uma desuminanidade geral. Tentei falar disso com ele, mas ele não quis saber. Não sei se ele já percebeu que eu parei de conversar com ele porque, como disse o Cris, o … é alguém que gosta muito da própria voz. Não lembro de nenhuma vez que ele tenha me perguntando o que penso sobre algum assunto, então eu parar de conversar com ele pode ter passado despercebido.

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Quem acompanha o blog faz tempo sabe que eu já xinguei muito o Cris. E este é o momento do contrário, de louvar. O Cris é muito inteligente (tão inteligente que me apaixonei pra vida toda), e uma das facetas da inteligência é ser capaz de entender o que é importante pro outro. Assim, mesmo dando umas bolas fora — e eu sempre explico pra ele por que ele está errado — no geral ele tem conseguido assumir o feminismo.

No dia das mulheres deste ano me contou como achou ruim o cartão da empresa, com a moça loira no campo de flores, e falou que ia conversar com o diretor da área sobre o quanto aquela imagem era nada a ver; deu nota baixa pro motorista de Uber que xingou mulher no volante.

Umas semanas atrás contei pra ele da entrevista em que Andy Murray não deixou passar o machismo casual, o entrevistador que falou do tênis como se Serena Williams não existisse. Daí neste fim de semana estávamos vendo um vídeo de como fazer shoulder, e o cara do vídeo falou “ou, pras mulheres, que gostam de bem passado”, e o Cris ficou revoltado, falou “como assim, que tipo de comentário é esse? Que filho da puta. É o tal de machismo casual, é isso?”. Sim, esse é o termo. E amei-o ainda mais.

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Quer conquistar uma mulher inteligente? Nunca perca uma oportunidade de ser feminista. Estamos tão acostumadas a ouvir e ler as maiores atrocidades, que topar com um homem que não é tosco, que entende o feminismo, é como bálsamo pra alma.

Resoluções de aniversário

Num dos dias de janeiro eu completei 40 anos. Um tempo atrás li no WhatsApp meus colegas do colegial lamentarem a chegada aos 40, e eu sei por que não é assim pra mim. Não me sinto velha porque sempre fui velha. Eu não era mais ágil, forte e resistente, não era mais impulsiva ou mais alegre, não agia de forma inconsequente, não bebia todas.

Alain de Botton disse que todo mundo que não se sente envergonhado de quem era um ano atrás não está aprendendo o suficiente. Frases impactantes. Mais impactantes ainda pra quem acha que está sempre certa.

Sentir vergonha não será fácil porque nunca faço coisas impensadas, tudo está sempre ancorado, relacionado, medido. Tudo tem suas explicações e vejo o presente como fruto do passado. Não costumo fazer coisas idiotas, e quando machuco tinha objetivos de que não me arrependo.

Mas sou capaz de pensar o que mudou e ver que prefiro o agora ao passado.

Tenho uma lista de coisas sobre mim e sobre a minha vida pra me orgulhar, mas não sei em como transformar isso, hoje, neste momento, em algo bom pro blog, algo que não pareça besta.

Mas acho que tem uma coisa que eu posso fazer. Posso escrever e, portanto, assumir um compromisso moral comigo mesma, que eu quero cada vez mais esquecer as coisas ruins do passado. Quero parar de ficar lembrando das coisas que o Cris me fez e me magoaram, quero que isso fique tão distante como se fosse em outra vida. Também quero parar de ficar pensando no meu desgosto com a comunidade dos birdwatchers, tanto por ações individuais, como na resposta em grupo (a tal falta de comprometimento com assuntos sérios).

Vou pensar em estratégias pra me purificar deles. Há pelo menos duas coisas que me ocorrem agora:

– Pro Cris eu tenho que me proibir de pensar ou falar “você sempre faz tal coisa”. Ou eu vou não me importar, ou vou falar pra ele “não faça tal coisa dessa forma, por causa disso e disso. Eu gostaria que você fizesse assim”.

– Pros birdwatchers, já faz um tempo que eu não me sinto mais chateada com as tais pessoas. Consigo me imaginar conversando com elas, passando um tempo com elas (quando estou brava com alguém não suporto nem a ideia de ter que ver a pessoa). Como grupo que não quer agir, apenas dar likes, é mais do que na hora de eu reconhecer que a humanidade é assim e se eu ficar brava com isso vou ficar brava minha vida toda.

E de forma geral, tenho que incorporar de verdade o reconhecimento de que as coisas são difíceis e morosas, seja pra mudar pessoas (e eu sou do tipo que acredita que as pessoas podem aprender e mudar, porque vejo o quanto Cris mudou, como eu mudei), seja na relação com grupos ou organizações.

Acho que não contei que no final do ano eu estava bem chateada com o Inaturalist, e pensando se eu queria continuar subindo minhas fotos lá. No meio de dezembro escrevi uma mensagem pra três das pessoas que mais me ajudaram e foram gentis comigo, pra desejar Boas Festas e explicar minha ausência. Um deles, o Jakob, conseguiu me fazer ver como eu estava sendo infantil. “Você tem ideia de quantas vezes eu fui c-o-m-p-l-e-t-a-m-e-n-t-e ignorado nas dúvidas e problemas que eu postei? (…) Sei como é difícil quando a gente é apaixonado por algo”.

E isso me fez ver que eu estava mesmo sendo uma cretina mimada idiota. Chateada de pensar que era porque são questões do Brasil, e que se fossem problemas no mapa dos Estados Unidos, eles consertariam. Idiota. É claro que sim. O Brasil não é nada pro site ainda, há pouquíssimos registros. Quando o Brasil tiver pelo menos tantos registros quantos dos Estados Unidos, e eles continuarem não se importando, daí eu posso começar a pensar em discriminação.

Mais paciência.

Mais compreensão.

Mais fortaleza.

Mais gentileza, mais amor, tanto na forma de pensar o mundo como na hora de me relacionar com ele, e com as pessoas.

Ainda não é uma rotina budista de compaixão e bondade, não me sinto próxima do momento de largar a espada. Mas sei que seria uma pessoa melhor se pudesse temperar os dias com mais gentileza nas palavras e no coração.

Síndrome de Secretária

É coisa de peão, tenho quase certeza e faz todo sentido, certo? A alta cúpula não precisa desenvolver esse tipo de habilidade, porque sempre tem quem faça as coisas, resolva as coisas.

Num outro patamar, é como a minha incapacidade de lidar com gente rude e desonrada. Em geral, simplesmente não precisei, então quando topo com isso não sei o que fazer. Mas se levasse coice  o tempo todo desde a infância, de alguma forma você aprende a se virar.

Ontem eu estava desolada porque chegou a nossa sexta multa. Sexta multa em dois meses. Por estar a 70 em lugares em que o limite é 60, ou a 60 em lugares que o limite é 50.

Não importam as placas, não importa o quanto eu fale: simplesmente não entra na cabeça do Cris a ideia de que mudaram os limites de velocidade na cidade.

Assim como não importa quantas vezes eu fale, não consigo fazê-lo apertar o botão que destrava as quatro portas, ele só destrava a dele, e se eu tenho algo pra pegar no banco de trás cabe a mim sempre falar “você pode destravar a porta de trás?”. Quando são coisas que ele precisa pegar, ele também esquece. Eu o vejo sair do carro, tentar abrir a porta, ver que está travado, ter que destravar pelo controle ou ter que voltar pra porta para apertar o botão geral. E mesmo assim ele não consegue aprender a apertar o botão que destrava as quatro.

Além da sexta multa, umas horas mais tarde fico sabendo que o livro do Caras do Poker que eu embalei com plástico bolha e ele mandou pro correio não chegou. “Mas o que o código de rastreamento diz?”, “Não sei”, “Pega e coloca no site”, “Não sei onde está o papel. Me entregaram o papel, mas eu não sei onde coloquei. E não me olhe assim, a culpa não é minha, não fui eu que extraviei o livro, a culpa é dos Correios”.

Ontem eu só estava desolada-acabada e não muito brava. Conversamos, ele se desculpou, expliquei pra ele que os Correios não são infalíveis e é por isso que existe um código de rastreamento, pra tentar descobrir onde falhou a entrega. Claro que ele sabe disso, ele só não se importa, e sabem por quê?

O Cris já fez trabalhos subalternos e de estagiário, mas acho que foi por pouco tempo. No mínimo, não foi por tempo suficiente pra desenvolver a síndrome de secretária, que peões como eu e meus amigos desenvolvem. Você aprende a ser organizada e a guardar papéis.

Mandou algo por Sedex? Você guarda a nota, e hoje a coisa mais simples teria sido fotografar a nota e mandar pro destinatário. Você está lidando com pessoas levemente ou profundamente desonradas, ou bagunçadas, atrapalhadas? Você conversa por telefone ou ao vivo, e depois manda email, com várias pessoas copiadas, registrando o que foi combinado, e nem pede pra ela dar ok, você diz “então combinamos que a entrega fica pra tal data nessas condições”, e quando dá merda, porque com esse tipo de gente sempre dá, no mínimo você tem o email pra poder mostrar que não é culpa sua, que sim, você vai tentar resolver, mas que não foi aquilo que vocês combinaram.

Ou às vezes é preciso uma resposta, e em geral a pessoa não responde. Nesses casos você diz “se você não responder em x dias, significa que está autorizado fazer tal coisa”.

Estratégias de sobrevivência que você aprende quando você é a ponta mais fraca.

Tenho uma amiga cujo marido vem de uma família rica, mas no trabalho tem que lidar com gente desonrada. Clientes filhos da puta que falam algo numa reunião, depois mudam o escopo, e depois dizem que a culpa é sua. Ele já se fodeu com isso várias vezes, mas não conseguiu incorporar a atitude secretarial de registrar pra se proteger.

O Cris é distraído da porra. Às vezes dá vontade de morrer, ou de matar. Mas nunca xinguei muito ele, e nunca brigo muito com ele. Não consigo evitar de ficar arrasada, mas o que eu posso fazer? Acho que seria o mesmo dele brigar comigo porque eu tenho dificuldade em aprender novas línguas. Ele fala inglês, romeno, espanhol, francês. Foi e voltou da China, da Coréia, da Rússia, da Ucrânia. E eu mal entendo português e inglês.

Participo de reuniões e escrevo atas, reporto todos os envolvidos. Essa vem desde a adolescência…

E só depois descobri que a maioria das pessoas não faz reportes.

Acho que tem uma parte de história de vida, uma parte de personalidade, uma parte de cultura. Responsabilidade nipônica. Ter que cumprir aquilo que a nosso ver foi uma responsabilidade assumida, ou que é muito importante.

Mas principalmente, é a necessidade de se proteger. Coisas que o alto escalão não precisa aprender.

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E sobre o Secretária, com a Marggie Gyllenhaal e o James Spader, é um filme muito bom. Sadomasoquismo sem julgamento de valor, personagens cativantes, cenas bem engraçadas. 

“Síndrome de Secretária” como título do post é só brincadeira com o nome de um filme bom. Ser peão e aprender a se proteger não tem nada a ver com o filme.

Envelhecendo

– Sair à noite na Vila Madalena pra ir pra academia, em vez do boteco.

– Sair rebolando do cardiologista só porque você passou nos exames de sangue, na esteira, está com pressão baixa.

– Ir pra uma festa em restaurante, depois chegar em casa e se sentir meio triste por ter comido tanto. “Que droga. Não devia ter comido tanto. Não devia ter comido sobremesa. Não devia ter comido tanto pão do couvert”.

– As frituras vão perdendo a graça. Sutilmente você percebe que ainda é capaz de comer frituras, ou até fazer frituras, mas que fica mais contente quando come coisas no vapor ou tostadas.

– Nada de guloseimas em casa. Nada de aprender a fazer doces e salgados. Daniel no máximo tem pão-de-queijo, pipoca ou gelatina no meio da tarde, mas só às vezes.

 

– O tempo com as pessoas amadas, fazendo as coisas mais rotineiras ou tolas vai se tornando o melhor tempo todo mundo. Não que você não faça outras coisas, você faz. Mas esse tempo de horas doces ganha cada vez mais valor, e você entende filmes como About Time.

 

Você briga menos, se importa menos, sua fúria passa mais rápido:

– Você é haidado, seu atacante está quase pra entrar no cofre e aí sofre a mão de Deus (como costuma acontecer contra os nossos inimigos): ele vai lançar o foguete que dará acesso à sala do cofre, mas o foguete se volta contra ele e o mata. Ele é obrigado a perguntar quais as coordenadas da nossa casa pra pegar o quetzal de volta, que nem era dele, era emprestado. Daniel é jovem, não quer falar. Cris é sábio e fala “qual o problema? Fala pra ele”. Você fala, ele volta, agradece, diz que nós somos muito legais e devolve os mil CPs que ele tinha roubado. Eu estava mais pro time do Daniel “ele vem nos haidar e a gente ainda vai ajudá-lo a recuperar o quetzal?”, mas não falei nada, e depois vi que o Cris estava certo. Devia extrair alguma coisa disso pra vida.

– Não é o fim do mundo se o Cris tem planos de workshop com o pessoal da Magnum ou coisas do tipo. “Não, não serve pra mim. Não, não tenho nível pra esse tipo de coisa. Não, meu projeto de fotografia de aves urbanas não tem como render alguma coisa, não é um projeto, eu não tenho onde fotografar, só se a gente morasse em outro país. Só de eu ir pros parques já estou correndo riscos, não tem como sair pelas ruas com  a câmera. Não, não tem problema você ir”.

– Muitas vezes parece que você está num ponto meio distante, e tantas declarações que eram ofensivas agora você não sente nada.

– Você não quer brigar, discutir. Parece que exige energia demais desperdiçada em algo totalmente inútil.

 

 

– Você escolhe com mais cuidado ainda como quer passar seu tempo. Como disse o Jap:

“Descobri que não tenho mais idade para fazer o que eu não quero fazer”.

 

Corte de custos e sobre os pequenos prazeres em tempos de crise econômica

“Corte de custos” são palavras que hoje em dia não exigem explicações adicionais. Você fala “preciso cort…” e as pessoas já estão balançando a cabeça com aquele olhar de que entenderam.

Hoje demiti a empregada que estava há mais de 10 anos com a gente. Ela só vinha dois dias na semana, mas tinha pedido pra ser CLT logo que foi contratada, o Cris topou, e esse foi o problema. O salário mínimo paulista é de mil reais. Mais 30% desse valor pra INSS e FGTS. Uma mulher muito boa, de confiança, eficiente. Mas sofria da maldição de ser CLT nesse país em que os impostos pesam tanto e se revertem em quase nada.

Eu fiz a demissão, o Cris participou um pouco. Ele tinha a cruz dele, hoje também iam demitir a moça que trabalhava como secretária pros sócios da empresa. Alguém que eu conhecia, um amor de pessoa. Imagina o valor que você dá pra alguém capaz de resolver qualquer pepino burocrático.

E agora vamos viver a vida de quem tem diarista, e não empregada. E não tem secretária.

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Fizemos mais ações a favor do corte de custos:

– compramos computadores novos, lindos maravilhosos. Não é contrassenso porque é uma das diversões mais baratas que você pode ter (comparando com viagens). Também são instrumentos de trabalho, e vão fazer diferença nesse período de menos passeios.

– Trabalhei loucamente no fim de semana e arrumei coisas que estavam há anos bagunçadas, ou meio quebradas, ou encostadas. Não terminei a arrumação geral, que inclui armários, maleiros, gaveteiros, mas já fez uma boa diferença, fico andando pelos cômodos me sentindo em comemoração mental. Nessa arrumação achei até tesouros “de onde surgiu essa garrafa fechada de Jack Daniels?” E consegui transformar um dos móveis da avó do Cris numa ótima prateleira pros gibis, que não estão mais encaixotados ou no fundo da estante.

– Agora esta é uma casa que tem flores naturais. Quer dizer… o moço me falou que elas são naturais. Elas têm uma cor meio absurda, sempre pensei que eles espetavam essas flores nos cactos, e se elas nunca morrerem vou descobrir que estava certa. Preciso ver se elas fenecem, não tenho coragem de tentar arrancar e correr o risco de matar uma flor de verdade. Inspiração do Death Valley.

(Acho que não seria capaz de cuidar de plantas que você precisa regar todos os dias, mas admiro cada vez mais os cactos. Durões, espinhudos, sobrevivem em ambientes insalubres. Com essa beleza peculiar. E ainda capazes de atos tão inusitados, como essas flores de cores incríveis. Será que essa admiração tem algo a ver com os meus valores?)

– Fomos ao Zaffari e fizemos nossa compra semestral monstro. Muitas carnes no freezer, muita cerveja e espumantes (da assinatura da Wine) na geladeira. A conta do supermercado é salgada, mas se você se abastece de coisas gostosas fica bem mais fácil se animar pra cozinhar em vez de sair. Jantar fora está quase proibitivo. As bebidas então… Olho a carta de vinhos e me recuso, “vamos pedir só água. Os vinhos bons estão caros demais, e não vamos pagar R$ 110 por um vinho ruim”.

– Não temos mais secretária, então criei vergonha na cara pra cuidar de burocracias. Fui até a Barão de Limeira encerrar minha conta no Bradesco (“Você era funcionário da Folha?”), depois tentei resolver meus problemas no HSBC e passei pelo mico de descobrir que eu não conseguia entrar na área do site em que você pode fazer transferências, e o atendimento telefônico só me dava a opção de fazer seguros porque eu não sou correntista (o Cris fez um cartão pra mim, mas esqueceu de pedir pra me incluir como correntista).

– Analisei nosso extrato bancário. Fui investigar meu consumo do celular e descobri que é pouco, e mudei meu plano de R$ 170 pro de R$ 90. Vou me policiar, usar mais WhatsApp e Skype e tentar pagar o mínimo possível de interurbano.

– Vou usar mais Urb, andar a pé, transporte público. E menos táxi.

– Nunca fui de comprar roupas ou sapatos caros, mesmo antes da crise. Para usar uma frase iluminada da querida Ana, “tenho dinheiro pra comprar roupa de grife, mas compro roupa em supermercado e é isso que eu ensino pras minhas filhas”. Supermercados em Dubai. Em São Paulo é mais precário, mas tem C&A, Renner. Outro dia encontrei o Daniel e a mãe dele numa C&A. Ele falou “oi!”, olhou pra mãe dele e disse “eu falei que ela comprava na C&A”, ela respondeu rápido “ah, eu também”. E depois desse encontro ainda reforcei essa história. Num almoço qualquer, eu, Cris, Daniel comentei como a gente não se importa com roupas, que a gente prefere gastar nosso dinheiro com viagens, computadores, câmeras. Todos sorrimos satisfeitos e orgulhosos.

– Com a crise então, fico lembrando de frases como “temos roupas pra 20 anos, mas todos os meses saímos pra comprar coisas novas” – de algum artigo num blog, e penso que é verdade. No inverno passado me lancei um desafio “não vou comprar nenhum casaco novo neste inverno, tenho um monte”, e consegui não comprar nenhum casaco novo, mesmo tendo tantas coisas bonitas nas lojas. E agora acho que poderia pensar em coisas como “vou passar 3 meses sem comprar nenhuma roupa nova, porque realmente não preciso. E se eu começar a ficar meio triste quando olhar pro meu armário, vou é criar vergonha na cara e caprichar mais nos exercícios aeróbicos e na restrição ao álcool, emagreço mais um pouco, e a maioria das roupas ficam bem mais bonitas com uns 2kg a menos”.

Eu sei que essa história de não comprar é péssima pra economia de um país. Falta de confiança do consumidor fode com tudo. Mas é impossível negar que o país não tem dado muitos motivos pra merecer confiança.

Fim das mordomias. Mais trabalhos domésticos. Ficar mais em casa. Viajar menos, passear menos, jantar fora muito menos.

Fora a tristeza pelas pessoas que perderam os empregos hoje (mas que foram devidamente indenizadas), o resto não é tão difícil. Dando uma arrumada na casa e caprichando um pouco nas compras do supermercado dá pra aumentar a sensação de pequeno refúgio, alegrias simples, orgulho por ser capaz de tomar essas medidas de precaução sem precisar esperar a situação piorar ainda mais.

A vida não está fácil pra ninguém. Imagino que hoje em dia até mesmo corruptos têm que ter um mínimo de preocupação em não virarem notícia de imprensa. Mas não dá pra viver tanto tempo em clima de deprê. Precisamos procurar os pequenos prazeres, as pequenas alegrias, e valorizá-las o máximo que pudermos.

Die a Happy Man – o ridículo de quase morrer por uma música cafona

A viagem foi incrível, talvez uma das melhores. A vastidão do Death Valley, jogo dos Lakers, momento intimista com os meus queridos pardais do deserto, comida tailandesa autêntica, ganhar drinks e dicas num bar em Los Angeles. E tantos pensamentos sobre cidades, pessoas, a riqueza da Costa Oeste, a pobreza do Brasil. E sobre o nada, o vazio, mas não os que trazem o desespero, e sim aquilo que te fortalece.

E o que estou fazendo em vez de registrar tudo isso? Só blogando sobre o ridículo.

– Você está séria

– Estava ouvindo a música. Fiquei comovida com a música.

– O que a música falava? Algo sobre hand, happy man (O Cris sabe muito mais inglês do que eu, só não estava prestando atenção na letra)

Segurei na mão dele e falei bem séria “If all I got is your hand in my hand, I would die a happy man”, com os olhos molhados. O Cris também ficou comovido, e os olhos dele começaram a encher de lágrimas. O problema é que ele estava dirigindo e eu fui ficando preocupada — “tá bom, tá bom, a gente ia morrer happy, mas não precisa ser agora, por favor, olha pra estrada”

Começamos a rir, as lágrimas acabaram, e não fiquei mais com medo de que a gente ia capotar o carro.

Uns dias depois resolvemos dar uma olhada na música, Die a Happy Man foi fácil de achar, mas aí topamos com o clip oficial da música e PUTAQUEOPARIU. Se a gente tivesse morrido por causa de uma música com um clip tão cafona, não daria pra morrer feliz.

Vimos a letra inteira, antes só tínhamos ouvido um pedaço. O Cris  achou lamentável falar de Northern Lights e Torre Eiffel, red dress, black dress, pra mim não era tão doído, o que doeu foi ver o close da cara do compositor-cantor — na primeira vez que ouvi imaginava um jeito mais cowboy-honesto-Robert-Redford-Encantador-de-Cavalos, mas o que realmente estraga é o clip.  Que eu não vou colar aqui. No Youtube tem um monte de covers, mesmo desafinados, alguns são bem comoventes. A melodia e o refrão são tão legais, custava ter uma letra melhor? Um outro clip? Se você tiver o espírito forte, só ouça a música e nunca vá ver o clip oficial.

 

Por acaso, na sequência do Youtube apareceu esta música, mas a versão original — que confesso que eu estava curtindo a melodia sem prestar atenção na letra, mas quando olhei no visor do rádio me senti constrangida “não acredito que estou curtindo uma música do Justin Bieber… e eu nem sei nada dele, só lembro daquele concurso em que os hackers alteraram o resultado pra dizer que o país que os fãs queriam mandá-lo era a Coréia do Norte”:

 

pop demais? Rodando pela Costa Oeste não parecia. Em Los Angeles as rádios enjoavam, mas na estrada no geral sempre havia muitos rocks e música country boa. Os dois países com as melhores músicas: Brasil e Estados Unidos.

 

Yon Preston e Kelly Kyara

(confesso que agora toda vez que estou brava com algo ou alguém me vem a voz doce da Kelly Kyara e eu posso cantarolar “Baby you can go and fuck yourself”)

Lyrics: 

Yo: 
All the times that you rain on my parade
And all the clubs you get in using my name
You think you broke my heart
Ohhh girl for goodness sake
You think I’m crying
Oh my ohhh, well I ain’t!

And I didn’t wanna write a song
‘Cause I didn’t want anyone thinking I still care, I don’t
But, you still hit my phone up
And baby I be moving on

And I think you should be somethin’ I don’t wanna hold back
Maybe you should know that
My mama don’t like you and she like’s everyone
And I never like to admit that I was wrong
And I’ve been so caught up in my job
Didn’t see what’s going on
But now I know
I’m better sleeping on my own

‘Cause if you like the way you look that much
Ohhhh baby you should go and love yourself
And if you think that I’m still holdin’ on to somethin’
You should go and love yourself

Kelly: 

All the times that you had to check my phone
The failed attempts to quit that shit that you smoke
Always stumbling in with makeup on your shirt
You think I don’t know that you still talk to her
And you told me you were movin on
You just don’t want anyone thinking you still care but you still keep them screenshots
And I guess you just loved you more
All your boys told me how you wanted something real but I guess I wasn’t good enough

My daddy gon’ kill you when he hears this song
He knows that you lied to me, he’s glad to see you gone
You’re just so messed up in your mind, you cannot see what’s inside mine
But now I know, I’m better sleeping on my own 
No I don’t like, the way, you played me out 
Maybe you can go and fuck yourself
and if you think that I’m still holdin on to something 
Baby you can go and fuck yourself

Yo: 

For all the times that you made me feel small
I fell in love now I fear nothin’ at all
I never felt so low when I was vulnerable
Was I a fool to let you break down my walls?

Cause if you like the way you look that much
Ohhhh baby you should go and love yourself
And if you think that I’m still holdin’ on to somethin’
You should go and love yourself

Yo & Kelly

Cause if you like the way you look that much
Ohhhh baby you should go and love yourself
And if you think that I’m still holdin’ on to somethin’
You should go and love yourself

Meu coração remendado

Algum trocadilho ruim, dessas coisas bestas, nem sei contar o que era. Nada ofensivo, só daquelas coisas que você fala “ah, não”, o Daniel riu, e eu falei pro Daniel “Você não pode rir, você sabe, senão incentiva a babaquice”. Incentiva a babaquice é uma expressão comum na minha família em Limeira, usada exatamente em situações como essa – piadas ruins, trocadilhos, mas provavelmente o Cris não lembrava, porque resolveu subir nas tamancas “eu não admito que você use essas palavras e fale assim comigo na presença do MEU filho”.

Ai, caralho. Eu quero que cicatrize, mas todo dia vem alguma pancada nova. Apareceu de novo a névoa de gelo ao meu redor, que se traduz principalmente em eu parar de olhar pra cara dele. Ele tentou me tirar da cozinha (onde está montado nosso QG – a gente é tão nerd, o notebook do Daniel está bichado, então ele trouxe o destktop) “você está cansada, acordou cedo, seu olhos estão vermelhos, vem cá que eu vou te colocar na caminha”. Mesmo quando a gente vai dormir depois das 3h, é raro eu acordar depois das 9h, todos esses dias blogo nessas horas em que eles dormem. Falei “não estou cansada, não”, o Daniel confirmou que era mentira que meus olhos estavam vermelhos, e eu falei “não quero ir pra cama, quero ficar aqui na cozinha com o Daniel”.

Mas a nuvem de gelo continuava, então ele me puxou num canto e eu falei bem rápido “Você sai do quarto depois das 13h, fica um tempão longe da gente fazendo suas coisas, depois chega aqui na cozinha e vem com essa de o que eu posso ou não posso falar na presença do ‘SEU filho’? Você acha que eu sou o quê, a babá?

Ele se desculpou e passamos o dia razoavelmente normais. Mas na hora de deitar na cama eu me sentia triste. Não falei nada, estava quieta, ele falou que eu estava triste, por que, fiz alguma coisa? Nas últimas horas não. É por aquelas coisas? É, é pelas coisas que você falou nos últimos dias, por hoje. Ele não falou nada, só me abraçou, e coincidência ou não fui ficando desconfortável, achando que precisava tomar um remédio pro estômago, e não queria voltar pra cama. Peguei um cobertor e ele foi me buscar no sofá alguns minutos depois.

Quando começamos a conversar, eu explicando que sentia um laço se rompendo entre a gente, e tentei explicar invertendo os papéis “imagina que eu te ofendo e te machuco, mas quando você me fala disso, minha resposta é só o silêncio. O que significa que não acho que te devo desculpas, e que sua dor é uma frescura”. E falei sobre ele assumir a pose do “MEU filho”, dele me falar “O Daniel é MEU filho, ele é muito bonito e nunca poderia ser SEU filho porque você é feia” ou “não fale assim comigo na frente do MEU filho”. Ele perguntou se eu estava querendo machucá-lo, e eu achei uma pergunta absurda “Te machuca ouvir as coisas que você tem me falado?”

Uma longa conversa. Mas curativa. Acordo cansada, mas não mais destroçada, despedaçada. Não mais a Medusa ou uma das Fúrias. Mais pra um ursinho de pano desses de papel de carta antigo, com um remendo num dos pedaços do coração.

Em resumo ele reconheceu que talvez, talvez, seja isso. A questão com o filho. Se meu calcanhar de Aquiles é minha aparência, o calcanhar de Aquiles do nosso casamento é o fato de eu não querer ter filhos. Eu sei. Sei que isso é motivo de separação entre muitos casais, e sei que o Cris queria muito. Mas eu não quero. Gosto de crianças, amo muito o Daniel, morreria pelo Daniel. Mas ser mãe é outra coisa, e eu não quero ser mãe. A teoria é de que o fato de eu estar chegando aos 39 anos, mais as tensões do trabalho têm feito surgirem essas situações. Um pouco da vazão da dor dele por eu não querer ter filhos.

E acho que foi a primeira vez que ele me falou “por a gente não ter outro filho”, em vez de “por a gente não ter um filho”. O Daniel não mora com a gente. Guarda compartilhada, tempo mais ou menos dividido meio a meio e se for contar horas líquidas com ele, talvez a gente passe mais tempo com ele do que a mãe dele. O Daniel não mora com a gente, ele não é meu filho, não saiu da minha barriga, mas eu o amo muito, nós três estamos sempre juntos, conversando, jogando, rindo, brincando, e damos broncas uns nos outros quando é preciso. Não é um arranjo de família tradicional, mas o Daniel é nosso filhote. Ele não é só nosso, ele não dorme com a gente todas as noites. Mas estamos unidos, talvez cada vez mais unidos. O tempo que temos juntos é quase todo dedicado à apreciação da nossa tríade. O Daniel ainda escolhe ficar com a gente em vez de chamar amigos, ir na casa de amigos, ficar jogando com amigos online. Eu escolho não passarinhar, não viajar, não trabalhar. O Cris não consegue desconectar tanto, mas ainda que eu fique mais tempo focada no Daniel, ele também passa um bom tempo com a gente. Escolhemos atividades em que nós três possamos fazer coisas juntos, porque adoramos a companhia uns dos outros, porque estarmos juntos é uma das melhores sensações do mundo, e se isso não é uma família, o que é uma família?

Eu acho que vou continuar recebendo umas patadas. Mas pensar que tem a ver com essa dor grande do Cris, por eu não querer ter filhos, me ajuda a suportar melhor. Não pra ouvir quieta. Mas pra suportar melhor.

 

Também andei pensando em questões do mecanismo da amizade, questões do tempo, a doce indolência, mas acho que agora vou parar de escrever, porque no momento não preciso mais. Vou fazer uma tarefa que é uma das formas de amor: ir ao supermercado, ter coisas gostosas para meus amores comerem. Acho que alimentar as pessoas quando não é algo que se faz como obrigação ou rotina é um dos atos mais amorosos. Feliz 2016, amigos queridos, e obrigada pelos pensamentos bons.