Category Archives: Inconformada

Pra você que está cansado das notícias sobre denúncias de abusos, racismo, humilhações etc

Você acha que já deu essa história de todo mundo ficar denunciando qualquer apalpada, brincadeirinha, tirar a roupa e se masturbar na sua frente, falar que é coisa de preto, mandar adolescentes transarem ou tentar transar com adolescentes e outras chatices?

Senta e chora, porque não vai parar.

Bem-vindo ao mundo real.

Se você nunca se sentiu humilhado, constrangido, ameaçado por desconhecidos ou colegas e acha que as notícias sobre as denúncias dessas situações são só uma aporrinhação sem fim, tente, apenas tente, pensar no seguinte: se é chato ler notícias, imagine como é viver a situação.

Você tem ideia do que é desconhecidos ou colegas se acharem no direito de te falar qualquer bosta, te xingar, pegar no seu corpo, ou colocar o pau pra fora e bater punheta na sua frente — só porque eles sabem que não há punição pra isso, e eles podem fazer o que quiserem?

Tenta imaginar o que é ser negro e ser tratado com desconfiança ou desprezo em várias situações, não importa o que você faz. Tenta imaginar o que é não ser heterossexual e ter pessoas que xingam, espancam e às vezes matam só porque você não pensa como elas. No caso das lésbicas, já ouviram falar da cura? Mulheres estupradas sob o argumento de que vão “curá-las” e elas vão se tornar hetero?

Tenta imaginar o que é ser criança e depois adolescente, ter feições orientais e ficar tensa todas as vezes que você vai passar por homens ou garotos, a espera do momento em que eles vão te seguir andando do seu lado, puxando o canto dos próprios olhos e falando coisas que eles acham que soa como chinês, ou passam por você e gritam “banzai!”, “japoronga”, “japonês gosta de arroz, néeeeee”, ou as coisas como “gostosa”, “tesão”, e os sibilos e olhares nojentos. Eu menstruei com menos de 11 anos, aos 12 já tinha seios e tinha que lidar com essas situações todos os dias na volta da escola.

Faz mais de 20 anos que moro em São Paulo, onde ninguém mexe com você por ser oriental, e é raro mexerem com mulheres usando roupas comuns. Mas foram muitos anos pra parar de ficar tensa quando tenho que passar por homens na mesma calçada, e meu cérebro desenvolveu algo que talvez eu nunca perca: uma incapacidade de reparar no rosto das pessoas quando estou andando em lugares públicos. Eu sentia tanta raiva e vergonha, não queria ficar com o rosto daqueles homens na memória, então andava nas ruas como se essas pessoas não existissem, olhando pros carros, árvores, casas — mas nunca pra rostos. Até hoje sou capaz de passar do lado de um amigo meu, e se ele não falar comigo não o verei.

Pensar nessas coisas ainda dói, ainda trazem lágrimas. Parece que é coisa do passado, mas vi que não é, aquela história de dois anos atrás quando o condutor do nosso bote de rafting fez uma piada sobre japonês ser tudo igual, e eu fiquei triste na hora, e depois chorei várias vezes em casa e ainda choro agora. E isso é só um bullying leve. Tente pensar no que os negros e gays passam, todos os dias. Tente pensar no que as mulheres passam, todos os dias.

E o Rodeio das Gordas, sabe o que foi? Unesp de Araraquara, em 2010: “no ‘rodeio das gordas’ os alunos se aproximavam das garotas fazendo perguntas, como se fossem paquerá-las. Depois, agarravam as garotas, de preferência obesas, e tentavam ficar sobre elas o máximo de tempo possível, como se estivessem em um rodeio. Ao menos 50 estudantes participaram do ‘jogo’.” http://g1.globo.com/sp/sao-carlos-regiao/noticia/2013/05/envolvido-em-rodeio-das-gordas-tera-que-desembolsar-30-salarios-minimos.html

Bom exemplo do que o ser humano pode fazer quando acha que tudo que importa são os risos e a diversão (dos abusadores).

Se você é do tipo que fala “ah, esse assunto já deu”, tente imaginar ter uma filha, que corre o risco de ser abusada ou estuprada numa festa, na escola, pelo chefe, por um desconhecido. Ou xingada e humilhada se ela não estiver dentro de um padrão estético. Ou assassinada por um ex-namorado ou um garoto com uma paixão doentia e não correspondida.

Tratar os outros como coisas e não como pessoas cria tentáculos malignos, que vão além muito além da chacota e humilhação verbal.

Talvez um dia os abusadores parem de abusar porque entendem que estão machucando o outro. Mas por enquanto, que eles parem de abusar por medo de serem punidos.

 

Pra quem me vê como networking, digo isto:

Vá pra putaqueopariu.

E nem é um xingamento ardente, como foram as imprecações contra os atropeladores de esquilinhos. É só essa vontade fria e racional de falar vai se foder, me esquece.

Não se puxa conversa com um misantropo pra falar oi, eu existo, lembre de mim, somos amigos, tá?

Só me procure se você realmente tiver algo pra falar, ou se você sinceramente quer saber como eu estou.

Toda as vezes que você entra em contato pra falar um oi sem conteúdo você cai 10 andares, e descobrimos que esse edifício se estende pro subsolo por quilômetros.

Por que alguém fala oi se não tem nada pra dizer ou perguntar, se não se importa com você, se não gosta de você? Eu não sou networking, e mesmo que fosse, vocês são péssimos em social de networking, até minha vó faria muito melhor.

Bichos pra atropelar e nomes que não importam

Tínhamos acabado de sair de uma das estradas de terra e entrado no asfalto. Passei reto pela entrada pro buraco d´água, o Cris e o Daniel pediram pra eu voltar, talvez porque repararam que havia muitos carros virando pra lá. Olhando agora no mapa, como era na região de Lower Sabie, bem perto de uma bifurcação de estrada de terra e asfalto acho que era Mpemane. Perto da entrada pra Mpemane vi um African Ground Squirrel no asfalto, em pezinho, com aquela pose de patas dianteiras unidas como se rezasse. (A foto da abertura é de um African Ground Squirrel, mas não este que descrevi. A foto acima foi feita no Augrabies NP). É comum os bichos ficarem no asfalto, mas a verdade é que em sete visitas ao Kruger, nunca vimos um bicho atropelado.

Chegando perto do buraco d´água de Mpemane topamos com um show de horrores. Mais de 15 carros em volta de três rinocerontes que mexiam a cabeça e batiam a pata da frente, alguns carros estavam a menos de 15 metros deles. Daria uma boa foto de “o que não fazer”, mas eu estava com tanto desgosto que só manobrei o carro pra ir embora, e mais carros continuavam chegando.

O Daniel tinha se cadastrado numa lista de WhatsApp que compartilhava avistamentos no parque, mas proibia informações sobre rinocerontes. Não sei se vocês sabem que rinocerontes são mortos com frequência porque há um mercado de filhos da puta que acreditam que pó de chifre de rinoceronte é milagroso. Mas a quantidade de carros chegando em Mpemane parecia indicar que havia outros canais de comunicação, que alguém tinha divulgado os rinos, lembro bem da Range Rover em alta velocidade, talvez a 70, quando o limite é 50km/h.

Chegando de volta à estrada de asfalto, vejo o African Ground Squirrel deitado de barriga pra cima, morto. Ele é um bicho pequeno, de cor discreta, um pequeno bege sobre o asfalto cinza é fácil não ver. Mas putaqueopariucaralhoporra, você está num Parque Nacional, que tem limite de 50km/h no asfalto e 40km/h na terra, você tem que andar prestando muita atenção. Era fácil não ver o esquilo, mas era impossível não vê-lo se você está prestando atenção pra não atropelar nada, pra reparar que aquela bolota lá na frente é um pequeno cágado e não um cocô de elefante, que a mancha bege é um esquilo e não um torrão de terra.

Penso na Range Rover por puro preconceito, só porque não gosto do design do carro, mas podia ser qualquer um dos idiotas que foi pra Mpamane em alta velocidade, animados com a ideia de três rinocerontes bem de perto.

Fiquei tão brava que o Cris mandou eu parar o carro pra gente poder se abraçar e eu chorar.

É por coisas como essas que escolho as regiões com menos bichos, mas menos gente. Como disse o Cris “A Claudia prefere não ver o leopardo a ter que aguentar 10 carros em volta”. Misantropia na veia.

Mas ainda não tinha acabado.

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Sei que era porque eu estava cansada. A volta de Joanesburgo pra São Paulo é um voo de 10h50, que virou 12h30 por alguma desinteligência da Latam. Perto de pousar em São Paulo o avião chacoalhou e eu enjoei. Não de precisar vomitar, mas de ter que andar me sentindo mal. Enquanto esperávamos nossas malas aparecerem na esteira uma mulher com sotaque carioca estava contando sobre a onça que eles viram. Na quarta vez que ela falou onça eu não aguentei, avisei o Cris e o Daniel, peguei meu carrinho e fui pra um canto em que não dava mais pra ouvir a voz dela.

Não há onças na África do Sul. Há leões, leopardos, guepardos, gatos selvagens, genet, servais, caracais. Mas não tem onça. Não tem onça. Não tem onça! Moça, como é que você pode não se importa em saber o nome do animal magnífico que estava na sua frente?

Pra tentar me acalmar eu ficava pensando que as áreas naturais precisam dos muggles, que eles injetam dinheiro na economia mais do que a gente, que eles compram passeios, compram souvenirs que os parques precisam dessas pessoas, que os parques não sobreviveriam se dependessem só de gente como a gente porque não fazemos volume.

Mas foi revoltante e doeu.

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A semana no Kruger também teve muitos momentos bons e fotos lindas. Mas por enquanto é isso. Um grande putaqueopariuqueraivadequematropelanimais, e o desgosto por pessoas que não se importam com nomes.

 

Pelo menos o céu eles não podem taxar e controlar

Na verdade, se junto com o céu estivesse alguma formação icônica de um parque, a foto não é mais totalmente sua.

Nesses dias em que voltei a me envolver com a comunidade dos birdwatchers conversei com algumas pessoas que já foram proibidas de fotografar num parque — e nunca mais voltaram. Alguns me falaram de problemas no parque tal, conversamos mais, ela me fala “mas deixa eu checar como está agora, porque já faz um tempo que eu fui”.

Eu sei como é.

É como minha relação com o Horto de Campos do Jordão. Depois que me proibiram de fotografar, em 2009,  não tive mais interesse em voltar. Nesses 8 anos voltei lá três vezes — e olha que vou várias vezes por ano pra Campos. Oito anos em que eu poderia ter feito vários registros dentro do parque e compartilhado as fotos com a administração, feito divulgação do lugar.

Faz mais de 10 anos que as câmeras digitais são populares no Brasil. São 10 anos em que dezenas de milhares de pessoas poderiam ter fotografado com alegria e dedicação as Unidades de Conservação brasileiras. Pra registrar, fiscalizar, promover, proteger.  Mas em vez de criar esse vínculo com a população, o que nossas autarquias fizeram nesses 10 anos? “Tem autorização para fotografar?”

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Em março de 2016 foi publicada a portaria estadual 236, que descriminalizou o porte de câmera grande. No fim de semana passado fui ao Horto, almoçar no restaurante D. Chica, e aproveitei pra fazer mais um experimento — de andar com a câmera à mostra. Nenhum problema. Em vez de seguranças dizendo que é proibido fotografar, havia funcionários com camisetas do parque, com aquele jeito de gente pra quem você pode pedir informação, você olha pra pessoa e fala bom dia.

As fotos deste post foram feitas em Wenceslau Braz – MG, logo depois da divisa com Campos do Jordão. Tudo numa manhã só.

Ainda que não seja mais proibido fotografar nas UCs da Fundação Florestal, confesso que foi uma alegria grande pegar esse nascer do sol maravilhoso sabendo que eu tinha acabado de sair do parque e que as fotos eram só minhas. Como falei no outro post, eu, e provavelmente outras pessoas, podendo escolher sempre vamos pra beira de estrada fora do parque. Mesmo sendo altamente improvável fazer algo comercial com a foto, ninguém quer se sentir amarrado.

A portaria que descriminaliza o birdwatching nas UCs da Fundação Florestal foi um grande passo, mas queremos mais. Não basta sermos apenas tolerados, queremos o fim do controle sobre as fotos, da política que tolhe iniciativas, que castra nossa vontade de registrar e divulgar as Unidades de Conservação.

Precisamos de uma mudança de cultura. Chega de gestor que acha que cidadão precisa pedir autorização pra tudo. Gestores: buscar controle total é um erro. Tratem as pessoas como gente, como seres humanos. Incentivem alianças, iniciativa e criatividade. Burocracia e controle é o caminho errado, é o caminho que vocês seguiram até hoje, e veja aonde levou.

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Saio de férias amanhã, não sei se consigo blogar durante a viagem. Se não conseguir, volto no início de agosto.

 

Pra todos os filhos da puta que são contra o direito ao aborto e à educação sexual

Antonio Lima é especialista nas chamadas arboviroses, como dengue e zika. Acompanhou a pesquisa com um olhar médico e descobriu que os bairros com maior número de homicídios são os mesmos onde há mais sífilis, tuberculose e gravidez adolescente. Provou com números a superposição dos mapas de violência e de um sem-número de ausências – saúde, escola, emprego, lazer.

Pelos números da pesquisa, dos adolescentes mortos em Fortaleza, 55% eram filhos de mulheres que foram mães na adolescência; 64% tiveram amigos assassinados; 73% abandonaram a escola pelo menos seis meses antes da morte; 55% haviam experimentado algum tipo de droga (lícita ou ilícita) entre 10 e 15 anos; 73% sofreram violência policial anterior.

(…)

‘É um genocídio de jovens pobres, negros e do sexo masculino, num quadro de vulnerabilidade social em territórios mais pobres, junto com uma cultura de violência e a forte evasão escolar.’

Educação sexual, distribuição de camisinha, permitir o aborto até os 3 meses, tudo isso é imoral. Mas viver o inferno da pobreza, da precariedade, o desespero de ser mãe solteira, de ser filho de mãe solteira que teve que largar a escola quando engravidou, de crescer em família sem estrutura nenhuma, ter que largar a escola, ter amigos assassinados, matar, morrer… nada disso é imoral.

Outro ótimo artigo da da BBC: O raio-X das mortes na capital mais perigosa do Brasil para adolescentes: http://www.bbc.com/portuguese/brasil-40140922

 

Um putaqueopariu pra todas as flores que foram enviadas, recebidas e entregues no dia das mulheres

sei que estou devendo respostas de emails, posts (aqui e no Virtude). Mas nesta semana saí pra passarinhar, aconteceram coisas mágicas que eu quero contar, mas e a necessidade de editar as fotos do passeio antes de escrever, antes de pagar as dívidas, antes de falar sobre magia?

Mais forte do que isso: e a vontade de poder escrever, aqui no club, um grande putaqueopariu pelas flores, fotinhos ingênuas e textos baunilha que circularam no dia das mulheres.

Participo de alguns grupos, recebi mensagens dos grupos, de pessoas, tentaram me entregar uma rosa no supermercado, não falei “putaqueopariu, enfia a rosa no cu”, claro que não, só falei “muito obrigada, moça, mas não posso levar, estou indo pra um lugar onde ela iria murchar (perto do meu ser), é melhor entregar pra alguma pessoa que possa cuidar bem dela”.

Putaqueopariu.

O Cris entende. De presente de dia das mulheres, logo depois que ele saiu me mandou uma mensagem contando que tinha dado nota 1 pra um motorista de Uber que xingou mulher motorista. E depois me contou como tinha ficado revoltado com o cartão da empresa de dia das mulheres, que tinha uma foto de uma moça loira num campo florido e alguma mensagem insípida, e que ia falar com o diretor da área como aquilo era antiquado.

ah, pode me chamar de feminazi, não me importa.

Só dói.

É só a dor de se sentir no palco, no centro de comemorações tão hipócritas, tanta cegueira e hipocrisia, tanto de homens como mulheres, eu vejo essas flores e mensagens bocós e só consigo pensar na quantidade absurda de notícias sobre mulheres que foram assassinadas, espancadas, queimadas, mutiladas, estupradas, assediadas, ameaçadas, xingadas.

Não me doem as minhas histórias, elas são tão leves comparadas com as das outras, e penso nelas, não doem mais — fora de vez em quando chorar pelo bullying por ser japonesa, mas isso não é coisa de machismo, não é por ser mulher.

Mas dói as histórias das outras, de tantas outras, e essa sensação de pesadelo, de como é possível a gente ter tanta consciência sobre o problema, e ao mesmo tempo tanta ignorância e descaso.

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Há algumas notícias boas pra comemorar o dia das mulheres

  • aquela que eu já postei, sobre o PSOL ter protocolado o pedido pra ampla descriminalização do aborto até 12 semanas. Sei que provavelmente não dá em nada agora, mas por algum lugar tinha que começar.
  • não participei, mas dizem que no carnaval de São Paulo vários blocos divulgavam mensagens contra assédio, que as mulheres se organizaram pra prestar atenção ao redor e se aproximar de outras mulheres que parecessem estar passando por algum problema. Dizem que um cara foi expulso de um bloco por assédio.
  • esta é mais antiga, mas também é boa: acho que foi na rede do CSGO, um jogador assediou uma garota de 15 anos, ficaram sabendo porque as mensagens dele vazaram de algum jeito, ele foi expulso, não pode jogar mais CSGO por mil anos.
  • a notícia que o Tinder vai expulsar usuários machistas e racistas. http://veja.abril.com.br/economia/tinder-diz-que-vai-varrer-porcos-machistas-do-aplicativo/

 

Dá pra combater machismo, sexismo, xenofobia. Basta a gente sempre falar que está errado, basta punir quem age assim. O mal se propaga na certeza da impunidade.

Só o que não podemos fazer é ignorar, fazer de conta que o problema não existe ou que é pífio, que há muitos problemas mais graves como a fome na Somália ou as pessoas que morrem de câncer.

Não vamos ignorar. Não vamos fazer de conta que a mulher é só a mais linda flor do jardim. Ignorar problemas graves é imoral, e os abusos que as mulheres sofrem, só por serem mulheres, são muito graves e absurdos.

Nos ajude. Não faça de conta que não existe problema.

 

A gente se fudeu de novo na Batalha pela Terra Média? – O caso do Butantan

Queridos leitores,

talvez vocês tenham visto as denúncias contra o Butantan. Este é um dos poucos casos em que conheço pessoalmente gente capaz de dar informações em primeira mão, e esse meu colega me disse que a saída de Jorge Kalil é uma grande injustiça e tragédia pro Instituto.

O Butantan era minha esperança de pequena ilha de primeiro mundo no meio do Brasil. Um lugar que estava dando certo, dando lucro, investindo em pesquisa, produzindo vacinas, próximos de conseguir a vacina pra dengue e fazendo pesquisa de zika e chikungunya. E, o que mais me move: investindo em ações a favor da natureza. O tal Observatório de Aves. Apoio ao Avistar. Projetos pra monitorar outras espécies de fauna fora as aves.

Agora vai tudo por água abaixo, ou no mínimo vai ter essa injustiça atroz de jogar na lama o nome do homem que possibilitou tudo isso.

Se puder apoiar, por favor, assine a petição, compartilhe, peça pra outros assinarem também: https://secure.avaaz.org/po/petition/Governador_Geraldo_Alckmin_Apoie_o_Prof_Kalil_no_Instituto_Butantan/?copy&utm_source=sharetools&utm_medium=copy&utm_campaign=petition-409838-Governador_Geraldo_Alckmin_Apoie_o_Prof_Kalil_no_Instituto_Butantan&utm_term=noHash%2Bpo

E aqui tem o site que funcionários do Butantan montaram pra explicar o caso e reunir informações: https://salveobutantan.wixsite.com/defendaobutantan/blog

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Fazia tempo que eu não xingava. Mas putaqueopariu, que merda. Também fazia tempo que eu não chorava de desgosto, mas agora me vejo com os olhos molhados, de raiva, de pensar como as coisas estavam indo bem e a facilidade com que os Orcs destroem tudo.

Não terminou, mas do jeito como a grande imprensa foi comprada ou manipulada pelos inimigos de Kalil, ou por quem vai lucrar com a saída de Kalil, parece irreversível. Parece que perdemos. Parece que nos fudemos de novo.

Pra mim é doído como a vitória de Trump. Eu sei que a vitória de Trump tem um âmbito muito maior. Mas emocionalmente, o que estava acontecendo no Butantan era minha esperança de instituição pública capaz de investir na natureza. Com dinheiro, poder, competência, amor.

O que vai acontecer com o trabalho deles? Não sei.

Nas minhas panfletagens no Facebook, é claro que alguém ia falar que não põe a mão no fogo.

Esta foi a minha resposta ao colega:

“Um colega me disse que as denúncias têm que ser investigadas e que ele não coloca a mão no fogo por ninguém. Claro, a justiça é para todos. Mas escrevi um pouco sobre a diferença de investigação e crucificação, e por que eu estou colocando minha mão no fogo pelo Butantan.

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Você sabe o que é manipulação da opinião pública? Esse é um tema importante porque está acontecendo o tempo inteiro em assuntos crucias para a vida de todos os cidadãos. O impeachment de Dilma aconteceu graças a essa manipulação. Eu era a favor da saída dela por vários motivos, mas também tenho a clareza de que houve um grande movimento dos meios de comunicação pra insuflar as pessoas. E que não teria havido manifestações públicas, como houve, se não fosse por essa manipulação.

Na eleição presidencial dos Estados Unidos os apoiadores de Trump conseguiram diminuir a quantidade de pessoas dispostas a votar em Hillary com uma estratégia de difundir uma série de notícias falsas nas redes sociais. E agora deu no que deu. O homem mais poderoso do planeta diz que não acredita em aquecimento global, vai acabar com os incentivos pro desenvolvimento de energia limpa e voltar a investir em energia fóssil, vai voltar a investir em arsenal atômico, e mais uma baciada de perspectivas sombrias pros Estados Unidos e pro mundo.

Eu já tinha visitado o Instituto Butantan alguns anos atrás. Era um lugar decrépito e deprimente, como a maioria dos museus e institutos no Brasil. Você sabe como é agora? Você foi lá recentemente? Você sabe o que é ter uma instituição pública que dá lucro, tem poder e prestígio, tem funcionários que se orgulham de trabalhar nela, investe em pesquisa, vai conseguir criar algo como uma vacina pra dengue, acredita na importância da ecologia, faz monitoramento de fauna?

Tudo isso aconteceu graças à gestão de Jorge Kalil. Não era assim até 2011. Antes da entrada de Kalil o Butantan tinha passado por um incêndio, por desvio de dinheiro, e também pela construção desse elefante branco que é a tal fábrica de hemoderivados de R$ 240 milhões, com tecnologia que ninguém sabe se vai mesmo funcionar, e sem ter garantia de fornecimento da matéria prima, o plasma, que não pode ser adquirido de nenhuma forma, o controle é da União, que resolveu concentrar tudo no Hemocentro em Pernambuco.

Jorge Kalil não está passando por um processo justo e honesto de investigação. Seus inimigos estão conseguindo destruir a reputação de um homem que já foi presidente da Sociedade Mundial de Imunologia e que tinha conseguido realizar um trabalho fabuloso no Butantan. Os inimigos de Kalil conseguiram fazer com que os grandes meios de comunicação fiquem divulgando a construção da fábrica de R$ 240 milhões como se fosse obra dele – o G1 diz claramente que a fábrica foi construída entre 2011 e 2014, quando na verdade foi antes de 2012, é fácil checar isso na internet. Alguns meios de comunicação, como a rádio, acho que a Jovem Pan, foi um pouco mais esperta, checou, e viu que fábrica não era obra dele, mas então a acusação é de não terminá-la e colocá-la pra funcionar. Na entrevista de Kalil pra Folha ele disse que a fábrica nunca saiu do radar deles, mas que havia negociações com o governo pra obter o plasma, e também muitas dúvidas se a tecnologia comprada iria funcionar. As reportagens dizem que pra fábrica começar a funcionar vai exigir mais algumas centenas de milhões de investimento (e pelo visto, sem certeza se vai dar certo). Kalil não priorizou isso.

A tal auditoria interna citada na imprensa aconteceu dois anos atrás. Eia. Dois anos atrás? E por que as tais irregularidades estão sendo denunciadas só agora? Coincide com a saída de André Franco Montoro da Fundação Butantan. As matérias dos principais portais dizem que Montoro pediu demissão por não concordar com o que estava acontecendo com o Butantan, e denunciou. Mas já li uma outra fonte que diz que Montoro estava pra ser demitido por seguir um caminho divergente das diretrizes da Fundação, então ele pediu demissão antes.

Na maioria das vezes a gente nem enxerga as cordas da manipulação da opinião pública, ou então não temos proximidade suficiente com o tema para conseguir investigar melhor. Mas desta vez eu tinha uma vantagem: conheço o Luciano Lima, e coloco minha mão no fogo por ele. Pela dedicação, integridade, amor à natureza, competência, por tudo que tem feito pela natureza no Brasil, desde a época da Lagoa da Turfeira.

Quando recebi o link do Guto Carvalho, do site defendaobutanta, repassei sem pensar, porque também confio no Guto. Mas antes de me envolver mais com o tema, quis ouvir do próprio Luciano. Se a saída de Kalil era mesmo uma tragédia pro Butantan. Ele disse que sim. Que todos estavam batalhando muito em manifestações, protestos, tentativas de audiência. Pra mim é o suficiente. Se alguém por quem eu coloco minha mão no fogo diz que a luta é justa, então pra mim é justa.

Talvez não dê em nada. Os inimigos de Kalil conseguiram fazer um trabalho incrível com a imprensa e a maioria das opiniões gerais que eu vejo são como a sua ou bem agressivas. É uma tristeza imensa, uma injustiça sem tamanho. Na melhor das hipóteses o substituto de Kalil vai continuar os projetos que ele iniciou e ficar com a fama. Ou talvez tudo seja interrompido. Observatório de aves, monitoramento de fauna, apoio ao Avistar? Tudo bobagem corta tudo. Vacina pra dengue? Não, a equipe de Kalil é um bando de incompetentes, era mentira que eles estavam na fase III, não conseguiram nada, não temos nada. Daí daqui a um ou dois anos algum laboratório particular diz que conseguiu, e vai ganhar bastante dinheiro com isso.

No geral eu sou pessimista. E no fundo acho que neste caso o mal venceu. Mas não é por isso que vou deixar de tentar. Vou mandar email pro Alckimin como a Lis sugeriu, vou montar um post pro Virtude, ontem fiquei umas duas horas pedindo por favor pra um monte de gente pra assinar e divulgar. E mesmo que o mal vença, pelo menos saberei que fiz minha parte na tentativa de combatê-lo. Abraços.”

Estamos realmente vivendo uma batalha pela Terra Média? – Parte 1 – realidade e ficção e realidade