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Uma discussão pública não serve pra você falar o que você pensa

Você só pode falar o que você pensa pra alguém muito, muito, muito especial. Um super amigo. O amor da sua vida, mas quando vocês já estão muito íntimos e você tem certeza de que ele vai entender o que você quer dizer.

Em todos os outros casos, o objetivo de uma conversa não é se expressar livremente, poder falar o que você pensa, isso é um grande erro e ilusão, minha gente.

Quer se expressar? Fala no chuveiro, escreva furiosamente, blogue, conversa com o analista, pede help pro seu BFF. Mas uma discussão pública com certeza não é o momento pra falar o que você pensa.

O objetivo de uma discussão pública é ser vitorioso, só isso. Você só se envolve numa discussão pública se você acha que tem boas chances de ganhar. Senão, fique quieto.

O que é ser vitorioso, o que é ganhar? Não é convencer seu oponente de que você está certo. Como já falei várias vezes, não lembro de alguma vez que vi uma discussão públicam e que um dos lados deu o braço a torcer, pelo contrário, esses são momentos pra você falar com mais convicção ainda sobre o que você está defendendo.

Você entra numa discussão pública pela plateia. Por quem está acompanhando o show, não tem uma posição firme sobre o assunto, e seus argumentos podem fazê-lo pender pro seu lado.

Há várias estratégias possíveis, mas vou falar de algumas que parecem que tem funcionado:

Você é sempre gentil, ameno, civilizado, cordial. Sempre. O tempo todo. Não importa o quanto você esteja bravo, não importa o quanto o outro tenha tentado te provocar ou falado coisas ofensivas. Você não muda de sintonia e se mantém um gentleman.

Você não imagina o quanto isso faz diferença pra plateia, na verdade, muitas vezes isso é tudo que importa. Eu já acompanhei várias discussões em que reparo que as pessoas têm pouca capacidade de se ater aos argumentos, o que elas mais reparam é a performance, e se um dos lados é digamos “deselegante”, ele perde mil pontos, e não importa que ele tenha razão no que está falando, ele perde a empatia com o público.

Coisas que ajudam a dar o tom de ameno e civilizado:

  • você começa com bom dia, ou boa noite, se houver intimidade pra isso pode chamar o grupo de amigos.
  • frases curtas, parágrafos curtos, como se fosse a fala de alguém pausado e ponderado, não de alguém que está acelerado.
  • se for discussão em fórum, rede social, faça de um jeito que o texto tenha parágrafos separando. No Facebook você não pode digitar direto senão fica um blocão, você tem que digitar em outro lugar, depois copiar e colar com espaço entre os parágrafos.
  • você assume uma posição de quem admite que há várias facetas da verdade, que o outro lado também tem suas razões, que você está apenas falando do que você acredita.
  • de preferência, tente contar algo pessoal sobre você, relacionado com o assunto, que demonstra que você tem conhecimento profundo, motivos profundos.
  • histórias relacionadas com família ajudam, alguma história curta sobre algo idiota que você fez ajudam.

O outro pode ter falado algo idiota ou ofensivo. O gentleman não vai explorar esse ponto. O pessoal mais antenado, e que geralmente é o que mais conta como formadores de opinião, repara que o outro falou algo idiota, você não precisa espezinhar isso.  Você vai pra um plano além, você sobe um nível.

Você evita os embates de apontar o dedo no nariz e dizer “você falou tal idiotice”. Troque por “as pessoas deveriam se informar mais sobre os temas tais”

Tenha clareza sobre seus valores e promova-os sempre, o tempo todo.

Pra mim tolerância, respeito, paz, não ser adepto da agressividade gratuita, da timificação (e portanto achatamento) do mundo são valores fundamentais. Então estou sempre falando disso.

Eles são valores nobres. Não vai ser fácil seu oponente dizer que você está totalmente errado, no mínimo ele vai ter que reconhecer que você está certo em promover respeito e tolerância, e essa é a parte que mais me importa. E em geral isso também ajuda a mudar o clima da discussão, quando colocamos as coisas no plano dos valores nobres, em geral a discussão acaba. Ninguém quer posar de mesquinho, de pequeno.

Entre nas discussões públicas quando você sabe que pode ganhar. Entre pra vencer, pra promover respeito ao outro, reconhecimento de diversidade, necessidade de união. Não se apegue aos deslizes do argumento do outro, fale dos seus valores.

Isso ajuda a mudar a sintonia do mundo e inspira outras pessoas a respirarem outros valores também.

Coisas sobre as quais eu sou totalmente intolerante

Bolsonaro.

Trump.

Coisas do tipo.

Se você é a favor de pessoas que publicamente defendem a extrema-direita (homofobia, apologia ao estupro, xenofobia, machismo, racismo)

eu simplesmente não quero nenhum tipo de relação com você, não quero nem olhar na sua cara.

Se você gosta de políticos que fazem esse tipo de discurso público, eu não tenho nada pra falar com você. Sobre nada.

Pessoas como Bolsonaro e Trump publicamente apoiam a extrema-direita. Se você não se incomoda com isso, temos valores fundamentais radicalmente diferentes, e eu assumo que é um radicalmente diferente a ponto de não querer olhar na sua cara, assumo que aqui é um ponto meu de extrema intolerância. Não quero nenhum tipo de relação com pessoas que realmente acham que tudo bem apologia ao estupro, que tudo bem dizer que existe uma raça ariana pura e que só ela presta, que judeus, negros, latinos, asiáticos, muçulmanos são tudo bosta.

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Descobri minha intolerância porque hoje deu um quiprocó no meu grupo do 1o grau. Uma professora postou uns vídeos como “Aula de História”, um dos colegas respondeu indignado e saiu do grupo. Todo mundo achou que a reação dele foi exagerada. Daí agora à noite tomei coragem pra ver os vídeos, e me deu vontade de também responder indignada e sair do grupo. São vídeos contando como a ditadura foi importante pra salvar o Brasil, com direito a pérolas como esta:

“Atendendo ao clamor público para combater o terrorismo e a guerrilha, com mais rigor, o presidente Costa e Silva editou o Ato Institucional número 5 (AI-5) que previa o exílio e punições mais severas para os autores de atos de guerrilha comunista praticados contra a população brasileira

Em desafio à nova medida do governo de proteção à sociedade, Carlos Marighella lançou o seu…”

Acreditam nisso?

O AI-5 foi um clamor do povo, uma medida de proteção à sociedade!!!

O Holocausto não existiu, é invenção de Hollywood.

Esse ressentimento pelo período da escravidão ou essa ideia tola de que a escravidão deixou os negros em desvantagem histórica, ou de que existe racismo ou machismo no Brasil, tudo isso tem que ser superado minha gente, bola pra frente, vamos tocar a vida.

Coisas como essa. O discurso do Trump. Tantos momentos em que pensei “parem o planeta que eu quero descer”.

Que lasqueira.

 

Nova York – parte 1

Love you

Nunca pesquisei mais a fundo, mas Jonathan Franzen disse que tinha a ver com o 11 de setembro. Eu achava chique as pessoas que podiam falar o que estavam fazendo quando souberam que o presidente Kennedy foi baleado ou quando o homem pisou na lua. Eu não era nascida em 1963 ou em 1969, mas em 2001 eu já trabalhava. Faço parte do grupo que pode falar o que estava fazendo quando soube do ataque às torres gêmeas. Trabalhava na Publifolha, na época que ficava na Vieira de Carvalho. Meu amigo falou “você viu? Nova York está bombando”, e fomos até a sala de reuniões, que tinha uma televisão, e vi as imagens. Uns anos atrás vi fotos das pessoas cobertas de cinzas, andando como zumbis, e isso traz um valor a mais pra essa cidade, é inevitável, dolorido e ao mesmo tempo há um sabor a mais em saber dessa cicatriz. Não há nada visível, mas se Franzen está certo, é uma das cicatrizes mais bonitas que uma cidade ou um país pode ter.

Franzen acha que após o 11 de setembro tornou-se muito mais comum as pessoas terminarem uma ligação com “Love you”. “Bye, love you”. Não “I love you”, e sim o “love you”.

Talvez o certo fosse eu pegar o livro – provavelmente é no “Como ficar sozinho”, mas não desta vez, mesmo correndo o risco de citar errado vou falar dessa lembrança. A ideia de que um evento tão traumático numa cidade tão improvável e icônica trouxe uma mudança na alma das pessoas. A vontade de se falar com mais frequência, várias vezes “amo você” – a consciência aguda da fragilidade da vida, do quanto você não sabe se vai ter outra oportunidade pra falar isso.

 

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Triplo thank you

Dos 8 dias na cidade, 6 fui passarinhar no Central Park. Num desses dias, já voltando pro hotel, uma moça bonita, cara de indiana, de bicicleta e capacete pediu pra eu tirar uma foto dela (algo bem comum… durante a viagem, umas 8 pessoas me pararam e pediram pra tirar fotos, mesmo eu não tendo nenhuma aura de simpatia). Quando fui atravessar a avenida (ainda dentro do Central Park), o sinal estava verde pra pedestres, mas vi dois ciclistas descendo. É bem mais fácil eu esperar do que eles brecarem, então parei de atravessar, eles passaram e gritaram “thank you!”, “thank you!”, e logo em seguida passou a moça indiana que também gritou “thank you!”.

A primeira vez que fui pra Nova York foi em 2005. As pessoas falavam sobre a arrogância dos americanos, algo que nunca senti. Em 2005 ainda se andava com guias em papel, lembro de estarmos numa esquina olhando um mapa, um homem parou e perguntou se a gente precisava de ajuda. No metrô eu via as pessoas se levantando pra dar lugar pros mais velhos sentarem e, mesmo nessa viagem, um homem (da minha idade), deu o lugar dele pra mim, para que eu pudesse ficar sentada do lado do Daniel. Em São Francisco teve a tal história do casal que puxou papo com a gente e nos pagou bebidas, dentro dos parques todo mundo é um poço de simpatia, você topa com alguém numa trilha, olha pra pessoa, sorri, fala oi. Mesmo dentro do Central Park na época dos migrantes, quando o parque fica cheio de birdwatchers as pessoas se tratam como amigos. Em 2010 eu estava lá sozinha, vendo um miniguia, um homem sentou do meu lado, sorriu, pegou o miniguia da minha mão com delicadeza e começou a me apontar que espécies já tinham chegado (não era cantada, ele era gay, daqueles que depois você encontra e uma colega diz “she pictured a Blackburnian!”, “oh! I can’t believe! I was starting to like you, but now I hate you – you know birdwatchers are very competitive”. Em Las Vegas na final mundial de poker – vocês sabem como torcida brasileira pode ser um saco – os brasileiros enchendo, provocando, alguns americanos bem irritados. Num dos momentos eles contra-atacaram com gritos de “USA! USA!”, mas só funcionou a primeira vez. Quando tentaram puxar de novo o coro, não houve adesão. Achei que as pessoas se sentiram envergonhadas e não queriam bancar os arrogantes.

Eu sei que tem um monte de americanos filhos-da-puta e que minhas experiências são as pequenas bolhas de civilidade. Sei que tem muita violência, estupros, racismo, xenofobia, injustiças diversas.

E teve o Trump.

Mas o que eu sinto pelos Estados Unidos? O que me inunda quando penso nas minhas lembranças e referências culturais sobre os Estados Unidos?

Só amor. Amor, gentileza, mundo que deu certo.

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Algumas das placas no Central Park:

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No Cooper Hewitt Smithsonian

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Fotos do 11 de setembro, da internet:

Conte pro mundo que não é ok apelar pro argumento de “você nem sabe escrever”

Uma Editora entrou em contato pedindo pra usar uma imagem em que o Cris aparece de binóculo. Ótimo, divulgação pra natureza, pra observação de aves. Meu contato escreveu “observação de pássaros”, o que me ligou um alerta sobre questão do conteúdo. De qualquer forma eu daria uma olhada no Google. A primeira pesquisa com o nome deles mostrou uma história ruim no Reclame Aqui, em que uma mulher reclama da qualidade de um dicionário deles que ela foi obrigada a comprar porque era indicação da escola — mas o mais absurdo foi a resposta da Editora. A pessoa que recebeu o email de reclamação respondeu na linha de “você comete erros de concordância, você nem sabe escrever, como pode criticarnosso material?”. Essa história foi há 2 anos, mas me deixou encanada. Sabem que facilito a circulação de imagens de natureza, mas neste caso, tentei descobrir mais sobre a história e esta foi a troca de mensagens com o contato:

“oi [nome do contato],

Fico contente em saber que vocês pretendem falar sobre observação de aves, tenho interesse em apoiar a divulgação da natureza brasileira. Sou birdwatcher há vários e costumo facilitar a circulação de imagens de divulgação, mas no seu caso tenho algumas dúvidas, peço desculpas pela chatice:

1 – O texto terá revisão de um ornitólogo? Eu posso ver? Por exemplo, é só um detalhe besta nerd, mas o certo é observador de aves, não de pássaros, porque os pássaros são um grupo dentro das aves (pardal, canário, pintassilgo são pássaros e também aves. Mas um tucano ou um gavião não são pássaros, só aves). Um detalhe não tão nerd é que o Brasil é o país onde a câmera fotográfica é mais popular do que o binóculo, e seria interessante que o autor do texto tenha familiaridade com o tema, conheça o Wikiaves, saiba que somos um dos países com a maior biodiversidade de aves, talvez o maior.

2 – Sei que uma empresa é formada por muita gente, mas quando você entrou em contato, dei uma olhada no Reclame Aqui e vi o incidente de 2015, em que um funcionário destratou uma mulher, apelando pro argumento “você nem sabe escrever”. Quero contribuir pra divulgação da natureza, mas não gostaria de ter minha imagem associada com uma empresa arrogante. Vi que a empresa publicou uma resposta dizendo que aquele texto não representava a empresa… mas acho que o que queria perguntar é se de lá para cá houve investimento no atendimento, e mesmo na qualidade do material, porque as queixas sobre as deficiências do dicionário me pareceram legítimas.

Estou fazendo perguntas difíceis demais pro mero uso de imagens? Desculpe se estiver. Eu realmente tenho interesse em divulgar a natureza brasileira, mas sou um tanto zelosa com o destino das imagens.

Se ainda assim você tiver interesse nessa foto, eu teria que perguntar pro meu marido se ele permite o uso da imagem, mas é improvável ele não deixar. Se eu puder ver o texto, também posso eventualmente oferecer outras imagens de natureza.

obrigada, abraços,
Claudia”

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“Cara Claudia,

As fotos serão utilizadas em uma galeria de fotos no livro digital, que faz um trabalho de leitura de imagens relacionado com o livro impresso. Teremos apenas as legendas informando local e data dos observadores retratados, portanto não há informações extras a serem revisadas. Os detalhes da atividade de observação serão informados ao professor no manual, e este conteúdo está sendo produzido ainda. Como trata-se de um livro de língua portuguesa, o tema da observação dos pássaros será feito dentro do pilar de interdisciplinaridade da coleção, será realizado um trabalho de apresentação do trabalho dos observadores de aves (e não de pássaros, não se preocupe) no livro impresso, com o objetivo de trabalhar o respeito à natureza.

Sobre a questão da queixa, a editora reafirma que a resposta não reflete a posição da empresa, que tem como pilar um projeto de educação pautado em valores e na construção da cidadania.

Entendemos a preocupação com o destino das imagens e temos o mesmo cuidado com nossos conteúdos, inclusive na escolha de nossos fornecedores. Se houver interesse em continuar a conversa, por favor, nos avise.

Obrigada,”

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“oi [nome do meu contato],

falei com o meu marido, ele não permitiu a divulgação da imagem. Como é apenas uma imagem em meio a uma galeria, tenho certeza de que não atrapalha seu trabalho. Desculpe por tomar seu tempo.

Você pode parar de ler o email aqui, ou pode continuar lendo se quiser saber como uma pessoa do público percebe essa interação.

Qualquer pessoa ou empresa está sujeita a erros, ninguém é infalível, o que faz diferença é a atitude após o erro.

Vivemos nesse mundo de internet e redes sociais, em que todo mundo conversa com todo mundo. Em qualquer tipo de interação, o aspecto humano, a forma de se comunicar pesa cada vez mais. Ontem à noite quando falei com o meu marido sobre a foto, a história da mensagem desaforada foi o que fez meu marido dizer “não quero que você mande minha foto pra eles”. Se você tivesse me respondido “aquele foi um incidente bem ruim mesmo, todos da empresa lamentamos, não é a forma como a empresa pensa. O funcionário foi severamente repreendido, e temos um treinamento anual pra reforçar a questão dos nossos valores, e como fazer o atendimento ao público, principalmente para identificar situações em que estamos sob pressão, estresse, e recebemos uma crítica”. Se você tivesse me respondido algo do tipo, e se sua resposta sobre a parte de conteúdo fosse menos evasiva, eu falaria com o meu marido para convencê-lo a mudar de ideia.

É só uma imagem entre várias, não vai lhe fazer falta. Se fosse importante pro projeto, eu também agiria diferente, porque quero divulgar a natureza brasileira.

Estou te falando dessas coisas não com o objetivo de brigar ou ofender, espero que você não esteja lendo assim, porque não é meu objetivo. Parei minhas outras atividades pra te falar disso porque gostaria de ver um mundo mais humano, em que as pessoas entendessem que o argumento do “você nem sabe escrever, você comete erros de concordância”, é algo grave, ainda mais sendo para um cliente, e tratar disso como “já falamos que não representa a postura da empresa” — pare de falar sobre isso, também não é a postura que atrai simpatia.

Não sou ninguém. Você pode só me xingar e rir de mim, contar pros colegas que topou com uma louca. Mas se você quiser experimentar interações mais humanas, é provável conseguir resultados melhores.

Desejo sucesso no seu trabalho. ”

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Outra situação de promoção de valores foi um encontro com uns amigos de Limeira que não via há 20 anos. Teve um momento que perguntei (eu nem conseguia achar as palavras, porque nunca tinha tido um papo assim), mas era a ideia de o que vocês estão fazendo pelo bem do mundo? Eles me contaram, e o engraçado é que uma delas estava com uma dificuldade de executar um projeto que o irmão dela tem um contato que pode ajudar. Ele respondeu na hora “é só falar com fulano, eu faço isso” — e descobri que eles nunca tinham falado sobre o assunto.

Então é isso. Tudo que você achar que é importante, fale sobre isso. Fale que é importante, fale cada vez mais. Quanto mais a gente pratica, mais destrava.

Uns dias atrás ouvi um comentário bem machista vindo de um colega, a ideia de que “mãe serve pra isso”, e eu não quis comentar na hora, não queria discutir com ele. Mas deveria ter falado algo. Assim como deveria ter falado que teria sido importante mostrar o beijo gay do Sulu com o marido, e quando meu pai falou “ainda bem que não mostraram, tem coisas que são desnecessárias” eu devia ter respondido como homofobia é um assunto sério.

Quero cada vez mais sair do armário e promover meus valores, mesmo que isso eleve minha fama de chata ao infinito.

O peso do nosso riso ou do nosso silêncio

A gente pode não estar fazendo o mal.  Mas nossa omissão, risos ou silêncio contribuem pras ações de bullying e qualquer outra agressividade. Boa matéria da BBC:

Ainda que as testemunhas não sejam os protagonistas mais óbvios de cada caso, o silêncio e as risadas dessas pessoas reforçam o poder do agressor.

Por isso, trabalhar com esses observadores para que tomem consciência do seu papel nesta situação e encontrem formas de mudar seus comportamentos faz com que agressor acabe perdendo seu público.

“E quando um grupo deixa de apoiar o agressor e este fica sozinho, ele para”, explica a psicopedagoga.

(…)

O impacto do sistema se sente sobretudo nos agressores, porque se as atitudes dos demais envolvidos muda, agredir passa a não ser mais tão divertido“, explica a diretora do programa KiVa no Instituto Escalae na Espanha Tiina Mäkelä, que também realiza treinamentos sobre o programa em países de língua espanhola.

O bem-sucedido projeto antibullying que a Finlândia está exportando à América Latina:  http://www.bbc.com/portuguese/internacional-39930242

Abraçando desconhecidos

Na área de café do Fleury todas as mesas estavam ocupadas. Escolhi uma (achando que era ao acaso), pedi licença pra mulher e me sentei à mesma mesa.

Uma conversa que começou com algo sobre preguiça, horário, tempo chuvoso. Mas eu sou assim, então logo estávamos falando do câncer dela, dos problemas com o tratamento, as dificuldades no trabalho.

Não era desalmada. Ela também fez perguntas sobre mim, me olhou nos olhos, agradeceu muito pela conversa, pediu desculpas por ter chorado.

Saímos mais ou menos ao mesmo tempo, esperávamos juntas os carros chegarem, o meu chegou, não tive dúvidas: fui me despedir e perguntei se podia dar um abraço nela. Abracei-a bem apertado, falei que vai ficar tudo bem, pra ela pensar em coisas boas, ela chorou mais um pouco.

Esse encontro explica por que me perdi na ida, fiz algo bem idiota e levei 10 minutos a mais pra chegar. Sei que às vezes essas coisas acontecem pra acertar o timing com os encontros que precisam acontecer.

Tenho certeza de que essas situações fazem parte das minhas obrigações como bruxa, e ser humano. Espero que esse mínimo de atenção, e um abraço, tenham feito diferença no dia dessa mulher de quem não sei nem o nome.

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Abraçando gente que eu não via há 25 anos

Neste fim de semana encontrei alguns dos meus colegas do primeiro grau. Foi incrível. Mestre Choa e Mãe Terra, agradeço. Agradeço muito pelas preces atendidas, pelas oportunidades de relações mais humanas. Sei que não caiu do céu, que sempre é preciso atitude da nossa parte, mas também sei que pedi e aconteceu.

Encontrar gente que eu não via há tanto tempo, que teoricamente são desconhecidos, mas pudemos conversar como amigos de verdade. Posso só estar sendo enviesada, mas o que eu vi e senti? Bondade, carinho, compreensão, honestidade. Ninguém se pavoneando. Todos falando de problemas ou dificuldades ou os momentos difíceis de filhos, casamento.

Não vimos o tempo passar. Teve um momento que eu levantei da cadeira e me falaram “você tem que ir?”, “não, é que eu vou falar algo importante” (me ovacionaram). Um dos colegas tinha acabado de contar que era muito orgulhoso, que era capaz de passar 3 dias brigado com a esposa, os dois só falando bom dia, boa noite, e mais nada. Levantei da cadeira e falei “não imagino isso, gente, passar tanto tempo brigado. Vou falar de duas técnicas que a gente usa pra dissipar logo as brigas: viagem no tempo e bop”.

Tinha certeza de que já havia escrito sobre isso, mas não achei no blog, acho que ficou só no livro, então vou colar como próximo post.

 

Breves comentários sobre bullying

Achei uma parça no meu grupo do 1o grau. Uma garota que não era minha amiga na época, mas passamos um tempão conversando agora à tarde, e ela é louca que nem eu, de começar uma conversa inbox e em cinco minutos estar contando coisas importantes da vida dela.  Enquanto isso, no grupo, ela já postou “Pergunta polêmica: qual é sua religião”, e agora um post falando do 13 Reasons Why.  Ninguém comentou até agora, só eu. Escrevi comprido e falei pra ela que sempre vou comentar qualquer assunto polêmico que ela quiser conversar. Vou colar aqui:

“Oi [nome da minha parça]

Estou achando que não vão ter muitos comentários sobre esse tema, as pessoas têm se manifestado no grupo muito mais do que eu esperava, mas tem coisas que não espero que as pessoas abram. Acho que somos as mais louconas, e vou apoiar sempre qualquer coisa que você quiser conversar, mas acho que é bom a gente não esperar demais dos outros.

Em geral as pessoas não querem falar com essa abertura que estamos falando, mas acho que vários estão lendo, acho que podemos contar com isso.

Bullying é sério e grave. Sentir-se sozinho, sem amigos, sem ter com quem conversar, é seríssimo. Imagino que a maioria das pessoas aqui já não tem problemas com isso, mas temos que ficar atentos por causa dos nossos filhos, e também vigiar se algo do nosso discurso pode estar sendo preconceituoso, venenoso.

Você sofreu bullying? Quer contar?

Eu sei que era chamada de CDF, que é algo nada elogioso, mas nunca me senti discriminada nas escolas no tratamento pelos colegas, pelo contrário, sempre me sentia tratada com carinho, respeito, disputada até como companheira de trabalhos em grupo :).

Mas nas ruas era diferente. Eu odiava ser japonesa. As pessoas mexiam comigo, passavam por mim e gritavam arigatô, banzai, japoronga, ou qualquer coisa que elas achassem que soasse como japonês. Uma vez uns garotos me seguiram, ficavam andando do meu lado puxando os cantos dos próprios olhos e falando coisas que eles achavam que soava como japonês. E quando virei adolescente e comecei a ter peito, ficava levando secadas, aquele som sibilante nojento, o gostosa. Às vezes eu voltava pra casa em zigue-zague, atravessando a rua toda vez que visse homens ou garotos com jeito de quem poderia mexer comigo.

Eu já passei por uns abusos que a maioria das mulheres já passou, mas o que me dói mesmo é o bullying por ser japonesa. Eu achava que era coisa do passado, em São Paulo ninguém mexe com você, mas um tempo atrás fui fazer rafting em Brotas, cruzamos com outro bote que estava com vários japoneses, meu condutor falou pro outro “ei, a gente pode trocar”, “podemos mesmo, e pior é que se cair na água você não sabe qual é qual” – afinal, japonês e caminhão de melancia é tudo igual. Até então eu estava papeando com ele, depois me calei, mas não quis reclamar do que ele falou pra não estragar o passeio pros outros. Mas doeu, e dói até hoje. Depois desse dia, todas as vezes que penso nisso me caem umas lágrimas.

O Cris estava indignado, ele nunca tinha visto, falou “você me falou de como era em Limeira, mas eu não imaginava que era assim, até hoje”.

Uma vez meu enteado estava contando algo da escola e falou “o gordinho”, eu falei “não fale assim. Em geral quem é gordo não gosta de ser chamado de gordo, a gente não deve falar nada que possa chatear as pessoas”, ele nunca mais falou.

Quando ele era bem criança, uma vez a gente viu ele brincando com uma girafa, falando que ela era um palitinho, e desconfiamos de que alguém na escola dele estava chamando ele de palitinho. Passou logo, mas é o tipo de coisa pra se ficar atento também. Ele era muito magrinho, mas já faz uns anos que ele faz Kung-fu três vezes por semana, isso também ajudou bastante em confiança. Ele não é do grupo dos populares da classe, é mais dos nerds, gamers, mas tem o círculo de amigos nerds e gamers também, é um garoto feliz, cantarolante, bem humorado, engraçado.

Meu cunhado, marido da minha irmã, é muçulmano nascido na Marrocos, naturalizado brasileiro. É um amor de pessoa, a família dele também é um amor. Não deixo ninguém falar mal de muçulmanos perto de mim, sou capaz de responder comprido quando recebo aqueles textos que generalizam a loucura do que algumas pessoas fazem, como se fosse coisa que qualquer muçulmano ou árabe faz. “Sabia que o Brasil é um país de corruptos, que todo brasileiro é corrupto? Deviam proibir os brasileiros de saírem do país, pra pararem de espalhar a corrupção pelo mundo”, às vezes respondo assim.

Escrevi muito. Mas quem chegou até aqui, obrigada pela atenção ao tema, e espero que você também faça parte do time de pessoas que estão sempre agindo por um mundo mais gentil, mais humano, menos injusto e menos cruel.”