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O caso Aziz Ansari e o que podemos aprender com ele

Sei que a notícia circulou em janeiro, mas sabem como eu sou pra atualidades. Vi agora um artigo do The Guardian, que cita a história, e fui ler a respeito.

https://www.theguardian.com/lifeandstyle/2018/feb/14/carnality-and-consent-how-to-navigate-sex-in-the-modern-world. É grande e vale a pena ler inteiro, mas selecionei alguns trechos aqui, no final do post.

Este artigo do El Pais explica bem (em português) o imbróglio Aziz Ansari e a fotógrafa codinome Grace: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/01/15/cultura/1516034198_916720.html

O relato da fotógrafa pode ser lido aqui: https://babe.net/2018/01/13/aziz-ansari-28355

 

Quando um cara te dá um soco, ou te aponta um revólver, ou está com uma faca, ninguém duvida do estupro. Quando ele é seu chefe, ou sua família deve dinheiro pra ele, ou ele tem alguma outra posição de poder em que pode te chantagear, hoje em dia as pessoas até aceitam que foi abuso e estupro. Mas e a tal zona cinzenta?

No caso da fotógrafa e de Aziz Ansari, muita gente a criticou ferozmente, perguntando “por que ela só não foi embora?”, “por que ela não falou claramente não quero?”.

É uma boa pergunta. Quando eu era adolescente nunca entendia por que minhas amigas aguentavam tantos caras folgados enchendo o saco delas, por que elas simplesmente não diziam “desaparece daqui, não quero falar com você”. Elas estavam visivelmente entediadas, mas não falavam isso de forma explícita, só respondiam de forma meio monossilábica. Talvez por que culturalmente é errado uma mulher dar uma resposta explícita a ponto de ser rude, principalmente se é um não para um homem? Acredito que tem bastante disso sim.

Mas também há um outro elemento, que acho que não se aplicava nessas situações de xaveco furado adolescente, mas sim numa situação de sexo como descrito pela fotógrafa: a paralisia. O artigo do El Pais tem a declaração de uma psicóloga explicando o mecanismo:

“A psicóloga clínica Violeta Alcocer diz que a situação descrita por Grace levou a um ambiente “de encurralamento, em que temos visto muitas mulheres, várias vezes, e onde é realmente difícil reagir com rapidez e ir embora. No momento em que esse homem se comporta de uma forma que claramente ultrapassa os limites, você entra num estado que a psicologia chama de dissonância cognitiva. Acontece quando você precisa gerenciar dois pensamentos-emoções contraditórios sobre o mesmo fato: ‘Este garoto me parece adorável e por isso vim até aqui, mas está se comportando como um estuprador, o que não faz sentido.”

“O sistema nervoso não costuma resolver essa equação com rapidez”, prossegue a psicóloga. “A surpresa (‘por um lado não parece um cara mau, por outro sinto que posso estar em perigo’) produz paralisia e embotamento cognitivo – uma maneira que o cérebro tem de ganhar tempo para tentar compreender qual das suas percepções está errada. Além disso, no momento em que um homem que você acaba de conhecer começa a se comportar de um jeito que não esperava, você não sabe aonde ele pode chegar, de modo que prefere fazer o que ele te pede para evitar uma situação pior. Depois, na sua casa, você pode pensar que deveria ter saído correndo, mas por algum motivo seus músculos não foram ativados para fazer isso. É um dos três tipos de respostas de nosso sistema límbico ante uma ameaça: luta, fuga ou – como nesse caso – paralisia.” “

Parece loucura, não?

Mas posso falar uma coisa pra vocês: é totalmente verdade. Eu já passei por isso. Conhecer um cara legal, que sabe conversar com você, é inteligente, atencioso, perspicaz. Sair com ele, ir pro escritório dele porque ele diz que tem que pegar algo que esqueceu lá, e acabar fazendo sexo. Sem ter certeza de que você queria. Se sentindo abusada, mas também se perguntando “por que eu não briguei, por que eu não gritei, por que eu não falei não?”. Nunca descreveria isso como estupro, nunca o acusaria. Mas o que é essa coisa que faz você chorar quando pensa no que aconteceu, mesmo muitos anos depois?

Uma colunista do New York Times disse que a divulgação do relato da fotógrafa é a pior coisa que aconteceu ao #MeToo. Discordo. Acho que todo mundo, inclusive a fotógrafa, concorda que não foi estupro, que não é o caso do cara ser preso ou demitido. Alguns disseram “foi só uma noite de sexo ruim, qual o problema?” Não, não. Sexo ruim é quando não rola química, vocês dois estão tentando mas não acontece nada. No caso da fotógrafa, ela estava passiva, obedeceu algumas ordens, falou que era melhor ir devagar, se sujeitou às ações dele. Sexo ruim é só frustrante. Não é essa coisa que traz um peso no peito e lágrimas.

 

A CNN traz várias opiniões legais sobre o caso, inclusive de uma colunista que comentou “obrigada a Aziz e Grace por trazerem essa história, isso me ajuda a conversar com meu filho sobre sexo. Não tinha sentido eu falar “nunca espanque, ameace ou drogue uma garota pra ter sexo com ela”. Mas entender que você precisa estar atento à linguagem corporal do outro é uma conversa importante.

Também mostra um tweet em que o cara inverte a situação: muita gente criticou a fotógrafa, dizendo “por que ela apenas não foi embora?”, mas esse cara escreveu “se Aziz Ansari não queria ter sua intimidade exposta, por que ele não foi embora quando as coisas começaram e ficar esquisitas? Ela não estava bloqueando a porta”.

https://edition.cnn.com/2018/01/21/opinions/how-to-date-in-2018-opinion-roundup/index.html

E é tudo muito complicado e difícil mesmo, porque a gente tem essa cultura em que os homens são incentivados a serem viris, violentos, ativos, e as mulheres a serem passivas. Além do tal mecanismo psicológico da confusão cerebral e paralisia, que por mais maluco que pareça ser, infelizmente é verdade.

Um artigo do Contardo Calligaris trazia um dado que não fui checar os detalhes, de onde exatamente é, deve ser EUA, mas dizia que 25% das prisões de estupradores aconteciam porque depois do estupro, o cara voltava e entrar em contato com a vítima — porque existe essa fantasia de que a mulher pode não querer no começo, ou não estar muito animada, mas que isso é apenas uma crosta de gelo e que depois de você enfiar o pau nela, você vai fazê-la mudar de ideia e ela vai ficar louca por você. Ele não falou com essas palavras, mas é essa a ideia.

Vocês ouviram falar de um garoto de 9 anos que estuprou uma colega de classe? Uns ano atrás, na Inglaterra. Perguntaram pra ele “por que você fez, mesmo ela pedindo pra você parar?”, ele respondeu “porque nos filmes elas sempre falam não no começo, mas depois gostam”.  Quer dor no coração, não?

Tudo muito complicado e difícil,  e mais complicado e difícil ainda porque temos uma cultura em que a mulher tem que ser “difícil” pra ser respeitada, mulher que faz sexo no primeiro encontro é vagabunda. E durante o encontro ou o ato sexual, a resistência ou reticência da mulher é vista como parte do jogo, e pra alguns homens é algo que aumenta o tesão, a ideia de que será sexo à força, mas que ela vai gamar e pedir mais. Ou então, que ela é só uma boneca, um pedaço de carne com alguns buracos e não importa o que ela pensa ou sente.

O artigo do The Guardian fala de uma consultora em Los Angeles que ensina como é um encontro, como se comportar. Em geral os clientes são jovens ricos que não querem correr o risco de virar notícia. Ela diz que nos dias de hoje, “Não é não” é um conceito antiquado, pois coloca toda a responsabilidade e pressão na parte mais fraca, a mulher tem que falar um não bem claro e explícito, ou então não pode reclamar de nada. O que ela ensina pros clientes é que você não pode se fixar no não é não, e sim procurar por um entusiasmado sim! sim!.

 

Este artigo de Justin Myers foi um dos mais lidos da GQ: http://www.gq-magazine.co.uk/article/aziz-ansari-consent, com direito a trechos lindos como este: “It’s very easy to check whether someone you want to have sex with is on the same page. Yes, it may sound unromantic, but stopping every now and again to ask if they’re OK, whether they’re sure, or telling them you can ease off for a while, maybe chill a little, are all very simple ways of staying on the right side of creepiness. Listen not only to your own instincts and desires but theirs. Don’t pretend you haven’t noticed their body language just because it’s inconvenient for you to do so right now. You know you can control yourself, you urges are not primal; you are a grown man, not a wild dog.

The end to all this won’t come from victims continually speaking out – which they will do, by the way; this won’t be over for a long time – it must come from us, from you. No more excuses, no more ignoring the signals. Time’s up.”

 

É uma mudança lenta e difícil, e os anti-feministas vão gritar e espernear muito sobre os absurdos das complicações que essas malditas feministas estão impondo ao sexo, e que nesse passo haverá e extinção da raça humana porque ninguém mais poderá transar. (Como se isso fosse argumento… a gente já ultrapassou faz tempo o limite da capacidade do planeta, menos gente na Terra não é algo ruim).

É uma mudança lenta e difícil, mas me sinto sorrindo por dentro por ver esses temas sendo discutidos. De forma tão trôpega, capenga, desajeitada, aos poucos vamos caminhando pra um mundo em que cada vez mais as mulheres serão tratadas como gente.

 

https://www.theguardian.com/lifeandstyle/2018/feb/14/carnality-and-consent-how-to-navigate-sex-in-the-modern-world

It is in this climate that online magazine Babe’s infamous account of a date between the comedian Aziz Ansari and a young woman called Grace went viral last month – it catalogued in excruciating detail his allegedly relentless attempts to get her into bed and her apparent inability to extricate herself. It resonated with younger women precisely because of its ordinariness – because the feeling of being alone with a man who is all hands, feeling pressured and panicked, but unsure quite how to get out of it, is so instantly recognisable, even if women are divided over what to call it.

(…)

“Just this week I had a man who wrote a really nice email, a follow-up responding to her, saying basically: ‘I also love nature and hiking and we have so much in common.’ Then, at the end, he just said: ‘And I would love to jump your bones,’” sighs Pompey. “That’s the sort of thing women get all the time.” It is not just dating apps, either: unwarranted penises and crude propositions now crop up all over young women’s social media accounts, from Twitter to the job-hunting site LinkedIn.

(…)

Perhaps only he can explain, but in her book Pornland: How Porn Has Hijacked Our Sexuality, sociologist Gail Dines traces the spread of more violent sexual behaviour in ordinary relationships – gagging, hair-pulling, mock-throttling – back to porn tropes, filtering down through pop culture. Combined with traditional ideas of all-powerful masculinity, it is a recipe for trouble.

(…)

Alarmed by the use of her private details, Midwinter complained to JustEat; exasperated by its lacklustre response, she posted her exchange with the driver and the company on Twitter. Then the floodgates opened. She was deluged with stories from young women sick of being hassled for dates by men who got their numbers through work: taxi drivers, delivery guys, shop assistants, maintenance men who texted suggestively within minutes of leaving a single woman’s flat. What seems to have grated most is the assumption that women would be flattered by the attention, no matter what the situation; that they are always up for being propositioned.

(…)

Yet “no means no” is increasingly seen by younger women as an embarrassingly basic approach to consent. They argue it encourages men to assume that, so long as their partner did not audibly say “no”, they are covered, even if that partner was shrinking away, asking them to slow down or frozen with fear. Badgering someone into queasy submission might technically be within the law, but it is not the road to a happy sex life and it may no longer protect a man from public censure. What young men should look for, Tillman argues, is not the potentially ambiguous absence of “no”, but the enthusiastic presence of a “yes, yes, yes” or affirmative consent. “In 2018, ‘no means no’ is totally antiquated. It puts all the pressure on the person in the most vulnerable position, that if someone doesn’t have the capacity or the confidence to speak up, then they’re going to be violated,” she says. “If somebody isn’t an enthusiastic yes, if they’re hesitating, if they’re like: ‘Uh, I don’t know’ – at this point in time, that equals no.”

Quem não tem vida sexual devia ser proibido de opinar sobre gravidez e aborto

Virgens, celibatários, assexuados, múmias, os que praticam sexo no casamento ou no namoro por mera obrigação e qualquer outro que não consegue enxergar a gafe do “só engravida quem quer, não tenho dó de quem engravida sem querer”: vocês não têm direito de opinar.

Quem é ignorante sobre um assunto não pode falar como se soubesse, você simplesmente perde o direito de se manifestar sobre algo que você não tem conhecimento.

Tudo bem não ter vida sexual. Nem todo mundo precisa ter vida sexual. Mas a questão é: se você não tem vida sexual, você não pode opinar sobre as questões que envolvem gravidez e aborto.

Só engravida quem quer?

Bastava ter usado camisinha?

Hoje em dia há tantos métodos de se prevenir, há tantas fontes de informação, é impossível alguém que não saiba se prevenir.

Pessoas que falam esse tipo de coisa com certeza não têm vida sexual. Me dá raiva, mas até entendo que esse povo tenha zero de consideração com o outro, de imaginar a realidade de pessoas que vivem na pobreza, miséria, violência. Mas esse tipo de comentário evidencia outro fato: esse povo não transa! Quem fala que só engravida quem quer com certeza não tem vida sexual, não entende o que é desejo.

E tem outra: muitas vezes não tem nada a ver com falta de informação ou de dinheiro pra comprar uma camisinha ou pílula. Como Drauzio Varella falou, até médicas ginecologistas engravidam sem querer. Por quê? Porque é muito fácil engravidar sem querer.

Eu já coloquei esse dado e coloco de novo: pesquisa feita em 2016 com 24 mil brasileiras que tinham acabado de dar a luz. Sabem quantas planejaram ter o filho? 45%. Pra 55% foi um oops. Desses 55%, 25% queria que fosse em outro momento, e 30% não queria ter filho em nenhum momento da vida.

https://g1.globo.com/bemestar/noticia/mais-de-55-das-brasileiras-com-filhos-nao-planejaram-engravidar.ghtml

Uns dias atrás o The Guardian publicou uma reportagem contando que em mais da metade dos estados americanos não há idade mínima pra casamento. Um cara de 40 pode se casar com uma garota de 5. Sherry Johnson está lutando pra ter uma idade mínima, 18 anos. É algo pessoal. Quando Sherry tinha 11 anos ela foi estuprada por um cara de 19, e engravidou. A família achou melhor exigir o casamento, para evitar o escândalo. Bonito, não?

Quando Sherry começou a luta para criarem uma lei, ela achou que não seria difícil. Que os políticos ouviriam as histórias e imediatamente concordariam que era preciso ter uma lei que proíba situações como a dela. Mas ela descobriu que não! Uma das políticas pra quem ela expôs a situação falou que não era a favor, porque “isso não vai elevar a taxa de aborto entre adolescentes?” — afinal, mulher é receptáculo de esperma e parideira, não uma pessoa.  Não importa o que uma gravidez indesejada ou mesmo vinda de um estupro cause pra vida da garota, só o que importa é não abortar, com a graça de Deus.

No ano passado a escoteira Cassandra Levesque (17 anos) iniciou uma campanha em New Hampshire, pra que a idade mínima do casamento seja 18, e sabem o que aconteceu? Os políticos bloquearam, colocaram uma lei pra impedir que o tema seja discutido pelos próximos anos, e falaram que ela não tem idade pra discutir esses temas.

Os dados nos EUA:

“Girls who get married before 18 have a significantly higher risk of heart attacks, cancer, diabetes and strokes and a higher risk of psychiatric disorders. They are 50% more likely to drop out of high school and run a higher risk of living in poverty. They are also three times more likely to become victims of domestic violence. Really, child marriage helps no one. The only people who benefit are paedophiles.”

https://www.theguardian.com/inequality/2018/feb/06/it-put-an-end-to-my-childhood-the-hidden-scandal-of-us-child-marriage

No Brasil é bem pior. http://g1.globo.com/educacao/noticia/2015/03/no-brasil-75-das-adolescentes-que-tem-filhos-estao-fora-da-escola.html. 75% das adolescentes que engravidam param  de estudar.

Uma reportagem do G1 de dezembro de 2017 traz estes números: 1 em cada 5 bebês nascem de meninas entre 10 e 19 anos. Em algumas regiões do país é 1 em cada 3.

“São muitas as histórias de gravidez precoce na Ilha do Marajó: Shirlene Alcântara, de 15 anos, ficou grávida com 13. Ela é casada com Claudiu Guedes, de 36 anos, que não é o pai de sua filha. Thais engravidou do primeiro filho aos 11 anos. Quando estava grávida do segundo filho, descobriu que tinha sífilis, mas não vai ao médico, pois o marido, de 18 anos, tem ciúmes.”

(…)

“Raimunda Vieira é agente de saúde na ilha e tem duas filhas adolescentes. A mais velha engravidou aos 15 anos. A mais nova, de 14 anos, está grávida.”

“Meu sonho era fazer intercâmbio, estudar e falar bem inglês. Mas esse sonho já foi. Eu sinto falta da minha liberdade”, lamenta Camila. Ela está em busca de emprego, mas está difícil conseguir uma vaga: “Quando engravidei, perdi todas as oportunidades de trabalhar”.

http://g1.globo.com/profissao-reporter/noticia/2017/12/uma-em-cada-5-criancas-no-brasil-e-filha-de-meninas-entre-10-e-19-anos.html

E tem a caixa de comentários. Que dá vontade de vomitar.

Se vocês não fazem sexo, se vocês não sabem o que é desejo e tesão, vocês não podem opinar. Criatura, se você realmente não acha horrível imaginar uma menina de 10, 11, 12 anos grávida, você é uma pessoa totalmente desalmada.

Tenho nojo de pensar em gente que lê uma história sobre meninas que engravidaram aos 11 anos, e só o que conseguem falar é “os agentes de saúde dão instruções, elas são culpadas porque tiveram relação sem proteção”. Tenho nojo da sua burrice e total falta de consideração pelo ser humano. Não sei o que é pior, a burrice ou total falta de empatia, de capacidade de imaginar o que é essa situação. “Os agentes de saúde dão instruções”, claro, nossos sistema de saúde é o melhor do mundo, os agentes de saúde são incríveis, cobrem tudo. Se os seus pais não conversam sobre sexo com você quando você tem 9 anos, aparece um agente de saúde na sua casa pra te explicar como não ficar grávida, pra te implantar um diu, ou pra te dar 2.000 camisinhas, pra fazer um treinamento emocional de como controlar o desejo e nunca fazer sexo sem proteção, ou técnicas de negociação com seu estuprador, para exigir que ele use camisinha.

Argumentos idiotas: tirar emprego dos coitadinhos

De certa forma o guruzinho e a Nadia me falaram a mesma coisa. Sobre os riscos da linha de frente, dos portais de notícias. Pra alguém como eu. No baralho da Nadia era um monstro que ia me devorar. Acho que eles estão certos. Tenho conseguido me manter longe da linha de frente, mas ainda não me livrei do vício de ler notícias, com a desculpa de que é curiosidade antropológica de ver o que os nativos falam, argumentam, mas talvez seja só um vício que eu tenho que me desintoxicar. Porque eu sou uma idiota que não consegue não ficar brava com argumentos toscos (mas que muita gente cai) e que promovem o mal.

Já ouviram o argumento do emprego?

“Se você der fotos de aves pra uma revista ou um portal, você está prejudicando o emprego dos fotógrafos profissionais”. Mentira. Se eu não der fotos de aves brasileiras eles não vão comprar fotos dos profissionais brasileiros. Eles vão pegar fotos de banco de imagem gratuito e fazer reportagem sobre um canguru. As câmeras digitais aconteceram, milhões de pessoas fotografam, é ridículo querer criar um argumento moral de reserva de mercado.

“Se a fiscalização na Amazônia for mais efetiva, vai tirar o emprego de dezenas de famílias que vivem da extração da madeira” — juro, já li isso, essa nem preciso comentar.

E hoje, meu gatilho pra precisar escrever foi a notícia sobre o fim das Grid Girls na Fórmula 1. Demorou, não? E, obviamente, fui lá, me torturar em meio aos nativos, e vi vários comentários como sempre expressando aquela futilidade do cacete que é “malditas feministas, acabaram com nossa diversão”, “Pô, por que tirar o colírio pros olhos”, “parabéns, feministas, tiraram o emprego dessas meninas”.

Coitadas das Grid Girls, que agora vão morrer de fome.

Essa futilidade do cacete, essa burrice extrema, essa total cegueira em não enxergar como esses valores de Grid Girls e outros padrões deixam as pessoas malucas e promovem coisas horríveis. Como. Esses. Caras. Conseguem. Ser. Tão. Burros. Fúteis. Idiotas.

 

No uol também teve uma reportagem sobre pessoas que recuperaram a saúde mental, contando um pouco do que passaram. Uma delas é uma menina bem bonita, contando que já bebeu água do esgoto pra conseguir infecção intestinal e emagrecer mais.  Anorexia. Porque desde os 11 anos ela queria ser linda e bem magra como a atriz tal (que também foi anoréxica).

É de chorar, não? Esse é o tipo de loucura que a mídia conseguiu enfiar na cabeça das pessoas.

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Alguns lugares dos Estados Unidos estão treinando professores pra atirar em atiradores. Só neste ano já foram 11 tiroteios em escolas. Dá a ilusão de que estão fazendo alguma coisa, afinal, mudança cultural é bem difícil e leva tempo. Mas espero que um dia pessoas com poder de decisão reconheçam que não há outro caminho.

Ou você luta contra essa indústria doentia que fala que homens e mulheres precisam ter tal formato ou então são lixo, que diz que as mulheres são objetos e prêmios sexuais, que homens não podem expressar seus sentimentos, essa cultura que incentiva bullying, discriminação e humilhações…  Ou vamos continuar com tiroteios em escolas. Estupros, espancamentos e assassinatos a rodo.

https://g1.globo.com/mundo/noticia/apos-11-ataques-a-tiros-em-escolas-eua-debatem-se-professores-devem-dar-aulas-armados.ghtml

http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2018/01/1952785-garoto-mata-2-e-fere-17-no-primeiro-ataque-a-escola-dos-eua-do-ano.shtml

— x — x

Espertalhões que nunca perdem uma oportunidade de reclamar do feminismo: vocês realmente precisam ser tão fúteis e infantis todas as vezes? Vocês realmente não se importam com o fato de tantas mulheres serem estupradas, espancadas, assassinadas? Você não vê a relação do seu colírio pros zóios e a violência? Você é mesmo tão burro assim?

Mais importante do que combater a pedofilia é parecer esperto

Hoje eu tive o desprazer de ver a caixa de comentários de uma notícia do uol, homens reclamando da matéria em que a Natalie Portman conta que a primeira carta de fã que ela recebeu, aos 13 anos, era de um cara contando uma fantasia de estupro com ela. Que ao longo da carreira ela viu reportagens que comentavam o crescimento dos seios, que tinha um site que fazia contagem regressiva pros 18 anos  – quando não seria mais ilegal transar com ela. E como essas coisas moldaram a carreira, que ela percebeu como o corpo era um objeto, e que teve o cuidado pra escolher papéis que não explorassem isso, tanto que hoje ela tem uma imagem de séria, nerd.

E talvez você tenha pensado “Closer”, que foi o que os babacas ficaram comentando “ai, ela fala isso, mas fez aquele papel em Closer”. Ah, putaqueopariu, essa infantilidade masculina, e às vezes de mulheres também, é o tipo de coisa que me dá vontade de jogar uma torta de merengue na cara das pessoas. Ela tinha 13 anos e recebeu uma carta em que um cara se deliciou em contar como ia estuprá-la. Ela era adolescente e via a mídia falando sobre os seios dela, e fazendo contagem regressiva pro dia que os caras poderiam fodê-la sem serem presos. E nada disso importa, só o que importa é tentar mostrar um “furo” no argumento da pessoa, como se o fato dela fazer um ou alguns filmes em que há cenas sensuais mudasse o fato de que dá pra ver uma orientação na escolha de papéis, tanto que ela tem essa imagem de séria e nerd e, o mais importante, o fato de que os caras não tinham o menor pudor de falar publicamente sobre ela como um objeto pra sexo.

Um dos comentários até dizia que o papel dela em O Profissional era de uma garota com alguma sensualidade — ou seja, então ela não deveria reclamar de ter recebido uma carta que narra o estupro dela, ou de ver a mídia falando dos seios dela e dos 18 anos. Ou então, que se ela teve consciência de que a tratavam como objeto, era só ter deixado de ser atriz, foi ela que insistiu em ser atriz (juro, leia abaixo).

Se você sofrer assédio no trabalho, se passarem a mão nos seus peitos, se enfiarem a mão na sua buceta, a culpa é sua, foi você que insistiu em trabalhar num lugar em que os homens fazem essas coisas. A culpa é sempre da mulher.

https://cinema.uol.com.br/noticias/redacao/2018/01/22/aos-13-portman-recebeu-carta-com-fantasia-de-estupro-terrorismo-sexual.htm

As figuras públicas perdem alguns privilégios. Mas quem não consegue enxergar que é muito errado os homens acharem que tudo bem expressarem publicamente seu interesse por sexo com adolescentes. Quem não acha isso grave? Os caras que fizeram os comentários acima não acham, não se importam com o fato de que os homens podem falar e fazerem o que quiserem, inclusive espancar, estuprar, matar, e acham que não tem nada demais em debocharem de quem pede mudanças, afinal, todos têm direito a ter opinião.

Lembram do caso Valentina? A garota de 12 anos, Master Chef Jr, que nas redes sociais começaram a falar dela pra sexo? A emissora disse que o programa foi bem de audiência, mas que não haveria uma segunda edição por causa do risco de novas polêmicas do tipo.

http://entretenimento.r7.com/blogs/keila-jimenez/2016/10/25/apos-acusacao-de-pedofilia-band-desiste-de-masterchef-jr-e-investe-em-mais-uma-edicao-com-profissionais/

E aí, garanhão, que se sentiu tão esperto e articulado ao criticar a Natalie Portman. Tem filha? Sobrinha? Afilhada? Já imaginou se ela participasse de um Master Chef, ou fizesse alguma apresentação musical, uma peça de teatro, e ela começasse a receber mensagens como essas, e a mídia começasse a falar do crescimento dos seios dela, da bunda, fizesse contagem regressiva pros 18. Legal, não?

Bem legal. As grandes alegrias de ser mulher. E de ter que desperdiçar um tempo absurdo brigando com quem nunca estupraria ou bateria numa mulher, mas fica aí fazendo campanha pro mundo não mudar, porque “esse assunto é tão chato, tô cansado de ouvir falar disso, podemos falar de algo mais divertido?”.

Eu fico possessa porque imagino que a maioria dos caras que perde uns minutos da sua vida pra reclamar de qualquer notícia feminista provavelmente nunca estupraria ou machucaria uma mulher. Mas são burros, burros, burros de não conseguir enxergar o grande mal que eles causam pro mundo ao ficar reclamando do feminismo, e a reclamação não é porque vai tirar a casa onde eles moram, o emprego deles, ou vai impedi-los de estuprar e bater em mulheres — porque isso eles não fazem. Mas ficam reclamando só porque acham o assunto chato.  Só porque é chato falar de coisas chatas. É uma futilidade do cacete.

Todas as vezes que vocês tentam posar de espertos, em vez de ter um mínimo de empatia com quem sofre abusos, vocês estão contribuindo pra perpetuação da violência.

 

Mãe de participante do MasterChef Júnior quebra o silêncio e comenta assédio

“Muitos dirão, são doentes, são pedófilos. Discordo, senhores. A maior parte deles são simplesmente rapazes que desde sempre foram impactados por imagens e mensagens nas quais as mulheres ou pedaços delas eram tratadas como objetos sexuais. Imagens e mensagens contidas nos anúncios, nos filmes e outdoors que os leitores deste jornal criaram, aprovaram e veicularam. E assim, cresceram, crescemos… ajudando através da publicidade a construir a cultura do estupro.

Eu não ia falar sobre isso, porque é muito dolorido ver a tua própria família se tornar vítima de uma cultura que de alguma forma direta ou indiretamente você ajudou a construir. E ainda ver, supostos influenciadores, cobras que ajudamos a criar, ironizando o caso e desmerecendo a importância da discussão que se deflagrou a partir dele com a campanha #meuprimeiroassedio.”

Se você não conhece detalhes sobre o sofrimento alheio, faça um favor pro mundo e não opine

Ninguém é obrigado a ser entendido sobre todos os assuntos. Tudo bem. Afinal, quando você não conhece um assunto e decide opinar sobre ele, provavelmente você vai falar muita besteira. Certo? Por exemplo, eu não sei nada de mecânica de carros e outros aparelhos. Sobre química. Sobre física. Matemática. Por que eu me meteria em conversas sobre o assunto. Isso faz sentido, não?

Mas daí eu vejo gente que aparentemente não sabe nada sobre o que é ser mulher, mulher comum, não estou falando da Ivanka Trump que falou que nunca foi desrespeitada por nenhum homem no trabalho, portanto, assédio não existe. Ou a Brigitte Bardot, que parece ter alcançado a fama num patamar que ela nunca precisou ter medo de estupro, e declarou que gostava quando os homens falavam elogios pra bunda dela e que as mulheres que reclamam de assédio e abusos são umas hipócritas.

Ou homens e, infelizmente, também muitas mulheres que discursam com bastante autoridade sobre o tema, reclamando das lutas feministas. Como se não existissem os 4.600 assassinatos de mulheres por ano (só no Brasil), os 49 mil estupros registrados, com estimativa de ser algo como 60 mil ou 400 mil. A violência doméstica, as mulheres que apanham de porrada todos os dias. Estupros coletivos, inclusive em lugares como o Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Estupros de crianças. Uma dificuldade excruciante pra fazer um boletim de ocorrência, mais ainda pra conseguir abortar se você tiver engravidado do estuprador.

Veja, estou falando só do Brasil, mas os abusos contra as mulheres acontecem em todos os lugares do mundo. Em vários países subdesenvolvidos vai ser comum a mulher se sujeitar a ser estuprada todos os dias por um marido, pra não ser estuprada por qualquer um da aldeia, e nos países desenvolvidos como a Inglaterra há vários relatos de violência doméstica, estupros e abusos, com os números subindo nos últimos anos. https://www.theguardian.com/society/2016/sep/05/violent-crimes-against-women-in-england-and-wales-reach-record-high. E vocês sabem que os Estados Unidos têm uma cultura de estupro. A Wikipedia traz uns números de 2012, mas é na casa de 67 mil estupros de mulheres registrados. https://en.wikipedia.org/wiki/Rape_in_the_United_States, e alguém como a Lady Gaga já foi estuprada e fez uma música e um clip bem comoventes: https://www.youtube.com/watch?v=ZmWBrN7QV6Y

Historicamente as mulheres e qualquer outra minoria sofrem muito.

Vocês sabem que até há pouco tempo atrás um marido podia matar a esposa, alegar “defesa da honra – ela estava me traindo”, e ser inocentado? Pouco no nível, poucas décadas. Na década de 1970 as mulheres faziam campanhas de “Quem ama não mata”, e ainda em 1998 houve um assassinato de uma esposa em que a defesa usou o argumento de defesa da honra. http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1209200009.htm

Qualquer minoria pasta. Algumas pastam mais do que as outras. Entre os 9 e 18 anos eu sofria bullying por ser japonesa, uma cidade do interior de São Paulo. Desconhecidos que se achavam no direito de me abordar na rua, gritar coisas que eles achavam que soava como japonês, me chamar de japoronga, andavam do meu lado puxando o canto dos próprios olhos e falando coisas que eles achavam que soava como japonês. Era bem ruim e na verdade quando penso no assunto meus olhos ainda enchem de lágrimas. Mas nunca apanhei por ser japonesa, nunca tive medo de ser assassinada só por ser japonesa. Mas um homossexual, um transgênero, um travesti, têm muitos motivos pra ter esses medos. http://g1.globo.com/profissao-reporter/noticia/2017/04/brasil-e-o-pais-que-mais-mata-travestis-e-transexuais-no-mundo-diz-pesquisa.html http://piaui.folha.uol.com.br/lupa/2017/05/17/dia-internacional-combate-homofobia-transfobia-gay/. E isso falando de assassinato. Porque se for pra falar de discriminação, piadas ofensivas, abusos, gente que reduz uma relação homossexual a sexo anal, isso é rotina pra qualquer um que não é straight.

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Você tem noção do que é ser mulher? Mulher comum, não Ivanka, não Brigitte. Mulher que tem que pegar trem, ônibus, andar a pé na rua, às vezes tarde da noite. Ter que andar com medo de que a qualquer momento pode aparecer um cara, ou um grupo de caras, com facas, armas, ou basta um soco, e além de te roubarem ainda vão te estuprar. Mulher que termina o namoro ou o casamento, o ex-não aceita, e vai na sua casa tirar satisfação, matar com facada, tiros, fogo, ácido, esganada. 43% das mortes de mulheres foi na própria casa. Você sabe o que é ser mulher e saber que você ganha menos do que seu colega, apesar de você ser tão ou mais eficiente do que ele? Ou ser mulher e ter que fazer a dupla jornada, e se você acha que cuidar da casa e dos filhos é um trabalho banal, o convite é você assumir essas tarefas durante um mês, ou talvez bastem duas semanas, e diga o que acha. Você sabe o que é ser mulher e ter que pensar mil vezes antes de sair pra viajar sozinha, ou só com uma amiga, que também é considerado viajar sozinha, e correr o risco de serem estupradas e assassinadas?

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Aparentemente desde que o ser humano existe, as mulheres são rotineiramente abusadas. E não acho que seja uma questão cultural da ideia de que a mulher é o mal, o pecado original, como Contardo Calligaris escreveu, num texto bem simpático às mulheres. Mas o fato é que locais não cristãos também abusam de mulheres e qualquer minoria.

Sair do “eu abuso porque posso e nunca sou punido por isso”, e chegar no “essa pessoa é um ser humano e merece ser tratada com respeito, não farei pra ela algo que eu não gostaria que fizessem comigo” é um longo e tortuoso caminho. A humanidade caminha devagar. E, tenha certeza, as mudanças nunca são naturais, elas não decorrem de um lampejo de consciência do abusador. As mudanças só ocorrem porque as vítimas se unem e protestam, por anos, por décadas. Assim são as mudanças culturais.

Se você está reclamando do feminismo, do #MeToo ou de qualquer outra ação pra diminuir a violência e os abusos contra as mulheres, eu pergunto:

– por que você não se importa com o sofrimento das mulheres?

– ou, caso você se importe, me conta como vamos diminuir os abusos, violência, estupros, assassinatos, diferenças de salário que não têm relação com desempenho e sim com gênero. Como as mudanças vão acontecer se não for pelo embate?

Aaahhh que vergonha da Nikon

Eu uso Nikon. Mas agora tenho vergonha disso, e se fosse fácil trocava de marca. Blogando, set/17, por Claudia Komesu

O Virtude é meu site chapa-branca, onde quase não falo palavrão, e as polêmicas são do mundo do birdwatching.

O formato é diferente do blog, é melhor para ver fotos.

Vocês estão sabendo da cagada que a Nikon fez? Campanha de câmera nova só com homens, e depois, quando reclamaram, desculpinha esfarrapada, em vez de uma declaração séria e honesta.

Meninas boas vão pro céu e as más vão pra qualquer lugar

Esse mundo machista espera que a gente seja bela recatada e do lar. Mas qualquer cara que valha a pena conhecer e ficar não é machista no nível de pensar que você é uma vaca desprezível porque já saiu com outros caras, já transou com outros caras, e fica com outros caras sem precisar estar apaixonada por eles.

Se um cara te desprezar ou desvalorizar porque você não é virgem e recatada, ele não vale a pena, fique longe dele, que bom que você descobriu logo de cara.  Só gente muito idiota pensa que mulheres de 20 e poucos anos não têm todo o direito de fazer o que qualquer pessoa devia estar fazendo nessa idade: experimentando muito.

Essa é a idade pra experimentar, pra ousar, pra pagar mico, pra sair com vários caras. Quem não faz isso com 20 e poucos corre mais risco de se tornar um adulto idiota, ressentido, tapado, moralista. Uma pessoa que não tenha experimentado o suficiente nos 20 e poucos corre o risco de se tornar alguém capaz de cair facilmente na lábia de pessoas imorais porque falta experiência de vida e sobra fantasia do que poderia ter vivido.

Você já viu um filme dos anos 1990, Procura-se Amy? Tem o Ben Affleck no papel do macho babaca. Ele está apaixonado por uma garota, a Joey Lauren Adams, e o mundo desaba quando ele descobre que ela mentiu pra ele, que nem sempre ela foi gay, e que ela era muito promíscua desde o colégio. “Você não se importa de eu já ter dormido com metade das mulheres de Nova York, mas ficou arrasado porque eu fiz algum sexo quando estava no colégio!”. E esse “algum sexo” eram histórias como sexo a três, fazendo boquete num cara enquanto o outro fazia anal com ela (e os dois contam pra todo mundo), ser filmada transando (sem saber) e depois o cara passar o vídeo no circuito interno da escola, e ela fala “e qualquer outra história escabrosa que você tiver ouvido sobre mim provavelmente é verdade”. Ele fica bravo, fala que tem uma diferença entre sexo normal e o que ela fez, que ela foi usada. “Não, eu não fui usada. Eu usei eles! Eu fiz porque eu quis”.

Só gente bem idiota acha que existe essa história de sexo normal. Sexo é desejo e você faz com quem quiser como quiser, se é de consentimento entre ambos ou entre todos, seja mulher com homem, gay, suruba, as pessoas fazem o que quiserem.

Tem uma cena do filme em que o Ben Affleck está num bar, deprimido porque é apaixonado pela Joey, mas não consegue aceitar esse passado, e aparece o diretor (Kevin Smith), que faz o papel de Silent Bob. Ele e o Jason Mewes são uma dupla maconheira que inspirou uns personagens de sucesso do Ben Affleck, que faz papel de quadrinista. Affleck conta a situação, e fala “o que eu vou pensar disso?”, e o Mewes fala algo parecido com o que meu amigo de Limeira falou “você devia se sentir sortudo porque ela já experimentou de tudo e agora decidiu ficar com um babaca como você”.

Sexo é poder. Ter experiências sexuais aumenta o conhecimento e segurança sobre si, sobre os outros, sobre os seres humanos.

Claro, partindo do princípio de que há desejo. Entendo que tem gente que não tem o mínimo de desejo sexual, nesse caso não se deve fazer algo forçado. Mas acredito que é muito importante a gente vencer a barreira moralista do que não podemos fazer por medo de sermos julgadas, especialmente julgadas como putas vacas piranhas.

Pensa como é machista essa ideia de mulher fácil. Como se a mulher fosse um objeto passivo, e não que rolou porque ela também quis. Ou então, a ideia de que se ela quis ela é uma puta. O homem que sai com várias é garanhão campeão mito. A mulher que sai com vários é piranha vagabunda.

Saia com quem você quiser, faça o que você quiser, e coloca como nota de corte a questão da reputação. O cara que tiver alguma aversão a você porque você sai com vários, porque não é recatada, é alguém com quem você não vai querer um relacionamento sério, deixa ele pra lá sem se preocupar que ele poderia ser legal, simplesmente não dá pra fica com homem tão machista a ponto de pensar que uma mulher solteira, ainda mais nos 20 e poucos anos, não tem direito a uma intensa vida sexual.

E se tiver chance, faça um favor pro mundo. Todas as vezes que ouvir alguém falando mal de uma mulher que sai com vários caras, combata isso. Pergunte por que homens podem e ela não. Se a pessoa não é comprometida, está ofendendo quem? O que tem de errado em ficar ou transar? Se ela fez suruba, se foi uma sessão sadomasoquista, ou com frutas e chantilly, se teve anões besuntados ou sei lá o que, o que as pessoas têm a ver com isso? É inveja? Que elas sejam mais ousadas na própria vida sexual, entendam e aceitem que na privacidade e se for de consentimento entre todos os presentes, os adultos fazem o que quiserem.

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Ok, experimente e viva muito, mas vou ter que falar das coisas chatas também.

Nunca custa reforçar: segurança sempre. Camisinha sempre. Engolir porra não é algo pra primeiros encontros, há risco de DSTs.

Há mais de 400 mil estupros por ano no Brasil (45 mil registrados com certeza de subnotificação). A maioria dos casos notificados é de menores de idade, porque uma mulher adulta que sofre um estupro em geral não notifica (no caso das meninas estupradas, um adulto fica sabendo e denuncia). No Brasil não tem muitos estudos, mas na época da USP a gente sabia que tinha estupros dentro do campus. Na faculdade é mais comum ainda o cara confundir liberdade sexual com o direito de abusar e violentar.

Lembra sempre que álcool e sexo é uma combinação perigosa entre gente que mal se conhece. Tenho uma amiga que bebia muito nas festas de faculdade, até que tomou um susto grande. Uma manhã acordou nua na cama de um cara e não lembrava como tinha ido parar lá. Não foi boa noite cinderela, ele era um cara legal, mas ela passou pela humilhação de ter que perguntar pra ele o que tinha acontecido, se eles tinham usado camisinha. Depois disso ela nunca mais bebeu tanto.

Beber bastante e ficar bêbada é maravilhoso, mas tenha certeza de estar num ambiente seguro, com pessoas em quem você confia. Infelizmente a verdade é que estar bêbada aumenta o risco de você ser abusada.

Se mesmo com todos os cuidados tiver algum problema com camisinha, não hesite em tomar pílula do dia seguinte (eu já tomei, duas vezes. Por camisinha mal colocada e pela bobagem de deixar o cara gozar duas vezes sem tirar).

Na minha época não tinha isso, mas sei que hoje em dia também é possível tomar os coquetéis antirretrovirais, mas não sei o quanto isso é fácil de obter num posto de saúde. Mas tem que procurar logo, quanto antes melhor, e estamos falando de horas. O tratamento diminui de eficácia conforme passam as horas, 72 horas é o limite máximo pra começar e o ideal é começar 2 horas depois da exposição.

http://www.drakeillafreitas.com.br/profilaxia-profilaxia-pos-exposicao-ao-hiv-o-que-voce-precisa-saber/

http://ladobi.uol.com.br/2016/11/camisinha-preservativo-estourar/

http://www3.crt.saude.sp.gov.br/profilaxia/hotsite/

Lembra também que prazer sexual não é só coito com porra. Estou falando dos risco de contaminação com sêmen ou fluidos vaginais, mas lembra que os momentos de prazer com outra ou outras pessoas não é uma receitinha de bolo que começa com beijo, depois boquete, depois sexo vaginal, depois sexo anal. Isso é idiotice de filme pornô barato. Há muito prazer na pele, em várias partes do corpo, na provocação, na espera, na ansiedade por mais. É simplesmente experimentar e lembrar que filme pornô é só filme pornô, que somos muito melhores do que isso.

Outra merda que a gente tem que lembrar nos dias de hoje: cuidado com a ideia de nudes, ou de se deixar ser fotografada ou filmada transando. O cara pode parecer bem legal na hora, mas o mundo dá muitas voltas. Eu simplesmente não deixaria.

Desculpe se falei demais das coisas chatas, mas com as DSTs e estupros, infelizmente não dá pra sair pra farrear e experimentar sem ter isso sempre em mente. Na hora da excitação sexual é fácil esquecer de um monte de coisas, mas se esforce pra ser sempre conservadora na questão dos riscos. Camisinha sempre. Cuidado com álcool + sexo. Cautela ao se envolver. Não é errado beijar ou ficar ou até transar com um cara que você acabou de conhecer, mas se você sabe pouco sobre ele, evite ir pra algum lugar isolado de ajuda. Esse terceiro é o mais chato, e eu já quebrei isso muitas vezes, mas a gente sempre tem que lembrar que os riscos existem.