Category Archives: Japão

Problemas com a verdade e a japonicidade

“Ou você é editor, ou você tem amigos”.

A frase completa era “vocês estão no segundo ano do curso, então já devem ter percebido que ou você é editor, ou você tem amigos” — frase da Maria Otília, uma das minhas professoras do curso de Editoração.

Tenho poucos amigos.

—- x —- x

L, é pra você, vou responder aqui.

Acho que é um problema de orgulho. Pode ser um pouco de personalidade, pode ter uma carga étnica. Umas semanas atrás ouvi uma história sobre uma garota, descendente de japoneses, que pediu demissão. Ela era uma boa profissional, mas estava insatisfeita com a demora em ser promovida. Arrumou emprego em outro lugar, e na entrevista de desligamento falou dos descontentamentos. Na semana seguinte, a estagiária da área foi promovida.

Eu e o Cris ficamos pensando que se japonesa tivesse ido falar com os chefes antes de ir procurar outro emprego, talvez ela tivesse conseguido a promoção.

Mas talvez ela seja como eu, e talvez seja a mesma coisa pra muitos orientais. Já viu uns posts em que eu falo “quem quer, quer, quem não quer, foda-se?”. Talvez ela tenha pensado “se meus chefes não conseguem enxergar meu valor, não sou eu que vou falar pra eles, eu não vou pedir nada”.

Eu também nunca pedi aumento de salário na vida. E nunca pedi amizade, carinho ou atenção.

É um defeito. Não consigo me ver pedindo, me sujeitando, aguentando.  Amor carinho e atenção não se pede. Em situações de conflito, vou bater de frente e falar o que está errado. E se não posso, vou embora. E se não posso enfrentar, porque o oponente é truculento demais, grande demais, violento demais, ou vou embora ou bugo. Como nos ataques do Ark em que não há diálogo, não tem argumentação, é só você implorando — e eu não me vejo implorando, nem tendo que ouvir besteira.

Pessoas que são capazes de lidar com essas situações, como o Daniel ou você, estão mais habilitadas pra lidar com a vida.

Wabi Sabi – impermanência, imperfeição

No Museu Asiático de São Francisco encontrei dois livros muito bons. Wabi Sabi – The Japanese Art of Impermanence, e um livro do reverenciadíssimo Kamisa Sekka (considerado o pai do moderno design japonês), com imagens que eu nunca tinha visto. A Amazon tem os dois, links no final do post.

Eu já gostava muito do Kamisaka Sekka e da escola Rinpa, mas ainda não conhecia o termo Wabi Sabi. Quando comecei a ler e fazer pesquisas de imagens, caramba, nem sei como explicar. Talvez só em termos espirituais. Como se minha alma tivesse encontrado um poço de água fresca e límpida, e eu não entendia que minha irritação com várias representações estéticas, especialmente do que o mundo passarinheiro considera uma foto bonita, era só meu lado Wabi Sabi achando que estava tudo errado.

Conhecer o Wabi Sabi e jogar a palavra no Pinterest, e ver imagens como estas.

wabi-sabi-pinterest-01

O moderno design escandinavo tem semelhanças, que é algo que eu também já admirava, mas achando que era num ponto além do meu, não era fácil se imaginar morando todos os dias num lugar como aquele.

O conceito do que é Wabi Sabi me absorveu totalmente, faz meu coração vibrar daquele jeito quando você encontra algo que te soa como tão verdadeiro, tão límpido, tão capaz de matar sua sede.

Há bastante material na internet, e o livro do Andrew Juniper tem pra Kindle por US$ 9,90. Além de falar do Wabi Sabi, ele fala sobre história do Japão e dos conceitos estéticos do Wabi Sabi aplicados em diversas artes.

Numa visão rápida:

wabi-sabi-02

wabi-sabi-03 wabi-sabi-04

wabi-sabi-05 wabi-sabi-06 wabi-sabi-07

wabi-sabi-08

wabi-sabi-09

wabi-sabi-10

https://www.amazon.com/Wabi-Sabi-Japanese-Art-Impermanence-ebook/dp/B007UPDDWU/ref=sr_1_1?s=digital-text&ie=UTF8&qid=1477674052&sr=1-1&keywords=andrew+juniper

https://www.amazon.com/Kamisaka-Sekka-Modern-Japanese-Design/dp/3791347535/ref=sr_1_1?s=books&ie=UTF8&qid=1477674494&sr=1-1&keywords=kamisaka+sekka

A derrota dos misantropos

Atualmente meu blog favorito é do Eric Barker, o Barking up the wrong tree. Eric escreve textos curtos, cheios de referências e citações, em geral focado num livro que você pode ler se quiser se aprofundar no tema, e no final do post faz resumo dos principais pontos. Admiro o estilo – ele realmente quer ser lido, diferente de mim, que sou capaz de escrever textos monstruosos, ou seja, me importa muito mais o que eu quero escrever do que tentar conseguir mais gente que me leia. Parece que Eric tem uma missão. Ele tem escrito muito sobre como ser feliz, como viver melhor, como viver mais

Um dos últimos posts dele fala do livro “The Village Effect How Face-to-Face Contact Can Make Us Healthier and Happier”, de Susan Pinker. Susan mostra vários locais em que as pessoas são mais longevas, de ultrapassar os 80, 90, 100 anos, ou comunidades em que as pessoas têm uma média de vida pelo menos uns 5 anos maior do que a média regional, mesmo com condições ambientais adversas – e relaciona os números com a vida em comunidade.

Tem o livro pra Kindle, mas não preciso ler, eu sei que Susan está certa, que Eric está certo, e que nós misantropos estamos errados.

Quer dizer, não é tanto uma questão de certo ou errado, a misantropia é uma ideologia, mas eu sei que eles estão certos em dizer que se você tem mais contatos face to face com as pessoas de quem você gosta, se você vive numa comunidade e interage com frequência com as pessoas, principalmente depois que você chega na terceira idade, você vive mais feliz e por mais anos.

Não me sinto nada hipócrita em dizer que não sou contra a vida em comunidade. Na prática pode parecer que a gente é, mas não é isso: a gente não costuma ter muitas interações sociais porque em geral nos sentimos desconectados e até exasperados nessas relações. Mas não é uma questão de odiar pessoas ou ser contra pessoas: é apenas o simples fato de que ficar sozinho em geral é mais legal, produtivo e gostoso do que diversas interações sociais em que a gente se sente desperdiçando nosso precioso tempo na bolota azul.

Mas eu gostaria de ter mais interações sociais. Só preciso encontrar as pessoas certas, os grupos certos, os lugares certos.

——- x ——–

E daí vem a pergunta: o que é o grupo certo, as pessoas certas?

Quando você é criança e adolescente, e mesmo na juventude, uma boa parte do cimento das grandes amizades é formado pela inércia e falta de opção. As pessoas com quem você tem que conviver na escola, ou no bairro, ou em alguma aula. E de repente você se vê passando seu tempo com elas. Assistindo TV, ouvindo música, andando pela cidade, indo ao shopping juntos, ouvindo alguém do grupo tocar violão, eventualmente viajando juntos, e de repente essas pessoas se tornam as criaturas mais queridas, com quem você precisa conversar várias vezes durante a semana, e cuja ausência te deixa aquele vazio.

Muita gente diz que é bem difícil fazer novas amizades depois de adulto, e tenho certeza que tem a ver com isso. Depois de adultos, somos donos do e organizamos nosso tempo de uma forma que tem pouco espaço pra fazer nada, pra ter tempo pra ficar na companhia de outras pessoas, principalmente de recém-conhecidos, fazendo nada. E estamos sempre julgando e analisando e decidindo quem vale o nosso tempo ou não, quem é cool, quem é inteligente, quem é legal. Fica quase impossível crescer aquele carinho e amor fraternal (ou às vezes nem tão fraternal) que só surge depois de um bom tempo passado ao lado de uma pessoa, sem que haja tarefas ou objetivos, sem precisar falar coisas inteligentes ou espirituosas, sem precisar impressionar. A simples constatação de que vocês podem passar um tempo juntos, que isso é bom, e ninguém está sendo avaliado. Que vocês poderão voltar a se ver, em breve, que ninguém precisa provar seu valor em 3 minutos de conversa.

Claro que estou sendo cruel, não é só isso. Depois de adulto, também há o grande problema de ser tão difícil conseguir um tempo livre, ainda mais pra se investir em algo tão duvidoso quanto a companhia de um recém-conhecido. Nem preciso falar sobre a falta de tempo das pessoas.

E aqui vem o salto do gato, algo que tem flutuado pela minha cabeça faz um tempo. Ando com um grau razoável de certeza de que não é uma questão de procurar as pessoas certas, como se procura uma agulha num palheiro. Acho que é mais uma questão de procurar situações em que você possa conhecer as pessoas desse jeito manso, sem ter que provar nada pra ninguém, e com isso devem aumentar muito suas chances de conhecer de verdade gente de verdade.

 

E onde acontecem essas situações?

Há várias formas. A literatura e os filmes têm enredos em que as pessoas são obrigadas a passarem por situações de grande perigo, dificuldade e tensão e logo descobrem como é o outro ou se apaixonam. Imagino que seja verdade. Mas pra quem não tem a sorte de ser frequentemente raptado, bombardeado, alvo de ataques e conspirações, acho que as situações mais proveitosas são de vilas e aldeias. Reais ou figuradas. Locais com gente simples e honesta, fazendo trabalhos preferencialmente braçais, manuais, em que todo mundo sabe porque está lá, e impera um clima de camaradagem e bondade.

Situações em que você pode passar um bom tempo com outras pessoas fazendo nada, é disso que a gente precisa.

—– x ——- x

Tenho certeza de que funciona. Eu vi. Tenho dois amigos muito queridos, que entraram fácil pro grupo de melhores amigos, de gente que você pode entrar em contato só pra gritar e xingar, ou que volta e meia um traz presentes pros outros. Eu os conheci há dois anos e ficamos amigos muito rápido porque logo no primeiro encontro, um passeio pra ver aves, descobrimos que podíamos ficar juntos em silêncio, que não havia tensão, e que todos estavam de alma presente. E logo depois descobrimos que podíamos xingar e falar mal das pessoas e do mundo e os outros entendiam.

Não acontece em todo passeio passarinheiro. Acho que aconteceu com a gente porque estávamos nessa mesma sintonia de nada, ócio, não preciso impressionar ninguém, não saí com objetivos, não estou atrás de lifers, estou aqui só curtindo a natureza.

Hoje em dia eu os vejo bem menos porque eles tiveram filhos, não um com o outro, cada um com seu respectivo cônjuge, um deles mudou de emprego e passou a ter menos flexibilidade pra passear. Mas continuam sendo super-queridos, o tipo de gente que eu veria sempre.

— x — x

Trabalhos filantrópicos e voluntários. Daqui a algumas semanas ou algumas décadas, provavelmente vou me envolver nisso. Eu já faço um trabalho voluntário, que é a divulgação do birdwatching, mas essa é uma tarefa solitária, estou falando de algo que envolva ter que se encontrar com outras pessoas.

Esse é outro tema sobre o qual o Eric Barker já escreveu, e também tenho certeza de que ele está certo. Fazer o bem, ajudar os outros, é o tipo de coisa que melhora sua vida, aumenta sua sensação de felicidade.

Em grupos desse tipo em geral há muito espaço pra frouxidão e incompetência. Não tem como haver muita pressão ou cobrança, pelo menos nos níveis menores de hierarquia do grupo. Participei de alguns na adolescência. Quem sabe em breve ou daqui a muito tempo eu encontre um grupo que tenha vontade de participar.

— x — x

Na semana passada estava pensando que o grupo poderia ser algo relacionado com a cultura japonesa. Até perguntei pros meus amigos e fiz pesquisas na internet. E fui numa festa japonesa no final de semana, é de onde vem a foto da capa do post, Toro Nagashi no 31º Akimatsuri em Mogi das Cruzes. Mas é uma vontade que já vai passando… o que eu procuro talvez exista em algum grupo budista ou de artes marciais.

Birdwatching em Minas Gerais

Alguém podia ter me contado que as cidades históricas de Minas Gerais, além das belezas de cidade histórica, têm muita Mata Atlântica. Muita. Pode parecer estranho, mas é graças às mineradoras, que são obrigadas a preservarem a vegetação de uma parte de sua área, a chamada Reserva Legal.

Algumas das fotos feitas em Ouro Branco, Ouro Preto, Lavras Novas, Tiradentes. Ainda preciso fazer o post… e voltar a trabalhar pro birdwatching, responder emails. Mas não estão fácil sintonizar. Tentação de me afundar em leituras sobre a estética japonesa.

 

 

Yūgen may be, among generally recondite Japanese aesthetic ideas, the most ineffable. The term is first found in Chinese philosophical texts, where it has the meaning of “dark,” or “mysterious.”

http://plato.stanford.edu/entries/japanese-aesthetics/#5 

 

[Yugen]

“To watch the sun sink behind a flower clad hill.

To wander on in a huge forest without thought of return. To stand upon the shore and gaze after a boat that disappears behind distant islands. To contemplate the flight of wild geese seen and lost among the clouds.

And, subtle shadows of bamboo on bamboo.” Zeami Motokiyo

https://en.wikipedia.org/wiki/Japanese_aesthetics

Somos essas criaturinhas ridiculamente previsíveis?

Filmes de Youtube pra se ver enquanto faz esteira ou ergométrica. Não que eu fique 1h30 na labuta, é coisa pra se assistir em três pedaços. Já assisti a Arn (e guardei como referência estética a cena com as últimas palavras dele), comecei a ver o Injustice – Gods Among Us porque o Daniel joga no Ipad, e foi engraçado ouvir o Coringa dizer que detesta gente que tenta segurar a vela, mas esse acabei não voltando, e agora vi Roubar é uma Arte, que no Youtube completo e dublado (dublado) está como A Arte de Roubar, um sessão da tarde bobinho, mas com algumas coisas pra considerar. E lá vem os spoilers.

Você passa o filme todo achando que o Kurt Russell é o irmão corno, ingênuo e mané, até que no fim são revelados os estratagemas para se vingar do irmão mau caráter, Matt Dillon. Certo, muitos filmes fazem isso. Mas a forma como foi feita tem tudo a ver com um assunto que tenho pensado nesses dias, sobre as situações em que você planta uma ideia na cabeça de alguém, seja por uma frase, uma insinuação, ou mesmo declarações bem explícitas como no Casamento Grego e tcharam: de repente a pessoa vem te falar de uma ideia genial que ela teve.

No Roubar é uma Arte eles fazem isso de formas diversas, não só por insinuações, mas por apostas num padrão de comportamento. O Matt Dillon em vários momentos tem que convencer o Kurt Russel a fazer alguma coisa, ele diz que não quer, que não vai etc, depois acaba cedendo, e no final do filme você vê que tudo fazia parte do plano.

Como num jogo de xadrez, você vai movendo suas peças e prevê o que o outro fará, o que ele vai dizer, o que você vai responder.

 

Funcionaria comigo?

Temo que facilmente eu cairia como um pato. Claro que pra desconhecidos você não baixa a guarda, você desconfiaria de alguém que chegasse falando as frases certas, mas pra familiares e amigos basta a pessoa me falar coisas como “eu não sei quem eu sou, não sei qual o sentido da minha vida, preciso descobrir o que eu quero”, e eu já estou lá toda derretida pra ajudar a pessoa. Como já aconteceu.

E pra desconhecidos também funciona, não pela empatia, mas pela previsibilidade das minhas fraquezas. Não suporto gente desonrada. Não suporto, não consigo lidar. Se fosse um samurai como uma espada, acho que só cortaria a cabeça da pessoa. Como vivemos em outra era, não consigo fazer nada além de ferver de ódio e em geral me afastar.

Dediquei centenas de horas, há anos, e com muita intensidade no segundo semestre de 2015 pra esse assunto da liberdade pra fotografar e divulgar a natureza brasileira. E agora estamos perto de conseguir, bem perto, na prática já está bem melhor em vários lugares.

Mas não suporto gente desonrada. Não suporto mentira, omissão, gente que só quer defender os próprios interesses e foda-se se outras pessoas têm sofrido restrições absurdas como ser proibido de usar binóculo, ou ser autuado por um fiscal do ICMBio porque você está fotografando aves numa RPPN (Reserva Particular de Patrimônio Natural), com o consentimento do dono da Reserva.

Estou afastada do mundo passarinheiro. Há pessoas, especialmente duas pessoas muito boas, boas de coração, puras, competentes, admiráveis. E com muito mais estômago do que eu, que estão tocando as coisas, e me perdoaram por eu precisar dar um tempo.

Não sou insubstituível e felizmente há muitas pessoas boas trabalhando a favor. Mas fico pensando que se eu fosse mais engajada, que se a defesa da natureza fosse algo maior ainda na minha vida, se ganhasse proporções a ponto de incomodar ou atrapalhar pessoas poderosas, eles nem precisariam gastar uma bala comigo. Sou uma fresca frágil que não tem estrutura pra lidar com gente desonrada.

 

Arrumei a casa. Comprei computador novo. Estoquei o freezer. Vou organizar os arquivos e backups. Vou aprender a fazer estampas. A vida é boa. Mas eu sou uma criaturinha ridiculamente previsível que não quer ter que lidar com gente sem honra.

Danem-se as estatísticas e as probabilidades

“Even if it seems certain that you will lose, retaliate. Neither wisdom nor technique has a place in this. A real man does not think of victory or defeat. He plunges recklessly towards an irrational death. By doing this, you will awaken from your dreams.” 
 Tsunetomo Yamamoto, Hagakure: The Book of the Samurai

 

Tenho jogado bastante o mod de Pokemon do Minecraft. Por causa do meu enteado, juro que não jogo sozinha.  Um dos monstros é a Rattata, esse ratinho roxo extremamente irritante porque ele tem personalidade agressiva. O objetivo do jogo é batalhar com outros pokemons, mas a maioria não te ataca gratuitamente. Fora os de personalidade agressiva, como a Ratttata, o que é ridículo e irritante, porque não importa que você esteja andando com um Pokemon nível 75, e ela seja uma Rattata nível 8. Ela te ataca mesmo assim. Morre com um hit, mas te ataca.

rattata

Como alguns sabem, Tatá é meu apelido secreto, o jeito como meu enteado me chama. E temos essa mítica com ratos. Foi fácil eles me falarem que as Rattatas são belicosas e irritantes como as Tatás, que não se enxergam, e acham que podem brigar com qualquer um, não importa o tamanho do inimigo.

Rapaz, não é que eles estão certos?

Chega de Fiu Fiu

Queridas leitoras, e queridos leitores que não são cabeça-de-bagre: chega de fiu fiu. Que ninguém se engane: o tal “fiu fiu ” só é divertido pro abusador, pra mulher não é nada divertido. Por que a gente tem que viver tensa e com medo? Mulheres não são objetos, mulheres são pessoas.

Ah, você quer fazer um galanteio, qual o problema do galanteio? Então eu pergunto: qual o objetivo do seu galanteio? Você se apaixonou instantaneamente pela mulher e quer tentar namorá-la? Então você vai ter que ser esperto. Tente encontrar uma situação para puxar assunto sem parecer assustador, e veja se consegue fazer a conversa evoluir a ponto dela confiar em você e você ter a chance de um encontro.

Não, não, nada disso, é claro que eu não quero todo esse perrengue, eu só quero falar que ela é gostosa, qual o problema, um homem não tem mais direito de se expressar quando a mulher é bonita?

Não, meu senhor, não tem. Bestas solitárias podem fazer o que quiserem. Quem vive em sociedade tem que levar em consideração que o que  se faz publicamente repercute sobre todos os outros. Suas palavras, ações, e olhares lascivos sobre desconhecida alimentam um universo de medo e abusos. Você só quer se expressar, e dane-se se isso deixa a mulher assustada, com medo, ou com raiva? Isso significa tratar o outro como um objeto. E mulheres não são objetos do seu prazer e diversão, mulheres são pessoas, seres humanos com sentimentos e toneladas de motivos pra ter medo.

Se você realmente só quer fazer um galanteio, sorria. Quando eu vejo algo bonito, em geral crianças, casais se abraçando, velhinhos de mãos dadas e outras cenas fofas eu sorrio. Se você ficou muito impressionado, nada impede que você preste uma homenagem solitária à mulher que você viu na intimidade de um lugar privado, o que você faz da sua vida íntima é problema seu. Mas nas interações sociais há regras sociais de respeito mútuo. Eu entendo os motivos históricos que fazem com que os homens tenham sido os dominantes por tanto tempo, mas faz tempo que isso não faz mais sentido. Homens e mulheres têm os mesmos direitos.

— x — x—

Compartilhei o texto abaixo no site http://chegadefiufiu.com.br/. A proposta da campanha é:

“Ninguém deveria ter medo de caminhar pelas ruas simplesmente por ser mulher. Mas infelizmente isso é algo que acontece todos os dias. Pouco se discute e quase nada se sabe sobre o tamanho e a natureza do problema. A Chega de Fiu Fiu foi criada para lutar contra o assédio sexual em locais públicos. Mas queremos aqui também lutar contra outros tipos de violência contra a mulher.”

Depois fiquei pensando… e provavelmente vou escrever mais duas. Contar de quando eu tinha 11 anos e um pedófilo-ou-alguém-muito-estranho me agarrou no Cine 180 do Playcenter, e de quando eu tinha 20 anos, estava num McDonald’s da Paulista, acho que é um que não existe mais, era uma casinha branca com mesas na varanda, eu estava sozinha nessa varanda, um homem chegou e sentou numa mesa próxima, de repente tive a impressão de que havia algo estranho estranho com a mão dele, como se fosse deformada, olhei de novo e vi que ele estava com o pau pra fora batendo punheta. Não sabia o que fazer, pra sair de lá tinha que passar perto da mesa dele, antes de eu pensar se gritava ou o quê ele levantou e foi embora. E lembrei de uma historia do colegial, uma amiga, a gente tinha 15 anos, ela contou que estava andando na rua, um homem foi falar com ela, ela não entendeu o que ele falou, achou que ele estava pedindo informação, ela se aproximou e pediu para ele repetir, o cretino falou de novo com a maior tranquilidade “perguntei se você é boa de meter”.

Não vale dizer que na Índia, na maioria dos países da África, no Iran e no Afeganistão é muito pior. A gente tem que lutar por um mundo menos machista. Lidar com um problema passa por reconhecer, expor, quantificar se possível, mostrar que é geral e escabroso.

Compartilhe sua história também. Chega de fiu fiu.

— x — x  (Texto que mandei pro Chega de fiu fiu. Adaptei as primeiras linhas pro blog)

No feriado de 12 de outubro fui pra Brasília. Passarinhei três dias e depois descansei. Fui almoçar num shopping perto do hotel, uma caminhada de 20 minutos, estava andando na calçada, um carro desacelerou pra gritar o tal “gostooosa”. Por ser de dia em um lugar movimentado eu não fiquei com medo, só xinguei mentalmente.

Quando soube da campanha Chega de Fiu Fiu quis compartilhar essa história porque me fez lembrar da minha adolescência em Limeira – SP. Sou descendente de japoneses, tenho 38 anos, e quando era criança e depois adolescente às vezes sofria bullying nas ruas. Nem sabia que tinha esse nome. Só sei que até hoje eu não consigo olhar no rosto de gente que passa perto de mim na rua, sou capaz de cruzar na rua com um amigo e não vê-lo se ele não falar comigo porque me condicionei a não olhar no rosto de ninguém. Em Limeira as pessoas mexiam comigo, gritavam “Banzai!” “Arigatô!!”, “Japonês, neeeeéee”, ” Eaí, japoronga!!”, ou então ficavam andando do meu lado, puxando o canto dos olhos e falando coisas que eles achavam que soava como japonês. A partir dos 10, 11 anos, quando meu corpo começou a mudar, além do bullying também tinha as secadas*, assobios, aquele som nojento de aspirar o ar entre os lábios, ou o “gostosa”. No caminho da minha escola pra minha casa tinha dois bares, eram os pontos em que eu mais sofria. Às vezes eu voltava pra casa em zigue-zague, atravessando a rua cada vez que via ao longe um homem ou um garoto com jeito de que poderia mexer comigo. Ou então fazia um caminho mais longo, pra não passar por aquela rua, apesar de ser o caminho mais curto entre minha escola e minha casa. Levou vários anos pra eu ser capaz de andar na rua e não ficar tensa quando vou passar por um grupo de homens, sempre tinha medo de que ia ouvir alguma coisa desagradável. Viver em São Paulo, onde ninguém olha pra ninguém, me ajudou a perder isso.

Eu achava que essas histórias eram feridas cicatrizadas, mas descobri que não são. No feriado de 7 de setembro fui pra Brotas – SP, fazer passeio de rafting e KR, e teve dois momentos em que sofri de novo. Quando meu marido perdeu o voucher, voltei à agência pra pedir reimpressão do papel, a moça que nos atendeu no dia anterior só queria saber se eu estava em excursão de japoneses, porque tinha muitos por lá, e enquanto falava ficava puxando o canto dos olhos. E durante o passeio, houve um momento em que nosso KR (é um caiaque inflável grande) passou perto de um bote de rafting, em que havia japoneses, e meu condutor gritou para o outro condutor “a gente pode trocar!”, “é, podemos! Pior que se cair na água a gente não sabe qual é qual”, afinal, japoneses não são pessoas, não têm individualidade, é tudo igual. Eu fiquei triste, me calei, não quis falar com meu condutor na hora pra não pesar o clima do passeio pras outras pessoas, mas ele viu que eu fiquei quieta e tentou puxar conversa comigo. Nosso condutor era um senhor bem simpático e gentil, depois expliquei pro meu marido que eu não quis falar nada porque sentia que não adiantava, “isso é o interior de São Paulo, é assim que eles tratam os japoneses”.

Quando eu era criança e depois adolescente não falava disso com ninguém. Uns dois meses atrás, antes do 7 de setembro em Brotas, conversava com meus pais, eles me contaram que na época que eles eram jovens em Limeira também sofriam esses assédios na rua, diziam que era até pior. Falamos sobre isso mas não foi doído, talvez porque parecesse coisa do passado. A trolagem em Brotas foi desagradável, mas me sentia uma adulta capaz de falar “no interior de São Paulo é assim mesmo”. Entretanto, a verdade é que o incidente reabriu a ferida, porque agora não sou mais capaz de falar do que acontecia comigo em Limeira sem meus olhos encherem de lágrimas, e às vezes chorar bastante.

Tenho um blog e faço questão de sempre comentar temas relacionados com machismo, xenofobia, discriminações sexuais, tacanhices diversas. Nas redes sociais vejo muita gente que é esclarecida em temas diversos, mas quando chega nos tópicos relacionados com os abusos que as mulheres ou qualquer minoria sofre, dizem que é frescura, exagero. Gostaria que essas pessoas fossem capazes de desenvolver algo cada vez mais raro hoje, a empatia, a capacidade de se imaginar na situação do outro. Ou, às vezes, quando estou com raiva, fico desejando que elas passem por alguma situação de serem humilhadas, assediadas, pra ver se isso as torna mais humanas.

 

— x — x —

*Pra quem acompanha o blog, por que é ofensivo um desconhecido passar na rua te medindo de alto a baixo com olhar lascivo, e por que eu digo que um dos meus orgulhos é dizer que levei uma secada do Angeli numa Bienal? Sou hipócrita? Quer dizer que se o homem é bonito ou famoso então tudo bem? O tal “cantada só é ofensiva quando o homem é feio?”.

Não, não é. Vou explicar.

Homens e mulheres têm o direito de se olhar e se pegarem e etc. Quem me conhece ou acompanha o blog sabe como eu sou a favor de um mundo menos moralista, com menos miséria sexual.

O problema são as relações de desigualdade, o medo. Você está num bar ou numa festa e recebe um olhar lascivo? Ainda que aconteçam casos de estupro em situações assim, no geral nesses lugares você está lá no pique pra arrumar alguém, você se sente segura o suficiente pra ou ignorar o olhar sem sentir medo, ou retribuir.

Pra mim uma Bienal cheia de gente (ou um torneio de xadrez, como diria o Dr. Reid) são uma dessas situações de paquera e segurança. Reparei no Angeli porque é o Angeli, poderia ter sido outra celebridade, ou de repente um desconhecido muito bonito: guardaria a lembrança do mesmo jeito, como uma pequena anedota pra se orgulhar.

Mas se estivesse andando na rua, num lugar com pouca circulação de gente, não importa quem fosse: eu ficaria ofendida e com medo.

Minha mãe é o tipo de gente que acorda bem cedo (e dorme bem cedo). Ela costumava fazer caminhadas numa avenida perto de casa. Sozinha, porque às 6h meu pai preferia continuar dormindo, obrigado. Numa dessas caminhadas um carro passou e mexeu com ela. Ela parou de fazer as caminhadas. Esse é o tipo de consequência que o seu fiu fiu pode ter.

Em lugares movimentados, em que o risco é baixo de você ser atacada, você aprende a tolerar o fiu fiu. Como falei, em Brasília não fiquei com medo. Na verdade, na hora só pensei algo como “olha só… é a capital do país, mas de certa forma é como se fosse o interior do Estado”. Em lugares em que é improvável você ser atacada tem mulheres que até gostam do fiu fiu. Elas se vestem pra chamar atenção, e quando recebem o fiu fiu, sentem-se valorizadas. Mas imagina como é triste a vida de uma pessoa que precisa de elogios toscos de desconhecidos, como deve ser carente de relações de verdade.

Eu sempre defendo que as mulheres podem se vestir como quiserem, e nunca admito o tal argumento de “se vestindo desse jeito, foi ela que pediu”. Pedido é dizer de livre e espontânea vontade “quer fazer sexo comigo?”. Usar roupas provocantes é direito de qualquer um, homens ou mulheres. Agir como uma besta e agredir e forçar o outro porque você é um animal incapaz de segurar suas vontades, isso não tem justificativa nenhuma, você merece ir pra prisão porque não sabe viver em sociedade.

Ainda sobre as secadas, no meu caso em Limeira, esses trajetos da casa pra escola, ou inglês, ou natação, ou casa de amigos, o risco de ser atacada era baixo, eu só andava de dia em horários que a avenida era movimentada. Mas ter que lidar com isso, ter que passar por uma calçada estreita próxima de homens que te olham dessa forma, às vezes fazem comentários, quando você tem 11, 12, 13 anos é algo que nenhuma menina deveria ter que passar. É algo que marca pro resto da vida.

Esse post surgiu porque vi a notícia dos pedófilos e retardados que se manifestaram sobre a menina do MasterChef Jr. Por algum link acessei o Chegadefiufiu.

Homens e mulheres, ou homens com homens, mulheres com mulheres, têm todo o direito de se relacionar. Mas não tem nada que justifique tratar o outro como uma coisa. Mulheres (ou qualquer outra minoria) não são objetos pra prazer, chacota, humilhações. São pessoas, seres humanos como sua mãe, sua filha, sua irmã, e você sempre devia pensar se suas palavras e ações estão contribuindo pra um mundo com menos desigualdades, ou mais babaquices e violência.