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Consciência e aparência são apenas a casquinha

Entre os vários assuntos de que sei muito pouco, psicologia é um deles. Mas por menos que eu saiba, tem uma coisa importante que eu sei, e vejo muita gente se expressar como se isso não fosse um fato: o que você acha que você é, seus pensamentos, suas decisões, tudo isso é apenas a casquinha. Aquilo sobre o qual temos controle é só a superfície do que somos. Todas as pessoas são muito mais profundas e complexas do que a aparência, inclusive nós mesmos.

Conheço pessoas que tiveram ou têm depressão, TOC, TDAH, surtos psicóticos, transtorno bipolar, síndromes do pânico, etc. Algumas delas bem próximas. Uma não é exatamente diagnosticada, mas está proibida de dirigir porque anda tão perdida nas divagações que quase bateu o carro das últimas vezes que saiu. Minha família tem suicidas pela parte da mãe e do pai.

Todas as pessoas, por mais insossas que pareçam ser, na verdade são profundas e complexas. Na hora de lidar no dia a dia agimos e vemos os outros agirem de uma forma sociável, previsível, dentro de regras culturais. Mas isso é apenas o exterior. Se você para por um instante para realmente pensar ou se comunicar com uma pessoa, falar sobre suas motivações, ou o que a levou a fazer algo incompreensível, é um erro grosseiro não partir do princípio de que todos somos muito mais do que parecemos ser.

E nesse momento de trégua, em que nos permitimos pensar no outro como um ser humano profundo e complexo, é realmente possível não sentir compaixão, não vermos no outro as falhas, angústias e fraquezas que também fazem parte de nós?

A não ser que a gente saiba muito pouco sobre nós mesmos, e sejamos realmente anta a ponto de não reconhecer que nós também temos nossos defeitos, fraquezas, mesquinharias. Nunca saberemos tudo sobre nós ou os outros, mas é imprescindível saber o mínimo sobre si: do que e de quem você gosta, e se há um padrão, o mesmo para as coisas ou pessoas de que você não gosta, do que você tem medo, o que você quer para o seu futuro, quando você machuca as pessoas, quando e como você se sabota – e coisas do tipo.

Dentro dos limites da superficialidade de uma casquinha, você tem na ponta da língua quem é você, quais são as coisas e pessoas mais importantes, o que te move e instiga, o que te deixa furioso, o que você quer mudar em você ou na sua vida, onde você estará em 2, 5, 10, 20 anos?

O quanto é possível mudar depois dos 20?

Veja bem, não estou falando do quanto é possível engordar, enrugar, encolher, envelhecer, apodrecer. Estava pensando o quanto muda da nossa essência aos 20, 30, 40, 50…

Tenho 37 anos, mas em muitos momentos ainda me sinto a garota que meu melhor amigo, que conheci na faculdade, definiu assim quando a gente tinha 20 anos: “não sei o que conversar com você. Com os outros posso falar de notícias de jornal, livros, filmes, mas com você, parece que o certo é falar da cor do céu, o formato das nuvens”. E assim sou eu. Analfabeta televisa, uma das pessoas com menor cultura geral que se tem notícia tanto das atualidades, como para tratar dos temas sociáveis. Tão autista no meu universo de coisas e pessoas queridas, escolhendo com tanto cuidado como vou passar meus minutos nessa bolota azul. Mas que presta muita atenção em quem ousa falar da cor do céu e do formato das nuvens.

Como alguém pode estar tão certo sobre nós?

O Cris tem um presente que ganhou de dois dos melhores amigos, quando ele tinha 20 anos. São frases, como um poema, que falam quem ele é. Pirografadas (adoro todas as palavras com piro) numa tábua que empenou com o tempo, uma escultura feita de arame que é a silhueta dele. Sempre olho para esse presente e me admira como elas podem falar tanto dele.

Li pedaços da Zona do Desconforto, do Franzen, que a Nadiajda me emprestou. Em um dos momentos ele diz que tem 45 anos, mas em vários momentos age como se tivesse 17.

Algo ouvido ao acaso no Criminal Minds, sobre os grandes gênios terem criado suas grandes obras antes dos 25 anos.

Talvez. Talvez aos 20 e poucos anos, e quem sabe antes até, já esteja tudo lá. Toda a essência. Não é que somos imutáveis, mas talvez realmente exista uma essência, e é ela que nossos melhores amigos, nossos amores, e outras pessoas muito especiais são capazes de enxergar, mesmo que essa essência esteja soterrada, sufocada, desfigurada.

Tantas vezes, quantos anos para conseguir se livrar desse entulho. Tanto trabalho, dor, dinheiro com terapeuta, tudo para conseguirmos ser nós mesmos, apenas para sermos nós, e não o que nossos pais tentaram forçar, ou o que nós achamos que deveríamos ser para sermos aceitos e queridos pelos outros.

Platônico e reconfortante.