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Uma discussão pública não serve pra você falar o que você pensa

Você só pode falar o que você pensa pra alguém muito, muito, muito especial. Um super amigo. O amor da sua vida, mas quando vocês já estão muito íntimos e você tem certeza de que ele vai entender o que você quer dizer.

Em todos os outros casos, o objetivo de uma conversa não é se expressar livremente, poder falar o que você pensa, isso é um grande erro e ilusão, minha gente.

Quer se expressar? Fala no chuveiro, escreva furiosamente, blogue, conversa com o analista, pede help pro seu BFF. Mas uma discussão pública com certeza não é o momento pra falar o que você pensa.

O objetivo de uma discussão pública é ser vitorioso, só isso. Você só se envolve numa discussão pública se você acha que tem boas chances de ganhar. Senão, fique quieto.

O que é ser vitorioso, o que é ganhar? Não é convencer seu oponente de que você está certo. Como já falei várias vezes, não lembro de alguma vez que vi uma discussão públicam e que um dos lados deu o braço a torcer, pelo contrário, esses são momentos pra você falar com mais convicção ainda sobre o que você está defendendo.

Você entra numa discussão pública pela plateia. Por quem está acompanhando o show, não tem uma posição firme sobre o assunto, e seus argumentos podem fazê-lo pender pro seu lado.

Há várias estratégias possíveis, mas vou falar de algumas que parecem que tem funcionado:

Você é sempre gentil, ameno, civilizado, cordial. Sempre. O tempo todo. Não importa o quanto você esteja bravo, não importa o quanto o outro tenha tentado te provocar ou falado coisas ofensivas. Você não muda de sintonia e se mantém um gentleman.

Você não imagina o quanto isso faz diferença pra plateia, na verdade, muitas vezes isso é tudo que importa. Eu já acompanhei várias discussões em que reparo que as pessoas têm pouca capacidade de se ater aos argumentos, o que elas mais reparam é a performance, e se um dos lados é digamos “deselegante”, ele perde mil pontos, e não importa que ele tenha razão no que está falando, ele perde a empatia com o público.

Coisas que ajudam a dar o tom de ameno e civilizado:

  • você começa com bom dia, ou boa noite, se houver intimidade pra isso pode chamar o grupo de amigos.
  • frases curtas, parágrafos curtos, como se fosse a fala de alguém pausado e ponderado, não de alguém que está acelerado.
  • se for discussão em fórum, rede social, faça de um jeito que o texto tenha parágrafos separando. No Facebook você não pode digitar direto senão fica um blocão, você tem que digitar em outro lugar, depois copiar e colar com espaço entre os parágrafos.
  • você assume uma posição de quem admite que há várias facetas da verdade, que o outro lado também tem suas razões, que você está apenas falando do que você acredita.
  • de preferência, tente contar algo pessoal sobre você, relacionado com o assunto, que demonstra que você tem conhecimento profundo, motivos profundos.
  • histórias relacionadas com família ajudam, alguma história curta sobre algo idiota que você fez ajudam.

O outro pode ter falado algo idiota ou ofensivo. O gentleman não vai explorar esse ponto. O pessoal mais antenado, e que geralmente é o que mais conta como formadores de opinião, repara que o outro falou algo idiota, você não precisa espezinhar isso.  Você vai pra um plano além, você sobe um nível.

Você evita os embates de apontar o dedo no nariz e dizer “você falou tal idiotice”. Troque por “as pessoas deveriam se informar mais sobre os temas tais”

Tenha clareza sobre seus valores e promova-os sempre, o tempo todo.

Pra mim tolerância, respeito, paz, não ser adepto da agressividade gratuita, da timificação (e portanto achatamento) do mundo são valores fundamentais. Então estou sempre falando disso.

Eles são valores nobres. Não vai ser fácil seu oponente dizer que você está totalmente errado, no mínimo ele vai ter que reconhecer que você está certo em promover respeito e tolerância, e essa é a parte que mais me importa. E em geral isso também ajuda a mudar o clima da discussão, quando colocamos as coisas no plano dos valores nobres, em geral a discussão acaba. Ninguém quer posar de mesquinho, de pequeno.

Entre nas discussões públicas quando você sabe que pode ganhar. Entre pra vencer, pra promover respeito ao outro, reconhecimento de diversidade, necessidade de união. Não se apegue aos deslizes do argumento do outro, fale dos seus valores.

Isso ajuda a mudar a sintonia do mundo e inspira outras pessoas a respirarem outros valores também.

Acho que estamos na alegria do pós-guerra

Hoje falei com mais pessoas que não via e não tinha notícias há 20 anos. Dessa vez é o grupo dos filhos de maçons, a APJ (Ação Paramaçônica Juvenil).

Comentei que deve ser conjuntura astral essa história de gente que não se via há tanto tempo voltando a se encontrar. Sei de vários outros grupos, parentes, maridos, esposas, que também estão reencontrando colegas de turmas.

Talvez haja alguma influência dos astros, mas também há outro bom motivo: clima de pós-guerra.

Vivemos em crise econômica há anos. Travamos enormes batalhas públicas, nas redes sociais, nas ruas. E aqui estamos. Ainda em crise, mas com uma pequena esperança de que estejamos saindo do fundo do poço, em direção ascendente. E no terreno político, a lista do fim do mundo também traz uma esperança de mudança.

Engraçado que não importa o que aconteça, conheço muita gente que continua falando “isso não vai dar em nada”. Manifestações de 2013 “isso não vai dar em nada”. Manifestações pró-impeachment “isso não vai dar em nada”. Lava Jato “isso não vai dar em nada”. Delações “isso não vai dar em nada”.

As pessoas realmente não conseguem enxergar que está dando?? Não vai resolver o país inteiro de uma vez, instantaneamente, vai continuar tendo muita corrupção e absurdos? Claro que sim, é claro que nenhuma mudança desse porte pode ser feita num passe de mágica (mágica no mau sentido, não o outro que eu tenho usado).

Mas está dando em alguma coisa, alguma coisa está acontecendo. E as gravações públicas e oficiais de coisas que há anos ouvíamos histórias do tipo, e que intuíamos ser a verdade, isso também dá alento.

Se você se pegar estranhamente alegre, estranhamente otimista, estranhamente com vontade de fazer coisas novas, ou rever gente que você não vê há muito tempo e gostaria de saber como estão essas pessoas, não se freie, não se pode. Aproveite o clima. Todo mundo tem o direito de sentir que o pior já passou e que há esperança pro Brasil.

 

Não vamos entregar a partida pra Trumps e Bolsonaros

Meus bons amigos, pessoas do bem e que acreditam que não há motivo pra querer mandar na vida sexual das pessoas, em suas escolhas religiosas, que é sempre errado cometer violências contra um grupo de pessoas por causa do que alguns indivíduos fizeram: vocês sabem que não podemos esmorecer.

Nesta semana o NY Times publicou este artigo legal, recomendações como se fosse de AA pra reagir à sensação de desespero pela vitória de Trump:

http://www.nytimes.com/2016/11/17/opinion/a-12-step-program-for-responding-to-president-elect-trump.html?emc=eta1&_r=0

Tem coisas como “Eu vou aceitar que meu lado perdeu, não vou ficar comparando Trump a Hitler porque isso não leva a lugar algum, eu vou fazer coisas pequenas mas que têm um simbolismo, como apoiar a organização contra islamofobia, vou apoiar e doar dinheiro para o centro de combate à pobreza, vou me cadastrar no programa ‘acompanhe meu vizinho’, para fazer parte da lista de pessoas que está disposta a acompanhar alguém que está com medo de ser xingado, assediado ou agredido na rua; eu não vou perder a fé”.

Fiquei pensando o que eu posso fazer pra combater Trump e Bolsonaro. Não tem nada consolidado, mas há coisas que sei que posso fazer sem precisar de muito esforço, basta assumir que estamos em tempos difíceis, e que apesar da humanidade ter progredido muito em termos de direitos humanos (ah, e qualquer um que ache que não, vai ler um pouco sobre a História do mundo pra ver como melhoramos sim, ou pesquise o mínimo sobre questões jurídicas recentes, de questões de décadas, algo como “crimes de honra”, e veja o quanto mudou), apesar de termos avançado muito, sempre haverá momentos como esse em que ameaçamos voltar vários passos.

Coisas que sei que posso fazer: em qualquer conversa, eu vou defender muçulmanos, latinos, judeus, gays, negros, nordestinos, mulheres e qualquer outro grupo que sofre preconceito e injustiças.

Não significa ir duelar na caixa de comentários dos portais, essa eu acho que não tenho estômago, mas nas conversas ao vivo vou me esforçar pra não deixar quieto. Mesmo que isso aumente minha fama de chata.

Algo que deixei passar uns meses atrás: estava conversando com meu pai sobre a cena do beijo entre o Sulu e o marido, que foi cortada da edição final do novo Star Trek. Só contei que tinha lido sobre isso (meu pai é fã da série), e ele falou “eu acho certo. Tem coisas que são desnecessárias”. E eu pensei mas não falei. Mas devia ter falado.

Podia ter falado algo como “é uma pena que eles não tenham tido coragem de mostrar. Sabe que homofobia é um problema real, não? Que tem gente que vive com terror, que sofre bullying, apanha, tem casos de assassinatos e suicídios. Se eles tivessem decidido manter a cena, seria algo bom pra mostrar que é normal, que não tem problema, que você pode ser bravo, corajoso, legal e gay.

Só me calei. Mas não devia.

Algo que já estava fazendo antes de ler o artigo é falar do nada que meu cunhado é muçulmano, ou na internet, num site como no Inaturalist, na minha descrição de perfil dizer que sou brasileira, neta de japoneses, meu marido é judeu, meu cunhado é muçulmano. Principalmente a parte do cunhado muçulmano, faço questão de falar, e se me perguntam, como aconteceu no fim de semana passado, eu conto como eles são parecidos com brasileiros na relação com a família, de serem muito conectados, de como meu cunhado cuida da mãe, dos irmãos, conto alguma anedota como a história da primeira visita da minha irmã ao Marrocos cair numa data religiosa em que eles preparam carneiro como prato principal, então minha irmã foi direto pra cozinha ajudar a preparar um cordeiro recém-abatido. De vez em quando ela ia lá falar com o marido “eu não aguento mais o cheiro de sangue”, e ele dizia “não, não, você está indo bem, ninguém está reparando que você está com nojo, continua lá”, e as pessoas, riem, é claro. E sempre penso que estou ajudando a mostrar que muçulmanos são pessoas como qualquer um.

Já ouviram alguém falar algo como: “afe, esse povo é muito violento, fica se bombardeando, guerreando, se explodindo, deviam trancar todo mundo no país e deixar eles se matarem, mas chega de explodir bomba no país dos outros”?

Se ouvirem, ajudem a combater a burrice das generalizações. “Caramba, sabe que esses brasileiros são todos ladrões e corruptos? Eles estragam tudo que tocam, conseguiram ferrar até com uma refinaria nos Estados Unidos. É melhor impedir qualquer brasileiro de sair do país, pra não espalhar a corrupção pra outros lugares”.

Também não deixem ninguém propagar homofobia. Tem várias coisas que dá pra falar:

– a vida sexual e amorosa das pessoas não é da conta de ninguém. Se não é sexo com crianças ou incapacitados, se é de consenso entre adultos, ninguém devia opinar se é homem com homem, mulher com mulher, se é dois, três, vários. O que as pessoas fazem na privacidade é só da conta delas.

– “Mas não é só na privacidade! Esse pessoal é depravado, fica se agarrando no meio da rua, na frente de crianças”. Bom, todo mundo devia ter respeito pelo espaço público. Mas estavam se agarrando mesmo, pegando em partes íntimas, ficando pelados, gemendo? Ou estavam de mãos dadas, ou trocaram um beijinho, algo que se fosse um casal hetero só seria fofo, mas entre gays te chocou?

– “Ser gay é contra as leis de Deus”. Eu respeito que você acredite num Deus. Mas sabe que essa é apenas a sua crença, e que ao longo de uns 150 mil anos de história do ser humano, já existiram milhares ou talvez milhões de deuses, e esse que condena o homossexualismo é só uma das crenças. Não estou falando que o seu Deus não existe, só que você não pode exigir que 6 bilhões de pessoas sigam a mesma crença.

– “O homossexualismo é anti-natural”. Não é. Mesmo que você seja uma pessoa religiosa que acredita que sexo só existe pra reprodução – portanto, só pode ser macho com fêmea, sem camisinha, sem anticoncepcional, sem práticas que não sejam enfiar o pênis na vagina, a verdade é que (1) a natureza tem inúmeros exemplos de animais que praticam o homossexualismo, e se você estudar um pouquinho de história da humanidade verá que diversas civilizações, inclusive machões como os guerreiros romanos ou os samurais, têm muitos  homossexuais. Ou seja, anti-natural não é; (2) se você acha que as pessoas só podem fazer o que parece ser o “natural”, o que fazer com remédios, cirurgias, óculos, próteses, celulares, computadores, a internet, aviões, mergulho, etc, etc?

– “Eu me preocupo com as crianças. Que essa história de dizer que tudo bem ser gay vai influenciar meus filhos”. Meu Deus! “tudo bem ser gay” vai fazer com que seu filho nunca destrate, xingue, bata ou mate uma pessoa só porque ela tem gostos diferentes do tradicional. Ele nunca vai ter que passar por sentimentos de ódio e intolerância (e provavelmente medo misturado com desejo, pavor), que os que cresceram com uma moral repressora e preconceituosa têm que lidar. “Tudo bem ser gay, as pessoas têm o direito de escolher” faz com que seu filho viva mais feliz e contribua para um mundo mais feliz. “E se ele virar gay??”. Ao que parece, ninguém vira gay. A maioria dos gays conta que desde criança sabiam que eram diferentes do modelo tradicional. Não é uma questão do seu filho virar gay, e sim de, caso ele seja gay, caso ele tenha nascido assim, ele não precisará viver uma vida miserável tendo que mentir, esconder, fingir e se torturar pelo o que sente.

Não deixe falarem mal de mulheres só por serem mulheres, ou de negros, ou de nordestinos, ou de mexicanos, ou de baianos.

O autor do artigo do NY Times sugere esta abordagem: quando ouvir as declarações preconceituosas, pergunte “você realmente pensa assim?”, e a pessoa terá a chance de se retratar, ou se afundar. E quando ela disser que é tudo brincadeira é que você é um chato por ficar enchendo o saco, você pode falar que as eleições dos Estados Unidos ou a ameaça do Bolsonaro ser eleito presidente do Brasil em 2018 são a prova de que ninguém devia se preocupar em combater homofobia ou qualquer outra postura preconceituosa.

Hoje Trump. Talvez amanhã Bolsonaro.

dear-americans

A tal mensagem do povo alemão é engraçada, mas vi que não é assim que me sinto. Ontem passei o dia imprestável, como se fosse comigo. Lendo artigos do NY Times, do The Guardian, vendo a caixa de comentários do Wait But Why — um dos poucos blogs que eu leio. O autor escreveu um texto “It’s going to be okay”, e foi massacrado pelos leitores.

Me sinto grave, com a cabeça pesada, sombria, como se tivesse acontecido no meu país.

Daí à noite leio a notícia de que Jair Bolsonaro – o Bolsonaro, anunciou a candidatura pra presidência do Brasil em 2018. Li no G1. Um monte de comentários apoiando e dizendo coisas como “Meu presidente! Tem meu voto, o da minha família, dos meus filhos, dos meus amigos”, e 500 pessoas curtindo a frase. Juro.

Bolsonaro. A criatura que fala frases como estas abaixo.

Mesmo que você não tenha qualquer carinho ou ligação emocional com os Estados Unidos (eu tenho muito. Acho que é meu país favorito. Se tivesse dinheiro e o Green Card iria pra Califórnia), vou dizer que não há nada para rir ou desprezar sobre a eleição de Trump. A batalha pela Terra Média continua feroz, e em 2018 existe sim o grande risco de uma criatura como Bolsonaro vencer.

Algumas frases de Bolsonaro:

1. “O erro da ditadura foi torturar e não matar.” (Jair Bolsonaro, em discussão com manifestantes)

2. “Pinochet devia ter matado mais gente.” (Bolsonaro sobre a ditadura chilena de Augusto Pinochet. Disponível na revista Veja, edição 1575, de 2 de Dezembro de 1998 – Página 39)

3. “Seria incapaz de amar um filho homossexual. Prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí.” (Jair Bolsonaro em entrevista sobre homossexualidade na revista Playboy)

4. “Não te estupro porque você não merece.” (Jair Messias Bolsonaro, para a deputada federal Maria do Rosário)

5. “Eu não corro esse risco, meus filhos foram muito bem educados” (Bolsonaro para Preta Gil, sobre o que faria se seus filhos se relacionassem com uma mulher negra ou com homossexuais)

6. “A PM devia ter matado 1.000 e não 111 presos.” (Bolsonaro, sobre o Massacre do Carandiru)

7. “Não vou combater nem discriminar, mas, se eu vir dois homens se beijando na rua, vou bater.” (Afirmação de Jair Bolsonaro após caçoar de FHC sobre este segurar uma bandeira com as cores do arco-íris)

8. “Você é uma idiota. Você é uma analfabeta. Está censurada!”. (Declaração irritada de Jair Bolsonaro ao ser entrevistado pela repórter Manuela Borges, da Rede TV. A jornalista decidiu processar o deputado após os ataques)

9. “Parlamentar não deve andar de ônibus”. (Declaração publicada pelo jornal O Dia em 2013)

10. “Mulher deve ganhar salário menor porque engravida” (Bolsonaro justificou a frase: “quando ela voltar [da licença-maternidade], vai ter mais um mês de férias, ou seja, trabalhou cinco meses em um ano”)

As 10 frases mais polêmicas de Jair Bolsonaro

A vitória de Trump

Decidi ir ler notícias 0h30.. Vi a rodinha do NY Times dar a vitória pro Trump como 55%, depois 58, 59, 61, 66… e daí parei de ficar dando refresh na página.

Não pesquisei muito, mas pra mim o artigo que Michael Moore publicou em (outubro, acho) explica bem a situação.

Original: http://michaelmoore.com/trumpwillwin/

Traduzido: http://www.brasilpost.com.br/michael-moore/donald-trump_b_11217240.html

Ele lista cinco motivos, e ele se apoiam e completam o quadro que deu no que deu, mas a meu ver o primeiro é o mais forte, que é mais ou menos isso:

“Trump vai bater em Clinton neste tema, e também no tema da Parceria Trans-Pacífica (TPP) e outras políticas comerciais que ferraram as populações desses quatro Estados. Quando Trump falou à sombra de uma fábrica da Ford durante as primárias de Michigan, ele ameaçou a empresa: se eles realmente fossem adiante com o plano de fechar aquela fábrica e mandá-la para o México, ele imporia uma tarifa de 35% sobre qualquer carro produzido no México e exportado de volta para os Estados Unidos. Foi música para os ouvidos dos trabalhadores de Michigan. Quando ele ameaçou a Apple da mesma maneira, dizendo que vai forçar a empresa a parar de produzir seus iPhones na China e trazer as fábricas para solo americano, os corações se derreteram, e Trump saiu de cena com uma vitória que deveria ser de John Kasich, governador do vizinho Estado de Ohio.”

Muita gente votou em Trump apostando nessas promessas. De que ele será capaz de acabar com tudo que a globalização tem de ruim. Prometeu dar empregos pros americanos, proibir as empresas de montarem linhas de produção na China, no México… e o engraçado é que as pessoas que acreditam nele não pensam que teriam que ganhar salários de mexicanos e chineses, não salário de americanos.

Trump promete tornar a América grande de novo. Uma prosperidade que aconteceu em condições que hoje não existem mais. Nos países desenvolvidos há cada vez menos espaço pra mão-de-obra não qualificada. Ou é automatizado, ou é muito mais barato na China, na Índia, no México.

Quem vai comprar um produto só porque é 100% feito em solo americano, quando tem um similar ou melhor pela metade do preço? O que ele vai fazer? Vai subsidiar essas empresas? Vai dar isenção de impostos? Vai reconhecer que é impossível?

Você olha o mapa da votação e fica com aquela sensação de ser tudo igual. O meio-oeste americano é como se fosse o Nordeste brasileiro. E com volume suficiente pra definir uma eleição.

Como nas eleições no Brasil, quando você vê resultados tão consistentes com renda, educação, tanto no nível de Estados como em análise de zonas dentro de uma cidade (vide eleição no Rio de Janeiro, por exemplo), você fica pensando nos vários países que existem dentro de um país, nas várias tribos e realidades dentro de uma cidade.

Quem é o melhor político? Aquele que promete melhorar a sua vida.

Foi isso que Trump conseguiu. Reunir eleitores que acreditam que ele fará mudanças capazes de melhorar a vida delas. E se isso ferrar a vida de uns mexicanos, muçulmanos, gays, vadias que não souberam manter as pernas fechadas e engravidaram, algumas questões idiotas sobre meio ambiente que só vão ter repercussão mais grave daqui a uns anos ou umas décadas, mas que por enquanto não me afetam tanto, se tomar decisões que vão desestabilizar ou até quebrar alguns países, se é o começo de negócios escusos com a Rússia e um ótimo incentivo pro crescimento militar da China e do Estado Islâmico. Bom, e daí?

— x ——-atualização 16h10 —— x ——-

Quanto a o que significa a vitória de Trump, achei bom este editorial do The Guardian

https://www.theguardian.com/commentisfree/2016/nov/09/the-guardian-view-on-president-elect-donald-trump-a-dark-day-for-the-world

Ele compara a vitória de Trump a Brexit (as mesmas raízes de insatisfação da tal classe trabalhadora de mão-de-obra não qualificada, e muitas vezes desempregada, e também das pessoas totalmente insatisfeitas com a política atual e que querem qualquer coisa diferente, mesmo que esse qualquer coisa seja realmente qualquer coisa), e fala de alguns dos medos imediatos:

  • mudanças na Suprema Corte para um perfil mais conservador, com retrocesso nas questões de raça, gênero, direitos sexuais;
  • o fato de nas campanhas ele ter insultado latinos, negros, muçulmanos, judeus, mulheres, e teve sua vitória comemorada por todos os racistas, xenofóbicos, misóginos, machistas, etc do planeta (mas não os misantropos. Esta aqui por exemplo está desnorteada, não consigo fazer nada, nem postar no Inaturalist, nem desenhar, nem ver fotos, nem escrever o livro de dicas para viajantes iniciantes, nada. Só essa  sensação de que na batalha pela Terra Média, esse é realmente um dia de derrota terrível). Trump demonstrou toda essa postura de desprezo pelas minorias. E quem gostou disso agora vai cobrar ações.
  • Trump prometeu coisas que parecem impossíveis, economicamente, e o tal grupo de desempregados ou mal remunerados foi ao delírio.  Mas como ele vai fazer isso? E como as pessoas vão reagir quando descobrirem que não é possível?
  • o quarto medo é num aspecto global. Com todos os erros que cometeu, os Estados Unidos ainda mantinham uma certa postura estável e previsível de ações. Mas com Trump, “sua capacidade militar, diplomática, de segurança, em questões ambientais e de políticas de comércio, tudo parece ter a capacidade de mudar o mundo pra pior. Os americanos fizeram algo muito perigoso nesta semana. Por causa dessa ação, todas as pessoas enfrentam uma perspectiva de futuro mais sombrio, com grandes incertezas e receios pelo o que virá”.

—- eu tinha colado o quadrinho que viralizou do “Dear Americans … What could possibly go wrong, Good luck”. Mas depois de passar um bom tempo lendo editoriais e comentários na internet, vi que não é assim que me sinto. Não desejo Good luck. Vou explicar no próximo post.

Sobre a carta que não escrevi pro Obama

A ideia não é minha, é do Guilherme, ou melhor, acho que foi da cunhada do Guilherme (Se entendi direito, é alguém com um nome lindo, algo como Sky). O Guilherme é um dos ornitólogos que eu conheci em Natal neste ano. Falávamos sobre os Estados Unidos, o quanto eu tinha gostado das viagens, das pessoas, e ele contando como tudo batia com o que a Sky tinha contado do tempo que passou em Nebraska. Inclusive a crise de choro ao pensar no Brasil, mas acho que pra ela foi até pior. Eu estava em frente à Sierra Nevada, chorando no ombro do Cris, pedindo pra gente se mudar pra América. Ela teve o choque de voltar da América, pegar um ônibus pra ir pra faculdade no horário do rush, e ter que ficar pensando-lembrando-sofrendo.

“Ah, como é doído”, “A Sky me falou. Quase escreveu uma carta pro Obama pedindo ‘Obama, deixe-me ficar aqui’” – ouvi essa frase com aquele sotaque bonito do pessoal do Rio Grande do Norte. Pensei na hora “Gênia. Uma carta pro Obama”.

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Óh Óbaama, deixa eu e todo mundo de quem eu gosto se mudar pros Estados Unidos.

Óh Óbaama, somos honestos, trabalhadores, criativos, gentis, pacíficos, não-moralistas, amamos a natureza.

Óbaama, além de eu e todo mundo de quem eu gosto poder se mudar, será que vocês poderiam assumir o Brasil? Eu sei que vocês também têm seus problemas de corrupção, violência, xenofobia, lobby, escândalos, Trumps e trumpistas. Mas é como se vocês tivessem conseguido fazer as coisas de um jeito que o bem venceu pra uma parcela grande da sociedade.

Óh Óbaama, vem assumir o Brasil pra que a gente também tenha tantas cidades com casas sem muros, lugares em que você pode andar sem medo de ser assaltado, sem medo de arrombarem seu carro, sem medo de ser roubado, estuprado e assassinado numa trilha. Vem assumir o Brasil pra que a gente também tenha supermercados com self-checkout, parques em que não há um fiscal na entrada – há um lugar em que as pessoas vão passar o cartão e pagar o ingresso, ou então elas mesmas vão até o centro de visitantes, e ninguém precisa ficar checando se tem alguém enganando. Nos parques ninguém vem te dizer que é proibido fotografar, todo mundo sorri, é gentil e simpático.

Óbaama, traz pra gente o desenvolvimento turístico em que é tão fácil ir de cidade em cidade, e todas elas têm vários hotéis bons e baratos, várias opções de restaurantes, vários parques e passeios estruturados, organizados, eficientes, divulgados. As estradas são excelentes, tudo é sinalizado, a gasolina é barata, há tantas opções de lazer na natureza.

Óbaama, vem mostrar pro Brasil que o ser humano faz parte da natureza, que é possível vivermos em harmonia, que a exploração pode ser racional e que os parques podem e devem receber bem os visitantes.

Óbaama, mostra que as pessoas podem se mobilizar e ser ouvidas e que há justiça e esperança.

Óh Óbaama.

Faz um passe de mágica e mude 500 anos de história brasileira. Faz desaparecer os trolls, orcs e demônios que infestam e dominam essa terra tão bela em que há tanta gente boa mas é um mar de lama, óh Óbaama. Como é difícil manter a esperança. Cada enxadada uma minhoca. A corrupção e a mentalidade da corrupção, do roubo, da extorsão, da violência, das quadrilhas, da máfia, das milícias se estende em todas as esferas, parece que tudo que tem potencial de render lucro, poder ou influência, aí estão os demônios.

Uma terra tão rica com tantas riquezas e tanta gente trabalhadora, inteligente, criativa. Rendemos tanto. E em vez de todo esse esforço ser revertido em qualidade de vida pra todo mundo, é essa realidade bizarra em que as decisões são tomadas visando os interesses pessoais dos políticos e os grupos que os apoiam.

Por que não tivemos uma revolução na educação, como a China ou Coréia tiveram? Porque pros nossos políticos conhecimento e cultura são ameaças. Porque é preciso manter os currais eleitorais.

Por que milhões de mulheres pobres são torturadas todos os anos, e algumas milhares morrem na tentativa de fazer abortos? Por que o aborto não é descriminalizado, por que não há investimento em planejamento familiar, políticas de prevenção? Porque as crenças religiosas de vários políticos conseguem sobrepujar a força de um Estado teoricamente laico. E porque a pregação religiosa que torna o aborto crime também mantém as pessoas pobres no círculo vicioso da pobreza. Mulheres jovens que têm que parar de estudar, filhas de outras mulheres que também engravidaram jovens. Há muito pra se lucrar com pobreza e violência. Mas quando há mais riqueza, educação, cultura, é mais fácil fiscalizar, acompanhar, cobrar.

Por que o meio ambiente não é fiscalizado e valorizado? Por que não estamos lucrando com patentes em remédios e cosméticos, explorando nossas riquezas de uma forma sustentável, desenvolvendo o turismo, e em vez disso a gente faz a coisa mais uga-buga que é desmatar e queimar tudo? Porque há muitos políticos que lucram horrores com a exploração uba-buga.

Por que há tantos estupros e assassinatos no Brasil? 50 mil assassinatos em 2012, 59 mil em 2014. 47 mil estupros registrados em 2013, com certeza de subnotificação, e a possibilidade de serem 500 mil por ano. Você pode imaginar os diversos motivos que levam pra essa situação, mas no geral dá pra falar: porque a maioria das pessoas que morrem (homens pobres jovens) são pessoas sem representação ou importância social (muito diferente da comoção pela morte de um ator global, por exemplo); e porque a maioria dos estupros é de mulheres – que em geral não conseguem nem denunciar, de tanto trauma, medo, raiva, vergonha. Os casos notificados no geral são de adolescentes e crianças, que um adulto fica sabendo e notifica, mas as adolescentes e crianças também conseguem fazer pouco.

Óbaama. O Brasil é um paraíso tropical. No geral sem terremotos, maremotos, furacões ou pragas. As secas e enchentes acontecem, mas teriam efeitos bem menores com a estrutura e tratamento corretos. O Brasil é um dos países em que mais chove, com a maior reserva de água doce do mundo, com a maior biodiversidade do planeta, com a Amazônia – e a gente tem jogado tudo isso pelo ralo, a troco do lucro de um punhado de orcs que não têm a menor preocupação com o futuro.

Óh, Óbaama.

Óh, Óbaama.

O passe de mágica pra desaparecerem os orcs é difícil, eu sei.

Sou uma covarde filha-da-puta em me sentir tão desalentada? Em não me sentir forte e otimista de que verei um Brasil diferente, e em vez disso fico pesquisando passagens baratas pros Estados Unidos, ou imaginando algum jeito de, daqui a uns anos, quando o Daniel não precisar mais da gente por perto, morar em algum país mais civilizado?

Brasil ame-o ou deixe-o. É tão fácil amar o Brasil. Mas como é difícil não se importar e não doer e não se revoltar com tantos pedaços podres.

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O mês de ausência de postagens foram férias na Califórnia. Monterey, Point Reys, June Lake, Yosemite. Passeio de barco com avistamento de baleias e 2 mil golfinhos. Yosemite… ainda bem que eu não tinha lido nada mais aprofundado, foi embasbacante. Saí de lá como quem é obrigado a deixar Valfenda. Compartilho nos próximos dias. Desculpe se prometi falar com você quando voltasse de viagem e ainda não falei, é que estou sofrendo a descompressão, mas logo consigo.

Quem pede “Fora Temer” quer o PT de volta ao poder ou apenas não se importa com o que vai acontecer num cenário de eleições antecipadas?

Primeiro é preciso reafirmar: não sou a favor do Temer, nem acho que ele é a solução. Sempre falei que pra mim ele era só o que tem pra hoje.

Sou a favor de que, então? De mudança. De turbinar a crença de que é possível lutar contra a corrupção e que o corrupto pode ser preso e no mínimo passar um perrengue na imprensa, às vezes até ao vivo. Sou a favor da gente chacoalhar a arrogância e empáfia dos que têm certeza de que nunca serão pegos, e de acender nos honestos a esperança de que o Brasil tem jeito.

Fui e sou a favor do impeachment porque pra mim pesava o caos econômico fruto de um presidente que não tem mais nenhuma base, e que teria que fazer mais e mais concessões em troca de votos. Um caos sem perspectiva de melhora, cuja fragilidade política empurrava o país cada vez mais fundo no buraco de dívidas e distanciamento das reformas e ajustes que são extremamente antipopulares mas essenciais.

Não sei se Temer dará conta de fazer o que é preciso fazer. Mas eu tinha certeza de que Dilma e PT é que não fariam, pelo contrário, eles iriam caprichar nos endividamentos, pacotes de bondades e outras estratégias pra comprar o apoio popular. Mas no cerne o país continuaria ladeira abaixo.

Eu sei que Temer é um panaca arrogante, agora cada vez mais de manguinhas pra fora. Capaz de falar “bateu, levou”, de falar que os protestos que movimentam dezenas de milhares de pessoas no país são coisa de 40, 50 pessoas. Ou numa entrevista esquecer de mencionar a secretaria de promoção de igualdade social e dos direitos de pessoas com deficiências –porque pra ele essas coisas não significam nada. Não nutro nenhuma simpatia por esse homem. Só espero que a equipe econômica dele seja capaz de fazer o que tem que ser feito.

 

Não conversei e não pretendo discutir com ninguém que é contra o impeachment. Teria com quem falar, tenho gente próxima pra quem eu ligo e antes do alô me fala “Fora Temer”, mas faço de conta que não ouvi. Então não tenho como ter certeza do que move as pessoas que falam que o impeachment é golpe, mas estas são minhas elucubrações:

– “arranha a democracia” e agora com mais frequência “rasga a constituição” são expressões comuns. O impeachment está previsto na constituição. A mágoa é pela manipulação da mídia em tornar algo que teria passado em branco se o país estivesse próspero em motivo pra tirar o presidente.

– o impeachment nunca teria acontecido se não houvesse grupos ricos e poderosos pondo lenha na fogueira, claro que eu sei. Mas nesse caso eu também tinha interesse em ver o PT fora do poder.

– “o argumento jurídico é frágil, os outros presidentes sempre fizeram e ninguém sofreu impeachment por isso”. Eu sei. Mas não me importo. Al Capone matou um monte de gente mas foi preso por sonegação de impostos. O PT tem feito atrocidades e grandes barbeiragens com o Brasil e contra o povo brasileiro. Tanta riqueza dissipada em meio à corrupção e incompetência. Não que os outros governos não tenham sido corruptos, claro que foram. Mas as barbeiragens na condução da economia, somadas com as denúncias de tanto desvio de verba, são como os assassinatos de pessoas. Ou mais cruéis, tem sido morte lenta pra muita gente há anos. Sinceramente, não me incomoda que o motivo oficial sejam as pedaladas. Porque eu concordava com a ideia de que eles precisavam sair do poder.

– então vem o argumento sobre o desrespeito à constituição, a abertura de precedentes. Ha. Ha-ha. Ha-ha-ha. Putaqueopariu. Essa é a minha risada triste. Vocês já leram a constituição? Leiam, especialmente o artigo 5º, e pensem quantas vezes você já viu a constituição sendo desrespeitada por dia, na sua frente. Vou colar aqui alguns trechos:

“Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

I – homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição;

II – ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei;

III – ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante;

(…)

X – são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação;

XI – a casa é asilo inviolável do indivíduo, ninguém nela podendo penetrar sem consentimento do morador, salvo em caso de flagrante delito ou desastre, ou para prestar socorro, ou, durante o dia, por determinação judicial;

XII – é inviolável o sigilo da correspondência e das comunicações telegráficas, de dados e das comunicações telefônicas, salvo, no último caso, por ordem judicial, nas hipóteses e na forma que a lei estabelecer para fins de investigação criminal ou instrução processual penal;

(…)

XVI – todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização, desde que não frustrem outra reunião anteriormente convocada para o mesmo local, sendo apenas exigido prévio aviso à autoridade competente;

(…)

XXXIII – todos têm direito a receber dos órgãos públicos informações de seu interesse particular, ou de interesse coletivo ou geral, que serão prestadas no prazo da lei, sob pena de responsabilidade, ressalvadas aquelas cujo sigilo seja imprescindível à segurança da sociedade e do Estado;

– O argumento dos 54 milhões de votos. 54 milhões de pessoas parece um montão, não? Mas e se a gente pensa que foram 54 entre 142 milhões? Ela teve 38,2% dos votos, Aécio 35,7%. Dilma teve 54 milhões de votos, Aécio 51 milhões de votos, e 37 milhões de pessoas não votaram, ou votaram branco ou nulo.

“Dilma se reelegeu com 38% dos votos totais. Dos 142 milhões de eleitores aptos a votar, mais de 37 milhões não escolheram candidato. Mais de 27% dos eleitores não apareceram para votar, anularam ou votaram em branco. Entre abstenções, brancos e nulos, mais de 37 milhões eleitores não escolheram um candidato.

Dilma se reelegeu na disputa mais apertada desde 1989. A petista alcançou 54.501.118 votos (51,64% dos válidos) contra 51.041.155 do tucano Aécio Neves (48,36%). Dos 142.821.358 eleitores brasileiros, 30.137.479 (21,10%) se abstiveram, outros 5.219.787 (4,63%) votaram nulo e 1.921.819 (1,71%) escolheram branco. Ou seja, no total, 37.279.085 não escolheram candidatos.”

http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/dilma-se-reelegeu-com-38-dos-votos-totais/

Ou seja, é verdade que muita gente votou nela. Mas não dá pra ignorar que mais gente ainda, 62% da população não votou nela. E na fogueira das denúncias de corrupção, uma boa parte da dos 54 milhões se arrependeu. No final de março, uma pesquisa do Ibope dizia que metade das pessoas que disseram ter votado em Dilma consideravam o governo ruim ou péssimo. http://www.cartacapital.com.br/blogs/parlatorio/69-consideram-governo-dilma-ruim-ou-pessimo-diz-ibope

 

Quando panfletei a favor do impeachment, eu tinha estas crenças:

– Dilma não conseguia mais governar, era um mastro quebrado afundando o país inteiro;

– Lula não deveria virar o presidente de bastidores, porque depois de tantas denúncias de corrupção do PT, manter o PT no governo era dizer que a gente nunca vai vencer a corrupção, que o poder sempre vai falar mais alto;

– Considerava e considero altamente improvável o Brasil se tornar uma ditadura, como os meus colegas contra o impeachment me falavam. Dizer que o impeachment é golpe e que a ditadura vai voltar. Mas nunca conseguiram me explicar como isso vai acontecer. A grande mídia pode ser enviesada e ostensivamente tratar de forma diferente as notícias a favor ou contra o PT. Mas se pessoas começassem a ser presas, torturadas ou assassinadas por expressarem suas opiniões políticas contrárias ao governo (isso é uma ditadura), graças às redes sociais não teria como calar isso, seria o estopim para manifestações sérias e grandes, unindo todo mundo.

– Temer e sua equipe não são a melhor solução pro país, e sim apenas aquela disponível. Mas que ainda assim, seriam melhores do que o PT, que na situação frágil em que se encontrava só afundaria mais as dívidas e concessões.

Quem pede o Fora Temer e eleições gerais acredita em que, torce pelo o quê? Acredito que essas pessoas ou torcem pela volta do PT, ou não se importam com o que vai acontecer após as eleições, simplesmente querem marcar seu ponto quanto à (detesto isso, mas vou usar o duplo coelhinho) “defesa da democracia”.

Quem poderia ganhar de Lula se tivéssemos eleições agora? Ninguém. Lula tem seus eleitores fiéis, as pessoas que temem o fim dos programas assistencialistas, e provavelmente tem cada vez mais adeptos entre os que não precisam das bolsas, mas consideram o impeachment golpe. Fora o PT, entre os outros políticos não há nenhuma figura forte e carismática o suficiente para reunir votos. Sim, tem muita gente que é PT nunca mais, mas essas pessoas não conseguiriam se unir em torno de uma figura. Os votos ficariam pulverizados entre candidatos diversos, ou na cesta dos nulos ou abstenções.

A não ser que consigam prender Lula ou torná-lo inelegível, ele é o candidato mais forte para 2018. Se o governo Temer fizer o que tem que ser feito, que é principalmente o ajuste na previdência e outros temas considerados direitos adquiridos dos trabalhadores, mas que estão totalmente errados na estrutura e nas projeções de custos, e vão enfiando o país cada vez mais pra baixo, se a equipe conseguir fazer isso é o certo, mas dezenas de milhões de pessoas vão odiá-los.

Talvez o PT volte ao poder em 2018. Dizendo-se renovado, aprendi com meus erros, acabamos com a corrupção no partido, estamos atentos a qualquer desvio ou abuso. Não sei dizer se isso será bom ou não, se será melhor ou pior do que as alternativas.

Tudo que sei é que hoje eu detestaria ver eleições gerais antecipadas, ter que engolir a vitória do PT. Não odeio o PT, nem sou do tipo que fala “PT nunca mais”. Só acho que vê-lo de volta ao poder poucos meses depois de tudo que foi denunciado alimentaria minha desesperança no país.

Talvez o PT volte em 2018. Mas daí haveria pelo menos o faz de conta de que houve reformas sérias, que não é o mesmo PT que vemos agora, que tudo mudou, talvez nem chame mais PT. Mas não hoje. Hoje não.