Category Archives: Feminismo

Meninas boas vão pro céu e as más vão pra qualquer lugar

Esse mundo machista espera que a gente seja bela recatada e do lar. Mas qualquer cara que valha a pena conhecer e ficar não é machista no nível de pensar que você é uma vaca desprezível porque já saiu com outros caras, já transou com outros caras, e fica com outros caras sem precisar estar apaixonada por eles.

Se um cara te desprezar ou desvalorizar porque você não é virgem e recatada, ele não vale a pena, fique longe dele, que bom que você descobriu logo de cara.  Só gente muito idiota pensa que mulheres de 20 e poucos anos não têm todo o direito de fazer o que qualquer pessoa devia estar fazendo nessa idade: experimentando muito.

Essa é a idade pra experimentar, pra ousar, pra pagar mico, pra sair com vários caras. Quem não faz isso com 20 e poucos corre mais risco de se tornar um adulto idiota, ressentido, tapado, moralista. Uma pessoa que não tenha experimentado o suficiente nos 20 e poucos corre o risco de se tornar alguém capaz de cair facilmente na lábia de pessoas imorais porque falta experiência de vida e sobra fantasia do que poderia ter vivido.

Você já viu um filme dos anos 1990, Procura-se Amy? Tem o Ben Affleck no papel do macho babaca. Ele está apaixonado por uma garota, a Joey Lauren Adams, e o mundo desaba quando ele descobre que ela mentiu pra ele, que nem sempre ela foi gay, e que ela era muito promíscua desde o colégio. “Você não se importa de eu já ter dormido com metade das mulheres de Nova York, mas ficou arrasado porque eu fiz algum sexo quando estava no colégio!”. E esse “algum sexo” eram histórias como sexo a três, fazendo boquete num cara enquanto o outro fazia anal com ela (e os dois contam pra todo mundo), ser filmada transando (sem saber) e depois o cara passar o vídeo no circuito interno da escola, e ela fala “e qualquer outra história escabrosa que você tiver ouvido sobre mim provavelmente é verdade”. Ele fica bravo, fala que tem uma diferença entre sexo normal e o que ela fez, que ela foi usada. “Não, eu não fui usada. Eu usei eles! Eu fiz porque eu quis”.

Só gente bem idiota acha que existe essa história de sexo normal. Sexo é desejo e você faz com quem quiser como quiser, se é de consentimento entre ambos ou entre todos, seja mulher com homem, gay, suruba, as pessoas fazem o que quiserem.

Tem uma cena do filme em que o Ben Affleck está num bar, deprimido porque é apaixonado pela Joey, mas não consegue aceitar esse passado, e aparece o diretor (Kevin Smith), que faz o papel de Silent Bob. Ele e o Jason Mewes são uma dupla maconheira que inspirou uns personagens de sucesso do Ben Affleck, que faz papel de quadrinista. Affleck conta a situação, e fala “o que eu vou pensar disso?”, e o Mewes fala algo parecido com o que meu amigo de Limeira falou “você devia se sentir sortudo porque ela já experimentou de tudo e agora decidiu ficar com um babaca como você”.

Sexo é poder. Ter experiências sexuais aumenta o conhecimento e segurança sobre si, sobre os outros, sobre os seres humanos.

Claro, partindo do princípio de que há desejo. Entendo que tem gente que não tem o mínimo de desejo sexual, nesse caso não se deve fazer algo forçado. Mas acredito que é muito importante a gente vencer a barreira moralista do que não podemos fazer por medo de sermos julgadas, especialmente julgadas como putas vacas piranhas.

Pensa como é machista essa ideia de mulher fácil. Como se a mulher fosse um objeto passivo, e não que rolou porque ela também quis. Ou então, a ideia de que se ela quis ela é uma puta. O homem que sai com várias é garanhão campeão mito. A mulher que sai com vários é piranha vagabunda.

Saia com quem você quiser, faça o que você quiser, e coloca como nota de corte a questão da reputação. O cara que tiver alguma aversão a você porque você sai com vários, porque não é recatada, é alguém com quem você não vai querer um relacionamento sério, deixa ele pra lá sem se preocupar que ele poderia ser legal, simplesmente não dá pra fica com homem tão machista a ponto de pensar que uma mulher solteira, ainda mais nos 20 e poucos anos, não tem direito a uma intensa vida sexual.

E se tiver chance, faça um favor pro mundo. Todas as vezes que ouvir alguém falando mal de uma mulher que sai com vários caras, combata isso. Pergunte por que homens podem e ela não. Se a pessoa não é comprometida, está ofendendo quem? O que tem de errado em ficar ou transar? Se ela fez suruba, se foi uma sessão sadomasoquista, ou com frutas e chantilly, se teve anões besuntados ou sei lá o que, o que as pessoas têm a ver com isso? É inveja? Que elas sejam mais ousadas na própria vida sexual, entendam e aceitem que na privacidade e se for de consentimento entre todos os presentes, os adultos fazem o que quiserem.

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Ok, experimente e viva muito, mas vou ter que falar das coisas chatas também.

Nunca custa reforçar: segurança sempre. Camisinha sempre. Engolir porra não é algo pra primeiros encontros, há risco de DSTs.

Há mais de 400 mil estupros por ano no Brasil (45 mil registrados com certeza de subnotificação). A maioria dos casos notificados é de menores de idade, porque uma mulher adulta que sofre um estupro em geral não notifica (no caso das meninas estupradas, um adulto fica sabendo e denuncia). No Brasil não tem muitos estudos, mas na época da USP a gente sabia que tinha estupros dentro do campus. Na faculdade é mais comum ainda o cara confundir liberdade sexual com o direito de abusar e violentar.

Lembra sempre que álcool e sexo é uma combinação perigosa entre gente que mal se conhece. Tenho uma amiga que bebia muito nas festas de faculdade, até que tomou um susto grande. Uma manhã acordou nua na cama de um cara e não lembrava como tinha ido parar lá. Não foi boa noite cinderela, ele era um cara legal, mas ela passou pela humilhação de ter que perguntar pra ele o que tinha acontecido, se eles tinham usado camisinha. Depois disso ela nunca mais bebeu tanto.

Beber bastante e ficar bêbada é maravilhoso, mas tenha certeza de estar num ambiente seguro, com pessoas em quem você confia. Infelizmente a verdade é que estar bêbada aumenta o risco de você ser abusada.

Se mesmo com todos os cuidados tiver algum problema com camisinha, não hesite em tomar pílula do dia seguinte (eu já tomei, duas vezes. Por camisinha mal colocada e pela bobagem de deixar o cara gozar duas vezes sem tirar).

Na minha época não tinha isso, mas sei que hoje em dia também é possível tomar os coquetéis antirretrovirais, mas não sei o quanto isso é fácil de obter num posto de saúde. Mas tem que procurar logo, quanto antes melhor, e estamos falando de horas. O tratamento diminui de eficácia conforme passam as horas, 72 horas é o limite máximo pra começar e o ideal é começar 2 horas depois da exposição.

http://www.drakeillafreitas.com.br/profilaxia-profilaxia-pos-exposicao-ao-hiv-o-que-voce-precisa-saber/

http://ladobi.uol.com.br/2016/11/camisinha-preservativo-estourar/

http://www3.crt.saude.sp.gov.br/profilaxia/hotsite/

Lembra também que prazer sexual não é só coito com porra. Estou falando dos risco de contaminação com sêmen ou fluidos vaginais, mas lembra que os momentos de prazer com outra ou outras pessoas não é uma receitinha de bolo que começa com beijo, depois boquete, depois sexo vaginal, depois sexo anal. Isso é idiotice de filme pornô barato. Há muito prazer na pele, em várias partes do corpo, na provocação, na espera, na ansiedade por mais. É simplesmente experimentar e lembrar que filme pornô é só filme pornô, que somos muito melhores do que isso.

Outra merda que a gente tem que lembrar nos dias de hoje: cuidado com a ideia de nudes, ou de se deixar ser fotografada ou filmada transando. O cara pode parecer bem legal na hora, mas o mundo dá muitas voltas. Eu simplesmente não deixaria.

Desculpe se falei demais das coisas chatas, mas com as DSTs e estupros, infelizmente não dá pra sair pra farrear e experimentar sem ter isso sempre em mente. Na hora da excitação sexual é fácil esquecer de um monte de coisas, mas se esforce pra ser sempre conservadora na questão dos riscos. Camisinha sempre. Cuidado com álcool + sexo. Cautela ao se envolver. Não é errado beijar ou ficar ou até transar com um cara que você acabou de conhecer, mas se você sabe pouco sobre ele, evite ir pra algum lugar isolado de ajuda. Esse terceiro é o mais chato, e eu já quebrei isso muitas vezes, mas a gente sempre tem que lembrar que os riscos existem.

 

Homem ejacula no pescoço de desconhecida em ônibus na Paulista, é preso, mas juiz manda soltar

“O juiz diz que a passageira estava sentada em ônibus cheio. Ele não estava cheio. Não tinham 20 pessoas no ônibus. Ele premeditou tudo, escolheu a vítima e fez o que fez. Se tem uma brecha na lei para livrar cara de bandidos engravatados, com certeza tem brecha na lei para fazer com que esse cara fique preso. O juiz falar que o ônibus estava cheio? Ele tinha qualquer lugar para ficar. Se ele quisesse estaria sentado”, disse a economista.

(…)

[as palavras do juiz] “O crime de estupro tem como núcleo típico constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso. Na espécie, entendo que não houve o constrangimento, tampouco violência ou grave ameaça, pois a vítima estava sentada em um banco do ônibus cheio, em cima de uma passageira, que ficou, logicamente, bastante nervosa e traumatizada.

Ademais, pelo exame da folha de antecedentes do Indiciado, verifica-se que tem histórico desse tipo de comportamento, necessitando de tratamento psiquiátrico e psicológico para evitar a reiteração de condutas como esta, que violam gravemente a dignidade sexual das mulheres, mas que, penalmente, configuram apenas contravenção penal.

Como essa contravenção é apenas somente com multa, impossível a homologação do flagrante. Ante o exposto, relaxo a prisão em flagrante. Expeça-se alvará de soltura”.

Escrevi pra Ouvidoria do Tribunal de Justiça de São Paulo. Achei que é o mínimo que posso fazer. Se você também acha revoltante juiz dizer que ejacular no pescoço de desconhecida, em ônibus, não constitui violência ou constrangimento, escreva também.

http://www.tjsp.jus.br/CanaisAtendimentoRelacionamento 

Observação: ontem recebi resposta dizendo  “o usuário deve acessar o site: WWW.TJSP.JUS.BR => CONTATOS , clicar em FALE CONOSCO => Clicar em FALE COM A CORREGEDORIA.”

“Foi revoltante acompanhar o desenrolar da agressão a Cíntia Souza. Raramente um agressor é preso em flagrante. Nesse raro caso e que ele pode ser preso, o juíz considera que ejacular no pescoço de uma mulher não constitui violência ou constrangimento. É uma vergonha ver a atitude desse juiz, que realmente tratou a vítima como lixo.

Espero que um dia esse senhor consiga mudar de visão, que aconteça algo em sua vida que o faça enxergar que combater a violência contra quem não pode se defender é obrigação do sistema social. As mulheres são abusadas com tanta frequência porque raramente revidam, e os abusos prosperam na certeza da impunidade. Parabéns ao sr. José Eugenio que provou mais uma vez que não há punição no Brasil pra quem abusa de mulheres.”

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Repararam no que a mulher que acompanhou a vítima comentou sobre “deve haver alguma brecha na lei”? É porque na verdade, é doído reconhecer isso, mas o juiz só agiu ao pé da letra. Hoje não existe uma lei explícita pra punir quem bolina uma mulher, ou mesmo pra quem ejacula em cima de uma desconhecida. Você pode chegar em qualquer lugar e meter a mão nos peitos, passar a mão na bunda, por o pau pra fora e gozar olhando pra ela, ou até a porra jorrar nela, e isso não é crime.

Uns anos atrás Romário propôs um projeto de lei pra tornar crime bolinar mulheres dentro de transportes públicos. Mas não foi votado. Também já vi um projeto de lei pra multar homem que passasse cantada grosseira, ofensiva, e por uma conjunção das estrelas isso acontecesse na frente de um guardinha, o guardinha poderia multar — mas foi muito criticado, disseram que isso acaba com o romance.

E como comentei em outros post, o projeto de lei do Romário é um grande avanço, e mesmo assim talvez não cobrisse essa situação do homem que ejacula no pescoço de uma desconhecida no meio de um ônibus vazio. Porque o projeto de lei dele fala de contato físico, e o advogado poderia dizer que ele não encostou a mão nela, era só esperma, não muito diferente do que cuspir em alguém. 🙁

Ou como aconteceu comigo, na Paulista também, de passar pela situação de um homem sentar numa mesa próxima, horário vazio, só eu e ele na área da varanda, colocou o pau pra fora e começou a bater punheta. Isso também não é crime.

E entendam, não é só o constrangimento moral de ter que ver um idiota qualquer batendo punheta, é medo. Somos o país dos 45 mil estupros notificados por ano, com certeza de subnotificação, e estimativa de ser algo como 450 mil. O cara que ficou batendo punheta do seu lado, ou que gozou no seu pescoço, que cruza seu caminho, vai te seguir? Vai aproveitar um momento que haja menos gente por perto pra te dar um soco e te estuprar? Você tem que andar com mais medo ainda, o tempo todo?

No Brasil não é crime bolinar, punhetar em público, gozar em cima de uma desconhecida, passar por uma garota e falar “quero saber se você é boa de meter”.

E aqui tem uma entrevista com a moça que foi bolinada num ônibus na Paulista também, fez escândalo, foi ajudada pelas outras pessoas do ônibus, inclusive o motorista, que fechou a porta pra impedir o agressor de descer e só parou o ônibus quando achou camburões da polícia. Ela prestou queixa, mesmo sabendo que não acontece nada, no máximo alguma multa ridícula, mas falou que é importante registrar pra no mínimo ficar mais explícitas as estatísticas que podem, talvez algum dia, contribuir pra políticas públicas.

https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2017/08/31/vitima-de-assedio-sexual-em-onibus-diz-que-foi-amparada-por-mulheres-nao-vamos-nos-calar-mais.htm

http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/noticias/SEGURANCA/471285-ASSEDIO-SEXUAL-NO-TRANSPORTE-PUBLICO-PODERA-SER-PUNIDO-COM-PRISAO.html

https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2017/09/01/libertar-acusado-de-estupro-em-onibus-foi-erro-injustificavel-e-escarnio-dizem-especialistas.htm

Vítima de assédio em ônibus se revolta com soltura de agressor: “estou me sentindo um lixo”

Você não é uma feminazi, é?

Almocei com outra amiga queridíssima. Entre assuntos diversos, ela me contou um pouco sobre as desventuras de ter que conhecer gente por aplicativo. Ela escreve muito bem, espero que logo faça um blog, mas por enquanto compartilho aqui alguns dos diálogos

“Eu sou de direita. E você?”

“Bom… eu sou de esquerda”

“Então desaparece, sua vaca, vai procurar um maconheiro”

— outro início de diálogo. O cara insistindo pra ter logo um encontro, e ela “então, vamos conversar um pouco mais, pra ver se a gente tem a ver”. Resposta: “qual o problema? Você é frígida?”

— e encontrar com um outro cara, e uma das primeiras frases é “Você não é feminazi, é?”

Minha amiga ainda respondeu com gentileza “Eu sou feminista. E não tenho nenhuma relação com o nazismo, a ideia de exterminar pessoas, então não entendo essa ideia de feminazi” (desculpe por não citar certinho a resposta. Sei que falhei no verbatim).

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E eu sou feminazi? Muitos anos atrás meu guruzinho falou que eu era nazista porque eliminava da minha vida as pessoas que não me interessavam (misantropa bem sucedida, e a gente ainda nem conhecia a palavra).

A família do Cris é judia, então talvez eu não devesse achatar e brincar com palavras como nazismo.

Umas semanas atrás li o texto sobre femininja. Entendo, mas não gosto tanto da palavra.

Queria uma palavra que desse essa ideia de atuar pelo feminismo e de me afastar dos machistas. Já me relaciono com pouca gente. Entre esses poucos, com certeza não quero passar meu tempo com gente que não enxerga as injustiças históricas, gratuitas e cotidianas contra as mulheres.

Se fosse comigo. Conhecer um cara que me pergunta se sou feminazi? Nos meus devaneios eu responderia “sou, e essa sua pergunta fala muito de você”, daria um tiro imaginário, o gesto do indicador esticado como um cano de arma, os outros três dedos contraídos, o polegar como se fosse a ação do gatilho. E iria embora.

Femiwatcher, talvez. Não como observadora, mas como guardiã, vigilante, que é o que eu esperaria dos birdwatchers.

Vigilante como o Batman 🙂 Não consigo todas as vezes, mas tenho me mantido atenta e me esforço pra falar por que algo é machista, ou pra apoiar as atitudes feministas.

Sobre homens burros e homens inteligentes

Ainda tem muito pra se falar de Nova York, mas queria abrir um parêntese pra falar de homens burros x homens inteligentes.

É compreensível que uma pessoa tosca seja tosca em vários aspectos. O que não me faz sentido é por que há tantos homens tão inteligentes em várias facetas: menos quando chega nas questões feministas.

Vocês sabem, estou sempre reclamando disso. Hoje eu e uma amiga querida estávamos falando de um conhecido que é muito articulado, bacana, compreensivo, inteligente pra vários assuntos. Menos os que se referem às injustiças e sofrimentos das mulheres. Nesse ponto ele buga.

É como o meu semideus das frivolidades internéticas. Tão inteligente em vários aspectos, mas não sobre mulheres. E, no caso dele, tem uma desuminanidade geral. Tentei falar disso com ele, mas ele não quis saber. Não sei se ele já percebeu que eu parei de conversar com ele porque, como disse o Cris, o … é alguém que gosta muito da própria voz. Não lembro de nenhuma vez que ele tenha me perguntando o que penso sobre algum assunto, então eu parar de conversar com ele pode ter passado despercebido.

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Quem acompanha o blog faz tempo sabe que eu já xinguei muito o Cris. E este é o momento do contrário, de louvar. O Cris é muito inteligente (tão inteligente que me apaixonei pra vida toda), e uma das facetas da inteligência é ser capaz de entender o que é importante pro outro. Assim, mesmo dando umas bolas fora — e eu sempre explico pra ele por que ele está errado — no geral ele tem conseguido assumir o feminismo.

No dia das mulheres deste ano me contou como achou ruim o cartão da empresa, com a moça loira no campo de flores, e falou que ia conversar com o diretor da área sobre o quanto aquela imagem era nada a ver; deu nota baixa pro motorista de Uber que xingou mulher no volante.

Umas semanas atrás contei pra ele da entrevista em que Andy Murray não deixou passar o machismo casual, o entrevistador que falou do tênis como se Serena Williams não existisse. Daí neste fim de semana estávamos vendo um vídeo de como fazer shoulder, e o cara do vídeo falou “ou, pras mulheres, que gostam de bem passado”, e o Cris ficou revoltado, falou “como assim, que tipo de comentário é esse? Que filho da puta. É o tal de machismo casual, é isso?”. Sim, esse é o termo. E amei-o ainda mais.

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Quer conquistar uma mulher inteligente? Nunca perca uma oportunidade de ser feminista. Estamos tão acostumadas a ouvir e ler as maiores atrocidades, que topar com um homem que não é tosco, que entende o feminismo, é como bálsamo pra alma.

Antídoto contra caixa de comentários

Uma pequena história, mas é história real, então quando você estiver lendo ou ouvindo aqueles comentários que dá vontade de cortar os pulsos (os seus, ou o do outro), talvez lembrar dessa história te ajude.

No Mambo da Rua Deputado Lacerda Franco (Pinheiros, Zona Oeste de São Paulo). A empacotadora e a caixa conversavam enquanto passavam minhas compras. A empacotadora era uma moça bonita de cabelo roxo, olhos com delineador puxado pra gatinho, batom escuro, mascando chiclete, do tipo que te chama de gata (quando perguntei se ia precisar de mais saquinho, ela falou “com certeza, gata”). A caixa era uma moça negra, cabelo curto sem nenhum tipo de alisamento, um pouco de espinhas, voz suave, jeito manso. Elas conversavam sobre o final de namoro da caixa.

“Terminou mesmo?”

“Acho que terminou. Ele me mandou mensagem de texto hoje, mas acho que não dá mais não”

“Ele era difícil, não?”

“Ele implicava muito comigo por causa dessa história de roupa.”

“É, você tem um corpo bonito, chama atenção”

(olhei discretamente de novo pra caixa, não sei dar uma opinião, ela estava com um abrigo de frio, largo. Mas achei bem simpático da parte da empacotadora falar isso).

“Teve uma vez que a gente ia sair, coloquei um vestido, ele me viu e falou ‘vai trocar esse vestido agora’. Eu fui. E troquei por um pior, coloquei um que me deixava quase pelada. Falei pra ele, “Tom, você me conheceu assim, do jeito que eu sou, porque eu tenho que mudar?’ ”

Eu já estava sorrindo, sem disfarçar. Não lembro o comentário da empacotadora, mas eu não me contive e entrei na conversa:

“Fez bem. Não deixe nenhum homem mandar em você”

“É. Que bestagem, não?”

Que bestagem.

 

Então, amigos, todas as vezes que a gente começar a morrer de depressão por lembrar de bolsonaros, machistas, xenófobos e outros cretinos no geral, lembrem que num supermercado qualquer uma caixa ouviu “vai trocar esse vestido”, e foi trocar por um mais decotado ainda. E depois terminou o namoro.

beijos de luz no coração de todos.

Por que é errado elogiar as pernas da colega de trabalho

“(…)

Em 1971, o irmão mais velho de Sérgio deu uma cantada na colega loira de trabalho. Ela reclamou, fez charminho e aceitou um jantar. Hoje estão casados. Em 2011, um primo de Sergio elogiou as pernas da colega de escritório, foi acusado de assédio sexual, demitido e teve que pagar indenização à mulher das belas pernas, que acabou no psiquiatra.

Meu amigo Sérgio me pergunta o que deu em nós, nesses 40 anos, para nos tornarmos tão idiotas, jogando fora a vida como ela é.

Dei a resposta: é a ditadura da hipocrisia imbecil do politicamente correto.”

Alexandre Garcia”

 

No grupo das pessoas que estudaram comigo no 1o grau também estão alguns dos nossos professores na época. Uma delas é uma mulher muito simpática, ativa, dessas que está sempre mandando bom dia, textos simpáticos, vídeos. Ela é muito do bem.

Mas nesta semana compartilhou um texto machista, e eu não consegui deixar passar. Vou escrever no blog, e pensar o que falo no grupo.

O texto é do jornalista Alexandre Garcia. Se quiser ver o texto todo, tem aqui: http://www.jornaldacidade.net/artigos-leitura/76/59177/quarenta-anos.html#.WU5tTmjysiU

 

O texto é bem intencionado no geral, apesar de várias simplificações e racionalizações erradas. Mas a parte da cantada é imperdoável, e vou explicar por que.

Ser penalizado por elogiar as pernas da colega não é ditadura da hipocrisia imbecil do politicamente correto. É a única forma de mudar a cultura de tratar mulher como objeto. “Pelamordedeus, não posso mais elogiar o que é bonito?”. Não, garanhão, não pode. Sabe por que? Porque vivemos num mundo em que as mulheres vivem com medo de serem agredidas, espancadas, estupradas e assassinadas. 45 mil estupros notificados, com certeza de subnotificação, estimativa de 450 mil por ano no Brasil, esse país tão democrático em que mulher que fala sobre machismo é femininona-mimimi.

5 mil mulheres assassinadas por ano. Muitas vezes por um companheiro ou ex-companheiro que não aceitou o fim da relação.

Você pode não ver a relação desses números com o singelo elogio às belas pernas da loira, mas eu explico: mulher não é um pedaço de carne. Gostou das pernas da sua colega? E do que mais? É só das pernas, mas acha ela uma chata? Guarde o pensamento pra você, bata punheta em casa, converse com seus amigos, mas não tem por que falar com ela. Não, não acho ela uma chata, ela me parece uma pessoa muito interessante, e além disso tem aquelas pernas incríveis. Aahhh, bom, você quer um relacionamento? Então deixa eu explicar uma coisa: isso acontece por meio do diálogo.

Se a gente vivesse num mundo sem violência, sem machismo, você poderia falar “olá fulana, você tem pernas lindas, não consigo tirar os olhos dela”, e ela poderia te falar sobre genética, ou academia, ou dizer “obrigada, fulano, eu tenho reparado na sua bunda também” – e esse comentário não a colocaria na categoria de vagabunda (isso sim é mundo hipócrita: homem falar das pernas da mulher, tudo bem, se a mulher fala de algo do homem é vagabunda). Mas como vivemos nesse mundo violento, você não tem o direito de começar uma abordagem falando das pernas dela. Você tem que achar algo pra conversar que não a trate como um pedaço de carne. Comece com algo do trabalho, ou de um filme em cartaz, ou de algum assunto da semana, comecem a conversar e descubra se há sintonia, interesses em comum. Quando vocês já tiverem mais intimidade, ou porque começaram a namorar, ou porque se tornaram ótimos amigos, você pode contar que achas as pernas dela lindas.

É tão complicado assim entender que se aproximar de alguém fazendo um elogio de um atributo físico, principalmente se for perna-bunda-peito e não olhos-sorriso é algo uga-buga, errado, assustador, creepy, demodê?

Mulher não é pedaço de carne. Mulher é ser humano com mil motivos pra ter medo de ser atacada, agredida, estuprada, assassinada. Se interessou pela mulher? Puxe conversa sobre algo inteligente, interessante. Não a trate como um pedaço de carne. Elogiar as pernas é tratar como pedaço de carne.

 

PS: a ideia de que a mulher que denuncia assédio fica deprimida e precisa de psiquiatra também é de um machismo nojento.

 

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Ok, escrevi algo pro grupo, que me pareceu suave o suficiente:

“Oi [nome da minha professora]!

Sei que suas intenções foram as melhores ao compartilhar o texto do jornalista Alexandre Garcia, mas não consegui ignorar o machismo do tamanho de um bonde no trecho que fala sobre assédio.

Como eu decidi sair do armário na questão do feminismo, me vejo obrigada a comentar. Não é nada pessoal, só quero escrever porque talvez eu possa mudar a opinião de alguém que leu o texto e concordou que não tem nada demais em elogiar as pernas da loira.

Por que é errado elogiar as pernas da colega? Porque a gente vive um mundo violento e desigual, com espancamentos, estupros e assassinatos. No Brasil 45 mil estupros notificados por ano, com certeza de subnotificação, estimativa de mais de 400 mil, em qualquer cidade, em todas as faixas sociais. 5 mil assassinatos de mulheres por ano, muitos deles por ex-companheiros ou por homens que queriam um relacionamento e não aceitaram um não.

Mulheres tratadas como objetos e não como pessoas. Não imagino outro caminho pra mudar esse cenário a não ser ficar martelando que mulher não é um pedaço de carne, e sim um ser humano.

Quando um homem fala algo pra uma mulher, ele tem que levar em consideração que ela é um ser humano, ele não pode falar qualquer coisa que passa pela cabeça dele. “Acho as pernas dela lindas”. Ok. O que você quer? Quer namorar com ela? Então se aproxime com um papo inteligente. Fale sobre o trabalho, sobre filmes, livros, música, assuntos da semana, descubram se têm sintonia. Não, não, não quero namorar, só quero elogiar o que é bonito, não posso?? Não pode. Você não tem o direito de falar o que pensa e deixar sua colega encanada, tendo que pensar que roupa vai colocar, se você vai ficar olhando, se você fica secando a bunda dela, se você a favorece ou prejudica porque tem uma atração pelo corpo dela.

E a ideia de que mulher que denuncia assédio acaba no psiquiatra é… nem tenho palavras, de tão revoltante. É uma das coisas que mais me deixa brava. Eu entendo que uma pessoa com pouca instrução, que sempre viveu num meio machista, propague o machismo. Mas quando vejo gente culta, influente, inteligente, tão descolados pra tantos assuntos, mas quando chega no feminismo ignoram tudo que as mulheres passam, e ainda contribuem pro machismo com frases como essa… que raiva.

Reforço mais uma vez que minha intenção não é de brigar com ninguém. Só queria não perder nenhuma oportunidade de tentar mudar a mentalidade machista da nossa cultura. Obrigada, beijos!”

Ameaçada de tortura: “vou te levar pra um happy hour com o cidadão médio”

Tenho uma amiga de quem gosto tanto a ponto de conversar sobre política com ela, mesmo a gente tendo opiniões diferentes. Não converso com ninguém que chama o impeachment de golpe — porque não vejo pessoas dispostas a conversar, e sim a provar que estou errada, mas com ela é diferente. Com ela tem diálogo.

Estávamos numa das nossas conversas sobre política, eu explicando como pra mim é melhor a situação de agora do que a de cinco anos atrás, minha esperança de que a cultura do “tudo bem ser corrupto” sofreu uma aceleração de mudança com as discussões dos últimos anos.

Contei que não converso com muita gente, mas que me torturo semanalmente passeando pelas caixas de comentários em portais, pra ter uma ideia do pensamento médio geral.

Quando se fala de caixa de comentários de portal, a primeira reação das pessoas é dizer que ela não vale, que é sacanagem usar como parâmetro, que é o tipo de coisa que diminui sua alegria de viver.  Primeiro ela começou a falar que não valia, depois teve a ideia de dizer que eu não tenho ideia do que é ouvir esses comentários ao vivo, e que faria um happy hour pra me ouvir as pessoas falando essas atrocidades ao vivo.

“Por que eu iria pra um evento assim?’

“Pelo meu prazer. Só pra contemplar um desejo sadomasoquista”.

É claro que eu não vou, mas estávamos rindo da minha bolha privilegiada. De poder ficar sozinha a maior parte do tempo, ou então com o Cris e o Daniel, ou com amigos bem queridos, e quando é pra conversar com estranhos, ainda topo com gente como o casal no bar em São Francisco que quis dar dicas de bares, pagar bebida, e foi compreensivo com a minha história sobre ter chorado na saída do Death Valley, por comparar Brasil x EUA.

Ser raidado no Ark não conta, já que é algo que eu faço porque quero.

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Hoje tive mais um pequeno passeio pela caixa de comentários, e como sempre dá vontade de vomitar. Um texto de uma colunista do uol falando do termo femininja em oposição ao feminazi (e esses dias eu andava pensando em assumir o feminazi, sem me importar com a ofensa, mas pra assumir o ativismo).

Os comentários são desse tipo:

“kkk, falou ae, “feminona”… essas alienadas viu, vai fazer alarde onde as mulheres são realmente oprimidas, em países democráticos não vale… há dezenas de países árabes opressores pra vocês babarem de raiva, já comprou a passagem?”

“Isso é jornalismo ????? Tá fácil mesmo … Rapaiz … Não é questão de discordar de opinião é sim de conteúdo , texto , fraco , sem argumentação , nexo , ou objetivação argumentativa. Um vocabulário que varia do formal ao coloquial raso por simples falta de domínio da língua. Triste muito triste ver um portal de conteúdo tão grande postar alho tão s m conteúdo assim.”

“Quando vão mandar essa Lia Bock passar no RH??? Tá na hora de dispensar essa feminista…”

“Pobre menina incompreendida… Você está precisando de um abraço… Quer que eu te abrace? Não né? Sou homem… e pelo visto você detesta homens… pobre menina…”

O cidadão médio. Quando eu iria pra um happy hour ouvir esse tipo de coisa? Só se perdesse feio uma aposta bem alta.

https://liabock.blogosfera.uol.com.br/2017/06/23/feminazi-nao-pode-chamar-de-femininja/