Category Archives: Filmes e seriados

Derek Morgan

não bastou ser uma tristeza da porra, ainda teve discussões com o Cris, e nem era ciúme. Ele sempre diz que não sabe o motivo, que pode ser por nada. Eu ainda quero acreditar que tem razão, como por exemplo, ter grávida ou bebês por perto e ele vai enlouquecendo e depois precisa me tratar mal.

Fomos no aniversário do meu irmão e tinha um casal com um bebê de um mês e pouco. À noite, depois de jantar ótimo, eu comentei como ele tinha sido gafento com o meu pai, que estava falando que gostava muito do Demolidor porque era um seriado diferente dos outros, era mais profundo, e o Cris me fala “Nossa, mas então a segunda temporada mudou muito, porque a primeira era bem história em quadrinhos” — eu comecei a falar por cima do Cris e mudei de assunto, mas à noite disse que ele não devia ter falado aquilo. O baguá não só quis reforçar o direito dele de expressar sua opinião — e eu tentando explicar que foi rude, que ele vê meu pai uma ou duas vezes por ano, que meu pai tem quase 70 anos e ele não pode falar com ele do jeito que fala com qualquer colega — como também quis espezinhar minha tristeza pelo fim do Derek Morgan.

“Você não devia estar triste por isso. Derek Morgan é só um personagem de um seriado, ele não é uma pessoa, existem dezenas de outros seriados e logo você vai encontrar um que você goste”.

É, foi cuzão assim.

Bicudou feio. Mas não deixei por menos. Não só discuti com ferocidade, como depois da volta de Minas, contei pro Daniel o que ele tinha me falado sobre o fim do personagem que eu gostava. O Daniel olhou bem firme pra ele, disse que ele estava errado, e depois me cochichou planos de vingança do que vamos fazer com ele no Ark, tanto pelo o que ele falou pra mim, quanto pelo Cris matar vários dos nossos dinossauros por ser atrapalhado, e não demonstrar luto suficiente quando os bichos morrem. Achei legal esse comentário, significava que o Daniel tinha entendido na hora qual era o problema: o Cris menosprezar nossa tristeza, ou achar que tem o direito de decidir o que pode nos deixar tristes ou não.

O Cris já se desculpou várias vezes, e não estou mais brava com ele. Mas não acho que tenha consertado. Ando traumatizada com bebês ou grávidas. Num restaurante em Tiradentes, um bebezinho veio brincar comigo. Estava engatinhando pelo chão, veio até nossa mesa e mexeu na minha perna. Olhei pra ele, brinquei de esconder o rosto, e quando parava de olhar pra ele, ele tocava de novo na minha perna, sempre sorridente. Fofura total. Mas falei pro Cris “não vai me tratar mal depois só porque encontramos esse bebê”. E na questão de menosprezar sentimentos, é uma discussão antiga, lembro das tantas discussões no início do relacionamento, e uma delas era a reclamação do quanto eu me magoava ou me entristecia com as coisas, que eu não devia sentir tanto. E vocês imaginam qual era a minha resposta a alguém que tentava me dizer o que eu podia sentir.

Não tem mais Derek. Não tem mais Grissom. Só os momentos de mané do Cris pra ele me dizer que existem dezenas ou centenas de seriados e que eu posso facilmente encontrar um personagem de quem eu goste.

Sonhos com a mega sena: bancar a produção de seriados com o Elvis. E pensamentos sobre capricornianos.

Eu sei que há muitas coisas bem mais importantes pra se fazer com o dinheiro, mas nesses dias em que a gente fica sonhando com mega sena acumulada, antes de projetos filantrópicos, antes mesmo das questões da natureza, o primeiro pensamento que me vem é mecenas cultural. Bancar seriados e filmes com personagens bons, aquela ideia do quanto a ficção pode moldar o mundo, e eu estou mentindo, não é isso ainda.

A primeira vontade que me vem é bancar alguma coisa relacionada com o Elvis. Fico pensando que com dinheiro suficiente, não é possível que a gente não encontre um cover decente, que seria possível convencer o Lucky Rocket que ele tem que atuar, e eu não queria que fosse um filme só, talvez algo como um seriado, pra poder vê-lo por muitas horas caminhando, sorrindo, cantando, dançando, movendo-se com a elegância do tigre.

Então veio essa ideia: um pub, ou um bar, ou uma pequena casa de shows, talvez até mais de uma, em países diversos. Um lugar mágico portal dimensional em que as celebridades de diversos tempos vão lá se apresentar para uma audiência discreta, que sabe o que está acontecendo e mantém um pacto de silêncio sob a pena de nunca mais serem admitidos. A gente inventa mais alguma coisa no roteiro, talvez a ideia de que alguns dos artistas (incluindo o Elvis) não querem voltar pra época deles, e sim viver em 2015-2016, e um grupo de pessoas que vai ajudá-los a viver no agora.

A desculpa pra poder assistir a shows com covers incríveis do Elvis, do Frank, da Nina Simone, Johnny Cash, Beatles, James Brown, Jim Morrison, Joe Cocker, Aretha Franklin, The Carpenters, Janis, Chucky Berry, Roy Orbison, Marvin Gaye. E Elis Regina, Tom Jobim, Tim Maia, Cássia Eller, Nara Leão

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Esse é o tipo de artifício capaz de mudar minha sintonia nos dias sombrios. Eu devia mesmo fazer uma lista de vídeos ou músicas de emergência:

E tudo isso é mais incrível ainda porque nunca esqueço que ele é capricorniano. Essas criaturas áridas.

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Cinco coisas que você não pode falar para capricornianos

[um post antigo do outro blog que eu ainda não tinha transferido. Que comecem as comemorações pra esse signo que merece mortes dolorosas. Ou melhor: que não merecem, mas é compreensível que aconteçam]

Há uma estranha sensação reconfortante quando a gente pensa que tem coisas que não são pura loucura nossa, e sim herança cultural, familiar, astrológica.

Obrigada, Marcelo. Thank you, Elaine Edelson.

http://thewholecosmos.com/index.php?option=com_content&task=blogcategory&id=138&Itemid=211

Com grifos meus

Top 5 things NOT to say to Capricorn (Capricorn Rising sign).

1. Relax Yeah, ah. Well that’s not going to happen any time soon. Capricorn is one of the workaholic signs. Even if they check off everything on their ‘To Do’ list, they’ll organize all the ‘to do’ lists and start a database for reference. Capricorns love to work. They feel they have to atone for some past grievance they think their God has against them. The only way to get your Capricorn to relax is to shoot them with a Rhino tranquillizer and while they’re in their induced coma, feed them stock quotes and news intravenously. Or…you could sway them with a working vacation. (That’s the best I can think of being a Capricorn Rising sign myself.)

2. You’re wrong. Well, okay. If you said that to a Virgo, they’d get defensive. If you say this to a Capricorn they become simultaneously repentant, demoralized, AND paralyzed on the spot. Be gentle with your Capricorn. Let them know that their information might be incorrect but that they did a good job researching…(all those sleepless nights and self denial and such.) They don’t have to self-flagellate or anything…just correct the info. Then get them some chips. They like to crunch on crunchy things when they’re stressed.

3. I don’t give a damn. You don’t? Then you won’t have Capricorn on your side for very long. Capricorn is dedicated to serving humanity. They ponder the route. They consider the opinions. They take their time. They need to be surrounded by passionate and caring people who are ready to make a difference. If you don’t give a damn, Capricorn will…and attempt to ignite your enthusiasm. (They tend to care-take the needy to feel needed.) These stoic people just don’t give up. They go the distance and then some. Makes you wonder if they’re androids. Sometimes you just wanna scream at them, “Lighten up!” When you least expect it, they put on a gorilla suit and bring you flowers at your office. Why? Because Capricorn gives a damn.

4. C’mon. Let’s ditch in this line. No one will know. Oh NO? Capricorn will know. They’re the record keepers of social behaviors. You must atone for your actions or else Capricorn will stare you down and make you feel so uncomfortable, you’ll have to face your own conscience. They like to think of themselves as social police. They have the responsible gene. Capricorn knows that there’s a big EYE scanning all thoughts and actions so they obey the law. BUT some Capricorns are so freaked by authority and the idea of Godly punishment that they figure they might as well do something wrong so they become addicted to chemicals. These Capricorns need reassurance that they’re not inherently bad, just irresponsible. Wow. Telling them that will throw them into rehab faster than you can say, “All rise for the honorable Judge….”

5. Do it this way. Oh…really? You think telling your Capricorn (or Cap Rising) friend what to do is going to motivate them? You know where you can stick that statement…right up your…oh, sorry. Capricorn’s prefer the more Victorian approach to reprimand. Be polite, be gracious, and above all, be articulate. Capricorns admire authority figures who lead by pristine example. Be pure of heart and it will help Capricorn to lighten up on themselves. Capricorns can be so funny in a dry kind of way. In fact, once you stop telling them what to do and how to do it, they’ll turn to you with choice words that will show you who’s boss. They win. The end.

 

Por que capricornianos merecem mortes dolorosas

“Capricorns can be so funny in a dry kind of way.”

Dry. É uma das nossas palavras-chave. Somos secos, austeros, não relaxamos e não confraternizamos. A gente acha que está relaxando, mas é possível deixar de lado quem realmente somos? Temos qualquer chance de estar em um lugar e não olhar, não julgar, não pensar no que está errado, no que deveria ser melhor, tanto para o lugar quanto para as pessoas?

Então por mais que a gente disfarce, se alguém olhar um pouco mais fundo, vai ver nos nossos olhos que estamos pensando, julgando e, geralmente, dando notas baixas pra tudo.

E entenda, não de um jeito idiota. Não é estar num restaurante de beira de estrada e se incomodar com prato riscado ou lascado. É o “grana padanno” do restaurante besta. Temos um senso muito grande de justiça, nunca humilharíamos pessoas humildes e simples. Mas entre os que têm pretensões, para quem se acha, para quem tem poder, dinheiro, fleuma, pose, acha que tem intelecto… para esses não há desconto.

Temos dificuldade com a small talk. Em falar de assuntos da moda, novidades de revistas, manchetes de jornal, novela, fashion week, lançamento de filmes, bienal de artes ou de livros. Não somos regidos por novidades e pelo o que está acontecendo no mundo agora, temos nossos próprios valores e prioridades.

Saturno nos rege. O que nos dá uma terrível consciência sobre a passagem de tempo e desperdício, tanto de tempo como de talentos nossos ou dos outros.

Sabemos como fazer as coisas funcionarem, nos importamos com o bem do mundo, queremos fazer coisas importantes.

Animais chifrudos incompreendidos, sem graça, falando de assuntos inconvenientes.

Não sabemos confraternizar. Somos chatos. Acusados de ser muquiranas e, infelizmente é preciso reconhecer que é verdade. Como pensamos e julgamos muito, compramos pouco, preferimos guardar dinheiro para coisas que realmente valem a pena e não têm substitutos, como viagens. Temos pouco objetos de desejo só pela aura, pela fama. Não sei se vocês têm ideia do quanto a maioria das coisas que se compram não valem a pena.

Não sabemos contar piadas nem histórias boas. Nos aproximamos das pessoas quando elas realmente precisam de ajuda, mas muita gente não gosta de lembrar dos momentos em que estiveram fracos e pequenos, eles não serão uma voz de defesa.

Considero uma grande fraqueza não ter charme social, não ser capaz de tecer laços de camaradagem informal que não precisam de algum evento sério e importante. E não acho que é injustiça cósmica se terminamos na fogueira ou na cruz. Quem mandou seguir o que acreditamos ser o certo, em vez de seguir o que rege o mundo.

“Eu vejo você”

Um filme que apareceu umas semanas atrás no Netflix, Beyond the Lights, ou Nos Bastidores da Fama.Tinha 4,5 estrelinhas, decidi ver. Nada incrível no roteiro, mas é um filme bom, com bons personagens, boas interpretações, referências a Nina Simone (conectar-se aos grandes sempre agrega valor), e uma cena memorável.

A protagonista do filme é uma jovem cantora em ascensão. Vemos ela criança, numa apresentação musical cantando Black Bird e recebendo um segundo lugar que só a corrupção do júri explica, e depois ela como uma jovem mulher, totalmente transformada, cantando e dançando aqueles raps com letras e coreografias de putaria.

No dia que ela ganha um prêmio de música, ela faz o que muita gente faria: se joga da varanda do quarto do hotel. Mas o policial responsável pela vigilância do quarto entra a tempo de agarrá-la, segurando-a só por uma mão. Ele não tem força para erguê-la só comum braço, ela precisa estender a outra mão e segurar no outro braço dele. Mas ela não quer, está com aquela cara de quem desistiu. A mão escorregando, ele quase não consegue mais segurá-la, então vem a inspiração, ele fala pra ela

“Eu vejo você. Eu vejo você”.

E isso faz ela olhar pra ele com aquele ar de surpresa, descrença, mas também de maravilhamento. Ela decide estender a outra mão, segurar no braço dele e ser salva.

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Uma variante dessa situação, um filme que não sei o nome, desses que você assiste pedaços no avião. Um gringo cuidando de um call center na Índia. Uma das funcionárias é uma moça muito bonita, eles acabam tendo um caso. Depois ela conta que o momento que se apaixonou por ele foi porque ele falou: “se eu acho que a [esqueci o nome dela, digamos que fosse Ananda] Ananda vai dar conta deste desafio? Eu acho que a Ananda pode fazer qualquer coisa”, e ela explica como é ser uma menina na Índia, ouvindo o tempo inteiro sobre as coisas que as meninas não podem fazer, e que foi a primeira vez que alguém falou que acreditava que ela era capaz de fazer qualquer coisa.

O Cris dizia que precisava do meu olhar pra saber quem ele era. E eu precisava dele porque era o homem que não tinha medo nem achava errado eu ser uma mulher com uma tempestade por dentro.

Minha amizade com meu melhor amigo começou num dia em que tínhamos ido até o Colméia buscar nossas carteirinhas de ônibus. Contemplando os verdes campos da USP, esperávamos a chuva passar, e ele me falou “eu não sei o que falar com você. Com outras pessoas eu posso falar sobre livros, filmes, mas com você parece que o certo é falar sobre a cor do céu, o formato das nuvens”. Já andávamos juntos, já éramos mais do que colegas, mas foi esse o momento que me marcou, que me deixou encantada por de repente encontrar alguém que podia saber tanto sobre mim.

 

Eu vejo você. Eu sei quem você é.

Nesse mundo em que a gente vive tão sozinhos, qual o poder de uma frase como essa? O que acontece quando você encontra alguém que lhe diz que é capaz de te ver, e você acredita que é verdade, que essa pessoa realmente consegue te enxergar?

Geralmente resulta em paixões avassaladoras, casamentos duradouros, ou amizades pra vida toda.

Notícia boa! Feminismo no cinema

(…)

“Além disso, uma legião de atrizes do primeiro time levantou a bandeira da causa no tapete vermelho, se recusando a falar sobre vestidos e estilistas para focarem no trabalho em seus filmes, que é afinal o motivo de estarem ali. Reese Witherspoon, Cate Blanchett e Julianne Moore foram algumas das que aderiram a campanha #AskHerMore (pergunte mais a ela).

Patricia Arquette, vencedora da categoria de atriz coadjuvante por Boyhood, fez um discurso de agradecimento inflamado. Ao dizer, em pleno palco e para uma audiência de milhões de pessoas, que “é o nosso momento de ter igualdade de direitos de uma vez por todas para as mulheres nos Estados Unidos”, foi fortemente aplaudida.”

Leia mais aqui: http://telatela.cartacapital.com.br/pode-anotar-oscar-2016-vai-mirar-o-feminismo/

Tem vários filmes legais, mas depois que você começa reparar, é realmente uma raridade ter papéis bons pras mulheres. Sempre somos acessório. E se você reparar que é realmente raro ter duas mulheres conversando num filme sobre algo que não sejam homens? Assim não é fácil desconstruir a ideia de que uma mulher só é feliz e completa se for bem casada. Como é que ficam os brigadeiros e os beijinhos? (ah, a infamidade. Desculpas baratas de cansaço).

— x —

Eu devia abrir um tópico só pra ele, mas provavelmente não vou, então indico: Frank e o Robô, no Netflix. Um filme de capa amarela. Nada feminista, mulheres só como acessórios pra variar, mas um filme bem legal, quanto mais penso nele, mais chega perto da categoria de favoritos geral. Cenas impagáveis: robô negociando a diminuição do sódio na alimentação do Frank em troca da participação no roubo dos diamantes, o robô chantageando o Frank, dizendo que se eles não fizerem o jardim ele terá falhado e vão coletá-lo e apagar a memória dele — e depois dizendo “eu menti só pra te convencer a fazer o jardim, eu sou um robô, não me importo que apaguem minha memória”. Um filme muito doce.

frank-robo

Basta ter vida sexual ativa e criativa, e você vira uma vagabunda

Oh, céus.

É sempre o problema de se partir do princípio de que sexo é algo sujo, mais a ideia de que a mulher – mulher de verdade, mulher de respeito, deve ser algo materno, puro, virginal.

Qualquer adulto tem todo o direito de ter prazeres sexuais. O que se faz com o consentimento dos adultos envolvidos não é da conta de ninguém. Se envolveu mais do que duas pessoas, se foi homem com homem, mulher com mulher, duas mulheres e um homem, dois homens e uma mulher, se foi uma suruba geral, se teve anões besuntados, masturbação, felação, sexo anal, fist fucking, golden shower, se envolveu acessórios, comida, algemas, chicotes, roupas específicas (até mesmo a cueca de elefantinho), nada disso é da conta de ninguém.

As práticas sexuais das pessoas, feitas em lugares privados, é só da conta delas.

A gente vive esse mundo de miséria sexual de um lado, lampejos de pornografia do outro, muita fantasia e besteira no meio.

Por exemplo: Kingsman tem uma princesa de algum pequeno país europeu entre os líderes que são presos pelo vilão. Samuel Jackson faz a proposta imoral, sobre o extermínio da maior parte da humanidade, enquanto uma parcela rica de escolhidos seria salva. Essa princesa é totalmente contra, diz que nunca concordaria com algo assim. Ela fica presa numa cela. No final do filme o mocinho do filme topa com ela “você é a princesa que estava desaparecida… posso te dar um beijinho? Nunca beijei uma princesa”, ela diz “você está aqui pra salvar o mundo?”, “sim”, “se você salvar o mundo, eu te dou a porta dos fundos”. E claro, ele salva o mundo, e a cena final é ele correndo de volta pra cela, com uma garrafa de champagne e duas taças, a porta se abre, ela aparece de baby-doll como se fosse um quarto de motel, e na cena final ela nua de costas.

Tanta reclamação por causa dessa cena. Gente. É sexista sim. Mas o filme é uma comédia e, o mais importante pra mim: apesar dela fazer parte da famosa estatística de personagens femininos que são apenas acessórios pro protagonista, ela se mostra uma mulher de caráter. Ela é contra os planos do Samuel Jackson e vai presa por isso. O ministro dela foi a favor, e estava lá no saguão, solto com os outros imorais, esperando o fim do mundo. Ser a favor do extermínio de milhões de pessoas é a grande imoralidade. Querer dar o cu pro mocinho bonitinho não tem nada de imoral.

Olha o comentário do diretor do filme, com o qual concordo:

I was surprised when people are saying to me, “I loved the movie. I think it’s great, but I was offended by that.” I said, “Really? That’s more offensive than exploding heads, massacres in church, swearing, people being cut in half?” I was like, come on. It’s just a joke. It’s not even graphic.

http://moviepilot.com/posts/2015/02/20/kingsman-sexist-at-the-end-director-matthew-vaughn-defends-the-princess-joke

Hoje estava pensando em bons personagens femininos no cinema. Estava difícil achar… mas uma das que se destaca com certeza é Alyssa Jones, do Procura-se Amy. O foco pra variar é na vida dos caras, mas há várias ideias boas pra ela. Ela é lésbica, mas depois revela-se que no colégio ela não era, e passam a surgir historias diversas do que ela já teria feito. No livro de fotos da escola aparece o nome dela com a alcunha “algemas chinesas”, e depois é explicado que ela ganhou o apelido porque uma vez foi estudar na casa de um colega, junto com outro colega, e ela acabou pagando um boquete pra um deles enquanto o outro comia o cu dela. Teve uma outra vez que um cara com quem ela estava saindo filmou os dois transando e depois passou o vídeo no circuito interno da escola. E ela diz “e qualquer outra historia que você tenha ouvido sobre mim, provavelmente é verdade”. “Por que você fez isso?”. “Às vezes por estupidez, outras por achar que era amor, outras só porque eu queria mesmo”.

Holden não tinha problema em pensar que Alyssa era lésbica promíscua, que já tinha saído com metade das mulheres de Nova York. Mas não suporta a ideia de que ela tenha tido experiências sexuais diversas 10 anos antes. Alyssa pergunta “Qual o problema? Só porque eu transei um pouco?”, “Transou um pouco?”, “sim, Holden, é apenas isso: só sexo. A maior parte foi sexo idiota de colégio, pelo amor de Deus. Como se você nunca tivesse transado no colégio”, “Há um mundo de diferença entre típico sexo de colégio, e ter dois caras ao mesmo tempo!”.

E coisas assim, colei o diálogo inteiro mais abaixo.

Alyssa Jones é uma representação de alguém que o Kevin Smith gostou, mas que um dia contou pra ele que já tinha feito ménages, e ele ficou possesso e terminou com ela. Ele se arrependia muito por ter sido tão inseguro e moralista.

Mas o lado bom do filme é que não sei de outro personagem pop (provavelmente tem nos filmes independentes), que seja uma mulher que gosta de sexo, transou muito, e não acha que precisa se desculpar pelo o que fez.

Engraçado que eu estava procurando uma foto de cena do filme, e topei com um blog que diz isso “Ben Affleck vive um autor de HQs baseadas em dois colegas seus, ao tempo em que conhece uma das garotas mais vagabundas que já vi ser retratada no cinema e por ela se apaixona.”

Uma das maiores vagabundas do cinema. Ela não aborda homens casados, não faz sexo em público ou na frente de crianças, não anda com roupas provocantes se esfregando em desconhecidos, não é traíra, não brinca com os sentimentos dos outros, não fica fazendo joguinhos. Mas é a maior vagabunda porque trepou um pouco quando estava no colegial. Só porque não seguiu o formatinho do que é esperado pra “sexo normal”, “sexo típico”.

O que o autor desse blog escreveu representa o pensamento de muitas pessoas, tanto homens como mulheres. Saiu da caixinha do papai-mamãe, é vagaba. Fez boquete é vagaba, deu o cu é vagaba, fez suruba é vagaba. Situações que são da vida íntima da pessoa. Se ela é honesta, se luta pelo bem do mundo, contra desigualdade social, contra corrupção, se faz trabalhos voluntários, se ajuda família e amigos, se dá voz a quem não pode se defender, se é uma mãe dedicada a criar filhos que sejam pessoas inteligentes, responsáveis, se age pela natureza, pela justiça, contra o consumismo, contra o machismo e homofobia, nada disso importa. Porque vivemos nesse mundo de enorme miséria sexual, que nos faz inverter os valores: o que é de cunho público e político, que faz parte das nossas interações com as outras pessoas na qualidade de seres sociais, vira um “cada um faz o que quer da vida, o importante é ser feliz”. E aquilo que é de cunho privado, foro íntimo, o que se faz entre quatro paredes ou em algum lugar com relativa privacidade, isso é o que se torna alvo das análises e críticas das pessoas.

 

 

 

HOLDEN: So it’s true?!

ALYSSA: Yes Holden! In fact, everything you heard or dug up on me was probably true! Yeah, I took on two guys at once! You want to hear some gems you might not have unearthed – I took a twenty six year old guy to my senior prom, and then left halfway through to have sex with him and Gwen Turner in the back of a limo! And the girl who got caught in the shower with Miss Moffit, the gym teacher? That was me! Or how about in college, when I let Shannon Hamilton videotape us having sex – only to find out the next day that he broadcast it on the campus cable station?! They’re all true – those and so many more! Didn’t you know? I’m the queen of urban legend!

HOLDEN: How the hell could you do those things?!

ALYSSA:  Easily! Some of it I did out of stupidity, some of it I did out of what I thought was love, but – good or            bad – they were my choices, and I’m not making apologies for them now – not to you or anyone! And how dare you try to lay a guilt trip on me about it – in public, no less! Who the fuck do you think you are, you judgemental prick?!

HOLDEN How am I supposed to feel about all of this?

ALYSSA  How are you supposed to feel about it? Feel what ever the fuck you want about it! The only thing that really matters is how you feel about me.

HOLDEN I don’t know how I feel about you now.

ALYSSA Why? Because I had some sex?

HOLDEN Some sex?

ALYSSA  Yes, Holden – that’s all it was: some sex! Most of it stupid high school sex, for Christ’s sake! Like you never had sex in high school!

HOLDEN There’s a world of fucking difference between typical high school sex and two guys at once! They fucking used you?

ALYSSA I used them! You don’t think I would’ve let it happen if I hadn’t wanted it to, do you?! I was an experimental girl, for Christ’s sake! Maybe you knew early on that your track was from point ‘a’ to ‘b’ – but unlike you I wasn’t given a fucking map at birth, so I tried it all! That is until we – that’s you and I – got together, and suddenly, I was sated. Can’t you take some fucking comfort in that? You turned out to be all I was ever looking for – the missing piece in the big fucking puzzle!

(tries to calm down)

Look I’m sorry I let you believe that you were the only guy I’d ever been with. I should’ve been more honest.       But it seemed to make you feel special in a way that me telling you over and over again how incredible you are would never get across.

She touches his face. He pulls back. She stares at him, hurt and pissed.

ALYSSA Do you mean to tell me that – while you have zero problem with me sleeping with half the women in New York City – you have some sort of half-assed, mealy-mouthed objection to pubescent antics, that took place almost ten years ago? What the fuck is your problem?!?

Holden’s eyes are downcast. Alyssa waits for a response.

HOLDEN I want us to be something that we can’t.

ALYSSA And what’s that?

HOLDEN (beat) A normal couple.

Demolidor do Netflix – este sim, um dos seriados que dá gosto de ver

Esqueça o filme com o Ben Affleck (que eu não assisti, mas só de ver as imagens de divulgação dava pra saber que não prestava). O Demolidor produzido pela Marvel em parceria com a Netflix tem personagens cativantes, escolhas ótimas de iluminação, maquiagem e figurino, consegue mostrar cenas de violência, sangue, cortes, espancamentos sem que você fique com uma sensação de nojo ou exagero.

Eu já tinha visto no Netflix há algumas semanas. Mas só decidi assistir depois de topar com uma imagem de divulgação no Shopping Eldorado: um Matt Murdock barbudo, cansado, com machucados no rosto, terno meio amassado, arrumando os óculos redondinhos de cego mas ao mesmo tempo com uma aura de poder, determinação, violência.

Cheguei em casa e fui ver. Assim como faço com livros não comecei pelo primeiro episódio. Comecei pelo terceiro, adorei, e em dois dias assisti aos 13. E fiz algo que raramente faço: rankeei no Netflix, merecedíssimas 5 estrelas.

Por que vale a pena:

– as pessoas não são de plástico! Muitos seriados e filmes ultimamente têm um tratamento pasteurizado da maquiagem, do cabelo, do figurino, da iluminação. Você vê uma imagem do filme ou do seriado, e desanima. Porque em geral esse tratamento baunilha-coxinha se reflete no roteiro, e por que vou perder meu tempo vendo um negócio que não há sangue ou suor, tanto no visual quanto na estrutura da historia?

– diálogos ótimos. Vários momentos de conversas afiadas e boas tiradas. Piadas internas com o mundo dos quadrinhos e de Hollywood.

– os personagens principais são cativantes.

– o pratagonista, Charlie Cox é bonitão, atlético, e consegue ter aqueles sorrisos de gente louca ou santa.

– a iluminação é maravilhosa, cheia de contrastes de claro-escuro. Eles filmam também no contraluz, em ambientes escuros. Talvez tenha algo a ver com geração nova de câmeras que conseguem lidar bem com isso? Bloodlines, outra série do Netflix (não é de vampiro), vi uns pedaços, e também havia cenas no escuro e no contraluz.

– não é anti-sexo, ao mesmo tempo não abusa de cenas de sexo como chamariz. Na verdade, até agora não teve nenhuma cena de sexo (o Rei e Vanessa acordam juntos na cama, mas não mostra eles se agarrando – o que seria meio weird), mas fica explícito que Matt tem uma vida sexual bem ativa, e nos diálogos entre Ben Urich e a esposa eles também falam sobre sexo. Mais um ponto na campanha contra personagens de plástico.

– Não há gente que voa, alienígenas, mutantes… é mais pra uma historia policial. Ao mesmo tempo há uma sutileza que traz os personagens pra fora de uma sensação de pura realidade-cotidiano, algo especial que acentua o brilho dos cabelos da Karen Page, o azul dos seus olhos – mas sem deixá-la com aquela sensação de personagem de plástico, mostra que ela tem uma pequena verruga, os pelos do rosto. E em muitos momentos ela está com o repórter Ben Urich, o ator Vondie Curtis-Hall, que aparece com a pele tão negra e brilhante que cria um contraste visual hipnótico entre os dois. Como se fosse um filtro que deixa as imagens mais gloriosas. É muito mais sutil, mas lembra algo de O Pacto dos Lobos.

– Faz anos que não acompanho mais as HQs. Mas na minha época de Demolidor, Matt Murdock era um homem atormentado e católico. Ser católico é algo bem fora de moda hoje em dia, ainda mais pra um heroi de quadrinhos. Caras, não é que eles conseguiram transpor esse aspecto pro seriado? Matt Murdock aparece na Igreja, tem longos diálogos com o padre, e tudo encaixa, nada parece absurdo.

– Havia a questão da violência na Cozinha do Inferno e em NY no geral no início da década de 1990. Hoje a imagem geral é de uma NY bem mais segura, como eles lidariam com isso? Não acompanho as notícias sobre NY, mas talvez o filtro de luz meio Pacto dos Lobos tira o peso dessa parte, nos transpõem pra um universo mais de HQ em que não faz diferença se a historia descola um tanto da realidade. Ainda que a gentrificação de NY seja fato.

– A iluminação é cheia de claro-escuro, mas os personagens não são preto no branco. O Rei não é o mal absoluto, Murdock comete erros, outros personagens importantes também saem da linha.

– Há uma menção à grega maravilhosa que Matt namorou na faculdade, temos esperanças de que Elektra apareça. E eu adoraria que fosse uma Elektra de cabelo preto, liso, comprido, com franjinha, não muito musculosa, e mais com jeito de garota do que de mulher.

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– O seriado é sombrio e dark, mas sem ser daquele jeito sangria desatada que você sabe que a maioria dos personagens vai morrer e passa a nem se importar. Nestes primeiros 13 espiódios, personagens importantes morrem e há perspectivas de outros momentos tensos, como os fãs da HQ sabem.

Estou ansiosa pela segunda temporada. Parece que todo mundo tem falado bem e espero que o sucesso da série crie uma tendência de seriados mais intensos e sombrios. Quem sabe Luther volta pauleira como foi na primeira temporada?

As vantagens de ser invisível

“Você pegou o livro?”

“Tentando. Ainda não consegui transformar num PDF e mandar pro Kindle” (depois descobri que não consigo mesmo, no Scribd cada editora-autor pode escolher se vai deixar disponível o PDF. Só posso ler pelo celular ou pelo computador).

“Você gosta desses personagens meio losers..” – devo ter olhado com uma cara meio ameaçadora, porque o complemento veio rápido – “… que não são losers de verdade”.

Claro que gosto.

Gente que começa loser na vida mas depois encontra transcendência e felicidade tem tudo a ver comigo, é o motivo de manter um blog como este, pra desenquadrados.

Não gosto de personagens losers de verdade. Gente ou personagens que sem mantêm cabeçudos, burros, tapados, feios, mesquinhos, limitados, fechadinhos na caixa – desses eu não quero saber. Mas diga uma palavra, uma palavra que mostre que você quer mudar, mostre que você quer uma vida diferente, e já terá minha compaixão.

Era para eu ter visto o filme no cinema, mas na época meus amigos não se interessaram em ver, e acabei não indo sozinha. Faz tempo que está no Netflix, e nesta semana finalmente decidi ver. Vale a pena mesmo.

Pra quem viveu os anos 90… ainda não decidi se é um gostinho a mais ou uma dor a mais. Saudades das músicas, das fitas cassete com os nomes das músicas escritas em letras minúsculas, da ideia de se fazer uma seleção de músicas pra uma pessoa especial como um presente, dos bailinhos, das festas nas casas dos amigos, de tantas tardes e noites com os meus amigos na casa dos meus pais, das tardes passeando pelas ruas. Mas também tem as lembranças do que é não se sentir popular, nem bonita, nem legal. De achar que a felicidade dos filmes não é pra você.

Vou ler o livro, depois falo dele. Talvez demore um pouco. Não sei o quanto a leitura vai render via celular ou notebook. No Kindle rende muito, mas agora estou com Criação, do Gore Vidal, pra reler, e também algumas coisas do Maugham e do Fitzgerald.

 

A famosa cena da dança, que uma amiga querida me falou que pensou em ter na festa de aniversário:

 

Coreografia inteira:

 

Amadores 🙂