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Convide alguém pra sair

Pra qualquer um que esteja procurando companhia, e pra qualquer misantropo que ainda não tem ticket dourado: convide alguém pra sair. É simples assim: quer companhia? É bem mais fácil se você agir pra isso. Conhece alguém que pode ser interessante, quer saber mais sobre a pessoa? Manda uma mensagem e convida pra fazer alguma coisa. Seja uma exposição, um passeio, conhecer um boteco ou um food truck, street photography. Primeiro encontro não precisa ser jantar romântico, cinema com pegação, balada.

Convide. Talvez a pessoa não possa, por ene motivos, mas seu convite deixa claro que você gostaria de passar mais tempo com ela, e se ela tiver algum interesse por você, ou ela vai, ou então ela dirá “desculpe, neste sábado não posso porque x, mas podemos marcar pro dia tal?”.

É simples assim. Juro.

“ah, e se ela/ele não gostar de mim e ficar ofendido com o meu convite, e depois vai falar pros amigos e vão ficar rindo de mim”, gente do Céu, se o objeto do seu interesse for babaca assim, sorte sua descobrir isso mesmo antes de um primeiro encontro. Que tipo de adulto faz um carnaval ou uma tempestade só porque uma outra pessoa convidou pra fazer alguma coisa?

Sobre o que eu falo?

Quase todo mundo tem algo em Facebook, ou Twitter ou blogs ou Instagram, e se você está interessado na pessoa, deve ter feito alguma pesquisa, então tem ideia dos temas. Converse, papeie, sem decoreba demais pra não parecer serial killer. Fale olhando nos olhos da pessoa, faça perguntas diretas do tipo “por que você escolheu tal coisa?”, “o que você acha de tal assunto?” – e repare se o outro também é capaz de fazer perguntas sobre você, se o outro só fala de si e não te faz nenhuma pergunta, descarta.

Hoje é sexta, antes das 13h. Ainda dá tempo de fazer algo no fim de semana. Convide alguém pra sair.

Saber sobre o que você é boa, tirar selfies, ser capaz de dançar sozinha

Passei como lição de casa pra uma amiga com quem almocei nesta semana. Estava contando pra ela sobre uma conversa com uma outra amiga que tem um defeito comum a muitas pessoas, principalmente mulheres: incapacidade de reconhecer suas qualidades, especialmente as grandes.

Essa amiga com o tal defeito é uma super-especialista numa determinada área. Quando falei “você tem um grande conhecimento e experiência”, ela nem deixou eu terminar a frase, me cortou pra falar “tenho nada”. Eu “repara no que você acabou de fazer. Você nem deixou eu terminar de falar, tem algo dentro de você que te impele a negar que você tenha, mas o fato é que você tem, ou o tal fulano não teria te convidado pra participar do grupo de trabalho”.

Você é assim também? Nega que seja muito boa em alguma coisa? Se você faz isso, tem que mudar.

Sei que a gente tem horror a soar arrogantes, e provavelmente também temos uma insegurança de nos imaginar questionadas, ou verbalmente atacadas. Mas combata isso. É mais uma fraqueza pra gente se livrar.

Sabe como você aprende a lidar com situações desconfortáveis? Lidando. É uma mistura de alimentar o conhecimento sobre si, sua autoconfiança, e também ir pra arena brigar.

Já contei pra vocês que sou boa de briga (dentro dos limites da civilidade. Não sei lidar com a violência gratuita, ou o foda-se o que eu prometi, não vou fazer e pronto… mas acho que se tivesse que lidar com essas coisas com frequência, aprenderia técnicas brutas). Mas pra argumentar não tenho problemas, mesmo quando pego pessoas tensas, no agressivo-defensivo, irônicas. Quem me deu clareza sobre isso foi o Cris. Estávamos discutindo porque ele me disse que eu fico ansiosa demais com idas pra aeroportos, e eu tentando explicar que não sou ansiosa, eu sou é traumatizada (de tantas vezes que quase perdemos, ou que perdemos mesmo um voo, e mesmo assim o Cris insiste em não querer chegar adiantado), e ele tentando me convencer de que eu sou ansiosa sim, e daí, todo mundo é ansioso por algum motivo, que por exemplo ele ficava ansioso quando tinha uma reunião com pessoas possivelmente hostis, mas que isso não era um problema pra mim.

E eu pensei que era verdade. Não sobre eu ser ansiosa, isso eu vou continuar defendendo que é trauma, mas sobre em geral não ter medo ou preocupação de lidar com qualquer grupo (dentro dos tais limites). Leio artigos que contam as dicas do FBI sobre negociações sob tensão, e acho tudo óbvio.

Como fiquei assim? Desde a adolescência lembro de diversos embates verbais, às vezes com plateia, às vezes com crueldade das frases de efeito, só pra fazer a plateia rir. Depois que fui pra faculdade, e comecei a frequentar chats (o início da internet, 20 anos atrás), eu também participava de diversas discussões, inclusive com gente hostil. E depois quando comecei a namorar o Cris e a gente brigava tanto no começo, tanto, mas tanto… Sei lá. Me sinto temperada a ferro e fogo. Sem medo.

É uma habilidade que recomendo a qualquer um cultivar. Saber conversar e não fugir de situações difíceis é uma grande vantagem.

Poderia dar uma lista de coisas que eu sou muito boa, mas não é o caso do post de hoje. Vou só continuar explicando sobre a lição de casa pra minha amiga.

Os selfies fazem parte da nossa confiança sobre quem nós somos. A gente precisa ter uma imagem sobre quem a gente é, e se não tirarmos selfies, como disse o guruzinho (que também estava no almoço), ficamos sujeitos às imagens que os outros tiram da gente. E a maioria das pessoas não é fotogênica o tempo todo, mesmo gente linda pode ser pega num ângulo ruim, ou mastigando, ou numa pose estranha.

Precisamos dos selfies. E nem precisa compartilhar em Facebook ou Instagram, fotografe pra você, pra fortalecer o seu amor por você.

Peguei meu celular e mostrei vários selfies, e fotos com o Cris e o Daniel, e essa minha amiga soltava exclamações “oh, que lindos”, e estávamos lindos mesmo. E eu não sou linda. Mas numa foto com luz boa, e na companhia de pessoas queridas, posso ficar linda, e essa é a imagem pra eu guardar e cultivar como uma auto-imagem.

Essa amiga me contou que ainda não consegue dançar sozinha. Acho que foi uma outra lição de casa que eu tinha passado. Está tudo relacionado. Contou que tem vergonha de tirar selfie. Que não consegue dançar sozinha. E que não consegue xingar, gritar, ou falar palavrão. Que ela só grita um pouco de susto, mas que nunca gritou de raiva. Perguntei se ela já tentou o “porracaralhoputaqueopariu” quando está brava, ela falou que não consegue, porque é muito feio falar palavrão. Falei pra ela que eu também não costumava falar no dia a dia, mas que às vezes só um palavrão expressa nossa raiva ou frustração, e que se negar isso é um mau sinal, como se ela precisasse manter uma imagem de alguém muito perfeitinha. Ela entendeu, e disse que vai tentar. Não garantiu sobre os palavrões, mas que vai tentar falar pra si sobre o que ela é boa, tirar selfies, e conseguir dançar sozinha.

Não tenha medo de quebrar a cara

Quem acompanha o blog sabe que a neurociência é minha nova queridinha. Mesmo que não acompanha, o resumo é: você tem controle de muita coisa. Pros sentimentos por exemplo, não existe nada inato, é tudo cultural. E tudo que é cultural é aprendível e desaprendível. (A neurociência não fala isso, esta parte é a extrapolação minha, típica de gente que cresceu vendo Hollywood, adoras o EUA e a ideia de que temos controle sobre nossas vidas).

Mas realmente há uma parte da neurociência que diz que nossos sentimentos são coisas que a gente aprende.

Ora.

Eu acredito nisso.

E acredito de verdade que somos capazes de dosar o peso das coisas na nossa vida. Nossos pensamentos, nossos valores, nossas decisões moldam nossa realidade. Temos uma boa dose de controle com o quanto sofremos por alguma coisa.

Por exemplo, eu e o Cris já passamos por vários perrengues em viagens, de comprar passagem pro dia errado, de não poder embarcar porque faltou um documento, de quebrar o barco e ficar 2h sob um sol escaldante, de atolar o carro numa estrada com pouco movimento, estar sozinha no Kruger e furar o pneu numa estrada com pouco movimento, de sermos achacados pela polícia corrupta do México, que queriam levar US$ 800, do Cris perder a carteira com todos os cartões, de sermos azucrinados pelo controle de passaporte em Amsterdã, e depois ter que correr, correr mesmo, pelo aeroporto todo pra não perder nosso voo – várias histórias, e nenhuma delas deu um tom negativo pra viagem. Não ficávamos reverberando isso, entende?

No caso dos relacionamentos amorosos, acredite em mim, as coisas são simples assim:

– Você aprende a gostar de você, você entende que você é uma pessoa incrível, e se você ainda não se considerar uma pessoa incrível, você vai trabalhar pra mudar isso, seja cuidando da sua aparência, seja aprendendo mais sobre quem você é, tendo a porra da sua lista de qualidades, escrevendo sobre você, sabendo contar uma história bonita sobre quem você. Cultive auto-confiança.

– Você também vai cultivar a compreensão de que viver só se aprende vivendo, que a gente tem que viver e experimentar. Se der certo, deu, se não deu, vai aparecer outra oportunidade. Se não dá certo, depende de você o quanto você sofre com aquilo.

– E pros misantropos, então, como sempre apelo pro argumento da inteligência: pense o quanto é algo banal não dar certo. Quer dizer, é claro que pode dar muito certo. Mas pensando no worst case scenario. Se não der certo? Não deu, tudo bem, era uma das coisas possíveis de se acontecer.

– Eu insisto tanto sobre cultivar a certeza de que somos todos pessoas incríveis porque isso é uma força, isso nos ajuda muito a nos arriscar e a não ter medo de dar errado. Quando você tem confiança sobre quem você é, não é que você nunca vai quebrar a cara. E sim você sabe que tudo bem quebrar a cara. Que às vezes dá certo, às vezes não dá. E se alguém não quiser ficar com você, não significa que você é uma pessoa desprezível, feia, ruim ou sei lá o quê. Apenas não deu certo.

Todo mundo (que não tem o tal ticket dourado) tem que viver e experimentar. E fica bem difícil viver e experimentar se você fica alimentando receios de ser julgada, de se dar mal, de se machucar.

Querida nação misantropa: a gente entende muito de dor. Desde criança sabemos o que é a dor de se sentir diferente, à parte, excluído, errado, pária, sempre pensando demais e consciente demais. Algumas pessoas, como eu, passaram um tempo considerando a possibilidade de se matar.

A dor de levar um fora, de quebrar a cara, é apenas outra dor. E a gente não precisa ter medo da dor, ou do conflito, ou de discussões. Porque nós somos incríveis, e sobrevivemos a qualquer uma dessas situações. E somos inteligentes, e vemos o quanto aprendemos a cada situação vivida.

Todo mundo que não tem o ticket dourado precisa se relacionar e experimentar. Se ajude. Livre-se do medo de não dar certo. Se não der certo, se doer, é só outra dor. Você não precisa ter medo da dor. Você é forte. Passa. E sempre será uma pessoa melhor depois disso.

Sobre o ticket dourado: ando me pavoneando por aí, como se estivesse carregando um jarro de terra (coisas de cultura pop, Piratas do Caribe), e me vejo obrigada a comentar. Meu ticket dourado é o fato de eu estar casada há 13 anos, um relacionamento que parece ser pra vida toda, com um homem que eu adoro conversar, com quem adoro passar meu tempo, com quem tenho tantos interesses em comum, e que também me adora e também não imagina a vida dele sem mim. Além do Cris, tenho o Daniel, meu enteado, que conheço desde que era pequeno. Tenho alguns amigos muito queridos e totalmente confiáveis. Vivo em paz com minha família. Não preciso trabalhar, ou melhor, não preciso ganhar dinheiro, só trabalho com as coisas que eu quero. Viajo com frequência, adoro meus dias, e tenho vários dias que nem saio de casa (apesar de conversar com pessoas por email, blog, WhatsApp, Facebook). Não tenho carências. É o ticket dourado da misantropia, e antes de chegar aqui, tive vários relacionamentos, o suficiente pra ser quem eu sou. E quando penso em algumas pessoas queridas que fazem umas coisas bem idiotas, um dos padrões que vejo é o fato dessas pessoas não terem rodado quando tinha 20 e poucos. Tenho certeza de que isso faz muita diferença na vida. Por isso insisto sempre nesse ponto: se você é solteiro, seja misantropo ou não misantropo, tenha experiências, se relacione, se dê bem ou se dê mal. É o melhor jeito de evoluir como pessoa.

Divagações sobre ser chata e difícil

– em geral não tenho problemas pra comer. Não consigo comer comida muito salgada, oleosa, ou muita fritura, mas acho que aí não é uma questão de frescura, e sim de saúde.  Tenho predisposição genética a pressão alta. Ainda não comecei a tomar remédio (como meus pais e irmãos tomam, há anos), mas um dia vou ter que tomar. A maioria das pessoas sabe o que é pressão alta, então se peço pouco sal, ou se falo que não posso comer porque está muito salgado, e digo que tenho pressão alta (é mais fácil do que explicar que tenho predisposição a), todo mundo entende, ninguém acha que é frescura.

– não tenho problema pra dormir. Durmo em qualquer lugar, em qualquer canto, a qualquer hora.

– consigo ouvir toneladas de bobagem e fazer cara de paisagem. Não preciso responder tudo de que eu discordo, sou capaz de ouvir muitas atrocidades e ficar quieta, se decidir que não vale a pena falar.

– além de ser capaz de ouvir atrocidades, sou capaz de ouvir conversas chatas e não dar mostras do quanto aquilo é chato. Ouço e até interajo.

– raramente falo demais. O mais comum é falar de algo de forma breve, e só vou falar bastante sobre o assunto se a pessoa estiver realmente interessada. Mesmo quando no grupo as pessoas focam em mim, perguntam de alguma viagem, eu falo de forma breve e logo emendo com um “mas e você, pra onde vocês foram nessas férias?”

– tenho um timbre de voz baixo.

– não sei contar causos ou piadas. É uma falta de charme social, mas ao mesmo tempo fará com que eu nunca seja a sem noção do grupo que vai contar causos ou piadas repetidas, todas as vezes.

– em geral não fico enchendo o saco das pessoas pra fazerem alguma coisa de tal forma. Ou aceito que não sou eu que estou fazendo, e que as pessoas fazem as coisas de formas diferentes, ou então assumo o comando e eu mesma faço. Mas é muito raro ficar dando ordens sobre como as coisas devem ser feitas.

– não sou totalitária. Qualquer coisa que eu faça com outras pessoas dou espaço pros outros darem opinião ou manifestarem seus gostos.

— x — x

Acho que o principal motivo do Cris dizer que eu sou difícil, muito difícil, como sou difícil é essa minha mania idiota de prestar atenção no que as pessoas falam. Avaliar palavras e motivos. Dizer que a tal “brincadeira” tem uma motivação, uma mágoa, um espinho, uma indireta e que eu quero falar sobre isso. Ou dizer que a tal brincadeira me machuca, e eu já pedi várias vezes pra não falar assim, por que você continua?

Por exemplo, o Cris pode brincar o quanto quiser sobre eu fazer coisas burras, não me importo. Porque não tenho nenhuma dúvida sobre minha inteligência em temas que me importam, e em geral eu também acho engraçado os comentários sobre as áreas em que eu faço coisas idiotas.

Mas eu já expliquei várias vezes que meu calcanhar de Aquiles é minha aparência, e quando ele faz brincadeiras sobre eu ser feia, daí o céu cai na cabeça dele.

Ou quando ele diz “quem aguenta essa Claudia”, eu nunca aceito que foi só uma brincadeirinha, uma frase sem consequências, e eu que sou chata demais em ligar pra isso. Ainda mais porque já tivemos longas conversas sobre o quanto eu discordo da ideia de que ninguém mais se interessaria por mim além dele, como é algo ruim falar isso de alguém, que eu me considero uma pessoa cheia de qualidades e atributos e não vou permitir que alguém mine essa confiança de mim, e que os casais que dão certo são os que cultivam elogios mútuos, grandes e generosos.

Qualquer pessoa tem inúmeros aspectos pra se criticar. É uma escolha se você vai focar nos pontos que você criticaria, ou nos pontos que você aprova. E infelizmente muitos casais fazem a escolha errada, e o casamento acaba, ou são pais que decidem focar nos pontos pra se criticar do filho e criam uma pessoa cheia de tristeza e insegurança.

— x —- x

– Provavelmente meus colegas do primeiro grau me consideram bem chata e difícil porque eu decidi sair do grupo, porque fiquei mortalmente ofendida que um dos membros falasse que todo mundo que foi torturado pela ditadura brasileira mereceu — e as pessoas aceitavam e riam.

Se eu topasse com frequência com situações em que as pessoas tratam com leviandade a violência contra o outro, se tivesse que lidar com gente machista, xenofóbica, homofóbica, racista, com certeza eu teria fama de gente bem chata — supondo que houvesse espaço pra eu me manifestar. Entendo que há situações, quando você tem um comércio, por exemplo, é a escolha entre fazer cara de paisagem ou perder o cliente.

— x — x

– Lembrei de uma outra situação em que sou chamada de MUITO CHATA assim, com maiúsculas, pela minha mãe. Quando ela tem que marcar médico e enrola pra marcar. E eu ligo pra ela todos os dias, às vezes três vezes por dia, até que ela marque. Sou a chata por ajudá-la a cuidar com rapidez de algo de saúde, que se for protelado corre o risco de se tornar algo grave. Mas esse é um caso extremo, em geral não cobro as pessoas.

 

Pra você que é difícil, chata e complicada

Confie em você e nos seus valores. Tenha clareza sobre o que é importante pra você, sobre o que machuca, e lute. Lute por você. Não deixe ninguém te diminuir com o famoso argumento do “era só uma brincadeira”, “você não tem senso de humor”, “você não deixa passar nada, com você tudo é difícil”.

Não permita.

Simplesmente porque não é verdade.

Existe gente difícil, chata, complicada, implicante, insuportável. Sei que existe. Mas se você está aqui lendo o blog, provavelmente não é o seu caso. Ser difícil-chata-complicada significa querer tudo do seu jeito, exigir que tudo seja exatamente como você quer, e nós não somos assim. Estamos o tempo todo abrindo mão de coisas, aceitando o outro, respeitando as diferenças com o outro.

Mas não jogamos isso na cara dos outros. Somos elegantes, aceitamos as diferenças, sofremos. Sabemos que viver em sociedade é ter que aceitar diferenças, e sofremos calados nossas diferenças culturais, morais, de criação.

E em geral os outros não enxergam isso. Enxergam só o que eles fazem, e acham que da nossa parte não estamos fazendo nada, quando de fato são inúmeros momentos em que a gente quis cortar os pulsos (nossos ou dos outros), muita meditação e elevação espiritual pra aprender a não se importar, pra chegar no ponto de “está tudo bem, isso não importa, vamos tocar a vida e ser felizes”.

Vocês sabem, o Cris é o amor da minha vida. Mas de vez em quando ele vem com o papo de “você é uma pessoa muito difícil”, e já chegou a dizer “não imagino nenhuma outra pessoa que conseguisse ficar com você, os outros não aguentariam o que eu aguento”.

Essa frase horrível é algo do passado, mas a ideia por trás dela não é algo enterrado, tanto que na semana passada tive que ouvir um “quem aguenta essa Claudia” – que é um diminutivo da tal ideia de que eu nunca encontraria nenhuma outra pessoa pra ficar comigo. E isso porque ele estava vendo o celular no café da manhã, eu levantei pra ir fazer as minhas coisas, e ele ficou mortalmente ofendido. Como se a gente estivesse num restaurante e eu levantasse pra ir embora porque ele pegou o celular, não como se a gente estivesse na nossa casa e eu ia andar uns metros, já que ele estava entretido com outra coisa.

E veio o “quem aguenta essa Claudia”. Isso desencadeou longas conversas, no começo ele negando, mas por final aceitou que era bem errado pensar ou falar assim, e que se ele estivesse no meu lugar ele também não teria gostado.

 

Pra falar de forma rasa, eu costumo dizer “sou muito chata”, mas isso é só uma simplificação. Eu não sou chata. Eu sou exigente e rigorosa, mas não de forma burra. Eu não vou pra um restaurante de beira de estrada e reclamo da louça lascada. Eu não me importo que os meus sogros sempre esqueçam que eu não tomo café, de ter que falar, há 13 anos, várias vezes por mês, “obrigada, eu não tomo café”. Eu não me importo que a minha empregada tenha dias que faz as coisas na correria, e o banheiro tem poeira, restos de creme, fios de cabelo e outras pequenas sujeiras no tampo de granito.

No caso do Cris, eu fiz um exercício de elevação espiritual pra aprender a não me importar que ele esqueça e perca coisas (já perdeu a carteira em viagens mais de uma vez, perdeu e recuperou meu tripé, perdeu a lente macro dele), quebra copos com uma certa frequência, inclusive mais de uma vez por fechar a porta do armário antes de tirar a mão com o copo – e geralmente sou eu que tem que limpar a cozinha, porque ele é cegueta e eu não quero que fiquem cacos de vidro. Da última vez que ele quebrou um copo eu estava bem cansada, ele falou que limpava, e acabei encontrando um pedaço de vidro no bolo de carne (descobri como é a sensação de morder vidro, mas felizmente não machucou).

Aliás, esse foi o exemplo que joguei na cara dele quando ele me falou que eu sou difícil. Falei pra ele que ele também é difícil, que está com frequência quebrando coisas, ou esquecendo, ou perdendo, ou incapaz de achar quando está na frente dele – mas que eu não fico ressaltando isso. Aprendi a aceitar e a sofrer cada vez menos.

 

Eu me importo com palavras. Essa é uma das principais discussões com o Cris, quando ele fala algo, eu reclamo, e ele vem com o “você se importa demais com as palavras, não foi isso que eu quis dizer, você não entendeu”. Mas meu senhor, foi exatamente isso que você falou. As palavras são nossa principal forma de comunicação, e você não tem como desculpa a falta de vocabulário ou de intelecto. Quando você fala algo rude, eu não tenho como pensar “ele queria dizer outra coisa e escolheu as palavras erradas”, eu penso no que você falou.

Estou escrevendo sobre isso porque uma das minhas amigas mais queridas contou que gostou bastante do post Bichos pra atropelar e nomes que não importam. Não tenho certeza de qual parte, mas acho que era por saber que eu posso ficar tão brava porque tem alguém que viu um leopardo ou um guepardo e ficava chamando de onça. A pessoa teve o privilégio de ver o bicho, e não se importou em guardar o nome do animal.

Eu não sou chata a ponto de ir falar pra ela “moça, pelo amor de deus, como é que você não se importa em falar errado o nome de um felino magnífico?”. Não iria encher o saco dela. Ela não estava maltratando uma criança, um velhinho, chutando um cachorro, não era nada que exigisse uma ação. Mas posso blogar sobre minha irritação.

Não sei exatamente o que as pessoas falam de você, do que elas reclamam. Se quiser me conta, eu posso te ajudar a pensar em respostas, mesmo que sejam respostas mentais. Você sabe, não é a tudo que eu respondo, muita coisa me incomoda, mas precisa ser algo sério e importante pra eu agir. Tem que ser algo que machuca de verdade, e em geral quem consegue machucar sério são as pessoas mais próximas, as mais queridas. Quem não é próximo, em geral eu só xingo, geralmente não na cara, e me liberto.

Mas digo isso porque sou japonesa, portanto, muito preocupada com a polidez social, com as frágeis tramas que unem a vida em sociedade. Mas no meu íntimo, e pros íntimos, você sabe que não passa nada, não aceito nenhum sapo, nem que seja bem pequeno. Se machucou, é preciso lidar com isso, mesmo que seja um pensamento libertador, algo pra xingar, rir, e parar de me importar.

Admiro quem responde na lata. Aliás, acho que eu seria uma pessoa melhor e mais feliz se conseguisse responder mais na lata, talvez até me curasse do bruxismo. Mas não consigo. Sempre penso muito antes de falar, e muitas vezes meu xadrez mental manda eu ficar quieta. O que não me impede de blogar, de desabafar e, se for algo sério e recorrente, daí a gente tem que falar com a pessoa pra resolver.

Eu sou maravilhosa

Somos a história que contamos pra nós mesmos. Nossos pensamentos criam nossa realidade, sem precisar acreditar em energia ou vibrações, a neurociência te explica como o cérebro usa suas experiências prévias e suas crenças para que, de forma instantânea, o que você está vendo faça sentido. É tão instantâneo que você acredita ser o real, mas não é o real, é apenas o seu ponto de vista.

Você pode pensar que o mundo é real, sólido e indiscutível, mas não é. O império Asteca caiu facilmente porque seus governantes acreditaram que Cortez era um enviado dos deuses, uma benção prevista no calendário astrológico. Eles nunca tinham visto europeus. Quando viram, usaram seu conhecimento prévio e crenças para decidir como interpretá-los. Erraram. Morreram de forma miserável.

Sendo um pouco menos dramática, o fato é simples: todo mundo está o tempo todo olhando e interagido com o mundo tendo como grande influência suas experiências prévias, suas crenças, sua cultura no geral.

É por isso que é tão importante você alimentar seus pensamentos do quanto você é incrível, maravilhosa, linda, genial. Ou incrível, maravilhoso, lindo, genial.

Circule pela tag Como ser mais feliz, você verá que esse tema é recorrente. Ele é tão importante, mas vejo como é raro as pessoas atingirem esse estágio mental, o quanto o mais comum é as pessoas ficarem presas em medo de ser arrogante, medo de não ser boa o suficiente, medo de sofrer, medo de ser julgada, medo de rirem dele (um dos medos mais comuns dos homens), medo de decepcionar as pessoas, medo de ser chata, medos e medos…

O medo cria uma carapaça, uma armadura ao seu redor. Te embota, te impede de viver. Quanto mais receoso você estiver, mais reticente, mais vacilão, mais conservador, significa que maior é sua armadura e mais frágil o ser que a habita.

Leitores queridos. Você tem que olhar no espelho e saber que você é foda. Você tem que olhar no espelho e se achar lindo ou linda, uma pessoa incrível, genial, que já visitou vários infernos e voltou, que tem um oceano dentro de si, que é capaz de alcançar qualquer objetivo. Você tem que olhar no espelho e saber quem você é, de onde você veio, como você chegou onde está, do que você gosta, aonde você quer chegar, e tudo isso tem que ser uma história bonita. Sem precisar ir pro devaneio ou mentira, usando apenas a inteligência e a arte, crie a história da sua vida e do que você quer usando a luz bonita, os enquadramentos bem feitos, e você terá muito orgulho de quem você é. E ao ter orgulho de você, você passa a agir de outro jeito. Aparecem outras pessoas, outras oportunidades, sua história muda.

Eu juro. Eu sou a prova viva. Cresci numa cidade do interior de São Paulo, com muitos amigos frequentando minha casa, mas triste por ter esses olhos puxados, por não ser alta, magra, loira ou no mínimo com uma cara normal, prendendo a respiração e ficando tensa sempre que ia passar por um grupo ou por homens, esperando o momento em que iam tirar sarro de mim ou fazer aqueles olhares ou comentários nojetos. Cresci vendo uma grande diferença entre as pessoas descoladas, ricas, bonitas, divertidas ————— e eu. Cresci sem nunca conseguir interpretar quando um garoto queria ficar comigo, porque eu achava que só podia ser amizade, ninguém nunca poderia querer ficar com alguém como eu.

Vivi 20 anos assim.

Hoje tenho 40. Depois dos 18 fui mudando meus pensamentos e minhas crenças, minha visão sobre mim. Fiz isso a tempo de poder viver os 20 e poucos saindo com vários caras, experimentando, aumentando minha segurança sobre mim não porque eu me desse bem todas as vezes, mas só porque eu estava vivendo. Se você não vive, é fácil alimentar muita fantasia e insegurança. Viver, experimentar, faz com que você adquira muito mais amplitude, mais tranquilidade, mais capacidade de processar as coisas, inclusive o mal estar, a rejeição, as críticas.

Já me envolvi em milhares de discussões, saias justas, brigas.

Esse papinho de que a gente tem que evitar o conflito a qualquer custo é mentira, isso cria gente marica ou defensiva-agressiva. Todo mundo tem que aprender a conversar sobre assuntos difíceis, eventualmente brigar e se sentir mal — e depois sair do outro lado, como uma pessoa melhor. Mas quando você evita o conflito, ou faz de conta que nem é tão importante, você deixa de conhecer mais sobre você e sobre o outro, você perde a chance de se aproximar do outro e de se tornar alguém melhor.

Eu sou maravilhosa. Sou uma pessoa incrível, com inúmeras qualidades e que adora mesmo aquilo que as pessoas acham que é defeito. Meu grupo do primeiro grau, mesmo meus amigos mais próximos, acharam errado eu ter saído do grupo grande porque não aceitei gente promovendo o fascismo e os ignorantes rindo e achando tudo legal. Me falaram que eu devia procurar formas de controlar essa indignação, essa raiva. Não quero. Gosto e tenho orgulho dos momentos em que não sou uma mulher, sou uma tempestade com pele. Eu teria uma lista enorme de coisas boas pra falar de mim, e uma outra que eu posso pensar mas não posso escrever porque é indiscreto ou traz problema pros vivos.

E veja. Repare no que escrevo, ou quem me conhece ao vivo sabe: eu ser foda, maravilhosa, linda, incrível não faz com que em nenhum momento eu humilhe, trate mal, dê uma de gostosa ou arrogante, pelo contrário. Me ajuda a ter carinho e compreensão pelas pessoas que têm um mínimo de busca, faz com que eu saiba que eu sou foda e que qualquer um pode ser foda, melhor do que isso, eu sou foda em alguns aspectos e medíocre em outros, e outras pessoas são foda em coisas que nunca serei, mas ruins em outros que eu sou boa, e tudo bem, isso não me torna melhor ou pior. Somos todos peregrinos na bolota azul, querendo viver uma vida boa.

A gente tem que cultivar os pensamentos bons sobre quem somos. Criar nossas histórias, alimentar nossos valores. Isso muda nossa vida e muda o mundo.

Não somos um barco à deriva. Acredito no inconsciente, na psicologia, mas também acredito nos meus valores, e uma boa parte deles vem de filmes e livros americanos que exaltam o quanto a pessoa pode mudar a própria vida. Há o incontrolável e o imprevisível, mas também há uma boa parcela daquilo que só depende de nós mesmos. Nossos pensamentos, nossas decisões, nossas ações. E tudo começa com algo singelo como ser capaz de gostar de si, de saber contar pra você mesmo, e pra outros se for o caso, uma história bonita sobre quem você é.

Cultive pensamentos bons sobre você. Se olhe mais no espelho, especialmente na luz do dia, de preferência nos horários de luz bonita. Tire fotos suas, tire selfies, tire fotos com gente querida, sorrindo. Construa sua história.

Eu sou maravilhosa e tenho uma vida maravilhosa, e não é por acaso. Se eu não tivesse me livrado das neuras de achar que não era bonita ou boa o suficiente, nunca teria começado a namorar o Cris. Se eu não tivesse segurança sobre mim, talvez tivesse caído em alguma das várias armadilhas dos nossos primeiros 2 anos juntos, em que a gente quebrava o pau com frequência. Se eu tivesse algum tipo de culpa nipônica ou preocupação com o que os outros vão pensar, nunca teria me aposentado aos 34 anos, viajaria muito menos, fotografaria muito menos, e talvez nem tivesse um blog.

Viram como as coisas que você pensa sobre você e seus valores são cruciais nas suas escolhas e vão moldando sua vida?

Cultive gostar de você até se sentir foda linda incrível maravilhosa. E o mundo vai acompanhar.

Meninas boas vão pro céu e as más vão pra qualquer lugar

Esse mundo machista espera que a gente seja bela recatada e do lar. Mas qualquer cara que valha a pena conhecer e ficar não é machista no nível de pensar que você é uma vaca desprezível porque já saiu com outros caras, já transou com outros caras, e fica com outros caras sem precisar estar apaixonada por eles.

Se um cara te desprezar ou desvalorizar porque você não é virgem e recatada, ele não vale a pena, fique longe dele, que bom que você descobriu logo de cara.  Só gente muito idiota pensa que mulheres de 20 e poucos anos não têm todo o direito de fazer o que qualquer pessoa devia estar fazendo nessa idade: experimentando muito.

Essa é a idade pra experimentar, pra ousar, pra pagar mico, pra sair com vários caras. Quem não faz isso com 20 e poucos corre mais risco de se tornar um adulto idiota, ressentido, tapado, moralista. Uma pessoa que não tenha experimentado o suficiente nos 20 e poucos corre o risco de se tornar alguém capaz de cair facilmente na lábia de pessoas imorais porque falta experiência de vida e sobra fantasia do que poderia ter vivido.

Você já viu um filme dos anos 1990, Procura-se Amy? Tem o Ben Affleck no papel do macho babaca. Ele está apaixonado por uma garota, a Joey Lauren Adams, e o mundo desaba quando ele descobre que ela mentiu pra ele, que nem sempre ela foi gay, e que ela era muito promíscua desde o colégio. “Você não se importa de eu já ter dormido com metade das mulheres de Nova York, mas ficou arrasado porque eu fiz algum sexo quando estava no colégio!”. E esse “algum sexo” eram histórias como sexo a três, fazendo boquete num cara enquanto o outro fazia anal com ela (e os dois contam pra todo mundo), ser filmada transando (sem saber) e depois o cara passar o vídeo no circuito interno da escola, e ela fala “e qualquer outra história escabrosa que você tiver ouvido sobre mim provavelmente é verdade”. Ele fica bravo, fala que tem uma diferença entre sexo normal e o que ela fez, que ela foi usada. “Não, eu não fui usada. Eu usei eles! Eu fiz porque eu quis”.

Só gente bem idiota acha que existe essa história de sexo normal. Sexo é desejo e você faz com quem quiser como quiser, se é de consentimento entre ambos ou entre todos, seja mulher com homem, gay, suruba, as pessoas fazem o que quiserem.

Tem uma cena do filme em que o Ben Affleck está num bar, deprimido porque é apaixonado pela Joey, mas não consegue aceitar esse passado, e aparece o diretor (Kevin Smith), que faz o papel de Silent Bob. Ele e o Jason Mewes são uma dupla maconheira que inspirou uns personagens de sucesso do Ben Affleck, que faz papel de quadrinista. Affleck conta a situação, e fala “o que eu vou pensar disso?”, e o Mewes fala algo parecido com o que meu amigo de Limeira falou “você devia se sentir sortudo porque ela já experimentou de tudo e agora decidiu ficar com um babaca como você”.

Sexo é poder. Ter experiências sexuais aumenta o conhecimento e segurança sobre si, sobre os outros, sobre os seres humanos.

Claro, partindo do princípio de que há desejo. Entendo que tem gente que não tem o mínimo de desejo sexual, nesse caso não se deve fazer algo forçado. Mas acredito que é muito importante a gente vencer a barreira moralista do que não podemos fazer por medo de sermos julgadas, especialmente julgadas como putas vacas piranhas.

Pensa como é machista essa ideia de mulher fácil. Como se a mulher fosse um objeto passivo, e não que rolou porque ela também quis. Ou então, a ideia de que se ela quis ela é uma puta. O homem que sai com várias é garanhão campeão mito. A mulher que sai com vários é piranha vagabunda.

Saia com quem você quiser, faça o que você quiser, e coloca como nota de corte a questão da reputação. O cara que tiver alguma aversão a você porque você sai com vários, porque não é recatada, é alguém com quem você não vai querer um relacionamento sério, deixa ele pra lá sem se preocupar que ele poderia ser legal, simplesmente não dá pra fica com homem tão machista a ponto de pensar que uma mulher solteira, ainda mais nos 20 e poucos anos, não tem direito a uma intensa vida sexual.

E se tiver chance, faça um favor pro mundo. Todas as vezes que ouvir alguém falando mal de uma mulher que sai com vários caras, combata isso. Pergunte por que homens podem e ela não. Se a pessoa não é comprometida, está ofendendo quem? O que tem de errado em ficar ou transar? Se ela fez suruba, se foi uma sessão sadomasoquista, ou com frutas e chantilly, se teve anões besuntados ou sei lá o que, o que as pessoas têm a ver com isso? É inveja? Que elas sejam mais ousadas na própria vida sexual, entendam e aceitem que na privacidade e se for de consentimento entre todos os presentes, os adultos fazem o que quiserem.

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Ok, experimente e viva muito, mas vou ter que falar das coisas chatas também.

Nunca custa reforçar: segurança sempre. Camisinha sempre. Engolir porra não é algo pra primeiros encontros, há risco de DSTs.

Há mais de 400 mil estupros por ano no Brasil (45 mil registrados com certeza de subnotificação). A maioria dos casos notificados é de menores de idade, porque uma mulher adulta que sofre um estupro em geral não notifica (no caso das meninas estupradas, um adulto fica sabendo e denuncia). No Brasil não tem muitos estudos, mas na época da USP a gente sabia que tinha estupros dentro do campus. Na faculdade é mais comum ainda o cara confundir liberdade sexual com o direito de abusar e violentar.

Lembra sempre que álcool e sexo é uma combinação perigosa entre gente que mal se conhece. Tenho uma amiga que bebia muito nas festas de faculdade, até que tomou um susto grande. Uma manhã acordou nua na cama de um cara e não lembrava como tinha ido parar lá. Não foi boa noite cinderela, ele era um cara legal, mas ela passou pela humilhação de ter que perguntar pra ele o que tinha acontecido, se eles tinham usado camisinha. Depois disso ela nunca mais bebeu tanto.

Beber bastante e ficar bêbada é maravilhoso, mas tenha certeza de estar num ambiente seguro, com pessoas em quem você confia. Infelizmente a verdade é que estar bêbada aumenta o risco de você ser abusada.

Se mesmo com todos os cuidados tiver algum problema com camisinha, não hesite em tomar pílula do dia seguinte (eu já tomei, duas vezes. Por camisinha mal colocada e pela bobagem de deixar o cara gozar duas vezes sem tirar).

Na minha época não tinha isso, mas sei que hoje em dia também é possível tomar os coquetéis antirretrovirais, mas não sei o quanto isso é fácil de obter num posto de saúde. Mas tem que procurar logo, quanto antes melhor, e estamos falando de horas. O tratamento diminui de eficácia conforme passam as horas, 72 horas é o limite máximo pra começar e o ideal é começar 2 horas depois da exposição.

http://www.drakeillafreitas.com.br/profilaxia-profilaxia-pos-exposicao-ao-hiv-o-que-voce-precisa-saber/

http://ladobi.uol.com.br/2016/11/camisinha-preservativo-estourar/

http://www3.crt.saude.sp.gov.br/profilaxia/hotsite/

Lembra também que prazer sexual não é só coito com porra. Estou falando dos risco de contaminação com sêmen ou fluidos vaginais, mas lembra que os momentos de prazer com outra ou outras pessoas não é uma receitinha de bolo que começa com beijo, depois boquete, depois sexo vaginal, depois sexo anal. Isso é idiotice de filme pornô barato. Há muito prazer na pele, em várias partes do corpo, na provocação, na espera, na ansiedade por mais. É simplesmente experimentar e lembrar que filme pornô é só filme pornô, que somos muito melhores do que isso.

Outra merda que a gente tem que lembrar nos dias de hoje: cuidado com a ideia de nudes, ou de se deixar ser fotografada ou filmada transando. O cara pode parecer bem legal na hora, mas o mundo dá muitas voltas. Eu simplesmente não deixaria.

Desculpe se falei demais das coisas chatas, mas com as DSTs e estupros, infelizmente não dá pra sair pra farrear e experimentar sem ter isso sempre em mente. Na hora da excitação sexual é fácil esquecer de um monte de coisas, mas se esforce pra ser sempre conservadora na questão dos riscos. Camisinha sempre. Cuidado com álcool + sexo. Cautela ao se envolver. Não é errado beijar ou ficar ou até transar com um cara que você acabou de conhecer, mas se você sabe pouco sobre ele, evite ir pra algum lugar isolado de ajuda. Esse terceiro é o mais chato, e eu já quebrei isso muitas vezes, mas a gente sempre tem que lembrar que os riscos existem.