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Quem não tem vida sexual devia ser proibido de opinar sobre gravidez e aborto

Virgens, celibatários, assexuados, múmias, os que praticam sexo no casamento ou no namoro por mera obrigação e qualquer outro que não consegue enxergar a gafe do “só engravida quem quer, não tenho dó de quem engravida sem querer”: vocês não têm direito de opinar.

Quem é ignorante sobre um assunto não pode falar como se soubesse, você simplesmente perde o direito de se manifestar sobre algo que você não tem conhecimento.

Tudo bem não ter vida sexual. Nem todo mundo precisa ter vida sexual. Mas a questão é: se você não tem vida sexual, você não pode opinar sobre as questões que envolvem gravidez e aborto.

Só engravida quem quer?

Bastava ter usado camisinha?

Hoje em dia há tantos métodos de se prevenir, há tantas fontes de informação, é impossível alguém que não saiba se prevenir.

Pessoas que falam esse tipo de coisa com certeza não têm vida sexual. Me dá raiva, mas até entendo que esse povo tenha zero de consideração com o outro, de imaginar a realidade de pessoas que vivem na pobreza, miséria, violência. Mas esse tipo de comentário evidencia outro fato: esse povo não transa! Quem fala que só engravida quem quer com certeza não tem vida sexual, não entende o que é desejo.

E tem outra: muitas vezes não tem nada a ver com falta de informação ou de dinheiro pra comprar uma camisinha ou pílula. Como Drauzio Varella falou, até médicas ginecologistas engravidam sem querer. Por quê? Porque é muito fácil engravidar sem querer.

Eu já coloquei esse dado e coloco de novo: pesquisa feita em 2016 com 24 mil brasileiras que tinham acabado de dar a luz. Sabem quantas planejaram ter o filho? 45%. Pra 55% foi um oops. Desses 55%, 25% queria que fosse em outro momento, e 30% não queria ter filho em nenhum momento da vida.

https://g1.globo.com/bemestar/noticia/mais-de-55-das-brasileiras-com-filhos-nao-planejaram-engravidar.ghtml

Uns dias atrás o The Guardian publicou uma reportagem contando que em mais da metade dos estados americanos não há idade mínima pra casamento. Um cara de 40 pode se casar com uma garota de 5. Sherry Johnson está lutando pra ter uma idade mínima, 18 anos. É algo pessoal. Quando Sherry tinha 11 anos ela foi estuprada por um cara de 19, e engravidou. A família achou melhor exigir o casamento, para evitar o escândalo. Bonito, não?

Quando Sherry começou a luta para criarem uma lei, ela achou que não seria difícil. Que os políticos ouviriam as histórias e imediatamente concordariam que era preciso ter uma lei que proíba situações como a dela. Mas ela descobriu que não! Uma das políticas pra quem ela expôs a situação falou que não era a favor, porque “isso não vai elevar a taxa de aborto entre adolescentes?” — afinal, mulher é receptáculo de esperma e parideira, não uma pessoa.  Não importa o que uma gravidez indesejada ou mesmo vinda de um estupro cause pra vida da garota, só o que importa é não abortar, com a graça de Deus.

No ano passado a escoteira Cassandra Levesque (17 anos) iniciou uma campanha em New Hampshire, pra que a idade mínima do casamento seja 18, e sabem o que aconteceu? Os políticos bloquearam, colocaram uma lei pra impedir que o tema seja discutido pelos próximos anos, e falaram que ela não tem idade pra discutir esses temas.

Os dados nos EUA:

“Girls who get married before 18 have a significantly higher risk of heart attacks, cancer, diabetes and strokes and a higher risk of psychiatric disorders. They are 50% more likely to drop out of high school and run a higher risk of living in poverty. They are also three times more likely to become victims of domestic violence. Really, child marriage helps no one. The only people who benefit are paedophiles.”

https://www.theguardian.com/inequality/2018/feb/06/it-put-an-end-to-my-childhood-the-hidden-scandal-of-us-child-marriage

No Brasil é bem pior. http://g1.globo.com/educacao/noticia/2015/03/no-brasil-75-das-adolescentes-que-tem-filhos-estao-fora-da-escola.html. 75% das adolescentes que engravidam param  de estudar.

Uma reportagem do G1 de dezembro de 2017 traz estes números: 1 em cada 5 bebês nascem de meninas entre 10 e 19 anos. Em algumas regiões do país é 1 em cada 3.

“São muitas as histórias de gravidez precoce na Ilha do Marajó: Shirlene Alcântara, de 15 anos, ficou grávida com 13. Ela é casada com Claudiu Guedes, de 36 anos, que não é o pai de sua filha. Thais engravidou do primeiro filho aos 11 anos. Quando estava grávida do segundo filho, descobriu que tinha sífilis, mas não vai ao médico, pois o marido, de 18 anos, tem ciúmes.”

(…)

“Raimunda Vieira é agente de saúde na ilha e tem duas filhas adolescentes. A mais velha engravidou aos 15 anos. A mais nova, de 14 anos, está grávida.”

“Meu sonho era fazer intercâmbio, estudar e falar bem inglês. Mas esse sonho já foi. Eu sinto falta da minha liberdade”, lamenta Camila. Ela está em busca de emprego, mas está difícil conseguir uma vaga: “Quando engravidei, perdi todas as oportunidades de trabalhar”.

http://g1.globo.com/profissao-reporter/noticia/2017/12/uma-em-cada-5-criancas-no-brasil-e-filha-de-meninas-entre-10-e-19-anos.html

E tem a caixa de comentários. Que dá vontade de vomitar.

Se vocês não fazem sexo, se vocês não sabem o que é desejo e tesão, vocês não podem opinar. Criatura, se você realmente não acha horrível imaginar uma menina de 10, 11, 12 anos grávida, você é uma pessoa totalmente desalmada.

Tenho nojo de pensar em gente que lê uma história sobre meninas que engravidaram aos 11 anos, e só o que conseguem falar é “os agentes de saúde dão instruções, elas são culpadas porque tiveram relação sem proteção”. Tenho nojo da sua burrice e total falta de consideração pelo ser humano. Não sei o que é pior, a burrice ou total falta de empatia, de capacidade de imaginar o que é essa situação. “Os agentes de saúde dão instruções”, claro, nossos sistema de saúde é o melhor do mundo, os agentes de saúde são incríveis, cobrem tudo. Se os seus pais não conversam sobre sexo com você quando você tem 9 anos, aparece um agente de saúde na sua casa pra te explicar como não ficar grávida, pra te implantar um diu, ou pra te dar 2.000 camisinhas, pra fazer um treinamento emocional de como controlar o desejo e nunca fazer sexo sem proteção, ou técnicas de negociação com seu estuprador, para exigir que ele use camisinha.

Argumentos idiotas: tirar emprego dos coitadinhos

De certa forma o guruzinho e a Nadia me falaram a mesma coisa. Sobre os riscos da linha de frente, dos portais de notícias. Pra alguém como eu. No baralho da Nadia era um monstro que ia me devorar. Acho que eles estão certos. Tenho conseguido me manter longe da linha de frente, mas ainda não me livrei do vício de ler notícias, com a desculpa de que é curiosidade antropológica de ver o que os nativos falam, argumentam, mas talvez seja só um vício que eu tenho que me desintoxicar. Porque eu sou uma idiota que não consegue não ficar brava com argumentos toscos (mas que muita gente cai) e que promovem o mal.

Já ouviram o argumento do emprego?

“Se você der fotos de aves pra uma revista ou um portal, você está prejudicando o emprego dos fotógrafos profissionais”. Mentira. Se eu não der fotos de aves brasileiras eles não vão comprar fotos dos profissionais brasileiros. Eles vão pegar fotos de banco de imagem gratuito e fazer reportagem sobre um canguru. As câmeras digitais aconteceram, milhões de pessoas fotografam, é ridículo querer criar um argumento moral de reserva de mercado.

“Se a fiscalização na Amazônia for mais efetiva, vai tirar o emprego de dezenas de famílias que vivem da extração da madeira” — juro, já li isso, essa nem preciso comentar.

E hoje, meu gatilho pra precisar escrever foi a notícia sobre o fim das Grid Girls na Fórmula 1. Demorou, não? E, obviamente, fui lá, me torturar em meio aos nativos, e vi vários comentários como sempre expressando aquela futilidade do cacete que é “malditas feministas, acabaram com nossa diversão”, “Pô, por que tirar o colírio pros olhos”, “parabéns, feministas, tiraram o emprego dessas meninas”.

Coitadas das Grid Girls, que agora vão morrer de fome.

Essa futilidade do cacete, essa burrice extrema, essa total cegueira em não enxergar como esses valores de Grid Girls e outros padrões deixam as pessoas malucas e promovem coisas horríveis. Como. Esses. Caras. Conseguem. Ser. Tão. Burros. Fúteis. Idiotas.

 

No uol também teve uma reportagem sobre pessoas que recuperaram a saúde mental, contando um pouco do que passaram. Uma delas é uma menina bem bonita, contando que já bebeu água do esgoto pra conseguir infecção intestinal e emagrecer mais.  Anorexia. Porque desde os 11 anos ela queria ser linda e bem magra como a atriz tal (que também foi anoréxica).

É de chorar, não? Esse é o tipo de loucura que a mídia conseguiu enfiar na cabeça das pessoas.

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Alguns lugares dos Estados Unidos estão treinando professores pra atirar em atiradores. Só neste ano já foram 11 tiroteios em escolas. Dá a ilusão de que estão fazendo alguma coisa, afinal, mudança cultural é bem difícil e leva tempo. Mas espero que um dia pessoas com poder de decisão reconheçam que não há outro caminho.

Ou você luta contra essa indústria doentia que fala que homens e mulheres precisam ter tal formato ou então são lixo, que diz que as mulheres são objetos e prêmios sexuais, que homens não podem expressar seus sentimentos, essa cultura que incentiva bullying, discriminação e humilhações…  Ou vamos continuar com tiroteios em escolas. Estupros, espancamentos e assassinatos a rodo.

https://g1.globo.com/mundo/noticia/apos-11-ataques-a-tiros-em-escolas-eua-debatem-se-professores-devem-dar-aulas-armados.ghtml

http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2018/01/1952785-garoto-mata-2-e-fere-17-no-primeiro-ataque-a-escola-dos-eua-do-ano.shtml

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Espertalhões que nunca perdem uma oportunidade de reclamar do feminismo: vocês realmente precisam ser tão fúteis e infantis todas as vezes? Vocês realmente não se importam com o fato de tantas mulheres serem estupradas, espancadas, assassinadas? Você não vê a relação do seu colírio pros zóios e a violência? Você é mesmo tão burro assim?

Se você não conhece detalhes sobre o sofrimento alheio, faça um favor pro mundo e não opine

Ninguém é obrigado a ser entendido sobre todos os assuntos. Tudo bem. Afinal, quando você não conhece um assunto e decide opinar sobre ele, provavelmente você vai falar muita besteira. Certo? Por exemplo, eu não sei nada de mecânica de carros e outros aparelhos. Sobre química. Sobre física. Matemática. Por que eu me meteria em conversas sobre o assunto. Isso faz sentido, não?

Mas daí eu vejo gente que aparentemente não sabe nada sobre o que é ser mulher, mulher comum, não estou falando da Ivanka Trump que falou que nunca foi desrespeitada por nenhum homem no trabalho, portanto, assédio não existe. Ou a Brigitte Bardot, que parece ter alcançado a fama num patamar que ela nunca precisou ter medo de estupro, e declarou que gostava quando os homens falavam elogios pra bunda dela e que as mulheres que reclamam de assédio e abusos são umas hipócritas.

Ou homens e, infelizmente, também muitas mulheres que discursam com bastante autoridade sobre o tema, reclamando das lutas feministas. Como se não existissem os 4.600 assassinatos de mulheres por ano (só no Brasil), os 49 mil estupros registrados, com estimativa de ser algo como 60 mil ou 400 mil. A violência doméstica, as mulheres que apanham de porrada todos os dias. Estupros coletivos, inclusive em lugares como o Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Estupros de crianças. Uma dificuldade excruciante pra fazer um boletim de ocorrência, mais ainda pra conseguir abortar se você tiver engravidado do estuprador.

Veja, estou falando só do Brasil, mas os abusos contra as mulheres acontecem em todos os lugares do mundo. Em vários países subdesenvolvidos vai ser comum a mulher se sujeitar a ser estuprada todos os dias por um marido, pra não ser estuprada por qualquer um da aldeia, e nos países desenvolvidos como a Inglaterra há vários relatos de violência doméstica, estupros e abusos, com os números subindo nos últimos anos. https://www.theguardian.com/society/2016/sep/05/violent-crimes-against-women-in-england-and-wales-reach-record-high. E vocês sabem que os Estados Unidos têm uma cultura de estupro. A Wikipedia traz uns números de 2012, mas é na casa de 67 mil estupros de mulheres registrados. https://en.wikipedia.org/wiki/Rape_in_the_United_States, e alguém como a Lady Gaga já foi estuprada e fez uma música e um clip bem comoventes: https://www.youtube.com/watch?v=ZmWBrN7QV6Y

Historicamente as mulheres e qualquer outra minoria sofrem muito.

Vocês sabem que até há pouco tempo atrás um marido podia matar a esposa, alegar “defesa da honra – ela estava me traindo”, e ser inocentado? Pouco no nível, poucas décadas. Na década de 1970 as mulheres faziam campanhas de “Quem ama não mata”, e ainda em 1998 houve um assassinato de uma esposa em que a defesa usou o argumento de defesa da honra. http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1209200009.htm

Qualquer minoria pasta. Algumas pastam mais do que as outras. Entre os 9 e 18 anos eu sofria bullying por ser japonesa, uma cidade do interior de São Paulo. Desconhecidos que se achavam no direito de me abordar na rua, gritar coisas que eles achavam que soava como japonês, me chamar de japoronga, andavam do meu lado puxando o canto dos próprios olhos e falando coisas que eles achavam que soava como japonês. Era bem ruim e na verdade quando penso no assunto meus olhos ainda enchem de lágrimas. Mas nunca apanhei por ser japonesa, nunca tive medo de ser assassinada só por ser japonesa. Mas um homossexual, um transgênero, um travesti, têm muitos motivos pra ter esses medos. http://g1.globo.com/profissao-reporter/noticia/2017/04/brasil-e-o-pais-que-mais-mata-travestis-e-transexuais-no-mundo-diz-pesquisa.html http://piaui.folha.uol.com.br/lupa/2017/05/17/dia-internacional-combate-homofobia-transfobia-gay/. E isso falando de assassinato. Porque se for pra falar de discriminação, piadas ofensivas, abusos, gente que reduz uma relação homossexual a sexo anal, isso é rotina pra qualquer um que não é straight.

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Você tem noção do que é ser mulher? Mulher comum, não Ivanka, não Brigitte. Mulher que tem que pegar trem, ônibus, andar a pé na rua, às vezes tarde da noite. Ter que andar com medo de que a qualquer momento pode aparecer um cara, ou um grupo de caras, com facas, armas, ou basta um soco, e além de te roubarem ainda vão te estuprar. Mulher que termina o namoro ou o casamento, o ex-não aceita, e vai na sua casa tirar satisfação, matar com facada, tiros, fogo, ácido, esganada. 43% das mortes de mulheres foi na própria casa. Você sabe o que é ser mulher e saber que você ganha menos do que seu colega, apesar de você ser tão ou mais eficiente do que ele? Ou ser mulher e ter que fazer a dupla jornada, e se você acha que cuidar da casa e dos filhos é um trabalho banal, o convite é você assumir essas tarefas durante um mês, ou talvez bastem duas semanas, e diga o que acha. Você sabe o que é ser mulher e ter que pensar mil vezes antes de sair pra viajar sozinha, ou só com uma amiga, que também é considerado viajar sozinha, e correr o risco de serem estupradas e assassinadas?

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Aparentemente desde que o ser humano existe, as mulheres são rotineiramente abusadas. E não acho que seja uma questão cultural da ideia de que a mulher é o mal, o pecado original, como Contardo Calligaris escreveu, num texto bem simpático às mulheres. Mas o fato é que locais não cristãos também abusam de mulheres e qualquer minoria.

Sair do “eu abuso porque posso e nunca sou punido por isso”, e chegar no “essa pessoa é um ser humano e merece ser tratada com respeito, não farei pra ela algo que eu não gostaria que fizessem comigo” é um longo e tortuoso caminho. A humanidade caminha devagar. E, tenha certeza, as mudanças nunca são naturais, elas não decorrem de um lampejo de consciência do abusador. As mudanças só ocorrem porque as vítimas se unem e protestam, por anos, por décadas. Assim são as mudanças culturais.

Se você está reclamando do feminismo, do #MeToo ou de qualquer outra ação pra diminuir a violência e os abusos contra as mulheres, eu pergunto:

– por que você não se importa com o sofrimento das mulheres?

– ou, caso você se importe, me conta como vamos diminuir os abusos, violência, estupros, assassinatos, diferenças de salário que não têm relação com desempenho e sim com gênero. Como as mudanças vão acontecer se não for pelo embate?

Pra você que está cansado das notícias sobre denúncias de abusos, racismo, humilhações etc

Você acha que já deu essa história de todo mundo ficar denunciando qualquer apalpada, brincadeirinha, tirar a roupa e se masturbar na sua frente, falar que é coisa de preto, mandar adolescentes transarem ou tentar transar com adolescentes e outras chatices?

Senta e chora, porque não vai parar.

Bem-vindo ao mundo real.

Se você nunca se sentiu humilhado, constrangido, ameaçado por desconhecidos ou colegas e acha que as notícias sobre as denúncias dessas situações são só uma aporrinhação sem fim, tente, apenas tente, pensar no seguinte: se é chato ler notícias, imagine como é viver a situação.

Você tem ideia do que é desconhecidos ou colegas se acharem no direito de te falar qualquer bosta, te xingar, pegar no seu corpo, ou colocar o pau pra fora e bater punheta na sua frente — só porque eles sabem que não há punição pra isso, e eles podem fazer o que quiserem?

Tenta imaginar o que é ser negro e ser tratado com desconfiança ou desprezo em várias situações, não importa o que você faz. Tenta imaginar o que é não ser heterossexual e ter pessoas que xingam, espancam e às vezes matam só porque você não pensa como elas. No caso das lésbicas, já ouviram falar da cura? Mulheres estupradas sob o argumento de que vão “curá-las” e elas vão se tornar hetero?

Tenta imaginar o que é ser criança e depois adolescente, ter feições orientais e ficar tensa todas as vezes que você vai passar por homens ou garotos, a espera do momento em que eles vão te seguir andando do seu lado, puxando o canto dos próprios olhos e falando coisas que eles acham que soa como chinês, ou passam por você e gritam “banzai!”, “japoronga”, “japonês gosta de arroz, néeeeee”, ou as coisas como “gostosa”, “tesão”, e os sibilos e olhares nojentos. Eu menstruei com menos de 11 anos, aos 12 já tinha seios e tinha que lidar com essas situações todos os dias na volta da escola.

Faz mais de 20 anos que moro em São Paulo, onde ninguém mexe com você por ser oriental, e é raro mexerem com mulheres usando roupas comuns. Mas foram muitos anos pra parar de ficar tensa quando tenho que passar por homens na mesma calçada, e meu cérebro desenvolveu algo que talvez eu nunca perca: uma incapacidade de reparar no rosto das pessoas quando estou andando em lugares públicos. Eu sentia tanta raiva e vergonha, não queria ficar com o rosto daqueles homens na memória, então andava nas ruas como se essas pessoas não existissem, olhando pros carros, árvores, casas — mas nunca pra rostos. Até hoje sou capaz de passar do lado de um amigo meu, e se ele não falar comigo não o verei.

Pensar nessas coisas ainda dói, ainda trazem lágrimas. Parece que é coisa do passado, mas vi que não é, aquela história de dois anos atrás quando o condutor do nosso bote de rafting fez uma piada sobre japonês ser tudo igual, e eu fiquei triste na hora, e depois chorei várias vezes em casa e ainda choro agora. E isso é só um bullying leve. Tente pensar no que os negros e gays passam, todos os dias. Tente pensar no que as mulheres passam, todos os dias.

E o Rodeio das Gordas, sabe o que foi? Unesp de Araraquara, em 2010: “no ‘rodeio das gordas’ os alunos se aproximavam das garotas fazendo perguntas, como se fossem paquerá-las. Depois, agarravam as garotas, de preferência obesas, e tentavam ficar sobre elas o máximo de tempo possível, como se estivessem em um rodeio. Ao menos 50 estudantes participaram do ‘jogo’.” http://g1.globo.com/sp/sao-carlos-regiao/noticia/2013/05/envolvido-em-rodeio-das-gordas-tera-que-desembolsar-30-salarios-minimos.html

Bom exemplo do que o ser humano pode fazer quando acha que tudo que importa são os risos e a diversão (dos abusadores).

Se você é do tipo que fala “ah, esse assunto já deu”, tente imaginar ter uma filha, que corre o risco de ser abusada ou estuprada numa festa, na escola, pelo chefe, por um desconhecido. Ou xingada e humilhada se ela não estiver dentro de um padrão estético. Ou assassinada por um ex-namorado ou um garoto com uma paixão doentia e não correspondida.

Tratar os outros como coisas e não como pessoas cria tentáculos malignos, que vão além muito além da chacota e humilhação verbal.

Talvez um dia os abusadores parem de abusar porque entendem que estão machucando o outro. Mas por enquanto, que eles parem de abusar por medo de serem punidos.

 

Pra quem me vê como networking, digo isto:

Vá pra putaqueopariu.

E nem é um xingamento ardente, como foram as imprecações contra os atropeladores de esquilinhos. É só essa vontade fria e racional de falar vai se foder, me esquece.

Não se puxa conversa com um misantropo pra falar oi, eu existo, lembre de mim, somos amigos, tá?

Só me procure se você realmente tiver algo pra falar, ou se você sinceramente quer saber como eu estou.

Toda as vezes que você entra em contato pra falar um oi sem conteúdo você cai 10 andares, e descobrimos que esse edifício se estende pro subsolo por quilômetros.

Por que alguém fala oi se não tem nada pra dizer ou perguntar, se não se importa com você, se não gosta de você? Eu não sou networking, e mesmo que fosse, vocês são péssimos em social de networking, até minha vó faria muito melhor.

Bichos pra atropelar e nomes que não importam

Tínhamos acabado de sair de uma das estradas de terra e entrado no asfalto. Passei reto pela entrada pro buraco d´água, o Cris e o Daniel pediram pra eu voltar, talvez porque repararam que havia muitos carros virando pra lá. Olhando agora no mapa, como era na região de Lower Sabie, bem perto de uma bifurcação de estrada de terra e asfalto acho que era Mpemane. Perto da entrada pra Mpemane vi um African Ground Squirrel no asfalto, em pezinho, com aquela pose de patas dianteiras unidas como se rezasse. (A foto da abertura é de um African Ground Squirrel, mas não este que descrevi. A foto acima foi feita no Augrabies NP). É comum os bichos ficarem no asfalto, mas a verdade é que em sete visitas ao Kruger, nunca vimos um bicho atropelado.

Chegando perto do buraco d´água de Mpemane topamos com um show de horrores. Mais de 15 carros em volta de três rinocerontes que mexiam a cabeça e batiam a pata da frente, alguns carros estavam a menos de 15 metros deles. Daria uma boa foto de “o que não fazer”, mas eu estava com tanto desgosto que só manobrei o carro pra ir embora, e mais carros continuavam chegando.

O Daniel tinha se cadastrado numa lista de WhatsApp que compartilhava avistamentos no parque, mas proibia informações sobre rinocerontes. Não sei se vocês sabem que rinocerontes são mortos com frequência porque há um mercado de filhos da puta que acreditam que pó de chifre de rinoceronte é milagroso. Mas a quantidade de carros chegando em Mpemane parecia indicar que havia outros canais de comunicação, que alguém tinha divulgado os rinos, lembro bem da Range Rover em alta velocidade, talvez a 70, quando o limite é 50km/h.

Chegando de volta à estrada de asfalto, vejo o African Ground Squirrel deitado de barriga pra cima, morto. Ele é um bicho pequeno, de cor discreta, um pequeno bege sobre o asfalto cinza é fácil não ver. Mas putaqueopariucaralhoporra, você está num Parque Nacional, que tem limite de 50km/h no asfalto e 40km/h na terra, você tem que andar prestando muita atenção. Era fácil não ver o esquilo, mas era impossível não vê-lo se você está prestando atenção pra não atropelar nada, pra reparar que aquela bolota lá na frente é um pequeno cágado e não um cocô de elefante, que a mancha bege é um esquilo e não um torrão de terra.

Penso na Range Rover por puro preconceito, só porque não gosto do design do carro, mas podia ser qualquer um dos idiotas que foi pra Mpamane em alta velocidade, animados com a ideia de três rinocerontes bem de perto.

Fiquei tão brava que o Cris mandou eu parar o carro pra gente poder se abraçar e eu chorar.

É por coisas como essas que escolho as regiões com menos bichos, mas menos gente. Como disse o Cris “A Claudia prefere não ver o leopardo a ter que aguentar 10 carros em volta”. Misantropia na veia.

Mas ainda não tinha acabado.

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Sei que era porque eu estava cansada. A volta de Joanesburgo pra São Paulo é um voo de 10h50, que virou 12h30 por alguma desinteligência da Latam. Perto de pousar em São Paulo o avião chacoalhou e eu enjoei. Não de precisar vomitar, mas de ter que andar me sentindo mal. Enquanto esperávamos nossas malas aparecerem na esteira uma mulher com sotaque carioca estava contando sobre a onça que eles viram. Na quarta vez que ela falou onça eu não aguentei, avisei o Cris e o Daniel, peguei meu carrinho e fui pra um canto em que não dava mais pra ouvir a voz dela.

Não há onças na África do Sul. Há leões, leopardos, guepardos, gatos selvagens, genet, servais, caracais. Mas não tem onça. Não tem onça. Não tem onça! Moça, como é que você pode não se importa em saber o nome do animal magnífico que estava na sua frente?

Pra tentar me acalmar eu ficava pensando que as áreas naturais precisam dos muggles, que eles injetam dinheiro na economia mais do que a gente, que eles compram passeios, compram souvenirs que os parques precisam dessas pessoas, que os parques não sobreviveriam se dependessem só de gente como a gente porque não fazemos volume.

Mas foi revoltante e doeu.

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A semana no Kruger também teve muitos momentos bons e fotos lindas. Mas por enquanto é isso. Um grande putaqueopariuqueraivadequematropelanimais, e o desgosto por pessoas que não se importam com nomes.

 

Pelo menos o céu eles não podem taxar e controlar

Na verdade, se junto com o céu estivesse alguma formação icônica de um parque, a foto não é mais totalmente sua.

Nesses dias em que voltei a me envolver com a comunidade dos birdwatchers conversei com algumas pessoas que já foram proibidas de fotografar num parque — e nunca mais voltaram. Alguns me falaram de problemas no parque tal, conversamos mais, ela me fala “mas deixa eu checar como está agora, porque já faz um tempo que eu fui”.

Eu sei como é.

É como minha relação com o Horto de Campos do Jordão. Depois que me proibiram de fotografar, em 2009,  não tive mais interesse em voltar. Nesses 8 anos voltei lá três vezes — e olha que vou várias vezes por ano pra Campos. Oito anos em que eu poderia ter feito vários registros dentro do parque e compartilhado as fotos com a administração, feito divulgação do lugar.

Faz mais de 10 anos que as câmeras digitais são populares no Brasil. São 10 anos em que dezenas de milhares de pessoas poderiam ter fotografado com alegria e dedicação as Unidades de Conservação brasileiras. Pra registrar, fiscalizar, promover, proteger.  Mas em vez de criar esse vínculo com a população, o que nossas autarquias fizeram nesses 10 anos? “Tem autorização para fotografar?”

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Em março de 2016 foi publicada a portaria estadual 236, que descriminalizou o porte de câmera grande. No fim de semana passado fui ao Horto, almoçar no restaurante D. Chica, e aproveitei pra fazer mais um experimento — de andar com a câmera à mostra. Nenhum problema. Em vez de seguranças dizendo que é proibido fotografar, havia funcionários com camisetas do parque, com aquele jeito de gente pra quem você pode pedir informação, você olha pra pessoa e fala bom dia.

As fotos deste post foram feitas em Wenceslau Braz – MG, logo depois da divisa com Campos do Jordão. Tudo numa manhã só.

Ainda que não seja mais proibido fotografar nas UCs da Fundação Florestal, confesso que foi uma alegria grande pegar esse nascer do sol maravilhoso sabendo que eu tinha acabado de sair do parque e que as fotos eram só minhas. Como falei no outro post, eu, e provavelmente outras pessoas, podendo escolher sempre vamos pra beira de estrada fora do parque. Mesmo sendo altamente improvável fazer algo comercial com a foto, ninguém quer se sentir amarrado.

A portaria que descriminaliza o birdwatching nas UCs da Fundação Florestal foi um grande passo, mas queremos mais. Não basta sermos apenas tolerados, queremos o fim do controle sobre as fotos, da política que tolhe iniciativas, que castra nossa vontade de registrar e divulgar as Unidades de Conservação.

Precisamos de uma mudança de cultura. Chega de gestor que acha que cidadão precisa pedir autorização pra tudo. Gestores: buscar controle total é um erro. Tratem as pessoas como gente, como seres humanos. Incentivem alianças, iniciativa e criatividade. Burocracia e controle é o caminho errado, é o caminho que vocês seguiram até hoje, e veja aonde levou.

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Saio de férias amanhã, não sei se consigo blogar durante a viagem. Se não conseguir, volto no início de agosto.