Category Archives: Livros e quadrinhos

Pra mudar de sintonia

Meio por acaso pensei em duas obras que mudam minha sintonia (pra melhor), e quis compartilhar. E pesquisando sobre uma delas, achei indicação de outra, que só o trailer é de tirar lágrimas. Vou falar delas:

1 – Os novos álbuns de Antonio Meneses

Com obras pra violoncelo de Schumann, Tchaikovsky. Nem sou entendida em música erudita, só descobri este disco porque uma sexta à noite fui levar o Daniel num aniversário, era num boliche. Parei em frente, ele não desceu do carro, perguntei se ele queria que eu entrasse com ele, ele olhou pra baixo e falou “seria gracioso da sua parte se você entrasse comigo”. Eu queria muito entrar. Ele tem quase 14, mas pra mim ainda é o garoto pequeno de 4 anos, que a gente levava em festas e quando ele via aquele monte de gente, apertava minha mão com força.

Mas a gente tem que incentivar autonomia, não? Então eu fiz de conta que sou durona e falei “vamos fazer assim. Você entra sozinho, e quando encontrar seus amigos, me manda uma mensagem. Eu estarei esperando aqui fora, quando receber sua mensagem, vou embora” (é preciso dizer que o boliche era na PQP, perto da Raposo, qualquer um ficaria com medo de ser o local errado, de ficar sozinho lá 🙂 ). Ele entrou. A rádio estava na Cultura FM e tocava uma das músicas lindas desse álbum, que felizmente depois o locutor contou o que eu estava ouvindo. Fiquei esperando o Daniel me mandar mensagem enquanto me escorriam as lágrimas da saudade da mão pequena do Daniel, da dor de ter que mandar ele entrar sozinho, a passagem inexorável do tempo.

E eu teria ficado esperando pra sempre, porque o cretino não me mandou mensagem. Fiquei 10 minutos esperando, daí mandei msg, e depois de uns minutos ele respondeu. Eu entendo. É mico encontrar os amigos e ter que parar uns segundos pra mandar mensagem pra madrasta dizendo “pode ir”.

O álbum é lindo. Não tem como ouvir e não ser transportado pra um mundo muito mais distinto.

Por causa desse disco que ouvi na Cultura FM, encontrei este outro, lançado também neste ano, parceria com André Mehmari. Outra lindeza sem fim:

 

2 – A Vida dos Elfos, de Muriel Barbery

O livro foi lançado no final de 2015, vi por acaso numa livraria no final do ano passado, ainda não tinha certeza se ia comprar mas o Cris decidiu comprar pra mim e sei que hoje é um dos livros que eu amo.

É uma obra carregada de magia. Posso pegá-la a qualquer momento, ler qualquer parágrafo, e ela me remete a uma esfera com mais arte, mais beleza, mais encantamento. Sem nenhum pudor de pensar nos elfos do Tolkien, mesmo no Orlando Bloom (que eu descobri que é um dos poucos atores que o Daniel guarda o nome, por causa do Legolas e do Will Turner. E que é capricorniano 1 dia mais novo do que eu).

Mas voltando, a Vida dos Elfos te transporta. Vou transcrever um trecho:

“(…) Não houve hesitação a respeito de quem deveria ir avisar à menina, o que muito explica o homem que aquele pai era. André, pois era esse seu nome, foi ao quarto de Maria e a encontrou mais acordada que um batalhão de andorinhas. Balançou a cabeça e se sentou ao seu lado com aquela maneira indescritível que era o talento desse camponês pobre mas com estofo de rei — pelo que se diz que não havia acaso no fato de a menina ter aterrissado ali, fazia pouco mais de doze anos, por mais rústica que fosse aquela estranha granja. Por alguns segundos Maria não se mexeu nem pareceu respirar. Depois teve um soluço miserável  e, como fazem todas as meninas, mesmo as que falam com javalis fantásticos e cavalos de mercúrio, chorou com soluços desesperados, desses que aos doze anos se gastam sem contar, enquanto aos quarenta é tão difícil que eles cheguem.”

Li o livro no ano passado e depois o deixei num canto, porque ele termina de forma abrupta, é a primeira parte de uma continuação que ainda não foi lançada e não se sabe quando será, tende piedade de nós, oh Muriel.

 

3 – The Red Turtle

Porque eu estava pesquisando quando vai sair a continuação de A Vida dos Elfos, encontrei um site que parece bem interessante.  Vale apena ler a resenha de Isabelle Simões sobre o livro: http://deliriumnerd.com/2017/09/05/a-vida-dos-elfos-muriel-barbery/

Dei uma olhada, e vi outro post interessante, sobre uma animação minimalista e sem diálogos, que é a mistura da Holanda com a Inglaterra e o Japão. Este é o tal que falei que só o trailer me tirou lágrimas. Talvez porque eu tenha passado os últimos dias lendo demais informações sobre lugares onde você pode fazer snorkel e nadar ao lado de tartarugas, esses animais fantásticos.

E talvez também por lembrar da história do amigo Robson Bento, uma conversa em que eu tentava convencê-lo a não trocar o trabalho de fotógrafo de eventos por fotografia de natureza, que não dá dinheiro. Eu já tinha contado minha história com o gaturamo-rei. Então ele contou de um passeio de caiaque numa manhã na Flórida, sobre estar num lugar longe da praia e de repente ver algo grande, que ele não sabia o que era, e quando chegou mais perto, meio com medo, viu que era uma tartaruga, enorme, linda. Ele olhou pra ela, ela o encarou, era um dia nublado mas nesse momento abriu um raio de sol que fez os olhos da tartaruga brilharem… e ele chorou muito.  Perdi o contato com ele, acho que ele não trabalha mais com fotografia de natureza, mas tenho como presente essa história, e a ideia de que as fotografias de um passeio são o registro do que as pessoas viram. Parece bobo? Pra alguém como eu faz muito sentido, se tornou um dos pilares pra explicar por que eu reclamo tanto do estilo de passeio que só quer registrar lifers.

A Tartaruga Vermelha tem pra comprar no Itunes por uns US$ 15, e vi algo que nunca tinha experimentado, o serviço de compras do Youtube. Sai por R$ 24, ou R$ 29 o HD. Vou comprar hoje ou nos próximos dias e conto se gostei.

https://www.theguardian.com/film/2017/may/28/the-red-turtle-review-studio-ghibli-masterpiece

Estou chorando com as suas músicas

Entre os vários temas em que eu sou lorpa, música é uma delas. Não só não tenho a menor noção de ritmo ou afinação, como a minha voz é horrível. É horrível ouvir minha voz gravada, reclamar,  e as pessoas me falarem que minha voz é assim mesmo. Meu BFF diz que tenho voz de dubladora, fala isso como elogio. Eu acho infantilizada, contida, aguda.

Se eu levasse o assunto um pouco mais a sério, deveria ver se uma fono me ajudaria a ter uma voz de mais respeito.

Eu sou uma lorpa nas minhas aptidões musicais. Mas sempre acho que sou capaz de reconhecer a beleza em qualquer lugar, e suas músicas me deixaram com os olhos molhados.

É verdade que eu sou uma chorona manteiga derretida, capaz de derrubar umas lágrimas só de ver um casal em rodoviária se abraçando apertado antes do ônibus partir, ou ver um moço com um ramalhete de flores ansioso esperando um ônibus chegar.  Choro fácil.

Mas queria te falar que sua voz é bonita. Não importa cantar fora do tempo, ter sotaque brasileiro, desafinar, ser karaokê,  nada disso importa. Duas referências literárias:

  • a ideia de como você é jovem, é a voz de alguém muito jovem, e me fez pensar no final de A Seguinte História, do Cees Nooteboom, um dos meus escritores favoritos. Acho que não posso falar mais sobre esse trecho pra não dar spoilers. É um dos meus livros favoritos.
  • me fez pensar nos Adem, o povo do Tempi, dos livros do Patrick Rothfuss, as crônicas do matador de rei. Um dos personagens faz parte de um povo que fala muito pouco, vivem numa terra árida onde não é possível plantar ou criar nada. Eles sobrevivem do trabalho deles como mercenários. Vivem com muito rigor treinando e treinando a arte do combate, depois vão para outras terras oferecerem seus serviços e uma grande parte do que ganham é enviado para essa terra árida. Eles falam bem pouco, e usam gestos de mãos para completar o sentido das palavras, algo que eu queria fazer também. E consideram cantar algo obsceno. O protagonista entende, uma hora, que esse é um povo pra quem a voz tem um grande valor, que falam o mínimo, e que eles cantam só entre família, pessoas muito íntimas. A ideia de cantar pra estranhos é obscena, e eu senti uma fração disso.

Foi muito estranho ouvir você cantar. Era como se eu não tivesse o direito de estar ouvindo aquilo. Gostei de ouvir sua voz e, pra responder sua pergunta, você tem uma boa pronúncia. É claro que tem sotaque brasileiro, mas isso não incomoda as pessoas. Dizem que os franceses são o único povo que tem frescura com isso, todos os outros reconhecem a boa vontade de você estar se esforçando pra falar uma língua que não é a sua.

As pessoas cantam na rua, no Youtube, meu irmão canta em videokê e compartilha músicas incrivelmente desafinadas no WhatsApp dos primos, sem nenhum pudor.

Mas as suas. Parecia que eu não tinha o direito de ouvir.

Grande viagem, eu sei.

Mas sabe como sou a favor de mundo menos de papelão, pessoas menos de papelão, e achei que tinha a obrigação de tentar expressar esse momento estranho que senti agora há pouco.

Já começou a traçar seu plano sobre como você vai ser um escritor de sucesso? Ou no mínimo retomou as histórias paradas?

“Manterei sempre” e recursos fofos contra o desânimo

Ainda não é o post de retrospectiva ou balanço, mas já tenho pensado no assunto. Parece que 2015 não foi um ano tão forte em questões trágicas pessoais (pra maioria dos meus conhecidos) como foi 2014, mas também foi um ano intenso.

Pro birdwatching, então, ainda me sinto besta, porque lembro claramente onde estávamos em maio: conversando sobre a possibilidade de processar a Fundação Florestal e o ICMBio por inconstitucionalidade, pelas proibições de fotografia, e sabendo que processar significa pelo menos dois anos de luta difícil.

E agora estamos aqui: sabendo que existe um grupo de trabalho para desenvolver o birdwatching na cidade e no Estado de São Paulo. Pipocando iniciativas diversas, inclusive de pessoas com dinheiro e poder. E a promessa da Fundação Florestal de que até o final de dezembro teremos a carta de alforria, o primeiro passo na direção do uso público dos parques.

É tudo muito inacreditável. Se eu de agora tivesse voltado no tempo pra visitar o meu eu de maio, pra falar “relaxa, tudo vai mudar muito, confie em mim”, provavelmente eu não acreditaria e me xingaria.

Conheci muitas pessoas boas e inspiradoras nesse processo, mas também o oposto — pessoas que me trouxeram raiva, frustração, desânimo. Sentimentos ruins fodendo e poluindo minha atividade favorita. Ganhei do Cris uma lente nova, a incrível Nikkor 300 f4 VR há 2 semanas e nem consegui sair pra estrear. É verdade que choveu bastante, que fiquei resfriada como não ficava há anos, mas em outros tempos nada disso me impediria de sair. Tem algo errado aqui dentro.

Hoje ganhei um presente do meu semideus das frivolidades internéticas. Um vídeo de qualidade ruim, mas com altíssimo grau de fofoleza. Os bichos são parentes desta da abertura do post (um Blue Waxbill, Uraeginthus angolensis, fotografada na África do Sul. A ave do vídeo é o Blue-capped Cordon-bleu – Uraeginthus cyanocephalus), vale muito a pena ver:

Um casal de passarinhos dançando, como se fosse um número de sapateado, dança lenta. Já dei play mais de cinco vezes, e na primeira até escorreu uma lágrima. Pra me lembrar que o birdwatching é isso, é ver fofolezas como estas, é garantir a sobrevivência de bichinhos incríveis como estes. Não a indiferença de quem acha que birdwatching é só likes e lifers, não as discussões cornas com gente que não lê e já sai criticando, gente capaz de caluniar na cara dura, ou pra quem a natureza não tem prioridade.

Ando cansada.

Sentindo falta do meu tempo pessoal, dos meus projetos sem prazo. Ao mesmo tempo, é só aparecer alguém dizendo que minha nóia em ficar buscando formas de valorizar a natureza ferem liberdades artísticas da fotografia de ninfetas que eu não me seguro e estou lá, fazendo discurso comprido sobre o quanto a fotografia de natureza está mesmo num patamar diferente, sobre o quanto precisamos tanto de divulgação e do envolvimento das pessoas para salvar a natureza brasileira.

Textos desse tipo comem as horas que eu deveria estar pesquisando minhas férias, ou terminando meu livro, ou desenhando, ou testando a Silhouette Cameo. Mas era a única coisa a fazer, e lembrei de uma frase bonita do livro da Barbery, um bordão usado pelos elfos.

Manterei sempre.

Mantendré siempre.

Mais um dos casos em que a ficção lança suas teias sobre a realidade. Pensar na perseverança e coragem dos elfos na luta pela natureza alimenta as minhas forças em não chutar o balde. Eu me enfiei aqui porque quis, não tem nada que me obrigue a lidar com essas pessoas. Poderia estar no mundo maravilhoso das ilustrações e criações pop, silk screen, pintura em vidro. Mas se não eu, quem? E se não agora, quando?

Manterei sempre.

Obrigada, Muriel. Obrigada, Wagner. E obrigada aos amigos que continuam acompanhando e apoiando sempre. Não vou desistir. só estou cansada, sou só uma misantropa saudosa do meu tempo dedicado a temas inócuos e artísticos, meio ressentida do contato com as pessoas. Mas não vou desistir. Manterei.

Silêncio, solidão e magia

“Amanhã, aqueles cujas ânsias o inimigo acumula despertarão num mundo moderno, isto é velho e desencantado. Mas temos esperanças em tempos de aliança e perseguiremos a ilusão dos poetas antigos.” Muriel Barbery, A Vida dos Elfos

A magia acontece o tempo todo em qualquer lugar. Na maior parte do tempo, pra maioria das pessoas, simplesmente somos tapados demais para vê-la, mas ela está lá pra qualquer um capaz de mudar levemente a sintonia e entender como a densidade das coisas depende principalmente de quem olha.

Pra mim uma das grandes manifestações da magia são as mensagens. De anjos, talvez às vezes demônios ou outros mensageiros. Não precisamos de aparições em estradas empoeiradas, basta uma pequena mudança no nosso grau de percepção e qualquer filme, livro, música ou frases ouvidas ao acaso são nossas mensagens.

Uns dias atrás fomos a uma livraria procurar um presente, e foi o Cris que encontrou o livro novo da Muriel Babery, autora de A Elegância do Ouriço, que me rendeu posts diversos. Ele achou que eu ia gostar e comprou pra mim. A Vida dos Elfos.

Elfos que definham, sem saber bem o porquê. Se tem relação com a destruição que os humanos têm causado na natureza, se é porque antes viviam com os humanos e depois se separaram, e toda separação enfraquece. Elfos que se apaixonam pelos humanos. E duas meninas, que são a ponte entre os dois mundos, e a última esperança dos elfos e dos humanos.

Uma narrativa numa linguagem rebuscada, arcaica, mas não cansativa. Capaz de despertar uma melancolia por vivermos tão desconectados da natureza. Quase um sentimento de injustiça, dor, porque nunca vivemos essa relação de amor com a terra que o velho mundo viveu. Eu sei, eu sei que houve uma destruição imensa, que antes de 1.800 a maioria das florestas da Inglaterra já havia sido devastada. Mas também há uma história de amor genuíno, laços fortes com a terra de onde se tira seu sustento, a terra que traz um trabalho árduo mas ao mesmo tempo é a sua terra, seu aconchego, que te acolhe e é justa na maior parte do tempo. Uma relação amorosa que me parece não ter sido possível no Brasil, talvez porque nossa ocupação agrária já aconteceu num período em que a maioria das pessoas não queria uma vida rural , era visto como um trabalho temporário para a vida na cidade. Ou talvez porque a forma como o trabalho era estruturado não permitia que se desenvolvesse essa relação com a terra, fazia você se sentir principalmente um peão.

Meus avós chegaram no Brasil na década de 30 e trabalharam na lavoura de algodão e café. Depois meu avô foi caminhoneiro, e depois teve uma pequena loja de materiais de construção em sociedade com dois irmãos. E se aposentou, vendeu sua parte na sociedade, comprou uma chácara pequena onde plantou café, mandioca, manga, goiaba, milho. Gostava de ir pra chácara, cuidar das plantas, colher, carpir (ele tinha mais de 60 anos e conseguia carpir uma manhã toda. A gente tentava ajudar e depois de 20 minutos estávamos com bolhas nas mãos, cansados). As tarefas não tinham nenhum objetivo econômico, eram só o hobby dele. Minha avó adorava ficar sentada numa cadeira ao ar livre, no fim da tarde, vendo as aves cruzando o céu, em direção ao lugar onde passariam a noite.

Duas pessoas tão amadas, que carregavam um pouco dessa bondade e crueza dos personagens do livro da Barbery, mas que já não moravam em meio à natureza.

Não tenho fantasias sobre o que é morar em meio à natureza. Entendo plenamente o que é não ter internet rápida, mercado e farmárcia por perto, tudo ser longe, ter que manter uma casa, lidar com goteiras, insetos. Eu não sei se prestaria a viver num lugar isolado. Mas essa consciência não diminui a melancolia, a reverência a essa Europa que nunca aconteceu no Brasil, o respeito às pessoas que vivem da terra, conectadas com a terra, em um profundo respeito pela Terra.

Essa consciência urbana não diminui a sensação de que a ficção da Barbery tem tantos laços com a realidade quanto qualquer história pode ter, entremeada, nascida de inspirações e visões, influenciando a realidade.

O livro tem uma segunda parte, ainda não lançada nem na França. Terminei de ler agora há pouco, sozinha no apartamento, o ar abafado que precede a chuva e agora o ar fresco que vem de fora, ainda o barulho da água.

Faz tempo que me sinto abrindo espaço na minha vida pra alguma coisa nova que ainda não sei o que é, me desconectando emocionalmente de pessoas e situações, deixando crescer um vazio que não é o vazio de angústia ou solidão, mas o vazio limpo e confortável de uma sala ampla, limpa, cheia de luz. Quero acreditar que este livro é uma peça desse novo cenário.

Mais alguns comentários sobre o Franzen

(post de 2013, de um antigo blog)

“Como ficar sozinho – ensaios”, que carrego na bolsa quando acho que terei um tempo sem fazer nada E que posso ler aos pedaços, refletindo sobre as ideias.

Quando dizem que um autor é muito chato, e quando você lê descobre que gostou, isso provavelmente te coloca na categoria de pessoas muito chatas, imagino. Pelo menos pelo crivo de quem considera o autor chato.

Gosto do Franzen porque ele não posa de cool, não usa frases hiperbólicas desmedidas. Fala de assuntos íntimos, pessoais e importantes, é birdwatcher!, se incomoda com detalhezinhos bobos, que pra maioria das pessoas seria idiotice falar sobre isso, mas é o tipo de detalhezinho bobo que importa pra mim, que diz que a pessoa segue o deus das pequenas coisas.

Já havia transcrito alguns trechos do livro. Em que ele fala sobre o momento que se viu obrigado a reconhecer que era um birdwatcher. Sobre a relação com a nicotina.

Nesses dias relia o texto de apresentação, o discurso de abertura no Kenyon College, maio/2011, em que ele fala da leviandade do “curtir”, sobre a persona nas redes sociais, nossa necessidade de sermos curtíveis. É o mesmo texto que ele fala do birdwatching e da paixão. Muito bom.

E também gosto do texto seguinte, em que ele reclama da proliferação do “Love you” falados no celular, pós 11 de setembro, como ele detesta ouvir isso, a vontade que dá de ir morar na China toda vez que ouve um “Amo você”, e que “Fuck you, asshole” é menos invasivo do que a declaração de amor, falada em voz alta, em tom casual. Eu também concordo com essa.

“Privacidade, para mim, não significa manter minha vida pessoal longe dos outros. Significa me manter longe da vida pessoal dos outros.”

(ah, eu também me sinto assim… quantas vezes sou obrigada a ouvir coisas que adoraria não ter ouvido, e penso em Cyrus Spitama: “Sou cego, mas não sou surdo. Devido à incompletude das minhas desgraças, fui obrigado a ouvir durante 4 horas o enfadonho discurso…”)

“Para mim era difícil prever até onde chegaria essa tendência: Nova York queria verdadeiramente se tornar uma cidade de viciados em celulares deslizando pelas calçadas sob desagradáveis nuvenzinhas de vida privada, ou de alguma maneira iria prevalecer a noção de que deveria haver um pouco de autocontrole em público?

(…) Nem é preciso dizer, não houve debate algum. O celular não era uma moda (…) e o celular então estava livre para continuar fazendo estragos sem medo de sofrer mais críticas, pois elas seriam antiquadas e nada cool. Aê, tio.”

Estou lendo saltado, então não achei o trecho exato para descrever, mas há um outro pedaço, talvez não nesse mesmo texto, em que ele opõe os zumbis que caminham pelas ruas teclando mensagens, combinando festas nas calçadas, com as pessoas que têm discussões amorosas aos berros pelo celular, de peito aberto, e que isso é o que o enchia de esperança.

E eu não vejo oposição de opiniões. Sou no mínimo tão chata quanto o Franzen, e evito ao máximo fazer ligações enquanto estou num táxi. Prefiro passar mais dias sem falar com minha família, mas ter um momento em que estarei sozinha na minha casa, me sentindo tranquila e sem pressa para conversar com eles, do que papear no trajeto pra algum lugar e aproveitar o tempo. Também não gosto de ouvir as conversas dos outros. Também acho estranho “Amo você” ser metralhado pra lá e pra cá. Mas concordo que meu coração se encheria de ternura e esperança pelo mundo ao presenciar discussões amorosas ferozes pelo celular.

Não gosto de falar pelo celular ou telefone. Pra mim é por escrito ou ao vivo. Mas lembrei de uma discussão amorosa que já tive pelo celular, eu num ônibus intermunicipal, prisioneira daquela discussão, com a cabeça quase entre os joelhos e vociferando em voz baixa, a mão em concha por cima da boca, tentando impedir de todas as formas que o resto do ônibus ouvisse, mas brava demais pra desligar e dizer “conversamos depois”.

Acho que o Franzen aprovaria.

 

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Eu e o Jonathan Franzen sabemos como ficar sozinhos

(post de 2013, de um antigo blog)

Já falei disso em outros posts: sou uma pessoa ignorante, inculta, e bastante alheia a novidades e notícias. No que dependesse de mim, eu nunca ficaria sabendo que Jonathan Franzen é um escritor badalado, odiado, e birdwatcher. Mas tenho amigos normais, e as pessoas me contam coisas, por isso soube que ele veio pra Flip, li o post da Ruiva no Rio, soube como ele foi chato e decepcionante, e que o melhor momento foi quando a entrevistadora puxou o assunto sobre aves, quando ele falou com entusiasmo.

Bom, me vi na pele do Franzen. Quero dizer, eu me considero uma pessoa chata e decepcionante se não há um assunto que me anime. Dizer que alguém é esquisito, arrogante, calado só torna a pessoa mais interessante aos meus olhos.

 

Na semana passada topei com esse livro “Como ficar sozinho – Jonathan Franzen”, e imagine se não me chamou a atenção. Não que eu precise de ajuda pra saber como ficar sozinha, tenho me virado bem nesse quesito, obrigada, mas claro que me interessaria a visão de outros solitários inveterados como eu.

Estou lendo e gostando. Vejam:

“… É uma longa história, mas, basicamente apaixonei-me pelos pássaros (sic. Deveria ser ‘apaixonei-me pelas aves’). Isso não ocorreu sem uma resistência considerável, pois não há nada menos cool do que ser observador de pássaros, e qualquer indício que revela uma paixão verdadeira não é, por definição, cool. Mas, aos poucos, mesmo relutando, fomentei essa paixão e, se metade da paixão é obsessão, a outra metade é amor.

(…)

meu amor pelos pássaros se tornou um portal para uma parte importante e menos autocentrada em mim, que eu nem sabia existir. Em vez de continuar viajando por aí como cidadão do mundo, curtindo algumas coisas, descurtindo outras e guardando envolvimentos para o futuro, fui obrigado a confrontar uma parte de mim que eu tinha de aceitar na íntegra ou rejeitar absolutamente. É isso que o amor faz com uma pessoa.

(…)

Quando ficamos trancados em nossos quartos, bufando, caçoando ou nos sentido indiferentes, como fiz durante tantos anos, o mundo e seus problemas parecem desafios impossíveis. Mas quando saímos às ruas e temos relacionamentos reais com seres reais, ou mesmo animais reais, há o perigo bastante real de amarmos alguns deles. E quem saberá dizer que rumo a vida tomará?” [2011]

E este trecho aqui também é bom:

“Não há uma razão simples e universal que explique por que as pessoas fumam, mas de uma coisa eu tenho certeza: elas não fumam porque são escravas da nicotina. Meu palpite a respeito da minha própria atração pelo cigarro é que pertenço àquela classe de pessoas cujas vidas são insuficientemente estruturadas (…) Adotamos uma toxina tão letal (…) porque ainda não encontramos prazeres ou rotinas que possam substituir a reconfortante sequência de necessidade e gratificação, que proporciona um sentimento de estrutura, e que só o cigarro pode oferecer.” [1996]

Talvez o birdwatching tenha ajudado ele a parar de fumar, ainda que eu conheça birdwatchers fumantes, capazes de fumar e segurar a câmera ao mesmo tempo.

Franzen também escreve sobre a babaquice do “curtir”, a sensação de errado no caso da Monica Lewinsky (ser errado alardear tanto o fato de políticos fazerem sexo), o incômodo com o fato das pessoas não se importarem em falar no celular em lugares públicos, invadindo o público com sua privacidade, a visão das pessoas nas ruas como zumbis olhando pros seus celulares e teclando o tempo todo. Um artigo que foi publicado pelo menos em parte pelo… Estadão, acho, falando sobre a relação com o pai. Um outro artigo sobre sua visita à China, descrições dos passeios de birdwatching na China.

É isso que o torna chato?

Se for isso, ele será um dos meus chatos favoritos. Alguém que não precisa fazer pose de cool, que não tem medo de criticar hábitos que as outras pessoas parecem aceitar como fatos, ou de gastar páginas falando sobre aves e seu amor pelas aves. Algo que li dele, talvez esse no Estadão, ele conta como tinha vergonha de levantar o binóculo quando saía pra passarinhar nas ruas de Nova York.

Honestidade, entrega, franqueza, humildade, carinho pelo mundo. É o que espero das pessoas, especialmente as inteligentes.

Leio esse livro do Franzen não com tietagem, não fico pensando que preciso saber tudo sobre ele, ler tudo que ele escreveu. Mas agora ele entra na galeria de pessoas que valem a pena, só por ter um livro em que fala do seu amor pelas aves e mostrar uma persona de alguém que não precisa impressionar ninguém.

 

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Troca de figurinhas

Olha só, nunca vai ter que se desculpar achando que escreveu demais. Nunca pra mim. Gostei de tudo que me contou e achei engraçado você não estar habituado com a ideia de conversar assim com alguém que você nunca viu a não ser por uns textos, porque eu sou velha, vi o começo do uol no Brasil, ficava ansiosa pra aula da faculdade terminar logo e poder ir pro laboratório de computadores procurar meus conhecidos nos chats. Faz 20 anos que estou acostumada a conversar intensamente com pessoas que nem sei qual é a cara, e não preciso. Pra mim o jeito que alguém escreve revela o mais importante, e às vezes em que conheci ao vivo e achei que a imagem da pessoa não combinava, pensava “essa é uma pessoa com umas tranqueiras e entulhos pra tirar de cima, pra poder mostrar quem ela é de fato, quem eu sei que ela é”.

Seu email merece ser respondido com carinho, coisa que agora estou pifada demais pra conseguir. Mas, não queria ir dormir sem compartilhar três nomes, que não sei se você conhece ou não: Cees Nooteboom, Michael Ondaatje e Jonathan Franzen. Os dois primeiros são meus autores de literatura favoritos. E o Franzen não é um autor favorito, mas tem várias coisas boas. Franzen provavelmente é um misantropo, Ondaatje e Nooteboom têm vários personagens muito bons, não saberia dizer se exatamente misantropos, mas pessoas com entendimento sobre a vida. O tipo de gente com quem você jantaria ou poderia fazer viagens longas de carro.

Vou colar uns posts do meu outro blog, que falam do Franzen. Depois escrevo mais. Abraços do clube.

ps: não conheço o livro que você perguntou, vou olhar, e também acho que o Molière não vem ao caso.

 

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