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A democracia é uma merda

Eta tristeza da porra em ver o resultado do plebiscito do Reino Unido. Quase tão triste quanto resultado de eleição no Brasil.

A humanidade deu certo? Não deu certo? A gente vai continuar se explodindo, sequestrando crianças, estupros coletivos, gente com cérebro mas sem coração dizendo que feminismo é frescura, corrupção descarada e tanto descaso pra tudo, pra tudo.

Queria mais otimismo e alegria, minha gente, mas está difícil. Hoje tudo que consigo fazer é ver vídeos de flash mob, especialmente nos EUA, lembrar do clima da Califórnia… e sentar e chorar… imaginando um mundo em que a humanidade deu certo, em que todo mundo vive bem, em que as riquezas são compartilhadas, em que não há xenofobia, nem racismo, nem machismo, nem corrupção, nenhum discurso de ódio. Só gente capaz de dançar na praça, com uma multidão em volta pra bater palma e aplaudir.

http://www.bbc.com/portuguese/internacional-36617121

“O resultado do plebiscito a favor da saída do Reino Unido da União Europeia (UE) revelou profundas divisões entre os britânicos.

Revelou, por exemplo, duas ‘Inglaterras’: Londres votou pela permanência, enquanto a maioria das outras cidades votou pela saída. A diferença entre as gerações também ficou clara. No grupo entre 18 e 24 anos, 64% disseram ter votado pela permanência, escolha de apenas 33% dos britânicos entre 50 e 64 anos.”

“A geração mais jovem perdeu o direito de viver e trabalhar em 27 países. Nós nunca conheceremos a extensão da perda de oportunidades, amizades, casamentos e experiências que serão negadas. A liberdade de movimento nos foi retirada pelos nossos pais, avós e tios em um golpe contra uma geração já afundada nas dívidas da geração anterior. Talvez mais importante, vivemos em uma sociedade pós-factual em que fatos se revelaram inúteis ao se confrontarem com mitos”.

O que é um país?

O impeachment está encaminhado e provavelmente vai se concretizar.

O impeachment é golpe branco, como o pessoal gosta de falar, já que não conseguiram mostrar casos de violência, prisão, tortura e assassinato dos opositores?

O impeachment tem um altíssimo grau de campanha e manipulação pra ganhar o apoio de uma quantidade grande de pessoas. Pessoas ricas, poderosas e influentes concordaram com a ideia de que era preciso tirar o PT do poder, e se articularam numa gigantesca campanha que ganhou grande parte da opinião pública, e também estava alinhada com centenas de deputados e dezenas de senadores que eram as pessoas capazes de dar prosseguimento ou barrar o processo.

Uma grande manipulação.

Mas vou perguntar uma coisa: se não houvesse essa manipulação, haveria menos desemprego e não teríamos recessão? A situação está boa pra você? Você está feliz, se sentindo num país próspero e promissor, bem administrado?

Daí sempre vem a pergunta ” e por acaso Temer e o PMDB são a solução?”

Não, meus amigos. A solução é o tal disco voador ou portal dimensional que vai trazer os novos políticos limpinhos e competentes. Como parece que isso não existe, a gente tem que se virar com o que tem pra hoje, que não é a solução, e só a alternativa ao cenário de um governo que talvez até tenha começado com boas intenções de diminuir a desigualdade social, mas que se corrompeu e agora tem seus podres vazando e jorrando como nunca antes exposto. Não que não acontecesse antes, mas nunca foi tão exposto e alardeado.

De forma puramente pragmática: gente rica, poderosa e corrupta tirou o PT do jogo. Nós somos massa de manobra, bem influenciados pela ampla campanha contra o PT. Mas o fato é que com o PT o país afundava cada vez mais. Mesmo que tenha uma boa dose de jogo contra de quem queria ver o PT fora do poder, também teve uma boa dose de incompetência técnica e política.

Olha o buraco da recessão em que a gente está.

Eu fico revoltada de ouvir o argumento dos 54 milhões de pessoas que votaram na Dilma e tiveram seus votos jogados no lixo. Sabe quantas pessoas podiam votar em outubro de 2014? 142,8 milhões. Das quais 54 milhões votaram na Dilma. 88,8 milhões não votaram na Dilma. E possivelmente uma boa parcela dos 54 milhões não votaria na Dilma hoje.

Outra coisa ridícula é enaltecer o valor do voto como se cada cidadão brasileiro fosse altamente politizado, culto, consciente, como se cada voto valesse ouro, fosse fruto de uma decisão ponderada e madura que leva em consideração o bem estar da nação.

“O povo não foi consultado”, reclamam muitos.

Na hora de reclamar do resultado do impeachment, nós o povo somos uns idiotas facilmente manipulados pela imprensa, palhaços que se vestiram de patos e foram aos milhões pras ruas pedir a saída do PT.

Depois que o impeachment prossegue, de repente o povo vira uma entidade dourada, que teve 54 milhões de seus representantes barbaramente ignorados. E não se fala nada dos 88,8 milhões que não queriam Dilma de novo no poder.

O que é um país? O que é o povo?

Lembram do mapa da votação, da divisão em cores? Do quanto as pessoas xingaram o Nordeste? Do esforço em não ver uma nação dividida?

Eu acho totalmente errado xingar as regiões que votaram em massa na Dilma, que apoiam em massa o PT. Acho absurdo gente que xinga Nordestino, ou que não reconhece como os outros governos sempre ignoraram a parcela mais pobre da população. (Ainda que eu não tenha nenhuma dúvida de que os programas assistencialistas têm um direcionamento de curral eleitoral — eles tiraram muita gente da miséria, mas não são estruturados para que as pessoas possam crescer como gente, e sim que continuem dependentes, e eternamente gratos, a esses programas).

Não consigo aceitar o discurso sobre o que o povo brasileiro quer. Sobre a relevância e significância dos 54 milhões de votos da Dilma. O que eu sei é que eu não votei na Dilma, e acho que nenhum dos meus amigos e conhecidos votou. Não acho que é só vergonha depois que as notícias de corrupção ganharam notoriedade, eu passei um bom tempo olhando o mapa que mostrava a distribuição dos votos.

Somos uma democracia, pro bem e pro mal, cada pessoa é um voto e cada voto tem o mesmo peso, seja você uma pessoa culta, ativista e politizada, seja você alguém que votou em que mandaram você votar.

Eu me conformo que seja assim.

Mas não me sinto bem em engolir o discurso sobre o que o povo brasileiro quer. Um discurso que dá a entender que os 54 milhões de votos representam o país todo, inclusive eu. Não me sinto bem com o silêncio sobre os 88,8 milhões de pessoas que não votaram nela. Sobre as dezenas de milhões que estão se ferrando cada vez mais.

Há elementos assustadores no novo governo.  Branco, corrupto, podre, sem mulheres, sem negros. O governo de Dilma era muito melhor?  Conseguiu levar pra frente a descriminalização do aborto? Não. Conseguiu diminuir os assassinatos de mulheres e gays? Não. Conseguiu reduzir a quantidade de assassinatos de jovens pobres e negros, mulheres negras? Não, pelo contrário. Fomos da sétima pra quinta posição no ranking de países que mais matam mulheres, e o assassinato de mulheres negras cresceu 54%. E na questão de podridão da corrupção, é difícil dizer quem roubou mais.

Eu sei que não há o que celebrar, que só retardados comemoraram a mudança do governo como se fosse significar o fim da crise e o fim da corrupção, num plim, instantaneamente.

Mas acho o fim da picada a pose e as insinuações de que na era PT havia muita justiça, valorização de minorias e do meio ambiente, e que agora com o Temer é que a vaca foi pro brejo.

O impeachment foi golpe?

Juridicamente já se provou que não.

Moralmente, ideologicamente? Pra mim o golpe é ter que aceitar um sistema em que você, sua família, seus amigos, seus conhecidos, milhões de pessoas que moram ao seu redor, milhões de pessoas nos Estados vizinhos, todo mundo acha que não devia ser esse governo — milhões e milhões, mas ter que engolir o resultado porque como definição de país somos uma unidade federativa que pressupõe homogeneidade. Ter que engolir uma realidade que é nociva, tóxica, degradante faz tempo e você tem que engolir tudo isso porque há outros milhões de pessoas pra quem a realidade é diferente.

Eu sei que cada um defende seus interesses, e falo de novo: acho totalmente errado xingar as pessoas que votaram no PT, e que continuam fiéis ao PT até agora.

Mas não quero abrir mão do meu direito de dizer que com o PT minha vida, a vida da minha família, dos meus amigos, piorava dia a dia. Eu não escolhi isso, não votei assim. E pra mim, moralmente não é golpe tirar do poder alguém que só fazia mal pra minha vida.

Eu não tenho certeza de que as coisas vão melhorar com o novo governo. Eu simplesmente achava que não tinha como a situação melhorar com Dilma no poder, não por uma questão de orgulho ou birra, mas porque a meu ver ela não tinha mais condições de governar o país. Sem credibilidade, sem apoio, dando cabeçadas, nos enfiando mais e mais no buraco.

Por isso pra mim impeachment não é golpe branco. Qualquer legislação ou regulamento tem espaço para interpretações diversas, não há lei que descreva tudo com detalhes suficientes. Juridicamente era permitido tirá-la do poder. Isso não foi feito com violência ou ameaças, e sim com costuras políticas — e costuras políticas fazem parte da essência da política. Em lugares mais civilizados, visando um bem maior seguindo os ideais do partido. No Brasil, muitas vezes visando lucros pessoais, mas isso não é algo que vai mudar de um dia para o outro.

Mas e os 54 milhões de eleitores da Dilma?

Mas e os 88,8 milhões que não votaram nela? E os 11,1 milhões de desempregados no Brasil, em maio de 2016, taxa de 10,9%, a maior que o Brasil já teve desde que começaram a medir? Você vem falar pra essas pessoas sobre golpe branco, sobre preocupações com ranhuras na democracia? Não, meu senhor, acho que essas pessoas têm outras preocupações um pouco mais imediatas e palpáveis.

Faço parte de uma parcela privilegiada da população. Tenho dinheiro pra pagar minhas contas, pra pagar escola particular pro Daniel, pra fazer viagens. Mas a crise também nos afeta. Diminuiu nossos gastos, cancelou viagens, torna nossos planejamentos mais austeros, o futuro mais sombrio. Me sinto solidária com as pessoas que estão cada vez mais afundadas, como comerciantes, pequenos empresários e prestadores de serviço que aceitam trabalhar cada vez mais por menos. Ao mesmo tempo, fico com uma leve impressão de que muitos dos defensores de Dilma são pessoas com renda garantida, aposentados, universitários, intelectuais, artistas, concursados ou coisas do tipo, ou gente pra quem o desemprego não é algo desesperador. Não tenho dados, é só uma impressão.

De novo: não quero xingar ninguém, nem brigar com ninguém, nem mesmo acusar ninguém.

Só queria reafirmar minha opinião de que eu tenho o direito de saber que sou massa de manobra, mas que não participo disso enganada, e sim concordando com a finalidade. O fim do PT. Um câncer corrupto como tantos outros partidos são corruptos, mas que conseguiu enfiar o Brasil numa crise econômica gigantesca. Por incompetência técnica, por falta de ginga política, por manipulação dos outros partidos, mas o resultado final é que enfiou o Brasil no buraco. E panfletei a favor do impeachment, e me mantenho a favor do impeachment, não porque acho que Temer é a solução, mas só porque ele era a única alternativa.

Que digam que ele é bandido, que a equipe é de bandidos. Que sejam. Qual dos políticos não tem nada pra ser investigado? Sinceramente não sei. Dilma, por exemplo, pode não ter enriquecido com a corrupção, mas olhou pro outro lado mesmo sabendo que aconteciam transações terríveis, e isso também é crime.

Qual dos políticos não é corrupto? E entre os poucos que se salvarem, quem consegue jogar o jogo político e atuar?

Se Temer e toda a equipe são bandidos, espero que o longo braço da Polícia Federal chegue a eles. Mas defendendo meus interesses próprios, espero que isso aconteça depois deles terem conseguido tirar o país do buraco.

Tem gente realmente feliz hoje?

Eu sei. Panfletei, sou a favor do impeachment, argumentei com um punhado de gente. Acredito que era o caminho certo, tanto porque Dilma não governava mais e assim não tinha condições de tentar tirar o país do buraco, como pelo fato de aceitar Lula como presidente de fato seria uma derrocada moral grande demais.

Sim, concordo que as pedaladas são motivo leve. Concordo que se a economia estivesse indo bem, ninguém se importaria. Concordo que houve toda uma manipulação pra chegarmos onde chegamos.

Mas não concordo em dizer que ela é totalmente inocente e injustiçada, uma vítima. Isso não.

Olha a situação que está o país.

Olha as denúncias da Lava Jato.

Ela pode não ser corrupta, mas ela é a presidente do país. Ela não tem nada a ver com isso? Não sabia de nada? Estava de costas o tempo todo?

Foi como a declaração de que não existe corrupção no governo dela. Ou é uma mentirosa cara-de-pau ou uma total ingênua. Nenhuma das opções prestava.

Dilma perdeu toda a base. O PT vai perdendo todos os aliados. País em recessão e com desemprego nas alturas. Temer não é a solução, era só a única alternativa.

Quem acompanhou os posts sobre política viu que não é uma questão partidária, e que evito demonizar o PT. E eu sei como há sujeira em todos os partidos, principalmente o PMDB. Mas tenho prestado atenção nos argumentos petistas e é lamentável. Quando o PMDB começar a falar provavelmente também será lamentável, mas por enquanto o destaque ainda está no PT, e me impressiona esse discurso que apela pra um sentimentalismo quase materno, e pra um fantasma de ditadura e repressão que ainda não conseguiram me explicar como vai acontecer. Pelo contrário: até agora, as atitudes mais milícia, de tacar fogo em pneu, interditar estradas, dizer que vão parar o país vem do PT.

 

Ouvi uma amiga defender Dilma, como se fosse uma pessoa física, quase uma amiga. “Coitada. Ela não fez nada. Nunca roubou, não enriqueceu. E agora está tendo que enfrentar isso. E a traição do Temer. Pensar que ele fez um juramento de lealdade, e depois…”

Era uma situação especial em que eu não estava lá pra discutir, então só ouvi e balancei a cabeça pra tudo.

Mas aqui eu posso dizer. Queridos, se liguem: Dilma não é pessoa física. A família dela pode falar coisas desse tipo, você não. Dilma é presidente do país. Quando você assume um cargo tão grande você perde o direito a um monte de coisas, inclusive o de ser pessoa física, um coitado. Você se torna uma figura pública, com obrigações do tamanho do mundo.

Caramba, que vergonha ler a declaração dela de que sofreu sexismo. Que desserviço pra causa feminista. Vergonha, vergonha… A derrocada dela não tem nada a ver com ser mulher, e sim com o fracasso do país somado às avalanches de denúncias de corrupção.

Tenho evitado ler qualquer discussão, e hoje nem abri o Facebook, então só o que eu tenho são os comentários da minha amiga, mas que imagino serem representativos entre várias pessoas contra o impeachment.

O fantasma da ditadura. Dilma faz questão de enfatizar que é golpe, de relacionar o impeachment com tortura, de insinuar que Temer provavelmente fará represálias contra os opositores. Minha amiga me citou uns dois ou três exemplos de reações intolerantes numa discussão política, e a pior situação era de uma mulher que saiu de um grupo de estudos. E me falou “se as pessoas estão fazendo isso, talvez a polícia e o exército terão que intervir, e daí não sei onde a gente vai parar”. Caramba. Gosto tanto dela, mas como foi duro ouvir essas coisas. Ainda mais emendadas com o que eu tinha acabado de contar sobre a Romênia comunista, que o pai do meu sogro foi assassinado pelos nazistas porque um vizinho alertou a fuga deles pra Gestapo “olha os judeus alí!”, ele e o tio foram presos, e no dia seguinte encontrados mortos num frigorífico, pendurados pelo pescoço.

Contei essa história e ela começou a me falar das discussões entre PTs x anti-PT.

Putaqueopariu.

As pessoas realmente acham que tem semelhança? Que a gente está mesmo perto de se tornar uma ditadura? Uma ditadura exige controle total sobre os meios de comunicação. Pra silenciar, ameaçar, prender, torturar, matar quem fala mal do governo. China, Coréia do Norte, Arábia Saudita, Iran, Burma. Lugares em que e-mails e sites são monitorados e bloqueados, conteúdos inconvenientes apagados, em que os blogueiros têm que se cadastrar, e quando saem da linha recebem multas ou podem ser presos. Como isso vai acontecer no Brasil? Porque as pessoas estão batendo boca ou até se esmurrando eventualmente significa que o exército vai querer tomar o poder e tratar a população inteira na base do cassetete? As pessoas realmente fantasiam isso? Que grupo vai se arriscar a ser apedrejado pela opinião pública? A polícia andou batendo em manifestantes, foi execrada, e depois não começou a aparecer posando sorridentes, o pessoal tirando selfies com os policiais?

Graças à internet e às redes sociais hoje a opinião pública é um monstro. Pra combater esse monstro você tem que estar disposto a tomar medidas duras, terríveis e generalizados pro país todo, como os países que eu citei adotam.

Como é que o PT ou o PMDB ou qualquer grupo vai fazer isso?

Não consigo imaginar como eles fariam isso de uma vez. E pra fazer aos poucos (1) não tem efetividade, (2) é abrir telhado de vidro pra ser duramente condenado pelo mundo inteiro.

Hoje não é um dia feliz. Quem me dera que os ETs tivessem descido da nave mãe trazendo os novos políticos limpinhos e competentes. Não apareceram. A gente continua com o mesmo sistema de merda de sempre, mas agora com uma chance um pouco maior de sair do buraco. Só um pouco, porque a situação é terrível e os políticos do PT, vários já falaram que vão lutar contra o tempo todo, mesmo que seja uma proposta igual a o que o PT faria, se veio do Temer eles vão votar contra e boicotar. Bonito, não? Bem bonito. E também vemos Lula se articulando pra disputar e talvez ganhar a presidência em 2018.

É o meu país.

Mas ainda não consegui me livrar dos pensamentos de que a saída é Cumbica.

Não está fácil manter o otimismo

A gente está tão ferrados.

Tão ferrados.

Eu sei que estamos ferrados faz uns 500 anos, mas na onda da Lava Jato e do sucesso do impeachment eu me permiti começar a acreditar que agora vai, que eu veria em vida algo que achei que era coisa pra daqui a gerações.

Como se a grande besta fosse se entregar tão fácil. Claro que não vai.

E é claro que o impeachment não seria a garantia de fim da corrupção, mas era a esperança do fim do PT e o início de uma era em que no mínimo os políticos precisariam se preocupar em parecer honestos.

Com a anulação da votação começo a pensar que não vai ter fim do PT. Que a gente vai ter que aceitar de cabeça baixa que eles são muito mais fortes e poderosos. Que não vai ter terra devastada em Brasília, com investigação de todo mundo. Que logo vão dar um fim no Moro e na Lava Jato.

A melhor saída pro Brasil é Cumbica?

Queria conseguir não ir pra esse lado, mas hoje é difícil não se sentir derrotado.

 

A tristeza da vitória

Imagino que não é impressão minha. Pouco rojão ontem. Sem buzinaços. Poucas notícias. Sensação de dia caído. E olha que eu estou em São Paulo, um dos lugares mais anti-Dilma.

Não, meus opositores, não estou nem um pingo arrependida de apoiar o impeachment. E não é por ser orgulhosa, fato que sou, mas não é por isso.

Tem alguém que realmente acha que Cunha e Temer são coisa boa? Ou que existe uma boa alternativa pra presidente? Como achar políticos honestos?

É tudo muito podre, enredado, amarrado, difícil.

Mas pra todo mundo que tem criticado o impeachment, a manipulação da imprensa, a reação da população, é preciso que vocês me respondam: como se luta contra a corrupção?

Três anos atrás eu achava que era assim: lentíssimo trabalho de formiguinha, coisa pra se formar futuras gerações, a esperança de que se a gente estivesse sempre falando do assunto, talvez um dia, daqui a uns 30 anos, uma pessoa numa posição de poder, influenciada por esse burburinho social, conversas com amigos, notícias, vai escolher agir com honestidade em vez de ser corrupta e ganhar milhões. Essa era minha expectativa. E eu achava que ia morrer (espero que lá pelos 80 anos, ou depois), sem ver nada grande acontecendo no Brasil.

Mas então as manifestações começaram.

E putaqueopariu, como eu odeio todo mundo que me fala “ah, mas é tudo muito disperso, bagunçado, sem organização, as pessoas nem sabem pelo o que estão protestando, dizem que o gigante acordou mas é só baderna”.

Como eu odeio. E como tenho sido uma pessoa boa em várias vezes deixar passar, ouvir em silêncio essas declarações de criaturas que parecem caídas de um caminhão de pepino.

Você quer ordem, coerência, organização, persistência, coesão, disciplina, foco, sabedoria de milhões de pessoas, de uma massa amorfa, que nunca na historia do país foi politizada, muito pelo contrário, sempre se investiu no contrário, e de repente pra surpresa de todo mundo essa massa amorfa ganha um formato de monstrão e sai pras ruas, e você acha que esses milhões de pessoas vão sair marchando e discursando organizada e coerentemente?

Eu ouço esse tipo de argumento inclusive de pessoas bem inteligentes, o que me faz pensar que não é só pura burrice, pura falta de empatia de pensar o que é um agrupamento de pessoas. Acho que tem a ver com uma necessidade de ser cool, de falar “não compactuo com isso, e acho que isso não dá em nada, e quando aparecerem várias derrotas, traições, absurdos – como provavelmente vai acontecer mesmo, vou poder rir de vocês idiotas que acharam que havia esperança de alguma mudança”.

Não argumento com essas pessoas que se sentem bem pregando o pessimismo. Não tenho nada pra dizer pra elas, é aquela situação em que a pessoa está com uma ideia formada. Assim como eu. Não tem como um pessimista me convencer que é tudo em vão e não tem nada pra se fazer, eu sei que não largo minha esperança, então não vou tentar fazer o oposto.

Eu escrevo pelos outros. Por quem ainda não tem certezas e está tentando estruturar pensamentos.

Um dos amigos tinha me falado “acho que isso não dá em nada”, e eu falei, porque vi que não era um discurso pessimista todo montadinho, era um “acho que”. Perguntei “mas você não acha que isso pode ser o começo de algo? Pensa em como a gente estava três anos atrás. O interesse do povo por política deu um salto quântico”. E ele respondeu na hora “é verdade. Pode ser o começo de algo”.

 

Meus queridos leitores com quem tenho compartilhado argumentos e formas de ver a situação. Imagino que vocês também não se sentem maravilhados e vitoriosos. Eu não me sinto.

Mas não deixem ninguém tripudiar em cima de vocês. Eu não vou deixar. Se alguém tentar vir zombar de mim, reafirmo minha crença de que estamos sim num caminho difícil, tortuoso, escuro, sem saber em que confiar, em quem votar, como encontrar políticos honestos e como eles conseguirão sobreviver fora do esquema de corrupção enraizado há séculos na política brasileira.

Ainda assim, mesmo sendo tudo tão difícil, pra mim é mil vezes melhor do que a sensação de três anos atrás, quando parecia que não havia nada pra fazer, e que eu morreria sem ver nada grande acontecendo.

Algo grande está acontecendo. É torto, é torpe, é manipulado, é difícil, é doído, foi capaz de causar rachas e brigas entre família e amigos. Mas o que você esperava de uma luta contra a grande besta? Quem achou que lutar contra a corrupção seria fácil e simples? Quem achou que todos os políticos corruptos seriam engolidos pela terra, todos de uma vez, e que apareceriam umas naves espaciais trazendo os novos políticos limpinhos e competentes?

 

Eu não estou contente. O caminho é difícil, mas entre os caminhos difíceis, é aquele que eu aposto. Sem querer demonizar nada, mas pra mim o PT acabou e não tem como ele continuar numa posição de liderança, seria o reconhecimento de que não há justiça no mundo. O que o PT tem de bom, de pessoas boas, de ideais e valores que valem a pena, as pessoas boas precisam se unir em torno de um outro partido.

Ah, e o PMDB, o PSD, e todos os outros partidos? Que haja luta pra que eles também paguem pelos seus crimes. Mas por favor, não me venha com essa de “só o PT foi punido, então não vale”. Se você não puder punir os crimes de todo mundo de uma vez, é melhor não punir ninguém? Pensa um pouco.

— x —-

Eu não ia escrever sobre isso, mas acho que vou. “Não vai ter golpe”, ou “o impeachment vai trazer profundas cicatrizes pra democracia” é das piores linhas de argumento que eu já vi. Eu não estava panfletando por nada até que ler num WhatsApp de família “Sem democracia você não tem voz. Não vai ter golpe”.

Acho que a Dilma não tinha mais salvação, porque como falei, a meu ver a salvação dela estaria diretamente ligada ao desempenho econômico, e além de um monte de erros, com o crescimento da impopularidade a base de aliados ruiu e ela não conseguia aprovar mais nada, inclusive as medidas difíceis e impopulares, mas que dizem serem essenciais pra gente sair do buraco. No mínimo reequilibrar as contas públicas, acabar com essa loucura de ano após ano se gastar muito mais do que se arrecada. (desculpem a simplificação da explicação, mas acho que dá pra entender).

Eu seria teoricamente a favor do impeachment, mas o que me fez blogar, panfletar em Facebook foi a podreira da argumentação da defesa. Essa linha de tentar dizer que o impeachment vai trazer a ditadura de volta foi muito mau caráter, podre, não aguentei ficar quieta. Volta da ditadura? Como isso vai acontecer? Perguntei pra vários, e ninguém conseguiu me explicar. No máximo coisas como “não vai ser de imediato, mas aos poucos…”, aos poucos como? Pela censura na imprensa e nas redes sociais? Não é o impeachment ou não impeachment que decide isso. É preciso ter um grupo forte e disposto a fazer essas coisas, de forma organizada, metódica e violenta. Como acontece na China, na Coréia do Norte, no Irã. Quem vai fazer isso no Brasil?

Profunda cicatriz na democracia?

Ah, putaqueopariu, eu não devia estar escrevendo tanto palavrão mas realmente sinto um grande putaqueopariu quando vem alguém defender a democracia no Brasil. O Brasil, esse exemplo de democracia. Com esses currais eleitorais. Milhões de pessoas mantidas de propósito na pobreza, na sensação de dever favor pra político. Nós brasileiros somos ignorantes, despolitizados, não exercemos nossos direitos, não temos nenhuma tradição histórica, somos enganados o tempo todo, roubados o tempo todo, manipulados o tempo todo, há mais de 500 anos.

E é nesse país dourado e perfeitinho que as pessoas contra-impeachment se preocupam com as cicatrizes na democracia? A gente tem toneladas de falhas no sistema, tanto do sistema quanto de fator humano, dos governantes, da população, uma estrada longa pra evoluir como grupo social.  Como é que esse pessoal pode ficar falando que o fato das pedaladas não serem um motivo pesado (comparado a invasão de outros países, ou vender segredos do seu país pra outro país), é algo que vai trazer profundas cicatrizes na democracia? Até poderia concordar se fôssemos um sistema muito maduro, perfeito, funcional. Mas na tanguinha que a gente vive, com todos os problemas que enfrentamos, com essa putaria de roubalheira e manipulação nacional pra manter a maior parte da população longe da educação e da cultura, controlados por bancada evangélica, agrícola, longe da possibilidade de evoluir como ser humano? Um país em que a mulher não tem nem o direito de decidir sobre o próprio corpo, porque as crenças religiosas de algumas pessoas são capazes de tornar crime e fazer milhares de mulheres pobres morrerem todos os anos nos abortos clandestinos? Um país que é o quinto do mundo que mais mata mulheres, que está no topo dos países de violência contra homossexuais, que está num dos últimos lugares na avaliação de educação, onde mais de 55 mil pessoas morrem por ano, principalmente homens jovens pobres, onde a corrupção é enraizada e sistêmica, onde a carteirada é normal, esse é o país que você está preocupado com a cicatriz na democracia? Ah, putaqueopariu.

Não é o impeachmento por motivo barely legal que vai trazer profunda cicatriz na nossa democracia. Se liga. Nossa democracia é como se fosse a cara do Deadpool, sem a máscara, e o impeachment no máximo será um arranhãozinho.

O processo do impeachment prossegue, mas não é fácil ficar alegre

Criatura naturalmente pessimista e conservadora (ou seja, capricorniana), desde o início das manifestações de 20 centavos vi brotar um “mas será que é possível?”.

Com a Lava Jato vi a esperança crescer.

Com a crise brasileira que não passa, defendi o impeachment. Não por acreditar que Cunha e Temer são a verdade e a luz, mas por achar que com Dilma a situação só piorava e que não tinha mais como ela reverter a crise de confiança.

325 a favor. É só questão de tempo. Mas não estou comemorando.

Fiz questão de me enfiar nas discussões políticas principalmente pela podreira dos argumentos contra o impeachment. “Sem democracia você não tem voz. Vai voltar a ditadura. Não vai ter golpe. Mas isso aí não vai resolver tudo. O impeachment trará uma profunda cicatriz nas relações democráticas. É injusto ela ser condenada pelas pedaladas fiscais”.

Enquanto que a favor do impeachment, nunca vi alguém dizer que acha que o impeachment vai resolver tudo. Civilizadamente podemos discutir os detalhes técnicos da teoria. Mas na prática, pra mim é algo muito simples: o país está uma merda, tem milhões de pessoas sofrendo pesado os efeitos da crise, e não vejo como o governo Dilma conseguiria reverter a situação. Ela não governa mais.

Meus colegas contra o impeachment me dizem que isso é inconstitucional. Que não se pode tirar um presidente por incompetência. Que você deve engolir tudo quietinho e aguardar as próximas eleições.

Eu tenho uma posição econômica privilegiada. Com a crise corto viagens, gastos, compras. Se piorar, talvez tenha que mudar pra um lugar mais barato. Mas estou muito longe de ter que tirar o Daniel da escola paga e colocar numa pública, e mais longe ainda de não poder pagar contas ou passar fome.

Os meus colegas que são contra o impeachment não se importam com isso? Em nome da hipotética cicatriz, de uma ditadura que eles não conseguem explicar como vai acontecer, milhões de brasileiros devem continuar sangrando mês a mês?

O novo governo vai conseguir resolver a crise? Melhorar  a situação em 6 meses, 1 ano? Não sei. Só sei que não conseguia imaginar como Dilma faria isso. E ter Lula como presidente, mesmo com todas as investigações da Lava Jato, seria humilhação demais. Seria jogar na cara que a corrupção te torna acima de qualquer coisa.

Mas não estou alegre. E como viram, desde que viajei tinha parado de blogar sobre o assunto.

Continuo achando que partimos de um princípio espetacular. Dois, três anos atrás, os acontecimentos de hoje seriam enredo fantasioso. Nunca se discutiu tanto corrupção, ética, democracia.

A corrupção é um monstro que provavelmente nunca vai deixar de existir. Mas por causa da Lava Jato e das manifestações populares, agora eu acredito que talvez a gente consiga transformá-la num monstro menos petulante… um que não destrói todas as nossas chances de sermos um país com menos desigualdade, um país que investe em educação e que há chances reais de justiça.

Mas lamento que haja tanta desunião e conflitos. Times. Amigos x amigos. Irmão contra irmão. E não falo isso por achar que eu estou certa e os outros estão errados. Fui e sou a favor do impeachment, mas seria capaz de mudar de opinião se visse chances reais do governo Dilma ser capaz de tirar o Brasil do buraco. Não conseguia ver como. Por isso defendi o impeachment.

E agora temos o impeachment, mas também milhões de pessoas que choram o resultado. E talvez estejam dispostas a lutar em frentes diversas, de formas diversas, pra mostrar que elas estavam certas. Se o impeachment tivesse perdido, imagino que muitos dos que eram a favor do impeachment também reagiriam assim.

340.

342.

É o fim.

Longo caminho pra ter um novo começo.

Lula quer o fim da Lava Jato

E usa os argumentos mais canalhas pra tentar convencer as pessoas, inclusive dando a entender que a crise econômica brasileira deriva de prejuízos com a Operação Lava Jato. Juro. Veja:

“Em discurso, Lula fez um apelo aos sindicalistas presentes para que cobrem do juiz Sérgio Moro informações sobre “prejuízos” que as investigações da Operação Lava Jato estariam causando à economia.

“Essa operação de combate à corrupção é uma necessidade para este país. Eles estão dizendo que vão recuperar não sei quantos bilhões, seis bilhões, um bilhão, dois bilhões, três bilhões. Não tem problema. Agora, eu queria que vocês procurassem a força-tarefa, procurassem o juiz Moro, para saber o seguinte: se eles estão discutindo quanto essa operação já deu de prejuízo à economia brasileira”, disse Lula.

“Vocês têm que procurar a força-tarefa e perguntar se eles têm consciência do que está acontecendo neste país”, completou.”

http://g1.globo.com/politica/operacao-lava-jato/noticia/2016/03/entidades-criticam-fala-de-lula-sobre-prejuizos-da-lava-jato-economia.html

Eu queria poder só dar risada do argumento tosco. Mas depois de ver tanta gente por quem tenho tanta consideração embarcar na onda do “Não vai ter golpe”, “Sem democracia você não tem voz”, “o impeachment vai trazer a ditadura de volta”, não duvido de mais nada. Não duvido que daqui a pouco eles também estejam me falando que a crise brasileira é culpa da Operação Lava Jato.