Category Archives: Feminismo

Por que é errado elogiar as pernas da colega de trabalho

“(…)

Em 1971, o irmão mais velho de Sérgio deu uma cantada na colega loira de trabalho. Ela reclamou, fez charminho e aceitou um jantar. Hoje estão casados. Em 2011, um primo de Sergio elogiou as pernas da colega de escritório, foi acusado de assédio sexual, demitido e teve que pagar indenização à mulher das belas pernas, que acabou no psiquiatra.

Meu amigo Sérgio me pergunta o que deu em nós, nesses 40 anos, para nos tornarmos tão idiotas, jogando fora a vida como ela é.

Dei a resposta: é a ditadura da hipocrisia imbecil do politicamente correto.”

Alexandre Garcia”

 

No grupo das pessoas que estudaram comigo no 1o grau também estão alguns dos nossos professores na época. Uma delas é uma mulher muito simpática, ativa, dessas que está sempre mandando bom dia, textos simpáticos, vídeos. Ela é muito do bem.

Mas nesta semana compartilhou um texto machista, e eu não consegui deixar passar. Vou escrever no blog, e pensar o que falo no grupo.

O texto é do jornalista Alexandre Garcia. Se quiser ver o texto todo, tem aqui: http://www.jornaldacidade.net/artigos-leitura/76/59177/quarenta-anos.html#.WU5tTmjysiU

 

O texto é bem intencionado no geral, apesar de várias simplificações e racionalizações erradas. Mas a parte da cantada é imperdoável, e vou explicar por que.

Ser penalizado por elogiar as pernas da colega não é ditadura da hipocrisia imbecil do politicamente correto. É a única forma de mudar a cultura de tratar mulher como objeto. “Pelamordedeus, não posso mais elogiar o que é bonito?”. Não, garanhão, não pode. Sabe por que? Porque vivemos num mundo em que as mulheres vivem com medo de serem agredidas, espancadas, estupradas e assassinadas. 45 mil estupros notificados, com certeza de subnotificação, estimativa de 450 mil por ano no Brasil, esse país tão democrático em que mulher que fala sobre machismo é femininona-mimimi.

5 mil mulheres assassinadas por ano. Muitas vezes por um companheiro ou ex-companheiro que não aceitou o fim da relação.

Você pode não ver a relação desses números com o singelo elogio às belas pernas da loira, mas eu explico: mulher não é um pedaço de carne. Gostou das pernas da sua colega? E do que mais? É só das pernas, mas acha ela uma chata? Guarde o pensamento pra você, bata punheta em casa, converse com seus amigos, mas não tem por que falar com ela. Não, não acho ela uma chata, ela me parece uma pessoa muito interessante, e além disso tem aquelas pernas incríveis. Aahhh, bom, você quer um relacionamento? Então deixa eu explicar uma coisa: isso acontece por meio do diálogo.

Se a gente vivesse num mundo sem violência, sem machismo, você poderia falar “olá fulana, você tem pernas lindas, não consigo tirar os olhos dela”, e ela poderia te falar sobre genética, ou academia, ou dizer “obrigada, fulano, eu tenho reparado na sua bunda também” – e esse comentário não a colocaria na categoria de vagabunda (isso sim é mundo hipócrita: homem falar das pernas da mulher, tudo bem, se a mulher fala de algo do homem é vagabunda). Mas como vivemos nesse mundo violento, você não tem o direito de começar uma abordagem falando das pernas dela. Você tem que achar algo pra conversar que não a trate como um pedaço de carne. Comece com algo do trabalho, ou de um filme em cartaz, ou de algum assunto da semana, comecem a conversar e descubra se há sintonia, interesses em comum. Quando vocês já tiverem mais intimidade, ou porque começaram a namorar, ou porque se tornaram ótimos amigos, você pode contar que achas as pernas dela lindas.

É tão complicado assim entender que se aproximar de alguém fazendo um elogio de um atributo físico, principalmente se for perna-bunda-peito e não olhos-sorriso é algo uga-buga, errado, assustador, creepy, demodê?

Mulher não é pedaço de carne. Mulher é ser humano com mil motivos pra ter medo de ser atacada, agredida, estuprada, assassinada. Se interessou pela mulher? Puxe conversa sobre algo inteligente, interessante. Não a trate como um pedaço de carne. Elogiar as pernas é tratar como pedaço de carne.

 

PS: a ideia de que a mulher que denuncia assédio fica deprimida e precisa de psiquiatra também é de um machismo nojento.

 

—– x — x

Ok, escrevi algo pro grupo, que me pareceu suave o suficiente:

“Oi [nome da minha professora]!

Sei que suas intenções foram as melhores ao compartilhar o texto do jornalista Alexandre Garcia, mas não consegui ignorar o machismo do tamanho de um bonde no trecho que fala sobre assédio.

Como eu decidi sair do armário na questão do feminismo, me vejo obrigada a comentar. Não é nada pessoal, só quero escrever porque talvez eu possa mudar a opinião de alguém que leu o texto e concordou que não tem nada demais em elogiar as pernas da loira.

Por que é errado elogiar as pernas da colega? Porque a gente vive um mundo violento e desigual, com espancamentos, estupros e assassinatos. No Brasil 45 mil estupros notificados por ano, com certeza de subnotificação, estimativa de mais de 400 mil, em qualquer cidade, em todas as faixas sociais. 5 mil assassinatos de mulheres por ano, muitos deles por ex-companheiros ou por homens que queriam um relacionamento e não aceitaram um não.

Mulheres tratadas como objetos e não como pessoas. Não imagino outro caminho pra mudar esse cenário a não ser ficar martelando que mulher não é um pedaço de carne, e sim um ser humano.

Quando um homem fala algo pra uma mulher, ele tem que levar em consideração que ela é um ser humano, ele não pode falar qualquer coisa que passa pela cabeça dele. “Acho as pernas dela lindas”. Ok. O que você quer? Quer namorar com ela? Então se aproxime com um papo inteligente. Fale sobre o trabalho, sobre filmes, livros, música, assuntos da semana, descubram se têm sintonia. Não, não, não quero namorar, só quero elogiar o que é bonito, não posso?? Não pode. Você não tem o direito de falar o que pensa e deixar sua colega encanada, tendo que pensar que roupa vai colocar, se você vai ficar olhando, se você fica secando a bunda dela, se você a favorece ou prejudica porque tem uma atração pelo corpo dela.

E a ideia de que mulher que denuncia assédio acaba no psiquiatra é… nem tenho palavras, de tão revoltante. É uma das coisas que mais me deixa brava. Eu entendo que uma pessoa com pouca instrução, que sempre viveu num meio machista, propague o machismo. Mas quando vejo gente culta, influente, inteligente, tão descolados pra tantos assuntos, mas quando chega no feminismo ignoram tudo que as mulheres passam, e ainda contribuem pro machismo com frases como essa… que raiva.

Reforço mais uma vez que minha intenção não é de brigar com ninguém. Só queria não perder nenhuma oportunidade de tentar mudar a mentalidade machista da nossa cultura. Obrigada, beijos!”

Ameaçada de tortura: “vou te levar pra um happy hour com o cidadão médio”

Tenho uma amiga de quem gosto tanto a ponto de conversar sobre política com ela, mesmo a gente tendo opiniões diferentes. Não converso com ninguém que chama o impeachment de golpe — porque não vejo pessoas dispostas a conversar, e sim a provar que estou errada, mas com ela é diferente. Com ela tem diálogo.

Estávamos numa das nossas conversas sobre política, eu explicando como pra mim é melhor a situação de agora do que a de cinco anos atrás, minha esperança de que a cultura do “tudo bem ser corrupto” sofreu uma aceleração de mudança com as discussões dos últimos anos.

Contei que não converso com muita gente, mas que me torturo semanalmente passeando pelas caixas de comentários em portais, pra ter uma ideia do pensamento médio geral.

Quando se fala de caixa de comentários de portal, a primeira reação das pessoas é dizer que ela não vale, que é sacanagem usar como parâmetro, que é o tipo de coisa que diminui sua alegria de viver.  Primeiro ela começou a falar que não valia, depois teve a ideia de dizer que eu não tenho ideia do que é ouvir esses comentários ao vivo, e que faria um happy hour pra me ouvir as pessoas falando essas atrocidades ao vivo.

“Por que eu iria pra um evento assim?’

“Pelo meu prazer. Só pra contemplar um desejo sadomasoquista”.

É claro que eu não vou, mas estávamos rindo da minha bolha privilegiada. De poder ficar sozinha a maior parte do tempo, ou então com o Cris e o Daniel, ou com amigos bem queridos, e quando é pra conversar com estranhos, ainda topo com gente como o casal no bar em São Francisco que quis dar dicas de bares, pagar bebida, e foi compreensivo com a minha história sobre ter chorado na saída do Death Valley, por comparar Brasil x EUA.

Ser raidado no Ark não conta, já que é algo que eu faço porque quero.

— x — x

Hoje tive mais um pequeno passeio pela caixa de comentários, e como sempre dá vontade de vomitar. Um texto de uma colunista do uol falando do termo femininja em oposição ao feminazi (e esses dias eu andava pensando em assumir o feminazi, sem me importar com a ofensa, mas pra assumir o ativismo).

Os comentários são desse tipo:

“kkk, falou ae, “feminona”… essas alienadas viu, vai fazer alarde onde as mulheres são realmente oprimidas, em países democráticos não vale… há dezenas de países árabes opressores pra vocês babarem de raiva, já comprou a passagem?”

“Isso é jornalismo ????? Tá fácil mesmo … Rapaiz … Não é questão de discordar de opinião é sim de conteúdo , texto , fraco , sem argumentação , nexo , ou objetivação argumentativa. Um vocabulário que varia do formal ao coloquial raso por simples falta de domínio da língua. Triste muito triste ver um portal de conteúdo tão grande postar alho tão s m conteúdo assim.”

“Quando vão mandar essa Lia Bock passar no RH??? Tá na hora de dispensar essa feminista…”

“Pobre menina incompreendida… Você está precisando de um abraço… Quer que eu te abrace? Não né? Sou homem… e pelo visto você detesta homens… pobre menina…”

O cidadão médio. Quando eu iria pra um happy hour ouvir esse tipo de coisa? Só se perdesse feio uma aposta bem alta.

https://liabock.blogosfera.uol.com.br/2017/06/23/feminazi-nao-pode-chamar-de-femininja/

Qual a diferença de poder escolher o momento em que você vai ter um filho?

Artigo da BBC: http://www.bbc.com/portuguese/geral-40166203

[Nos Estados Unidos]

“Em 1970, 90% dos formandos em Medicina eram do sexo masculino. No Direito e na Administração, homens detinham 95% dos diplomas. Na Odontologia, 99% dos diplomados eram homens.

Mas no início daquela década, munidas da pílula, mulheres começaram a adentrar as salas de aula. Inicialmente, eram um quinto da classe, depois, um quarto. Por volta de 1980, respondiam por um terço do total de alunos.

(…)

Goldin e Katz monitoraram a disponibilidade da pílula para mulheres jovens em cada Estado americano. Eles demonstraram que, à medida que as autoridades nos Estados liberavam o acesso à pílula, aumentava o número de matrículas de mulheres em cursos, assim como os salários pagos a mulheres.

Há alguns anos, a economista Amalia Miller usou uma série de métodos estatísticos para demonstrar que se uma mulher com idade entre 20 e 30 anos fosse capaz de retardar a maternidade em um ano, seu salário aumentaria em 10%.

(…)

Para se ter mais uma medida do impacto da pílula sobre a vida das mulheres, basta olharmos o caso do Japão, onde a pílula somente foi aprovada para consumo em 1999. O atraso de 39 anos teve grave impacto sobre o futuro das mulheres no país.

Apesar de ser uma das sociedades tecnologicamente mais avançadas do mundo, o Japão é tido por muitos como a nação desenvolvida com maior desigualdade de gênero no mundo.

É impossível distinguirmos entre causa e efeito nesse caso, mas a experiência nos Estados Unidos sugere que não seja coincidência.”

 

 

Assédio moral, agressividade, gente que não deixa barato, quando vale a pena fazer o circo, nunca deixe alguém te falar que você é melindrosa ou que sua reclamação é mi-mi-mi, e quando você descobre que você estava errada

Ontem passei por uma situação que envolve tantos temas que nem sei por onde começar.

 

Os fatos

Num grupo de WhatsApp de gente que eram meus amigos e colegas em Limeira, 20 anos atrás, um dos caras passou a mandar muitos quadrinhos, vídeos, piadinhas, panfletagem contra PT, Lula, Dilma. Pessoas com quem eu andei falando, todos diziam como aquilo estava chato. Pensávamos até em criar outro grupo. Daí eu decidi que era errado criar outro grupo e pedi, da forma mais delicada que consegui escrever, pro cara parar.

Ontem nesse grupo escrevi um texto tirando sarro com o fato de que eu faço treinamento funcional quase 1x por semana (porque falto muito, viajo, saio do pique), puxando assunto sobre atividade física com outras pessoas. Esse cara pra quem eu havia pedido pra parar com os repasses participou da conversa, mandou um áudio dizendo que realmente era ridículo essa história de quase 1x por semana (mas não era um ridículo de amigo, eu senti que tinha um outro tom, mas não era nada grave), e no meio do áudio me chamou de “tia”. Eu comecei a reclamar do “tia” – que é tão horrível quanto “senhora”, pergunte pra qualquer mulher, só aceito ser chamada de tia quando estou na companhia dos filhos dos meus amigos, de parentes 🙂

E nessa hora aconteceram duas coincidências infelizes. Meu celular tocou, era uma amiga pra quem eu tinha ligado antes e com quem não falo há meses. E um amigo tirou o tal cara do grupo, pra zoar. Falou que o fulano foi mal educado comigo e por isso ficaria 2h fora do grupo.

O fulano achou que eu tinha tirado ele do grupo e mandou um áudio quase me xingando, e reclamando de eu ter pedido pra ele parar com os repasses, dizendo que pras outras eu não falava nada. Ele estava mandando um monte, depois que ele parou, uma menina mandou um quadrinho tirando sarro de São Paulino num dia, na semana seguinte mandou a montagem do Papa com o Trump. Ele falou que pra ela eu não falei nada, e que eu usava dois pesos e duas medidas.

 

O circo

Eu podia ter só deixado passar, mas resolvi subir nas tamancas e reclamar dele falar que eu era desonesta e injusta – que é o significado de dois pesos e duas medidas.

Resumindo várias idas e vindas, falei que éramos um grupo de amigos, que a gente devia ser sempre franco uns com os outros, que se ele tinha ficado chateado com o que eu falei e achou que eu estava sendo injusta devia ter me falado, que era uma questão da alta frequência com que ele estava mandando os repasses, que eu poderia fazer um gráfico pra mostrar pra ele. Que a gente tinha que falar e se resolver, que qualquer coisa que nos chateia tem que ser falada na hora senão envenena, que ele devia ter me falado e que eu estava falando agora pra ele que tinha ficado chateada por ele duvidar da minha honra e caráter, por dizer que eu usava dois pesos e duas medidas. Que ele podia me mandar tomar no cu, eu mandaria ele se foder, e pronto, estava resolvido.

Ele me falou que eu era melindrosa, que era um saco ter que ficar pensando em tudo que você vai falar, que estava de saco cheio de mi-mi-mi, que nem com o filho de 17 anos ele tinha que ter conversas desse tipo, e escreveu coisas do tipo “ô loco, até conversa sobre gráfico saiu” – que é uma das técnicas retóricas sujas. Você está discutindo com alguém, na presença de um grupo, e em vez de conversar com a pessoa você faz comentários pro grupo, debochando de algo que a pessoa falou. O que eu também reclamei, falei “não, fulano, fale direto comigo, não escreva com deboche sobre algo que eu falei, fale direto comigo, aqui”.

 

O discurso cala-a-boca e o abandono

“Estou de saco cheio desse papo, você é cheia de melindres, isso é tudo mi-mi-mi, que droga ter que ficar falando disso” – vocês sabem o que é isso, não sabem? É o típico discurso contra minorias. É frequentemente usado contra manifestações feministas, e qualquer outra minoria.

Veja, não era uma situação de luta feminista. Era só uma situação de “o que te ofendeu não tem a menor importância e você é uma fresca por estar reclamando disso”.

Senti uma fraçãozinha do que sentem as pessoas que passam por assédio moral ou sexual, ou situações de racismo, homofobia, e muitas vezes não têm pra quem recorrer, ninguém acredita, ninguém se importa.

Os meus colegas que tinham me falando o quanto o fulano estava chato, sabe o que eles fizeram? Nada. Tinha pelo menos quatro pessoas que eu sabia que também estavam descontentes com os repasses do fulano, mas ninguém quis falar isso pra ele, nem em público, nem em particular (conversei no privativo com um deles).

Por coincidência, ou não, mais tarde, depois de já ter acabado a discussão, a Ju me mandou um áudio com um pequeno comentário sobre uma situação que ela viu, contei pra ela por cima do que tinha acontecido comigo, e chorei. Ela falou que a gente vive mesmo num mundo de merda e que eu tinha todo o direito de chorar.

À noite quando o Cris chegou contei pra ele durante o jantar, ele ouviu tudo, me falou coisas boas do tipo “você é assim mesmo… deixar barato não é com você. Outras pessoas poderiam só ter deixado pra lá, mas você não é assim, você é espinhuda mesmo, muita gente nem desconfia”.

 

Promoção de valores, sobre quando não brigar, e consequências do circo

Eu acredito que pra um grupo de amigos a gente devia falar de qualquer coisa que nos chateia, e que só vale a pena se relacionar voluntariamente com um grupo de pessoas se for pra ser com franqueza e honestidade. Expressei isso.

Sou contra o discurso de “vamos deixar isso de lado, deixa pra lá” – enquanto não tiver havido uma discussão intensa. Claro que sou contra ficar prolongando por dias, mas acho errado evitar qualquer confronto.

A maioria das pessoas teme o confronto, acham que é sempre errado só porque é tenso ou desagradável na hora. Mas não é verdade. Se você quer se relacionar de verdade com as pessoas, a coisa mais errada que tem é engolir sapo e ir envenenando a alma. O confronto serve pra não criar o veneno. Ou você resolve, ou você rompe, mas nada de relacionamentos que são só uma fachada.

 

Quando eu não discuto? Com a minha sogra e meu cunhado, por exemplo. Porque não tenho nenhuma esperança de que vá mudar as opiniões deles, e porque acho que isso traria um grau desnecessário de tensões nos nossos encontros. É muito melhor eles acharem que sou burra, que não tenho o que falar, que não tenho assunto, do que eu expressar o que penso de verdade e queimar o filme pra sempre.

Ou seja, com parentes, colegas de trabalho, qualquer um que você tem que conviver, não que você está escolhendo conviver, acho que o certo é assumir a postura garantida do não-confronto, da máscara social.

 

Uma das consequências do circo: uma das pessoas do grupo, que estava bem calada até então, e que não vai poder participar do encontro em junho, quer me rever e almoçar comigo.

O circo geralmente tem um grande desgaste com seu oponente, mas também é o momento pra você expressar seus valores, seus pensamentos, e atrair gente que sintoniza com você.

É cansativo e estressante, mas todos os circos de que participei até agora renderam.

 

Descobrir que você estava errada e ter que pedir desculpas

Ontem o cerne das minhas reclamações foi o fulano ter me falado que eu usava dois pesos e duas medidas. Fiquei ofendida e reclamei claramente disso. Ele não me falou “eu só envio 1, 2, no máximo 3 repasses por dia, tem dias que não envio”, ele falou “que saco ter que discutir isso, que saco ter que pensar no que vou falar, você é cheia de melindres, isso é mi-mi-mi”.

Hoje acordei cedo como sempre e descobri que o fulano estava certo em se sentir injustiçado, e que eu estava errada em dizer que ele tinha um alta frequência de envios de repasses.

Juro.

Que cacete, não?

Fiz uma tabela com os dias e as quantidades de repasses dele, e descobri que ele estava enviando cada vez menos, e que eu não tinha direito de ter pedido pra ele parar de mandar, porque o fato é que ele já estava mandando numa quantidade razoável. Fiquei uns minutos olhando pra tabela, pensando no que eu ia fazer, e decidi pedir perdão público no grupo. Minha dúvida sobre o que fazer não era receio de assumir o erro, era considerações de que muita gente acha que esse assunto já deu, nem devia ter começado, e que vão achar errado eu voltar a falar dele. Mas eu errei. Briguei com alguém partindo de uma premissa errada. Achei que tinha que pedir desculpas públicas.

Colei abaixo o texto que mandei pro grupo.

 

E se você chegou até aqui no texto, obrigada. Quis compartilhar algo tão comprido porque achei que era um dos momentos pra falar de teoria na prática.

 

Continuando a conversa sobre agressividade

Sobre agressividade, A., acho que nunca vou deixar de ser agressiva, espinhuda. Reconheço que há formas de falar as coisas, que há momentos em que é melhor calar e parecer burra do que criar polêmica, e há outros em que eu podia deixar a molecagem de lado.

Acho que serei sempre agressiva, porque o fato é que franqueza e verdade são coisas agressivas. Mesmo o tal episódio de Girls, com a garota borderline, ela era agressiva com todos do grupo, com sarcasmo e deboches, mas o que a fez ser duramente repreendida pelo moderador do grupo foi porque ela falou que a outra garota do grupo era lésbica e ainda não tinha se descoberto. Isso fez a garota lésbica jogar café na borderline e sair pisando duro. Mas era verdade, e depois a borderline prova isso transando com a outra e sendo pega pela administração.

Outra verdade doída? “Seu filho está com problemas de desenvolvimento, você devia procurar ajuda, dar uma atenção especial pra ele, mudar sua rotina, ser capaz de fazer coisas que você não gosta de fazer pra fazer coisas que uma criança precisa fazer, como aprender a nadar, aprender a andar de bicicleta”.

É o tipo de verdade que faz as pessoas mandarem você calar a boca, nunca mais fale do meu filho.

A molecagem é a provocação, não é a pura verdade, é quando falo coisas que eu sei que vão ofender. 3×4-Sensação. O Cris, e o Universo, estão certos em dizer que o Sensação era desnecessário. Há formas muito mais neutras de descrever esse tipo de foto, mas eu escolhi a molecagem só pela diversão, e acho que esse é o tipo de coisa que eu devia evitar.

Essa foi uma jornada bem interessante pra refletir sobre um tema. Começou com um seriado visto em avião, que rendeu um postzinho, que rendeu umas boas conversas com leitora do blog, e culmina aqui. Com essa porra de orgulho de ser espinhuda, não ter medo de confronto, expressar meus valores, ser cabeça dura mas não a ponto de não reconhecer que errei e pedir desculpas públicas, não a ponto de reconhecer que posso evitar a molecagem.

 

Obrigada pela conversa, A.. Escreva sempre.

 

=== texto pro grupo de Limeira

Queria pedir desculpas pro …. …, eu agi errado em te pedir pra parar com os repasses. Não sei como foi com você, mas eu fiquei muito chateada e incomodada com nossa discussão de ontem, não tanto com você, e mais por eu ter protagonizado um tumulto num grupo de amigos.

Hoje eu fiz uma contagem, que é a base de um gráfico. Meu marido é economista, eu trabalhei numa consultoria econômica. Fazer um gráfico não é uma expressão como “deixa eu desenhar pra você”, é um jeito de mostrar dados, e não há retórica, são apenas dados.

Sabe o que eu descobri?

Que você tem razão em se sentir injustiçado. Você passou um período de uma semana com uma frequência mais alta de repasses, e nas duas semanas seguintes passou a enviar bem menos, em alguns dias não enviou, em outros foram 1, 2, no máximo 3. Num período de 22 dias você enviou uns 50 e poucos, o que dá uma média de menos de 3 por dia. Mas se alguém me perguntasse, eu diria que você mandava pelo menos 5 por dia, que é a média da primeira semana.

Eu parei de prestar atenção no grupo da …, que parecia ter virado um grupo que só tinha os seus repasses, e com temas que eu não gosto. Principalmente política. Eu panfletei pelo impeachment, mas não gosto de ver as polarizações de coxinha x mortadela e a demonização do PT e do Lula. Pra mim a nossa luta é contra corrupção, não contra um partido ou algumas figuras.

Sei de outras pessoas que estavam incomodadas com as postagens. A gente tinha até falado de criar ou outro grupo, um subgrupo de gente que estava disposta a se reunir. Mas depois achei que seria errado essa história de subgrupo, que era preciso ter inclusão de todo mundo.

Nessa tentativa de não excluir ninguém, eu errei. Deixei meu emocional, o fato de eu não gostar dos seus repasses, falar mais alto do que os fatos, que deveria ser fazer uma contagem desde o começo, que mostraria que você estava enviando cada vez menos.

Você tem razão em se sentir injustiçado. Quando eu te pedi pra não mandar mais repasses, você não era mais uma pessoa que mandava um monte de repasses por dia, e eu falei como se fosse, só porque eu não gosto do conteúdo. Isso foi muito errado da minha parte.

Por favor, sinta-se livre pra enviar o que quiser, na questão de quantidade não vejo nenhum problema em mandar até uns 3 por dia, que foi o máximo que você estava fazendo. Na questão do conteúdo, como não é nada obsceno ou discurso de ódio não tem motivo pra eu dizer que não pode, as pessoas são livres pra expressar sua opinião.

Peço desculpas de coração.

Pode enviar os quadrinhos que quiser, e juro que nunca mais vou reclamar deles.

Um abraço,

Claudia

Perguntas pra quem destila ódio, desprezo e jocosidade contra as lutas de mulheres, homossexuais, gordos, negros ou qualquer outra etnia que sofre xenofobia

– Você gosta de você?

– Gosta de verdade?

– Você se conhece? Você sabe quais são suas qualidades, seus defeitos, o que você precisa melhorar, o que é motivo de orgulho?

– Você sabe quais são seus valores?

– Quais dos seus valores justificam rir da humilhação, tortura, estupro e assassinato dos outros e sabotar as mudanças pra que elas parem de acontecer?

– Em qualquer uma dessas situações em que você discursou, às vezes em caixa alta, contra o mimimi desse bando de vagabundos e vadias desocupadas, em algum momento você tentou imaginar como seria se você estivesse no lugar deles? Ou se fosse com alguém próximo? Se fosse sua filha ou sua mãe que enfiaram a mão na buceta ou estupraram mesmo, se fosse seu filho chorando todos os dias porque os colegas riem dele e batem nele porque ele é gordinho, ou como seria se você tivesse nascido com a pele escura, ou com um rosto que faz desconhecidos se sentirem no direito de fazerem micagens pra você na rua, gritarem palavras sem sentido e acharem tudo engraçado, ou partirem do princípio de que você é bandido e violento, ou quererem te espancar ou te matar porque você ama quem você quiser… já pensou?

– Qual dos seus valores justifica tratar as pessoas como coisas ou como lixo?

— x — x

Fiz meu exercício quase diário de passear pelos portais de notícias e dar uma olhada nas caixas de comentários. E vem a pergunta de sempre “por que essas pessoas acham mais importante se agarrar a algum detalhe, ou reclamar de algum problema que não tem relação com as vítimas citadas na reportagem, pra tentar invalidar a dor do outro e, portanto, sabotar a luta do outro pra que o mundo mude?”

O Cris sempre me pergunta por que eu me torturo em ler caixas de comentários. É doído e deprimente, mas a leitura me dá uma medida do pensamento comum, acho importante saber o que se fala por aí, o que se pensa por aí.

Vocês repararam que o uol tem dado mais espaço para temas feministas? Coincidência ou não, soube que entraram duas jornalistas feministas, do Roller Derby. Não tenho nenhum detalhe do que rola, mas queria dizer que como leitora eu percebi que tem havido mais espaço. Me falaram que não é com facilidade que elas conseguem inserir as pautas feministas, mas agradeço muito pelo esforço, é visível.

Hoje por exemplo na seção Estilo de Vida, em vez de mostrar só as tendências de batom ou de roupas, tem estes artigos:

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/marilizpereirajorge/2017/05/1881057-mulher-machista-morre-de-medo-de-mulher-facil.shtml

http://vilamulher.uol.com.br/bem-estar/comportamento/cultura-do-estupro-m0517-731201.html

https://estilo.uol.com.br/comportamento/noticias/redacao/2017/05/08/nao-confio-mais-nos-homens-diz-vitima-do-golpe-da-camisinha.htm

Este último link, que fala de homens que não gostam de usar camisinha, a mulher diz que não vai rolar se ele não colocar, ele coloca e de repente tira e a mulher só percebe quando ele goza – e daí vem o trauma, medo de Aids, gravidez, a mulher da reportagem disse que depois disso ficou frígida, está há 3 meses sem transar com ninguém, vem comentários como este:

E AQUELAS QUE ENGANAM OS HOMENS DIZENDO QUE TOMAM PÍLULA E DEPOIS APARECEREM GRÁVIDAS? ISSO É O QUE? E POR QUE A MÍDIA NUNCA DESTACOU O FATO QUE MUITOS HOMENS SOFREM ESSE GOLPE? PRINCIPALMENTE OS CARAS COM GRANA! PORTANTO, ME POUPEM DESSAS BABOSEIRAS FEMINISTAS QUE SÓ OLHAM UM LADO DA COISA!

Nossa, como me deprime.

Desculpe se acabei com seu dia também, mas depois de passar os olhos por comentários como esse, se tornou o assunto mais pungente.

Pra tentar não ser um post só de desabafo, e ter alguma utilidade, você identifica os erros de lógica do comentário da criatura?

1 – Se o homem realmente não quer um filho ele usa camisinha sempre e diminui em 90 a 95% a chance de uma gravidez indesejada. Risco de 5 a 10% é bem razoável, não?

2 – Por que a mídia nunca destacou esse tipo de golpe? Porque ele é fácil de ser evitado se você usa camisinha. Um caso em que, pra variar, o poder está na mão do homem. Porque se você caiu no golpe, significa que sua luxúria falou mais alto do que sua precaução e quem quer aparecer numa reportagem tendo que reconhecer que foi otário?

3 – Ninguém que acabou de se conhecer deveria fazer sexo sem camisinha. Se um cara rico transa com uma mulher recém-conhecida sem camisinha ele está sendo absolutamente estúpido. Ela pode falar que toma pílula, mas e o risco de DSTs, incluindo Aids? Se eles já têm um relacionamento há meses, em que rolou a confiança a ponto de não precisar ter medo de DSTs, e o cara não percebeu que está nas mãos de uma golpista que só quer engravidar dele pra ficar bem na vida, ele também está sendo bem estúpido, e que homem quer aparecer numa reportagem denúncia tendo que reconhecer que foi cego durante meses?

3 – Qual a diferença com o golpe da camisinha? O golpe da camisinha é uma noite, em geral a primeira noite. A mulher exigiu a camisinha, que é o jeito mais fácil, prático e confiável de se evitar gravidez e DST. Existe a camisinha feminina? Sim. Já tentou usar uma? Eu nunca usei, na minha época pré-Cris acho que nem existia, mas deem uma olhada nas fotos. É trambolho, faz barulho se não estiver com bastante lubrificante, tem risco de sair do lugar, de se enfiar na buceta e assim perder a eficácia. Se o homem acha que tem menos prazer tendo que usar a camisinha, não é diferente com a camisinha feminina, continua sendo uma barreira. E a camisinha feminina só serve pra sexo vaginal. Não foi feita pra sexo anal ou oral.

4 – Usar camisinha na primeira relação com uma pessoa é a coisa mais natural, ou que deveria ser a mais natural. Se o homem fala que vai por, que tipo de mulher pensa “ok, mas talvez você tire, então deixa eu me precaver e também vou colocar a camisinha feminina”.

Baboseira feminista. Com certeza a criatura que escreveu nunca pensou que sua filha pode engravidar ou pegar Aids porque teve um encontro e o cara decidiu tirar a camisinha durante a relação. Pense nisso, criatura.

Você reconhece falso dualismo e valores masculinos x valores femininos?

Confluência de esferas da sua vida. Quanto mais a gente não precisar viver uma vida segmentada, e sim poder ser quem somos, falar do que gostamos, demonstrar nossos valores pra qualquer um, melhor é a nossa vida. Estamos praticando não ter vergonha de nos expor, muitas vezes testando a tolerância do outro, mas também exercitando-a, expandindo seus limites.

Nesta semana consegui juntar birdwatching com feminismo. De forma leve neste post, que foi bastante lido porque um dos meus colegas que é bem mais famoso e conectado do que eu compartilhou e recomendou: http://virtude-ag.com/o-que-e-uma-boa-fotografia-de-natureza/, e de forma bem mais declarada aqui: http://virtude-ag.com/qual-a-relacao-entre-3×4-padrao-de-beleza/, que foi escrito no dia seguinte como um desenvolvimento de um dos problemas apresentado. Este com certeza menos gente leu, nem coloquei no Facebook, talvez coloque quando voltar de viagem.

Escolhi não falar no texto “sou feminista”, mas falo de questões feministas. Imposição de padrão de beleza, o viés dos jurados. Digo que nosso julgamento é influenciado por diversos fatores, inclusive se você é homem ou mulher, mas decidi não jogar na cara que um concurso de fotos que só tem homem  no júri nunca será justo com as mulheres, que foi o que aconteceu nos anos do concurso do Avistar. Já vi uma conversa entre fotógrafas mulheres, dizendo que uma mulher nunca tinha ganhado um prêmio. Na verdade eu ganhei em 2009 o segundo lugar na categoria melhor registro, na época em que ainda valia dinheiro, mas não vem ao caso agora, o fato é que se só tem homens no júri, ou principalmente homens, não é nenhuma surpresa que só homens ganhem os prêmios, afinal, os valores femininos e masculinos são diferentes.

Escrevi os textos e não falei “são textos feministas”, porque isso teria feito muita gente ou não ler, ou ler com olhos bem azedos. Mas como não falei que são textos feministas, a maioria das pessoas adorou, elogiou, no mesmo dia 8 pessoas quiseram ser minhas amigas. Dois amigos não gostaram tanto.

 

Não deixe as pessoas te embrulharem com argumentos tortos

Esses textos que andei escrevendo no Virtude falam mal da principal estética de fotografia de aves brasileiras, algo que eu batizei candidamente de 3×4-Sensação. Eu sei. Poderia ter chamado só de 3×4, como a maioria das pessoas fala, e deixaria de irritar muita gente que provavelmente se sentiu pessoalmente ofendida. Cris: “por que você fez isso? Você poderia unir mais gente se fosse menos provocativa”, eu: “Eu já sofri muito na vida”, Cris: “Sofreu????”, “Sofri. Sofro com frequência. Sou obrigada a ler e ouvir muita besteira. Eu preciso me divertir um pouco também”.

Chamar de Sensação tem um lado de molecagem mas também é um teste. Se você não consegue enxergar o quanto temos sido sensacionalistas aplicando esse estilo, com essa luxúria por penas super-definidas, se você se irritou em vez de só sorrir, talvez sua visão esteja um tanto estreita.

Esse meu amigo se incomodou.

Ele me falou que já se incomodou por não ganhar pontos no Wikiaves, mas agora não se incomoda mais, que todo mundo começa com esse estilo de 3×4 e depois evolui o estilo, que as mudanças vão acontecer naturalmente, que não devemos criar antagonismos, que melhor fotografar o 3×4 do que não fotografar nada, ou pior, até mesmo fazer coisas que prejudiquem a natureza, que ele (provavelmente ele quis dizer “diferente de você”) tem cultivado muito a tolerância, e que o mais importante é ajudar o Wikiaves.

Esse cara é muito gente boa e há anos me ajuda em diversos projetos, gosto bastante dele. Mas pra mim é um exemplo do típico birdwatcher homem brasileiro. Essa mentalidade de “não vamos criar conflitos, deixa cada um ser o que quer, as coisas vão acontecer naturalmente” já ouvi de vários. Coincidência ou não, em geral são caras do mainstream. Faz sentido, certo? Se não é problema pra você, quando alguém começa a espernear, a reação natural não é dizer “está tudo bem, não sei por que você está reclamando”?.

Quanto aos argumentos do meu amigo, talvez você não tenha entendido tudo porque não está por dentro do mundo do birdwatching brasileiro, mas provavelmente você intuiu as diversas falácias, especialmente essa de dizer “melhor o 3×4 do que não fotografar nada ou até prejudicar a natureza”, típica estratégia torta de várias discussões. Como se só houvesse essas duas opções e você sempre cria um cenário catastrófico à alternativa que seu oponente está criticando. Seria a mesma lógica de “Os homens estupram mulheres, mas em geral elas têm pelo menos 11 anos. Melhor isso do que estuprar crianças de 5, ou bebês, ou, pior ainda – matar” – pesado, eu sei, e pra deixar claro, meu amigo não tem nenhuma relação com discursos ostensivamente machistas. Escrevi pesado assim pra ficar claro o mecanismo do falso dualismo, se alguém tentar usar contra você, talvez esse exemplo te ajude a identificar por que tem algo estranho na argumentação do outro.

Ah, e o argumento do acontecer naturalmente também é bem ruim e bem errado. A maioria das mudanças grandes e importantes não aconteceram naturalmente: elas foram fruto do trabalho duro, às vezes regado com sangue-suor-lágrimas, de quem queria ver o mundo diferente.  Uma imagem exagerada pro meu caso, mas bem verdadeira pra tantas lutas, e são tantas que eu comecei a citar aqui e apaguei, pra não dispersar demais. Só pra reforçar: é mentira que as mudanças acontecem naturalmente.  As mudanças acontecem porque alguém lutou por elas.

E se você ler os meus textos compridos no Virtude, verá que meu objetivo é exatamente o contrário do que meu amigo falou. Não quero que as pessoas parem de fotografar ou façam mal à natureza: quero que todo mundo possa se apaixonar pela fotografia, não só os que têm dinheiro pra comprar as câmeras caras capazes de produzir os 3×4-Sensação.

 

Diferenças entre valores femininos e masculinos na relação com a fotografia

O outro amigo que não gostou muito do texto comentou o quanto é difícil ser um fotógrafo generalista (acho que foi porque eu sugeri que as pessoas fotografassem diversos temas, não só as aves, dei exemplos de painéis com paisagens e macro). Ele falou que é muito raro ter alguém que arrebenta em fauna, paisagem, macro, que em geral a pessoa só consegue ser boa num campo. O Cris estava passando perto de mim, leu minha tela, e disse que concordava totalmente com ele. Os manos querem fotos pra arrebentar.

Mas sei que eu, e outras minas, não estamos atrás de fotos pra arrebentar, pra deixar todo mundo embasbacado com o quanto somos foda. Um dos nossos maiores prazeres é dizer “você pode ver isso, foi num lugar comum assim, comece a fotografar também, você vai adorar, precisa ver como faz bem pra alma”.

Ah, e antes que você grite que você é homem mas também é mina, queria dizer que os mano e as mina é uma referência a valores, não importa o sexo. Competição, ostentação e arrebentar são valores masculinos. Contemplação, compartilhar, se importar mais com as emoções e menos com aspectos técnicos são valores femininos.

Feminismo é mimimi

Você já leu, ou infelizmente talvez tenha colegas ou amigos que falam como o feminismo é chato, que não se pode nem fazer uma piada, que essas mulheres são umas desocupadas, com tanto assunto mais importante ficam panfletando por nada, que é tudo mimimi.

A violência doméstica, as mulheres que apanham rotineiramente, os 45 mil casos de estupro registrados, com certeza de subnotificação, provavelmente na casa dos 400 mil, os  quase 5 mil assassinatos de brasileiras por ano? Ah, faça-me o favor! O brasil tem quase 60 mil assassinatos por ano, ou seja, mais de 50 mil homens contra menos de 5 mil mulheres, por que ninguém está falando disso, o assassinato dos homens é muito mais importante, o de mulheres é só uma fração! (já ouvi essa também).

É ultrajante ter que responder, mas eu respondo, caso você esteja procurando as palavras pra explicar pra alguém: é realmente muito triste a taxa de assassinatos no Brasil. Desses 58 mil mortos, a maioria são jovens pobres de periferia, muitos com menos de 30 anos. É uma tragédia, mas que eu não me sinto em condições de ajudar, ou melhor, há uma questão feminista que poderia ajudar: o direito à educação sexual, informações sobre planejamento familiar, acesso a métodos contraceptivos e o direito de fazer o aborto. Isso faria uma enorme diferença no país. Teríamos muito menos pessoas nascendo em condições precárias, vivendo uma vida de pobreza, violência, que facilmente engrena pro crime e pra morte prematura. Fora isso há toda a complexidade dos mecanismos sociais de educação, empregos, cultura.

Os 4.800 assassinatos de mulheres também são muito tristes. Mulheres estupradas, esfaqueadas, baleadas, torturadas, queimadas, muitas vezes por um conhecido, pelo ex-companheiro que não aceitou o fim do relacionamento, com frequência dentro da própria casa, às vezes na frente dos filhos.

Mas sabe qual a diferença com os assassinatos dos jovens pobres de periferia? A diminuição do assassinatos de mulheres não depende de engrenagens tão pesadas e difíceis. Campanhas, palavras, discursos, conversas, conselhos são capazes de fazer um homem mudar, e fazer mulheres se unirem, terem coragem de falar sobre seu sofrimento, pedirem pelo direito de serem tratadas como seres humanos.

E sabe qual um grande obstáculo pra isso acontecer?

Gente como você. Os pretensamente cultos, cools, inteligentes e descolados, seja homens ou mulheres, que falam “feminazi”, “mimimi”, “mundo chato”. Todas as vezes em que vocês abrem a boca pra menosprezar o feminismo, pra falar de coisas pontuais como o tal caso da mulher que processou o homem que a salvou de se afogar porque ele tocou no corpo dela sem permissão, quando vocês falam de casos assim como se eles fossem mais importantes do que milhares de assassinatos e centenas de milhares de estupros, fora as centenas de milhares de mulheres que apanham, de porrada, todos os dias, você está sendo um babaca infantil fútil sem coração, alguém que não tem a menor consideração pelo sofrimento dessas mulheres.

Feminismo é mimimi?

Se pra você estupro, tortura, espancamento e assassinatos são mimimi, por favor, fique longe de mim.

 

https://nacoesunidas.org/onu-feminicidio-brasil-quinto-maior-mundo-diretrizes-nacionais-buscam-solucao/

Dados e fatos sobre violência contra as mulheres