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Acho que estamos na alegria do pós-guerra

Hoje falei com mais pessoas que não via e não tinha notícias há 20 anos. Dessa vez é o grupo dos filhos de maçons, a APJ (Ação Paramaçônica Juvenil).

Comentei que deve ser conjuntura astral essa história de gente que não se via há tanto tempo voltando a se encontrar. Sei de vários outros grupos, parentes, maridos, esposas, que também estão reencontrando colegas de turmas.

Talvez haja alguma influência dos astros, mas também há outro bom motivo: clima de pós-guerra.

Vivemos em crise econômica há anos. Travamos enormes batalhas públicas, nas redes sociais, nas ruas. E aqui estamos. Ainda em crise, mas com uma pequena esperança de que estejamos saindo do fundo do poço, em direção ascendente. E no terreno político, a lista do fim do mundo também traz uma esperança de mudança.

Engraçado que não importa o que aconteça, conheço muita gente que continua falando “isso não vai dar em nada”. Manifestações de 2013 “isso não vai dar em nada”. Manifestações pró-impeachment “isso não vai dar em nada”. Lava Jato “isso não vai dar em nada”. Delações “isso não vai dar em nada”.

As pessoas realmente não conseguem enxergar que está dando?? Não vai resolver o país inteiro de uma vez, instantaneamente, vai continuar tendo muita corrupção e absurdos? Claro que sim, é claro que nenhuma mudança desse porte pode ser feita num passe de mágica (mágica no mau sentido, não o outro que eu tenho usado).

Mas está dando em alguma coisa, alguma coisa está acontecendo. E as gravações públicas e oficiais de coisas que há anos ouvíamos histórias do tipo, e que intuíamos ser a verdade, isso também dá alento.

Se você se pegar estranhamente alegre, estranhamente otimista, estranhamente com vontade de fazer coisas novas, ou rever gente que você não vê há muito tempo e gostaria de saber como estão essas pessoas, não se freie, não se pode. Aproveite o clima. Todo mundo tem o direito de sentir que o pior já passou e que há esperança pro Brasil.

 

Sigo o caminho que não é caminho

Ainda não encontrei doutrina, religião, filosofia ou guru que eu possa aceitar sem ressalvas. Nunca encontrei nada que eu lesse ou ouvisse sem sentir vários pontos de discordância e questionamento. Eu sou a autoridade para decidir o que são as minhas verdades, e várias delas não têm o selinho de qualidade de uma doutrina com milhares ou milhões de seguidores: tem sido cada vez mais comum elas serem fragmentos encontrados em obras de ficção. Uma frase ou uma ideia que eu leio ou ouço e penso “E se?”, ou “Concordo com isso”.

Fui checar a citação do Campbell:

“Encontre a paixão da sua vida e siga-a, siga o caminho que não é caminho.”

E a encontrei num blog com vários conteúdos interessantes, talvez a leitura lhe interesse:

http://dharmalog.com/2015/11/24/verdade-caminho-jeff-foster-krishnamurti-cambpell-iluminacao/

No post há uma outra citação boa do Campbell:

“Se o caminho à sua frente está claro,
você provavelmente está no (caminho) de outra pessoa”.

E este texto de Jeff Foster:

Não há um caminho fixo para a iluminação. A iluminação não é um destino, um objetivo, um lugar de descanso ao final de uma longa jornada (…)

Significa que ninguém pode lhe dizer o “caminho” certo para você. Significa que você não pode dar errado, mesmo que você pense que você errou. Significa que nada que aconteça pode jamais te tirar do caminho, porque o caminho é o que quer que aconteça, sem exceção.

 

Essas frases vão ao encontro dos sentimentos e divagações de hoje.

Acreditamos mais facilmente naquilo que gostaríamos que fosse verdade e, mais uma vez, renovo minha fé de que tudo bem não se sentir pertencendo a nada, por não ter clareza do caminho.

Neste momento o caminho parece ser algo que entremeia a fotografia de natureza, a magia aplicada, encantamentos sobre as fotos, ou pode apenas chamar de busca pela arte, pela competência profissional de ser capaz de fazer uma pessoa prestar atenção na natureza com uma imagem (me parece um ótimo encantamento), mas não para ir pro mundo de “uau, que incrível, eu também quero esse lifer, também quero uma foto assim”. Já consegui alguns comentários do tipo “suas fotos são pura poesia”, “essas fotos me fazem sentir o gosto de água salgada”. O portal. Buscar imagens que sejam um portal, e a consciência de que qualquer um pode ir pra esse mundo tão cheio de belezas.

O caminho talvez envolva trabalhos com o Cris, que passou tanto tempo se sentindo perdido, e agora parece que vai se encontrando. Uma parte disso parece vir de conversas com um amigo que comprou ensinamentos do Gabriel Goffi, e agora o Cris se diverte em me falar coisas que eu acredito ou prático há anos, como se fosse uma novidade. Sobre ser protagonista da sua vida. Sobre acordar cedo, ter um propósito, disciplina, dedicação. “O Gabriel Goffi fala tudo que você fala”, “Filho da puta. Mas agora que você ouve dele, é diferente, não? Santo de casa não faz milagre”. Cris fala até de divulgação no Instagram, e que eu preciso ter uma conta no Instagram, mas minha alma misantropa murcha um pouco com a ideia de mais uma rede social.

Mas quem sabe? Há ideias pairando, incluindo talvez um super-site de fotos, com as nossas fotos e talvez as de outros que também queiram circular suas imagens com arte, curadoria, e a favor da natureza.

Nada está claro. Mas quem precisa de clareza?

Eu quero algo que não tem nome

Mãe (Terra) e Mestre (Choa) e parças da Máfia do Invisível, eu quero algo que não tem nome e nem sei se é certo querer isso, se posso querer isso.

Não há angústia e a ansiedade parece limitada a níveis mínimos de refresh em algumas páginas, mas sendo capaz de tocar outros trabalhos.

A chegada do outono pode favorecer esses sentimentos, eu sei. Reflexões, introspecção, suicídio, mas pra mim não é sombrio, nem relacionado com a morte, é só o reconhecimento de que eu quero algo que não tem nome.

Fico olhando pra forma como as outras pessoas se relacionam, se expõem, conversam, se expressam, o que elas consideram de valor ou não, e sei que não é pra mim.

Na forma simplista de comparar o que as pessoas consideram boas fotos de natureza, o que eu vejo é que eu não me encontro com eles, o que os impressiona não me impressiona e vice-versa. Eles devem achar meus gostos chinfrim, sem graça. Eu olho os deles e parece tudo gasto, já vi isso, isso é tão igual a outras imagens, é tudo tão pasteurizado.

Abri mão dos meus amigos. Ou melhor, decidi que não quero mais ser sempre eu que estou atrás das pessoas, convidando, sendo gentil. Quem quer, quer, quem não quer, não me importa (foda-se é mais engraçado, mas menos exato).

Me sinto dando o passo de fé do Indi. E sem medo, sem pavor, há tanta tranquilidade aqui dentro. Me sinto me desvencilhando de tantas amarras e conexões seguras, antigas, tradicionais, garantidas, boas até, com vários aspectos bons e compensatórios, mas que ainda assim não são o que eu quero.

Quero algo que não tem nome.

Blogando na vida real – o que fazer numa situação de luto?

Neste fim de semana fui ver minha amiga cujo irmão morreu de infarto, com menos de 40 anos. Ela, a mãe e o irmão moravam juntos desde sempre. Ela foi minha professora de matemática no colégio. Queridíssima, engraçadíssima, tão generosa. Nós éramos a primeira turma de Processamento de Dados num colégio técnico da Unicamp. Você entrava por um Vestibulinho. Nosso curso foi o mais concorrido. Além de Processamento de Dados, vulgo PD, o colégio também tinha Agrimensura, Enfermagem, Mecânica. Os professores dos outros cursos zoavam a gente, especialmente mecânica. Tinha professor que falava pra classe “não se preocupem com essas meninas do PD. Vocês vão se formar, e elas vão ser as secretárias de vocês”. Juro.

A Rosa era uma das professoras que defendia nosso curso e a gente. Pensando bem, havia um potencial pra um ambiente bem hostil. Curso novo, concorrido, gente nerd com nota alta no Vestibulinho, muitas pessoas que eram as melhores das suas classes no ensino médio. Poderíamos ter sido beeem trolados. Acho que a gente não foi discriminado mais ostensivamente por causa de professores como a Rosa.

O irmão da Rosa morreu 15 dias atrás. De repente. Assim. De um dia estar tudo bem, e no outro encontrar a pessoa morta no quarto.

Soube porque uma das pessoas da minha classe de PD avisou no grupo do WhatsApp. Estava em Tavares. Não consegui ir pra missa. Queria ter ido vê-la assim que voltei de viagem, mas ela não respondia mensagem, depois apareceu o rolo com o meu aluguel, deixei para o fim de semana. Fiquei nove horas com elas, rendeu uns diálogos engraçados, porque a mãe da Rosa é uma senhora de 78 anos sem papas na língua, imagina o que ela falou quando eu contei que não quero ter filhos, ou que não ganho salário. Depois conto.

 

A blogagem na vida real foi fazer relato da visita pro grupo do WhatsApp das pessoas que estudaram comigo no colegial, para incentivá-las a visitar a Rosa. Acho que fui a primeira da turma a ir visitá-la.

Um dos meus amigos (por sinal um que era bem querido, que muita gente achava que a gente podia namorar, que tinha uma letra tão parecida com a minha que na hora de devolver as provas, as pessoas só olhavam a letra e erravam, trocavam as provas minhas com as dele) agradeceu o relato, falou que se sentiu desafiado e motivado a visitar a Rosa. Outros amigos queridos me explicaram que acham que não vão, porque é preciso respeitar o tempo de luto, que não sabem o que falar, que a Rosa não demonstrou abertura.

Falei que não vou ficar enchendo o saco deles, mas que eu tenho certeza de que num momento como esse é bom você sentir que tem amigos queridos que se preocupam com você. Que a impressão de não-abertura é só porque ela ligou o foda-se pra internet, mas que se você ligar ela responde com gentileza e o carinho de sempre. Que cada visita faz bem pra elas, especialmente no fim do dia, quando o vazio pesa mais.

Está rolando alguma réplica, apitou no celular mas não vou ver por enquanto, talvez nem responda, meu objetivo não é aporrinhar a vida dos meus amigos do colégio.

 

Queria principalmente explicar isso: o que fazer numa situação de luto?

Se faça presente. Mostre que você se importa. O que você vai falar? Talvez nada, talvez só ouvir, só dar um abraço. O clima não é muito pesado? Talvez seja.

Mas e se fosse com você? Seria melhor enfrentar tudo isso sozinho, ou tendo alguém do seu lado?

Clau, que eu sei que lê de vez em quando, quando a Bianca morreu fiquei pensando se devia ir… lamento não ter ido. Devia ter ido. Fiquei pensando se seria muita intromissão na dor da família, e a gente ainda nem se conhece ao vivo. Mas eu devia ter ido de qualquer forma, mesmo que fosse só pra dar um abraço. Só agora tenho clareza disso.

Meus amigos estão falando que não sabem o que falar, o que fazer, que não sabem como lidar com o clima fúnebre, que preferiam estar numa situação em que pudessem beber e falar coisas alegres.

Bom, quem não quer?

Mas putaqueopariu, ser amigo só serve pros momentos bons? Quando você está na merda a gente alega respeito e se mantém afastado? É respeito ou é medo de se sentir incapaz, de não saber lidar com uma situação inusitada?

Claro que não vou falar isso pra eles. Falei que não vou ficar enchendo, que só queria contar que ela ficaria muito feliz com a visita de cada um.

Mas aqui no meu cantinho misantropo, posso falar com orgulho misantropo. Que eu sou misantropa mas tento ser honrada. E quantitativamente posso conviver pouco com outros, mas me considero num nível de perspicácia e inteligência emocional acima de tanta gente que olha pras pessoas mas não consegue enxergar ninguém.

Reflexões sobre a felicidade e o luto

Ainda pensando na morte do Edmar. Pensando se uma psicopata como a do último episódio do Criminal Minds (o original, não o Beyond Borders, pelo amor, que seriado ruim), se ela poderia olhar pra mim e ver meu pesar. Sempre sonho com essas coisas. Gente muito inteligente e perspicaz, capaz de ver você. Mas que sejam humanos ao mesmo tempo. Não do tipo que aproveita a perspicácia pra conseguir sexo fácil (história muita antiga, Cris, don’t worry).

A morte do Edmar me deixou triste, triste, triste de chorar até agora. Uma mistura de coisas. Por ele ser mais novo que eu. Pela relação com a Rosa. Por pensar que poderia ser comigo? Talvez. Mas principalmente por lembrar do riso alegre dele, e de como tudo parecia tão bem encaminhado na vida dele. INJUSTIÇA filhadaputa. Se houvesse algum sentido no mundo. Mas não. Não há.

Na segunda-feira encontrei os brancos. A Juliana e o Luccas. A Juliana falou de um primo do marido, que teve infarto fulminante aos 50. E ontem apareceu a notícia do filho do Maurício de Souza, provavelmente infarto também. Aos 44. Putaqueopariu.

 

E apesar de ainda sentir o luto pela morte do Edmar, de me sentir triste das lágrimas escorrerem, ao mesmo tempo é a felicidade. Felicidade, orgulho, satisfação. Poder pensar na minha família, na minha rotina, nas viagens, no jeito como o Daniel vai crescendo como um garoto bondoso, responsável, ponderado. Sentindo orgulho pelas nossas escolhas de vida.

E sair pra jantar com o Cris. Jantar com entrada, vinho, prato principal, sobremesa, risos. Tudo isso misturado com a sombra da morte. Eu dou risada com ele e não deixo de pensar no quanto a vida é efêmera, lembro da minha amiga indiana, a querida Aditi. Uma moça que conheci porque ela viu algum dos meus inúmeros blogs, me mandou um email “oi, vi seu blog sobre birdwatching, sou uma indiana que se mudou há pouco tempo pra São Paulo, será que a gente poderia se encontrar pra fazer algum passeio juntas?”. Fofura. E fomos, pra inesquecível Guainumbi. E uma das coisas que ela me contou foi sobre o cunhado dela, um velejador que amava a vida, que amava velejar, que estava sempre muito feliz. E morreu atropelado na Paulista quando andava de bicicleta.

Também penso na queridíssima Claudia Covolan, que enfrentou a dor de perder uma enteada-filha num acidente de carro. Me contou que estava com o marido, vendo uma noite estrelada, e de repente chegou a notícia. E se pergunta se um dia vai conseguir ver um céu estrelado sem doer.

Então estou lá num restaurante bonito tomando vinho com o homem que é o amor da minha vida, e rindo por alguma bobagem qualquer, mas ao mesmo tempo sentindo o luto, e o luto não é só uma tristeza, é também uma celebração da vida. De cada segundo bom que temos na companhia das pessoas amadas.

Se o luto não vai pro lado da amargura – o que pra mim é bem mais fácil, já que não era meu irmão, não era meu filho, não era o meu noivo – se o luto não cai pro lado da amargura, ele tem um lado que é o de tornar a vida e os momentos felizes mais valiosos ainda.

Dourados.

Como a luz de fim de tarde, como algo brilhando contra o sol. Incrivelmente bonito. E você sabe que um dia acaba, uma hora acaba, num segundo pode acabar. Mas ficar pensando no fim é morrer louca, e tudo que a gente deve fazer é aproveitar cada segundo da felicidade.

Edmar, como você faz falta. Bianca, como você faz falta. Cunhado da Aditi, que eu não sabia o nome, como você faz falta. Shiba, primo da Lara, namorado da Cássia, que um dia eu vi num ônibus de uma excursão, rindo com tanta gente, e num outro soube que te acharam morto na estrada, ao lado da moto, talvez fechado por um carro, como você faz falta. Mazé, empregada da minha sogra, que morreu assassinada pelo marido, como você faz falta. Pai da Mariana da APJ, a garota com os olhos mais incríveis que já vi, você que estava correndo numa pista de cooper e de repente teve um infarto. Tinha 40 anos – como você faz falta. Meu tio Ki que viveu dois anos emparedado na pior prisão do mundo, e que poderia ter feito tantas viagens com meu pai, como você faz falta. Ditchan e Batchan, que tinham idade e várias doenças da idade, mas que eu nunca achei que fossem morrer, como vocês me fazem falta. Paulão, quando nos conhecemos você já parecia ser um homem velho, mas mesmo assim saber da sua morte foi uma tristeza. Ainda hoje tenho sua voz falando pra classe “sempre dê razão para as mocinhas”. Carlos Avighi, nosso professor mais erudito da Editoração, que falava sobre os livros eróticos com tanta alegria com o Luiz e o Marcelo, você também faz falta. Marido da Rosemarí, que falava pra ela “Rosenha, eu vou ficar bom, eu vou sarar e aí a gente vai viajar pra onde você quiser” – não consigo lembrar dessa história sem ficar com os olhos molhados – como você faz falta. Padrinho da Taty, que amava tanto a vida e era zoeira como os Ferlin são, como você faz falta. Aka, mãe da Matiana, quando você estava doente a Matiana dizia que se você morresse ela morreria também – como você faz falta. Batchan da Nathalia, como você faz falta. Pai do Murilo, de quem não sei nada, mas deve ser avassalador perder o pai ainda criança, como você faz falta. Vó da Maria Gabriela, que eu tive a honra e a triste missão de receber um telefonema da família, sua filha, imagino, que me chamou e pediu pra eu contar pra Maria que você tinha falecido, e eu fui lá, tremendo por dentro, pensando na morte dos meus avós, mas também me sentindo honrada, como você faz falta.

Tantas pessoas que se foram, e que fazem tanta falta.

Mas vocês eram pessoas tão boas, tão brilhantes, que mesmo a ausência de vocês é capaz de trazer coisas boas.

Edmar, hoje fiz um brinde pra você. E pelos outros.

Esteja bem, onde você estiver.

O absurdo da morte

eu estou em férias, então não deveria estar aqui. mas.

só precisava.

um pouco.

durante o dia podemos falar e depois mudar de assunto pra não ficar com aquela cara de cemitério, ainda que seja esse o caso. Mas quando chega de noite, a consternação volta.

Que pessoas com bastante idade, ou com doenças graves morram, a gente entende. É doído, bem doído, mas faz um pouco de sentido. A idade um pouco mais, as doenças menos, ainda mais quando é com alguém jovem, mas ainda assim você sabe que existem doenças graves.

Mas e quando pessoas jovens e que pareciam não ter doença nenhuma morrem de repente? Acidente de carro. Raio. Infarto fulminante. Assassinato.

Quando fico sabendo que tal pessoa morreu, alguém com quem conversei, que olhei nos olhos, ri com a pessoa… fico tentando relembrar cada detalhe do último encontro e por mais que procure, nunca consigo encontrar um indício de que ela ia morrer.

que sorte a minha. Dizem que há gente que consegue ver essas coisas. Deve ser horrível. Felizmente não é o meu caso. Penso nas pessoas que conheci e que morreram de forma tão inesperada, e sei que não havia nada, nada nada nada, que indicasse isso.

é só a loucura de pensar que nunca mais verei aquela pessoa.

Nunca perdi alguém próximo desse jeito absurdo. Minhas piores perdas foram dos meus avós, e eles eram dois velhinhos com doenças crônicas.

Mas ontem morreu um rapaz que não era meu amigo, ele era irmão de uma amiga querida, e da última vez que a vi fiquei um tempo papeando com ele, e ele estava tão bem, tão feliz, tudo dando tão certo que parece sadismo divino. Parece que é só pra aumentar o absurdo de um infarto fulminante em alguém com menos de 40 anos.

Edmar, não éramos amigos. Mas estou aqui chorando por você, pela Rosa, pela sua mãe, pela sua noiva, pelos seus amigos… Pelo absurdo. E eu só posso ir pra Limeira na semana que vem. Mas irei, pra beber você, pra chorar com a sua irmã.

Por que você tinha que morrer quando finalmente tudo estava tão bom? É só mais uma prova do quanto a vida não faz sentido algum. Não há sentido algum.

A doce ilusão de que a humanidade deu certo

O sorriso bobo ao ver as pessoas dançando pode ter um elemento genético-cultural. Todo mundo sabe, e quem não sabe basta assistir a Shall we Dance? (a versão original japonesa, não a do Richard Gere, que não faz o menor sentido) e vai saber como os japoneses são fascinados pela dança. Com certeza algo relacionado com a nossa falta de ginga.

Ver esses vídeos de gente dançando espontaneamente, pro telão, ou mesmo os filmes em que as pessoas dançam, aplaudem, se beijam: essas coisas deixam com o sorriso bobo, por alguns momentos parece que a gente deu certo como espécie, não existem violência, ódio, pobreza, xenofobia, terrorismo, corrupção, machismo, doenças, epidemias, refugiados, tragédias ambientais, nada. O mundo é bom, a vida é boa.

Mas tem outros momentos pra me sentir assim, e que tenho certeza que não dependem do meu sangue.

Como é doído passear nos Estados Unidos. Como dói olhar pras ruas largas, casas bonitas com jardim, sem muros, andar à noite sem medo de ser assaltado, ir pra um restaurante e o casal ao lado puxar papo, elogiar o Brasil, se oferecer pra escrever as dicas dos lugares favoritos de Los Angeles, pagar drinks, como dói andar pelos parques com asfalto perfeito, lanchonete, lojas, sanitários, postos de gasolina, alojamentos, você cruza com as pessoas e todo mundo sorri e fala oi, um monte de gente com tripé, nenhum – nenhum segurança pra ir lá dizer que não pode fotografar, pelo contrário, tem cartazes falando pra compartilhar suas fotos. Não tem lixo na estrada. Não tem música alta ou gente falando alto ou gritando.

O Getty Center é um negócio do outro mundo. Sempre doeu visitar as ruínas e pensar na beleza do passado, mas ir ao Getty é descobrir a nova Roma, o que as cidades ricas podem fazer em termos de arquitetura, beleza, harmonia, facilidade, transporte.

O Staples Center é a grande arena dessa cidade tão rica, o templo de um dos jogos favoritos dos cidadãos. Tudo funciona. Milhares de pessoas são revistadas pra entrar, mas entram a tempo, não tem muvuca, a fila de pessoas flui, na saída também é tranquilo, no intervalo é possível sair, comprar um pretzel ou um lanche, uma bebida, e voltar a tempo. Uma grande arena em que os heróis dão shows e ninguém morre.

Eu não sou idiota, não sofri o tempo todo. Mas de vez em quando batia a melancolia, e ante a visão da Sierra Nevada, ao som do Libertango do Piazzolla, daí doeu demais, doeu de me inundar de lágrimas, de me ver como um imigrante qualquer dizendo “quero morar na América, quero ser cidadão americano, quero trazer minha família e meus amigos pra morar aqui”.

Não foi minha primeira viagem pros Estados Unidos. Mas foi a primeira pra Costa Oeste. E a primeira depois de ter passado meses brigando com meus colegas birdwatchers, a Fundação Florestal e o ICMBio. Manhattan é uma cidade bacanuda, mas é só uma cidade grande. Las Vegas não é uma cidade, é um grande centro de diversões pra adultos com muitos hotéis, em Denver ficamos pouco e as cidadezinhas do Colorado pareciam lugares inventados pro turista.

Mas Los Angeles, e imagino que vários outros lugares da Costa Oeste trazem essa dor do idílio, portal dimensional.

Não era a dor de pensar “que merda ter que voltar pro Brasil”, e sim a dor de “aiputaqueopariu, o Brasil é um país tão rico, tão rico, e as pessoas são tão boas e trabalham tanto e são tão inteligentes e criativas, custava ter dirigentes não-corruptos, capazes de canalizar os impostos e esforços das pessoas de forma a ter qualidade de vida pra todo mundo?”

Se vivêssemos num país de terras áridas, estéreis, com gente subnutrida e retardados, se o país fosse pequeno ou vivesse assolado por pestes, doenças, cataclismas, então você nem sonha.

Mas saber que o que nos limita é só o fator humano, a falta de caráter das pessoas… não são coisas intransponíveis, são escolhas feitas todos os dias a favor da corrupção, negligência, mesquinharia, mentiras, desonra, tirar vantagem, não assumir erros, enxergar todo mundo com retardado, ladrão, besta. Em esferas diversas, o tempo todo.

Eu falei dos dirigentes, mas não são apenas dirigentes e políticos. Eles pesam mais, mas é tudo. Furar fila, qualquer fila, seja de espera, de carros – andar na faixa errada pra entrar 10 carros pra frente e ganhar 0,03 segundos no percurso. Não avisar o garçom que a conta está errada pra menos. Mentir pra não levar bronca, ou colocar a culpa em alguém. Não assumir erros. Querer tirar vantagem – golpe do bilhete premiado. Subornos, favorecimentos. Síndrome do pequeno burocrata. Proibições absurdas.

No Brasil não é fácil sentir que a humanidade deu certo.