Category Archives: Inspiração

Sobre a dificuldade de encontrar uma voz

Não sou uma escritora. Mas tenho uma pequena mazela que compartilho com escritores: a necessidade de escrever. Escritores escrevem porque precisam, porque tem algo comendo-os por dentro, porque é uma das únicas formas de lutar contra os quartinhos fedorentos mas no caso do escritor não é apenas uma forma de terapia. A diferença de simples desabafo e a arte da escrita é que no caso do escritor há uma musa guiando-os, às vezes com generosidade, mas não, na verdade acredito que ela é sempre exigente, caprichosa e até sádica, ou muitas vezes sádica. Acho que a maioria das coisas que vemos e nos parece muito bom demandou os 90% de transpiração, você pode ler e achar que a musa foi generosa, mas esquece de quantos meses ou anos ela fez o escritor rastejar, suplicar, se prostituir, quase se jogar de uma ponte, qualquer coisa que fizesse a bela mostrar um pouco mais de sua face luminosa e transformadora.

A musa pode (caprichosamente, como sempre) escolher te possuir durante um período da sua vida e os motivos de por que ela veio, ou por que se foi, não devemos ter a pretensão de entender. Há musas capazes de acompanhar um mortal durante décadas, até sua morte? Claro que sim. Nossas obras de artes plásticas, arquitetônicas, musicais, escritas são a grande prova de que as musas existem.

As musas. Quer sejam seres etéreos atemporais que decidiram acompanhar a humanidade, ou que foram criados a partir dos pensamentos da humanidade, ou sejam apenas uma forma de descrever o estado mental que umas poucas pessoas conseguem alcançar depois de passar anos ou décadas trabalhando (vou bancar a espírita e dizer que as crianças prodígio são reencarnações de artistas que também passaram décadas na labuta, só que em outra vida) pra que seu domínio técnico sobre alguma atividade ultrapassasse o existente, o formal, o correto e desse aquele passo além que traz o bom trabalho pro nível do sublime e do imortal.

Não sou uma escritora, muito menos uma artista. Mas dentro da minha tosquice, os fragmentos da inspiração, do orgulho de se sentir trabalhando em e talvez até criando algo capaz de me agradar, que eu consiga reler várias vezes, ou fotos que são o tal pequeno portal capaz de mostrar um pouco da atmosfera do mundo secreto das aves, agora dos insetos, aranhas, ou das ilustrações de estampas de tecido com que sonho fazer a natureza brasileira se tornar mais concreta e presente no cotididiano, são fragmentos capazes de iluminar meu caminho.

 

Ser feliz não é ter uma vida perfeita

Não sei o quanto é influência da cultura pop americana, mas esse sempre foi um dos temas mais importantes na minha vida. A ideia de que não somos vítimas e que temos poder de escolha.

“É impossível”, “Não tenho o que fazer”, “Estou de mãos atadas”, “Eu tinha que fazer tal coisa”, ah como essas coisas me irritam. Veja, estou falando de coisas razoáveis. É impossível ganhar na mega sena? Sim, beira o impossível, e se é isso que te faz infeliz você é apenas idiota. Mas não é impossível saber mais sobre você mesmo, trabalhar seus defeitos, gostar mais de você, se transformar, buscar um trabalho que lhe traga mais satisfação e menos perrengues, ou então encontrar o seu estado mental que te permite encarar a jornada do trabalho apenas como o trabalho, apenas como algo que serve pra pagar suas contas.

Ninguém nunca está de mãos atadas num relacionamento. Ninguém é realmente obrigado a fazer coisas. “Vocês me obrigaram a fazer isso”, eu pergunto: eu coloquei uma arma na sua cabeça e te mandei fazer isso? Se você não queria fazer tal coisa, por que não falou claramente que não queria? É muito melhor do que fazer e ficar resmungando.

Você está no controle da sua vida.

– Saiba quem você é.

– Goste de você. Se tem coisas que te impedem de gostar de você, mude isso.

– Liberte-se da ilusão sobre o quanto aparência e opinião das pessoas importam. Isso não importa. Aparência de modelo não é item de felicidade, ser escravizado pelo o que vão falar de você só te acorrenta.

– Invista em você, em fazer coisas que você goste, busque a companhia de pessoas que te fazem bem e que gostam de você, mesmo que seja uma só ou mesmo que durante meses não seja ninguém, mas se afaste da maldade, da futilidade.

– Saiba dizer não. Como dizem no Pinterest, não é uma palavra curta que evita problemas longos.

– Aprenda a se expressar, a dizer que gosta de alguém, se expresse mais. O mundo precisa muito de mais amor.

– E também aprenda a ter conversas difíceis, a falar pra alguém que aquela pessoa te machucou ou ofendeu. É claro que você não precisa resolver tudo imediatamente, e algumas coisas só passam e você supera. Mas se aquilo ainda incomoda, ou se o comportamento do outro é recorrente, converse com a pessoa sobre aquilo. Engolir sapo é um dos maiores venenos pra alma.

Você não é vítima de nada, não importa o seu passado. Quem está no controle é você, está nas suas mãos ficar revivendo traumas, dores e problemas ou dar um passo em direção a uma vida muito maior, com mais luz, satisfação, momentos de felicidade. Se o passado é pesado demais, procure ajuda. Se possível um terapeuta, se for impossível pense e escreva muito sobre isso, encontre um amigo sensato com quem conversar, que possa te dar conselhos no caminho da libertação e do perdão. Não é pra esquecer e nunca mais falar, pelo contrário, é pra falar e processar até que aquilo não machuque mais, não fique mais ocupando espaço na sua cabeça e no seu coração. Quando seu passado e seus problemas pararem de ocupar esse espaço, só assim as coisas boas poderão entrar na sua vida.

Não é verdade que o coração é o cérebro são ilimitados. Eles têm uma área finita e se você os enche de velharias, quinquilharias e podreras, fica quase impossível ter renovação e coisas boas.

Liberte-se.

99% de transpiração

Sobre se sentir travada, sem inspiração, muitas vezes também me sinto assim… mas quando quero mesmo fazer alguma coisa, lembro que talento ou genialidade é 1% de inspiração e 99% de transpiração 🙂

voltei a desenhar hoje. Nada muito bom ainda, mas sei que só vai ficar bom se eu treinar bastante e fazer vários testes, e sei que tudo que parece simples e harmonioso em geral demandou muito tempo aparando arestas.

Não se intimide com a falta de inspiração, só faça, releia, reveja, escreva de novo, desenhe de novo, sempre vai sair melhor.

Algumas poucas vezes a gente faz algo como se estivéssemos possuídos, e talvez a gente esteja mesmo, mas no geral dependemos da transpiração.

— um email levemente editado que acabei de mandar pra uma amiga.

Ela não falou sobre isso, mas é um tema correlato: a tristeza do Jeca quando não reconhecem seu bom trabalho. Lembrem sempre do exemplo do Neil Gaiman, a tal historinha que ele contou na FLIP de…. 2008, acho.  Ele já era famoso, já tinha milhões de seguidores, mas quando terminou de escrever Deuses Americanos, passou meses viajando pelos Estados Unidos pra promover o livro.

O Neil Gaiman. E Deuses Americanos.

O que dizer de nós pobres mortais.

Frases inspiradoras

Acho que vou mudar de apartamento e confesso: estou me perdendo no Pinterest e agora no maldito Westwing.  E lembrando da voz do Edward Norton falando sobre os catálogos de móveis, e a mesa de jantar com o símbolo do tao que reflete sua personalidade contemporânea e bla-bla — queria não lembrar disso, nem que ele explodiu o apartamento. Mas eu não pretendo liderar uma revolução que vai abalar a estrutura da sociedade. E passo bastante tempo entocada, então pensar no apartamento novo tem sido o tipo de coisa quase pra te deixar muito animado.

Adorei a frase que te explica por que você não devia ter medo de nada. Vai fazer parte do novo apê.

CiOo0ZLUgAA-D4_

“Manterei sempre” e recursos fofos contra o desânimo

Ainda não é o post de retrospectiva ou balanço, mas já tenho pensado no assunto. Parece que 2015 não foi um ano tão forte em questões trágicas pessoais (pra maioria dos meus conhecidos) como foi 2014, mas também foi um ano intenso.

Pro birdwatching, então, ainda me sinto besta, porque lembro claramente onde estávamos em maio: conversando sobre a possibilidade de processar a Fundação Florestal e o ICMBio por inconstitucionalidade, pelas proibições de fotografia, e sabendo que processar significa pelo menos dois anos de luta difícil.

E agora estamos aqui: sabendo que existe um grupo de trabalho para desenvolver o birdwatching na cidade e no Estado de São Paulo. Pipocando iniciativas diversas, inclusive de pessoas com dinheiro e poder. E a promessa da Fundação Florestal de que até o final de dezembro teremos a carta de alforria, o primeiro passo na direção do uso público dos parques.

É tudo muito inacreditável. Se eu de agora tivesse voltado no tempo pra visitar o meu eu de maio, pra falar “relaxa, tudo vai mudar muito, confie em mim”, provavelmente eu não acreditaria e me xingaria.

Conheci muitas pessoas boas e inspiradoras nesse processo, mas também o oposto — pessoas que me trouxeram raiva, frustração, desânimo. Sentimentos ruins fodendo e poluindo minha atividade favorita. Ganhei do Cris uma lente nova, a incrível Nikkor 300 f4 VR há 2 semanas e nem consegui sair pra estrear. É verdade que choveu bastante, que fiquei resfriada como não ficava há anos, mas em outros tempos nada disso me impediria de sair. Tem algo errado aqui dentro.

Hoje ganhei um presente do meu semideus das frivolidades internéticas. Um vídeo de qualidade ruim, mas com altíssimo grau de fofoleza. Os bichos são parentes desta da abertura do post (um Blue Waxbill, Uraeginthus angolensis, fotografada na África do Sul. A ave do vídeo é o Blue-capped Cordon-bleu – Uraeginthus cyanocephalus), vale muito a pena ver:

Um casal de passarinhos dançando, como se fosse um número de sapateado, dança lenta. Já dei play mais de cinco vezes, e na primeira até escorreu uma lágrima. Pra me lembrar que o birdwatching é isso, é ver fofolezas como estas, é garantir a sobrevivência de bichinhos incríveis como estes. Não a indiferença de quem acha que birdwatching é só likes e lifers, não as discussões cornas com gente que não lê e já sai criticando, gente capaz de caluniar na cara dura, ou pra quem a natureza não tem prioridade.

Ando cansada.

Sentindo falta do meu tempo pessoal, dos meus projetos sem prazo. Ao mesmo tempo, é só aparecer alguém dizendo que minha nóia em ficar buscando formas de valorizar a natureza ferem liberdades artísticas da fotografia de ninfetas que eu não me seguro e estou lá, fazendo discurso comprido sobre o quanto a fotografia de natureza está mesmo num patamar diferente, sobre o quanto precisamos tanto de divulgação e do envolvimento das pessoas para salvar a natureza brasileira.

Textos desse tipo comem as horas que eu deveria estar pesquisando minhas férias, ou terminando meu livro, ou desenhando, ou testando a Silhouette Cameo. Mas era a única coisa a fazer, e lembrei de uma frase bonita do livro da Barbery, um bordão usado pelos elfos.

Manterei sempre.

Mantendré siempre.

Mais um dos casos em que a ficção lança suas teias sobre a realidade. Pensar na perseverança e coragem dos elfos na luta pela natureza alimenta as minhas forças em não chutar o balde. Eu me enfiei aqui porque quis, não tem nada que me obrigue a lidar com essas pessoas. Poderia estar no mundo maravilhoso das ilustrações e criações pop, silk screen, pintura em vidro. Mas se não eu, quem? E se não agora, quando?

Manterei sempre.

Obrigada, Muriel. Obrigada, Wagner. E obrigada aos amigos que continuam acompanhando e apoiando sempre. Não vou desistir. só estou cansada, sou só uma misantropa saudosa do meu tempo dedicado a temas inócuos e artísticos, meio ressentida do contato com as pessoas. Mas não vou desistir. Manterei.

Danem-se as estatísticas e as probabilidades

“Even if it seems certain that you will lose, retaliate. Neither wisdom nor technique has a place in this. A real man does not think of victory or defeat. He plunges recklessly towards an irrational death. By doing this, you will awaken from your dreams.” 
 Tsunetomo Yamamoto, Hagakure: The Book of the Samurai

 

Tenho jogado bastante o mod de Pokemon do Minecraft. Por causa do meu enteado, juro que não jogo sozinha.  Um dos monstros é a Rattata, esse ratinho roxo extremamente irritante porque ele tem personalidade agressiva. O objetivo do jogo é batalhar com outros pokemons, mas a maioria não te ataca gratuitamente. Fora os de personalidade agressiva, como a Ratttata, o que é ridículo e irritante, porque não importa que você esteja andando com um Pokemon nível 75, e ela seja uma Rattata nível 8. Ela te ataca mesmo assim. Morre com um hit, mas te ataca.

rattata

Como alguns sabem, Tatá é meu apelido secreto, o jeito como meu enteado me chama. E temos essa mítica com ratos. Foi fácil eles me falarem que as Rattatas são belicosas e irritantes como as Tatás, que não se enxergam, e acham que podem brigar com qualquer um, não importa o tamanho do inimigo.

Rapaz, não é que eles estão certos?