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Foda-se a gramática

Numa discussão num fórum ou em caixas de comentários, quem apelar pro “mas ele nem sabe escrever” leva 10 chibatadas mentais imediatas.

É das coisas mais idiotas que existem cobrar escrita perfeita, ou mesmo razoável, do cidadão comum. Precisamos cobrar correção e a busca pela perfeição no caso de:

– professores

– porta-vozes, representantes oficiais de uma empresa ou uma organização que precisa de uma imagem straight

– materiais oficiais feitos pelo governo (placas, cartazes, livros)

– comprou um livro e veio cheio de erros? Escreva pra Editora, reclame. A menos que seja de um dos autores marginais, as pessoas que não tiveram educação formal, mas têm começado a publicar. Ainda não li livros assim (na verdade, leio muito pouco hoje em dia), mas se o tema interessa, seria uma burrice desprezar as palavras de quem pode dar depoimentos tão diretos, só porque a pessoa não teve oportunidade de aprender a norma culta da língua.

Numa discussão com outras pessoas apelar pra questão da correção gramatical é dar uma grande mostra de que você é um cabeça de bagre desprezível.

Este post está cheio de xingamentos pra ficar claro como é algo totalmente imbecil tentar desqualificar alguém porque a pessoa não domina a norma culta. Se você não é capaz de entender a mensagem só porque tem prástico, ou espreçivo, hamor, mesantropia, mindigo, axei, a pessoa com problemas é você, não o outro. Porque você está sendo um esnobe filho da puta filhinho de papai, ignorando a realidade do sistema escolar público no Brasil, e até mesmo de muitas escolas privadas. Além dos problemas da estrutura familiar para apoiar o aprendizado.

Teve oportunidade de estudar numa boa escola? Cresceu num lar com vários livros? Teve amigos e parentes que também se interessavam por literatura? Teve professores inspiradores? Parabéns. Você é uma minoria. Mas você não merece nenhum prêmio por isso. Assim como uma pessoa que não domina a norma culta não merece um “a” de cretinos que não sabem o que é escola ruim, ter que trabalhar e estudar, não ter ninguém que ajude.

É improvável que uma pessoa que estudou numa escola ruim domine a norma culta. Mas escola boa ou ruim não é o que define inteligência x burrice, sagacidade x tapadice. Tanto que sempre tem uma criatura, que provavelmente estudou em boas escolas, usando o argumento-asno de tentar desqualificar seu opositor porque a pessoa cometeu erros gramaticais.

Vai pra vida pública das caixas de comentários ou fóruns? Aja com honra. Debata as ideias, e foda-se a gramática.

— x — x —

Só pra não causar algum mal entendido: eu sou editora, o Cris é economista com pique de editor. Temos momentos, especialmente quando estamos com o Daniel, em que podemos assassinar a gramática. “As elite branca” é uma expressão que entrou pra roda. Mas nós temos obrigação de ensinar o Daniel, que já fala bem certinho no geral, mas é corrigido se fala coisas como “aonde fica?” em vez de “onde fica?”, ou “Fazem 2 dias” em vez de “Faz 2 dias”, ou se pegamos um texto em que ele escreveu viajem quando o certo eram viagem.

Se a pessoa tem condições de aprender a norma culta, ela deveria aprender. E usar. Uma vez estava com uma professora universitária que falou um “da onde ele é?”, e era alguém próxima o suficiente pra eu falar “de onde. Não da onde”, e ela não gostou do meu comentário, disse que a língua é viva e dinâmica e que não devíamos nos prender a essas formalidades. Isso eu acho errado.

Sempre componha uma auto-imagem

[entrou a tag Magia porque em fev/2016 topei com um blog de um bruxo que me confirmou essa ideia de que seu olhar sobre você muda seu rosto]

Milorad Pavitch, de O Dicionário Kazar, me rendeu várias imagens e ideias. Uma que sempre guardo são as discussões sobre a beleza da princesa Ateh. Que alguns diziam ser belíssima, outros diziam que ela não tinha nada de especial, mas compunha seu rosto todas as manhãs.

Adotei a ideia. Não de se compor no sentido de penteado, maquiagem, acessórios, isso também altera muito a aparência de alguém, mas o que mais me interessou foi a ideia de que nosso olhar sobre nosso próprio rosto altera nossa aparência.

Guardei também um trecho da Anne Rice… acho que da Entrevista, sobre uma prostituta que o Lestat mata. O livro diz que ela era daquelas belezas que reside principalmente na personalidade, e que uma vez morta, a beleza desvanecia.

Sou daquelas que não tem nada de especial, e que tem vários pontos negativos pra pesar contra. Mas uso esses dois trechos de literatura, e sei que meu olhar sobre mim e meu estado de espírito alteram muito minha aparência e a percepção que as pessoas têm de mim. Eu sei que não é só loucura minha: o Cris já me confirmou (e jurou que não é mero papinho pra tentar e salvar) que eu fico feia quando estou brava.

Gostar de si é essencial. Se você não gosta do que vê no espelho, mude isso. Mude sua aparência. Vá atrás de tratamento pra pele, mude o cabelo, se produza. Mas nunca deixe de se olhar no espelho (principalmente se for dar uma entrevista que vai pro youtube, não faça o que eu fiz).

Nesta semana fiz algumas mudanças necessárias. Pintei e cortei o cabelo, e teve dia de sair com saia-shorts curta, bota estilosa, pulseira chamativa. Sou casada, misantropa, aposentada, ermitão. Mas não é motivo pra de vez em quando não dar um up no visual.

Estava assim (eu e o Cris em Ilhabela na semana passada):

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No dia que o maravilhoso Charles Motta, da Retrozaria, cortou meu cabelo fiz um monte de selfies, até encontrar minha cara. Fora que era fim de tarde e, como todos sabem, fotografia é luz. Nada como fazer fotos com luz natural. Precisa de imagens de si? Nada de flash, nada de ambientes só com luz artificial. Pegue a luz da manhã ou do fim de tarde e você vai ver a diferença.

Além do seu olhar e, obviamente, vários cuidados básicos com a aparência (tenho escrito sobre isso, vou postar mais pra frente), outra coisa que faz muita diferença na percepção dos outros sobre você é sua aura. Aura é jeito de falar, inclui linguagem corporal, roupas, mas nunca deixo de levar em conta o que você está vibrando, o que você quer. Na minha fase de gandaia de jovem adulta solteira, peguei quem eu quis, e aconteciam até coisas com desconhecidos em ônibus, em cinema. Depois que me tornei uma mulher comprometida, zero. É claro que também cuido pra usar roupas adequadas, ter a linguagem corporal certa, nunca entrar em assuntos perigosos, mas o fato é que já fiz várias viagens com homens, sem o Cris, às vezes só eu e um homem, de passar dias juntos, de ter que dividir o mesmo quarto, e nunca rolou nada, nem mesmo um clima. Acho que mesmo que não estivesse usando essas roupas de gringo velho (calça de trilha, camisa de manga longa, cores bocós), não faria diferença. Seriedade e intenções transparecem. Eu sei que é uma grande mostra de confiança o Cris deixar eu fazer o que eu quiser, viajar pra qualquer lugar, com qualquer um. Só se eu fosse idiota pra estragar a confiança de uma pessoa que amo tanto.

Olhe sempre pra você. Componha uma imagem, um visual favorito, se produza, se sinta bonita. Invista em cuidar de si, em pele, cabelo, saúde-exercícios-físicos, mais até do que roupas, calçados, acessórios. Aumente suas oportunidades pra ser feliz.

Demolidor do Netflix – este sim, um dos seriados que dá gosto de ver

Esqueça o filme com o Ben Affleck (que eu não assisti, mas só de ver as imagens de divulgação dava pra saber que não prestava). O Demolidor produzido pela Marvel em parceria com a Netflix tem personagens cativantes, escolhas ótimas de iluminação, maquiagem e figurino, consegue mostrar cenas de violência, sangue, cortes, espancamentos sem que você fique com uma sensação de nojo ou exagero.

Eu já tinha visto no Netflix há algumas semanas. Mas só decidi assistir depois de topar com uma imagem de divulgação no Shopping Eldorado: um Matt Murdock barbudo, cansado, com machucados no rosto, terno meio amassado, arrumando os óculos redondinhos de cego mas ao mesmo tempo com uma aura de poder, determinação, violência.

Cheguei em casa e fui ver. Assim como faço com livros não comecei pelo primeiro episódio. Comecei pelo terceiro, adorei, e em dois dias assisti aos 13. E fiz algo que raramente faço: rankeei no Netflix, merecedíssimas 5 estrelas.

Por que vale a pena:

– as pessoas não são de plástico! Muitos seriados e filmes ultimamente têm um tratamento pasteurizado da maquiagem, do cabelo, do figurino, da iluminação. Você vê uma imagem do filme ou do seriado, e desanima. Porque em geral esse tratamento baunilha-coxinha se reflete no roteiro, e por que vou perder meu tempo vendo um negócio que não há sangue ou suor, tanto no visual quanto na estrutura da historia?

– diálogos ótimos. Vários momentos de conversas afiadas e boas tiradas. Piadas internas com o mundo dos quadrinhos e de Hollywood.

– os personagens principais são cativantes.

– o pratagonista, Charlie Cox é bonitão, atlético, e consegue ter aqueles sorrisos de gente louca ou santa.

– a iluminação é maravilhosa, cheia de contrastes de claro-escuro. Eles filmam também no contraluz, em ambientes escuros. Talvez tenha algo a ver com geração nova de câmeras que conseguem lidar bem com isso? Bloodlines, outra série do Netflix (não é de vampiro), vi uns pedaços, e também havia cenas no escuro e no contraluz.

– não é anti-sexo, ao mesmo tempo não abusa de cenas de sexo como chamariz. Na verdade, até agora não teve nenhuma cena de sexo (o Rei e Vanessa acordam juntos na cama, mas não mostra eles se agarrando – o que seria meio weird), mas fica explícito que Matt tem uma vida sexual bem ativa, e nos diálogos entre Ben Urich e a esposa eles também falam sobre sexo. Mais um ponto na campanha contra personagens de plástico.

– Não há gente que voa, alienígenas, mutantes… é mais pra uma historia policial. Ao mesmo tempo há uma sutileza que traz os personagens pra fora de uma sensação de pura realidade-cotidiano, algo especial que acentua o brilho dos cabelos da Karen Page, o azul dos seus olhos – mas sem deixá-la com aquela sensação de personagem de plástico, mostra que ela tem uma pequena verruga, os pelos do rosto. E em muitos momentos ela está com o repórter Ben Urich, o ator Vondie Curtis-Hall, que aparece com a pele tão negra e brilhante que cria um contraste visual hipnótico entre os dois. Como se fosse um filtro que deixa as imagens mais gloriosas. É muito mais sutil, mas lembra algo de O Pacto dos Lobos.

– Faz anos que não acompanho mais as HQs. Mas na minha época de Demolidor, Matt Murdock era um homem atormentado e católico. Ser católico é algo bem fora de moda hoje em dia, ainda mais pra um heroi de quadrinhos. Caras, não é que eles conseguiram transpor esse aspecto pro seriado? Matt Murdock aparece na Igreja, tem longos diálogos com o padre, e tudo encaixa, nada parece absurdo.

– Havia a questão da violência na Cozinha do Inferno e em NY no geral no início da década de 1990. Hoje a imagem geral é de uma NY bem mais segura, como eles lidariam com isso? Não acompanho as notícias sobre NY, mas talvez o filtro de luz meio Pacto dos Lobos tira o peso dessa parte, nos transpõem pra um universo mais de HQ em que não faz diferença se a historia descola um tanto da realidade. Ainda que a gentrificação de NY seja fato.

– A iluminação é cheia de claro-escuro, mas os personagens não são preto no branco. O Rei não é o mal absoluto, Murdock comete erros, outros personagens importantes também saem da linha.

– Há uma menção à grega maravilhosa que Matt namorou na faculdade, temos esperanças de que Elektra apareça. E eu adoraria que fosse uma Elektra de cabelo preto, liso, comprido, com franjinha, não muito musculosa, e mais com jeito de garota do que de mulher.

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– O seriado é sombrio e dark, mas sem ser daquele jeito sangria desatada que você sabe que a maioria dos personagens vai morrer e passa a nem se importar. Nestes primeiros 13 espiódios, personagens importantes morrem e há perspectivas de outros momentos tensos, como os fãs da HQ sabem.

Estou ansiosa pela segunda temporada. Parece que todo mundo tem falado bem e espero que o sucesso da série crie uma tendência de seriados mais intensos e sombrios. Quem sabe Luther volta pauleira como foi na primeira temporada?

Critérios de seleção de romances – e talvez de pessoas

É insuportável obras em que os personagens são chatos. Por mais engenhoso que seja o enredo, por melhor que o autor escreva, se os personagens são chatos simplesmente não dá.

Não tenho como ceder meu tempo à intelectualidade de um autor que considera o charme dos personagens um aspecto menor.

Perder meu tempo em acompanhar um trecho da vida de personagens que não são gente? Personagens que fazem coisas totalmente estúpidas previsíveis, gente que não terá transcendência nem felicidade?

Não, sem masoquismo.

Não me identifico com personagens pequenos, fracos, estúpidos, falhos, medíocres. Só leio obras e só me interesso por filmes em que o personagem tem pelo menos um aspecto dele em que é sublime, inspirador, maravilhoso. Gosto de personagens e de gente que tem gana, sangue, fogo. Não precisa ser perfeito, de jeito nenhum. Mas se não tiver algum lugar em que a personagem ou pessoa é profunda ou ampla ou invejável ou admirável, não me fisga.

E digo mais.

Desconfio profundamente de gente que suporta livros e filmes com personagens chinfrins. Acho que gente capaz disso no fundo também se sente chinfrim.

Livros favoritos

Oi Crauber, devido à sua lista, quis juntar os meus favoritos. Não estão em ordem de preferência, é só uma lista de livros queridos.

Você vai ver uma certa superpopulação de Cees Nooteboom e Michael Ondaatje. Considero meus romancistas favoritos, e com ótimos tradutores. Roteiro, estrutura, frases, personagens, tudo é elegante, quase todos passam no teste de pegar o livro, abrir ao acaso, e ver se consigo ler umas duas páginas. O outro teste em que esses dois autores passam com louvor é o de construir personagens com quem você jantaria, ou que você poderia fazer uma viagem longa de carro.

Dia de finados – Cees Nooteboom – Um cinegrafista free-lancer que perdeu o prumo depois que a esposa e o filho morreram num acidente de avião. Alguns ótimos amigos em Berlim, um projeto pessoal de filmar no fim do dia, o invisível, aquilo que ninguém presta atenção. Só trabalha quando precisa de dinheiro. A vida não está ruim, mas falta sentido. Até conhecer uma mulher capaz de mudar tudo e levá-lo até Madrid, onde ele precisará conciliar essa relação entre os vivos e os mortos, na comemoração de finados.

A seguinte história – Cees Nooteboom – um pequeno livro tragicômico, com um protagonista muito cativante. Imagine um professor de grego, branquelo, celibatário, cujo único passatempo era ler, e de repente está envolvido no imbróglio de ser o amante escolhido pela professora de biologia, para tentar fazer ciúme no marido, professor de educação física, que está tendo um caso com a garota mais adorável do colégio.

Bandeiras pálidas – Michael Ondaatje – a guerra civil do Sri Lanka como pano de fundo, mas personagens intensos e instigantes, como o médico que ama a cunhada – sabe que não é correspondido, mas não importa, é daqueles amores platônicos. Num dos dias que ele está de plantão, ela entra numa maca: tinha engolido veneno, algo comum, muita gente simplesmente não aguentava ver tanta morte e tortura diariamente. Ela está lá morrendo, não tem nada que ele possa fazer, e ele sabe que ela sofre dores horríveis, mas não dá o analgésico que faria ela apagar, porque ele quer que ela olhe pra ele, veja que é ele que está lá do lado dela, e não o irmão.

Running in the family – Michael Ondaatje – crônicas familiares fantasiosas e deliciosas, com frases do tipo “quando me perguntam do que minha avó morreu, digo que foi de causas naturais” (ela morreu numa enchente no Sri Lanka).

The Cinnamon Peeler – Michael Ondaatje – poesia que gruda na cabeça, como o cheiro de canela na pele.

Religião para ateus – Alain de Botton. Não sei se Deus existe ou não, mas algo inegável é o papel social das religiões, quantas coisas podemos aprender com elas na relação com as pessoas, na necessidade que os seres humanos têm de colo, de lembretes da importância da reflexão sobre nosso comportamento, nossa necessidade de perdão e redenção.

Como ficar sozinho – Jonathan Franzen. Ele é birdwatcher :o) Dizem que é muito chato como pessoa, e alguns o detestam como autor. Ele ficou famoso porque foi capa da Times, depois da Times passar muitos anos sem dar capa pra nenhum autor. Tenho conhecidos que acham horrível e vergonhoso as coisas que ele conta sobre o que ele já foi capaz de fazer para chamar a atenção, para parecer cool. Não acho vergonhoso, acho ternamente humano.

Num dos capítulos ele conta que pra ele privacidade significa não ter que ouvir sobre a vida dos outros. Quando estamos naquela famosa cena de restaurante, tendo que ouvir a conversa da mesa ao lado, nos imaginamos na companhia do Franzen e do Cyrus Spitama, diplomata de Xerxes. Em Criação, do Gore Vidal, o livro começa com Cyrus dizendo algo como “Sou cego, mas não sou surdo. Devido à incompletude das minhas desgraças, fui obrigado a ouvir durante três horas o discurso de…”. Aliás, esse é outro livro muito legal, mas não chega a figurar entre os mais queridos.

Memórias de Adriano – Marguerite Yourcenar. Adriano, o imperador romano, sucessor de Trajano, predecessor de Marco Aurélio (o das Meditações de Marco Aurélio). Narrado pela perspectiva de Adriano, num tom de voz suave, maduro, sábio, homossexual, profundo. Um imperador, um homem formado pela espada, pelos livros, pela experiência em lidar com soldados, políticos, o povo, alguém que consultava sábios, pitonisas, bruxas, astrólogos e astrônomos, participava de ritos de iniciação.

“Pequena alma terna flutuante
Hóspede e companheira do meu corpo
Vais descer aos lugares pálidos duros nus
Onde deverás renunciar aos jogos de outrora….”

O mundo assombrado pelos demônios – Carl Sagan. Livro antigo, mas que só li neste ano. Essa voz de homem sensato da ciência, que acredita no valor do conhecimento para libertar as pessoas de tantos ledos enganos. Mas não é o cientista arrogante, sabe? É alguém que entende os pontos em que a ciência erra e afasta o público, que acaba caindo vítima de tantos charlatões.

Um antropólogo em Marte – Oliver Sacks. Outro antigão que só li neste ano. É fascinante pensar na amplitude do espectro dos seres humanos, como a normalidade é uma farsa. O capítulo sobre o cirurgião com Tourette é o mais legal, mas todos são muito instigantes.

The heart of God – preces de Rabindranath Tagore. Coisas assim:
The Grasp Of Your Hand

Let me not pray to be sheltered from dangers,
but to be fearless in facing them.

Let me not beg for the stilling of my pain, but
for the heart to conquer it.

Let me not crave in anxious fear to be saved,
but hope for the patience to win my freedom.

Grant me that I may not be a coward, feeling
Your mercy in my success alone; but let me find
the grasp of Your hand in my failure.

Pra quem anda perdidamente apaixonado, a leitura de Fragmentos de um Discurso Amoroso , do Roland Barthes, complementa a loucura.

E pra quem quer pensar na fotografia como arte e com alma, A Câmara Clara, também do Barthes, é outra leitura essencial.

Deuses americanos – Neil Gaiman. É mais do que uma leitura fácil e juvenil: é algo pra dar uma dimensão a mais pra rotina. Depois de ler o livro, você tem certeza de que ele está certo, e que os deuses perambulam por aí. Vida mais divertida.

Quem é você, Alaska – John Green. Esse é legalzinho, mas bem abaixo do patamar do Nooteboom e do Ondaatje. Tem o mérito de valorizar os nerds. Uma história bem montada, leitura doce pra quem tem saudade do colegial. O Teorema Katherine folheei, mas achei bem chato.

Sack, Walt Whitman, Rex Stout (Nero Wolfe).

E a patota da FC: Isaac Asimov, Kim Stanley Robinson, Charles Scheffield, Orson Scott Card.

Se valem artistas plásticos favoritos: Edward Hopper, Munch, Gustav Klimt, Jack Vettriano, Kees van Dongen, Turner, Kamisa Sekka, Egon Schiele, Toulouse-Lautrec.

Não sou grande fã de mangá, e há anos me afastei das HQs. Mas O Lobo Solitário é uma obra incrível. Acho que até não-japoneses devem gostar. Tinindo de honra e inexorabilidade.

Pra quem estiver procurando indicações de leitura

Compartilho a lista divulgada pelo Clauber Reis. Conheci o Kurauber (e eu sou a Kuraudia – diversões com o sotaque do meu avô) há mais de 20 anos porque ele fez colegial com a minha irmã. Um dos ilustríssimos membros da Febem. Perdi contato por anos, surgiu das trevas do Facebook, marcamos encontro em Limeira e quando eles apareceram, nem pareciam 20 anos.

O Crauber está com a meta de ler 150 livros por ano, no ano passado leu 98. Segue aqui a listinha dos que ele destacou, ele disse que a maioria você encontra em PDF:

“(Livros que me influenciam)
A sagrada família – Raymond Aron
A sociedade aberta e seus inimigos – Karl Popper
Limites da Utopia – Isaiah Berlin (tenho pelo menos mais três que são ótimos)
A sua moral – David Hume
O príncipe / Os discursos – Nicolo Maquiavél
Amores líquidos – Zygmunt Bauman
Breviário da decomposição – Emil Cioran
A angústia – Kierkgaard
Simulacro e simulações / A transparência do mal – Jean Baudrillard
Caminhos para a liberdade- Bertrand Russel
Anamnese – Eric Vogelin
Humanismo e terror – Merleau Ponty
A era das revoluções / A origem da revolução industrial – Eric Hobsbawn
Direito e Estado no pensamento de Emanuel Kant – Norberto Bobbio
30 anos esta Noite – Paulo Francis

 

(Livros para relaxar )

100 melhores contos brasileiros
Pequenas Criaturas – Rubens Fonseca
O processo / A metamorfose – Franz Kafk
Ao Ponto – Anthony Bourdain
A mão e a Luva – Machado de Assis
O coração das Trevas – Joseph Conrad
1984 – George Orwel
O perigo do dragão ( poesias) Bruna Lombard (sim ela mesmo , é surpreendente )
Antologia Poética – Vinicius de Moraes
O livro do Desassossego – Fernando pessoa ( só ele da uma sessão completa )
Auto retrato e outras crônicas – Carlos Drumond Andrade
Poemas dos becos de Goiás e estórias mais – Cora Coralina (contém a Oração do milho, uma das obras mais lindas que eu conheço)
Poema Sujo – Ferreira Goulart”

Quem não entende a importância do cabelo certo?

Até simpatizo com o Keanu Reeves, mas achei o fim da picada terem colocado ele como John Constantine, do jeito que ele é, com aquela cara de Neo. Claro que ele loiro teria sido o mapa do inferno virado do avesso, mas não importa, simplesmente era muito errado acharem que ser loiro ou moreno não passava de um detalhe.

Ou quando fizeram Elektra, que eu nem fui ver. Com certeza não era bom, mas além disso, sacrilégio demais ela não ter cabelo preto.

Alasca, do John Green, que demorei pra ler porque meu primeiro contato foi folhear O Teorema Katherine, ao som de duas mocinhas de voz aguda falando atrás de mim o quanto o John Green era incrível. Mas na Bienal folheei o Quem é você, Alasca? e comprei. Havia três capas pra escolher, peguei a com cara de HQ. Já li quase tudo, naquela ordem desrespeitosa, gostei a ponto de jogar no Google e encontrar um cartaz que me preocupou, este, mas não é oficial, é feito por fã, e daí eu me pergunto se o cidadão que fez o cartaz se deu o trabalho de ler o livro. E, caso tenha lido o livro, se tem qualquer capacidade de interpretação de texto. Essa Alasca do cartaz fake é totalmente errada. Ela jamais teria essa cara de patricinha, com cabelo arrumadinho, máscara pra cílios, batom escuro.

alasca-errada

Achei uma capa de livro, factível, que é esta. Já deu pra ver a diferença.

alasca-mais-ou-menos-errada

E também considero bem aceitável ela ter cabelo preto repicado e ser meio descabelada, como nos desenhos de HQ da edição que comprei.

alasca-certa

Devia ser proibido fazer adaptação de HQ pra cinema achando que cor de cabelo é irrelevante. Fazer um loiro virar moreno, ou uma grega de cabelos negros ter cabelo castanho é muito desrespeito pelos fãs, um grande “fodam-se os fãs”.

E em homenagem às mulheres de cabelo preto, Black Hair, do Nick Cave. The Boatman’s Call é um dos meus álbuns favoritos. Letras e melodias dignas, solenes, profundas, nostálgicas. O álbum todo é bom. Mas só ouça a música, não procure os clips.