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Sua vida não vai pra frente enquanto você viver em conflito com seus pais

Há ene motivos pra você viver de bem com os seus pais, mas tem um, bem egoísta, e que eu acredito muito: sua vida não vai pra frente enquanto você não faz as pazes com os seus pais.

Calma, não falei que é preciso viver às mil maravilhas com eles. Ainda mais se vocês se veem com frequência, sei que pode ser terrível. E conviver com as pessoas não significa nunca brigar. Mas no caso dos pais, é fundamental você não ficar revivendo mágoas reais e imaginárias. Passou. Acabou. Você é adulto e não mora mais com eles, ou está em processo de independência. São seus pais, sempre serão, você deve os tubos pra eles. Mas mesmo que eles tenham te criado com uma imagem de pais-sabem-tudo, pais-são-perfeitos, quando você chega na adolescência é fácil ver que seus pais são crianças tão ou mais perdidas que você, mas com o grande problema de ter que posar de adultos.

O que significa dever os tubos pros pais? Depende de cada cultura e cada família. Em algumas significa sustentá-los depois que você se torna adulto. Viver bem perto deles, fazer companhia pra eles, pagar contas deles, pagar viagens e levar pra viajar, levar ao médico. E nem estou falado de outras épocas, ou de áreas rurais no Brasil e em outros países em que os filhos são uma mão-de-obra fundamental pro sustento da família.

Em outras famílias os pais acham que criaram os filhos para o mundo, para terem vida própria, e tentam se planejar para depender pouco dos filhos. Mesmo neste cenário você tem obrigação de manter laços com os seus pais. Falar por telefone com frequência (eu falo uma vez por semana… minha irmã fala quase todos os dias), contar coisas relevantes sobre você, não tem problema ser editado, mas por favor, nada de “está tudo bem com o trabalho e meu marido”, isso é de querer se matar. Conte de algum pequeno problema ou discussão, de preferência um que mostre que você teve uma atitude correta, honesta, corajosa, faça eles se sentirem tranquilos de que criaram um bom filho e que eles sabem quem você é e como você está.

Você também precisa encontrar seus pais algumas vezes por ano, principalmente em datas especiais como dia das mães, dos pais, aniversários, Natal. Se seus pais tiverem qualquer problema – financeiro, físico, social, você tem obrigação de ajudar ou no mínimo colocar-se, com sinceridade, à disposição para ajudar.

Você tem que visitar seus pais sem pressa, e com foco. É absurdo gente que visita os pais (ou qualquer outra pessoa) e fica prestando atenção no celular. Celular desligado, tom tranquilo, passe um tempo papeando com eles, contando coisas da sua vida, sabendo coisas da vida deles.

Se você está com algum problema, conte pros seus pais. Às vezes o problema é tão cabeludo que não dá pra contar inteiro, tudo bem… mas sua angústia será visível, então você vai ter que escolher contar um pedaço que faça sentido pra eles.

Por que acredito que a gente deve os tubos pros pais: por uma questão de moral e consciência. Nossos pais podem ter vários defeitos, mas fizeram muitos sacrifícios por nós, e bem ou mal, nos criaram. Essa dívida cria um karma, temos uma dívida no mínimo enquanto vivermos. Ser ingrato é uma das coisas que mais desumaniza.

No âmbito psicológico, outro bom motivo pra fazer as pazes com os pais é resolver várias melecas internas. Rancor e mágoa são aqueles monstrões que te induzem a agir como uma besta desgovernada. Rancor e mágoa de pais, então, é um veneno que corrói todas as suas bases, fode seus relacionamentos, sua confiança nos outros, sua auto-confiança.

Seus pais são suas raízes. Se as raízes estão fracas ou meio apodrecidas, não tem como você crescer.

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E, claro, já fiz as pazes com o meu pai, ou não estaria escrevendo sobre isso. Na quinta no fim do dia me veio a iluminação – provavelmente inspirada por um anjo, seja da minha parte, ou da parte do meu pai. Liguei e falei “desculpe pela nossa discussão, não queria ter brigado com você”. Ele também se desculpou. Não deixei a conversa ir pros lados dos méritos do argumento de cada um. Ele reafirmou os argumentos dele, eu só falei “vamos conversar melhor ao vivo depois. Os adultos. Pra que o … não precise viver num cabo de guerra entre as nossas opiniões, o pai falando uma coisa, o avô falando outra. Vamos combinar. Tudo que importa é o … não sofrer com nossas diferenças”.

E plim.

Sem desculpas sinceras, o melhor é o silêncio

Estou há uns dias escrevendo textos sobre os problemas de não ser bonita. Mas fui sobrepujada pelo Dia das Mães e os envolvimentos familiares.

Aonde essa historia de ter um samurai aqui dentro vai me levar? Não muito longe, eu sei.

Os samurais foram extintos por burocratas, o mundo não precisava mais de gente com espadas afiadas degolando os indignos, e sim homens administrativos capazes de negociar soluções.

Tenho meu lado diplomata. Mas também tenho o samurai, aparentemente cada vez mais revoltado com o mundo.

Rompi mentalmente com meus colegas birdwatchers e só não postei porque amigos me disseram “É Wesak, espera”. Uns dias depois xinguei meu irmão por zapzap quando soube que ele estava pensando em passar o dia das mães longe da nossa mãe, com palavras do tipo “quer aumentar sua fama de pau mandado, o caixão é seu”. E hoje fui capaz de quebrar o pau por telefone com o meu pai, porque ele sempre compra presentes pro meu sobrinho, e eu tentava explicar que é errado estimular o consumismo. Não foi uma discussão suave, teve direito a trechos de “daí vocês não quiseram levá-lo pra comprar o brinquedo que eu prometi e ele ficou doente” (mudou o tempo, tem um monte de crianças com dor de garganta, mas meus pais têm essa crença japonesa de que é por causa de um desejo não atendido. Tudo bem, eu sou capaz de ficar com dor de garganta quando passo raiva, não questiono a doença, só não dou bola pra ela), “ficou doente, mas e daí, você acha que ele vai morrer por isso?” “talvez sim” (imagina como meu pai estava puto da vida comigo pra responder uma idiotice dessas).

Logo devo escrever algum post falando da responsabilidade dos adultos em estimular vaidade e consumismo em crianças.

Mas hoje.

Hoje só estou cansada. Que porra. Como cansa essa historia de querer sempre andar no fio da navalha, não se omitir, não fazer parte do silêncio dos bons, de não achar que cada um vive como quer, faz o que quer, mesmo quando isso afeta diretamente a vida de pessoas ou de criaturas amadas.

Já pedi desculpas sinceras pro meu irmão pelas palavras pesadas, e agradeci por ele ter decidido passar o dia das mães com a nossa família. Agora tenho que procurar algo bom e humilde pra falar pro meu pai, mas ainda não consegui encontrar, tudo que penso não são desculpas de verdade. Dizer “desculpe pelo o que lhe falei. Mas saiba que se fosse meu filho, eu te proibiria de ficar dando presentes fora de datas comemorativas” ou “desculpe pelo jeito com que falei com você, mas saiba que o que você está fazendo provavelmente fará com que o … [o nome do meu sobrinho] tenha uma vida pior, você o está incentivado a ser um jovem e depois um adulto consumista e com dificuldade em lidar com não e com frustração”, “desculpe pelo o que falei, mas você reparou na irracionalidade do que você disse? Você critica a mamãe quando ela diz que não precisa ir ao médico, mas você foi capaz de me dizer ‘fique com suas pedagogas’, você acha que sabe mais do que todo o conhecimento acumulado da humanidade sobre o comportamento das crianças, quero ver você achar um texto que diga que é saudável ficar comprando e comprando coisas e sempre alimentando a expectativa de um presente novo da loja de brinquedos” – bom, se eu só tiver essas coisas pra falar pro meu pai, melhor não falar nada e deixar a poeira assentar.

O poliamor x a instituição familiar

Uma conversa com um amiga bem querida, me contando que estava na aula de pole dance, e recebeu uns olhares feios do pessoal do poliamor quando ela contou que já tinha feito aulas de pompoarismo.

Eu não sabia o que era poliamor (não há limites pra o quanto posso ser desatualizada), ela me explicou, até falou que já estava valendo em São Paulo. Fiquei curiosa e fui dar uma olhada, mas não achei algum texto dizendo que vale mesmo, só o polêmico da tabeliã de Tupã http://www.estadao.com.br/noticias/geral,uniao-estavel-de-tres-abre-polemica-sobre-conceito-legal-de-familia,922730

Também tive a felicidade de topar com o texto de Rodrigo Constantino http://veja.abril.com.br/blog/rodrigo-constantino/tags/poliamor/, que é o tipo de texto que me lembra por que parei de ler jornais e revistas, há décadas.

Olha as pérolas Constantinas:

Tenho dito e repito: os “progressistas” avançaram tanto na questão sexual que em breve chegaremos ao estágio incrível dos cães. Sexo entre parentes, filho e mãe, irmãos, tudo no meio da rua mesmo, pois pudor é coisa de gente careta. A velhinha canadense vai explicar direitinho como usar todos os tipos de vibrador. Vai um rolezinho do sexo em praça pública aí, garotada?

É sujo. É o tipo de texto pretensamente jornalístico que eu odeio. O cara vai linkando um monte de coisa, misturando tudo, e assim acha que pode dizer que poliamor significa bestialismo, pedofilia, incesto, abusos diversos. Outra: ele acha que é chocante a ideia de uma velhinha ensinando a usar vibradores, porque, como todos sabem, velhinhas não têm mais direito à vida sexual, quanto mais conhecimento sobre vibradores.

Certas tradições, como a própria família, têm sua razão de ser, desenvolveram-se não por acaso, mas como pilares fundamentais do progresso e da proteção das nossas liberdades. Não se brinca impunemente com esse tipo de coisa.

Eu não sei o que acho do poliamor. Se fosse pra votar, não sei se votaria contra ou a favor – ainda não sei. Mas tenho algumas certezas:

– Pau no cu de quem defende as instituições familiares como pilares fundamentais do progresso e proteção das nossas liberdades. Casamento de um homem com uma mulher, que resulta em uma família feliz, estável, onde há confiança, amor, fidelidade, transparência, dedicação ao desenvolvimento das crianças, espaço pra felicidade individual de cada membro? Em que mundo o casamento de um homem e uma mulher é garantia disso?

– Pau no cu, duplamente, de quem diz “vai virar bagunça! Quem vai cuidar das crianças? Se os envolvidos se separarem, quem vai assumir as responsabilidades?” Como se o casamento nos moldes atuais significasse que as pessoas sempre são racionais, responsáveis e cuidam das crianças.

– 10 chibatadas pra quem tem certeza absoluta de que poliamor só pode significar surubas e orgias intermináveis. Quem quer surubas e orgias intermináveis não passa perrengues pra se casar com alguém ou alguéns. Que louco acha que a grande vantagem do casamento é poder ter a mesma ou as mesmas duas ou três pessoas pra transar todo dia? Casamento significa se comprometer nas esferas da vida que vão além do sexo da fase de namoro. É morar junto, cuidar de uma casa juntos, fazer dívidas, planos, filhos. Lidar com a rotina, com o futuro, com a família uns dos outros, com incertezas, com a perspectiva de doenças, velhice, morte.

Como falei, não sei se votaria contra ou a favor do poliamor. Mas ver o pessoal que é contra usar argumentos como se as famílias nos moldes atuais fossem o supra-sumo da civilização, que precisa ser defendido a todo custo dos bárbaros depravados que querem instituir a decadência moral foi demais pra mim. Tive que parar de editar fotos da Espanha pra escrever aqui.

Ah, caso você tenha ficado meio confuso… será que sou só eu conheço e sei que há tantas famílias em que o pai ou a mãe batem muito nos filhos, ou que o marido bate na mulher, ou que os pais não querem saber de cuidar das crianças, ou têm amantes, ou se separam e não querem pagar pensão ou querem esquecer que os filhos existem, ou então moram juntos mas vivem num clima de guerra? Ou crianças que vivem como se não tivessem pais, ou órfãos mesmo. Ou abuso de crianças por parte dos pais ou de parentes. Terapia existe pra cuidar de gente que viveu numa família maravilhosa, que te compreendia, apoiava, orientava, mas você foi o trouxa que não soube aproveitar.

Família é fundamental sim pra civilização e pro crescimento de uma pessoa. Mas tenta me dizer que o fato de ser um homem e uma mulher é o que garante uma família feliz e eu vou rir, ou socar seu peito com gosto.  “Não se mexe em time que está ganhando”, ainda haveria um ponto a se discutir. Mas nossos moldes atuais nem de longe são o time vencedor, eles são é argumento pra defesa de casamentos homossexuais, e talvez poliamor.

A igualdade não existe – 8 de março, dia da mulher

violencia-domestica

“Parabéns, hoje (conversa do dia 8) é dia da mulher”

— fiz um dos meus sons que é uma mistura de bufar, com aquele som que a gente faz pra divertir bebês, e que juntando tudo significava, naquele momento, um “I couldn’t care less” “Espero que não estejam distribuindo rosas no restaurante”.

“Rosas?”

“Detesto receber essas rosas de dia da mulher… dia da mulher. Só minorias têm dias”.

———

E hoje, por acaso, topei com essa entrevista com Maria Berenice, a primeira juíza do Rio Grande do Sul, nomeada em 1973. Durante toda a carreira enfrentou muita discriminação dos colegas, tinha que ouvir coisas como “Onde já se viu, vão chegar lá e vão namorar o oficial de Justiça? Como vão instruir processos sobre crimes sexuais, morar sozinhas?” “Chegaram a alegar que não tinha banheiro feminino –eram apenas dois no Tribunal pleno. Queriam que eu chamasse um guarda cada vez que fosse usar”.

É boa, vale a pena ler na íntegra:

http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2015/03/08/sempre-foi-barato-bater-em-mulher-diz-maria-berenice-dias-1-juiza-do-rs.htm

Selecionei uns trechos abaixo. Mas antes queria comentar uma das opiniões de Maria Berenice, que diz que a igualdade não existe e que considera uma grande causa combater a violência doméstica. Concordo.

Vocês têm noção sobre isso? Porque eu já li vários comentários no maldito Facebook que me fazem acreditar que muita gente não tem. Eu sei que o FB é o show de horrores, mas caso você tenha alguma dúvida, considere minha opinião, e se quiser vá pesquisar um pouco sobre o assunto. Abra os olhos, abra a mente, perceba como em tantas situações as mulheres são desfavorecidas, só pelo fato de serem mulheres, tanto em dúvidas sobre sua competência intelectual, como pela fragilidade de serem objetos sexuais, que precisam temer não só o assalto ou a violência física, como também o estupro.

E por favor, não venha me falar que são as mulheres que se sexualizam, que são elas que provocam usando roupas decotadas ou curtas… se você é uma besta cega a qualquer impulso, vá se trancar numa jaula.

É verdade que o estupro e a violência contra fêmeas e filhotes é comum no mundo animal. Mas usar isso como justificativa de comportamento é ser tacanho demais, é ser bicho no pior sentido. O que possibilitou o desenvolvimento da nossa grande caixa craniana e o domínio do planeta foi a predisposição a viver em sociedade, e queremos acreditar que nessa gangorra em que tantas vezes pesa mais “mais forte + mais rico + poderoso + lucrativo”, nosso avanço continuará cada vez mais guiado por ” é pelo bem de todos, porque é o certo, porque temos coração”.

Quantitativamente acredito que somos uma minoria. A que acredita que deveria haver igualdade entre homens e mulheres – veja, a igualdade não significa todo mundo igual, e sim não haver proibições ou pré-julgamentos tendo como base o fato de ser homem ou mulher. Apesar de ouvir umas histórias de vez em quando, parece que homens não podem levar uma gestação no próprio corpo. Fora isso, não consigo pensar em “isso é coisa de homem” “isso é coisa de mulher”.

Chorar, ter pt, ser grosseiro, ser violento, ser fofoqueiro, ser maldoso, ser maternal, ser sedutor, ser garanhão, ser vaidoso, ser musculoso, ser fraco, ser inteligente, ser genial – qualquer um desses atributos pode ser tanto de um homem como de uma mulher.

Concorda? Faça um favor pro mundo: se policie pra nunca professar ou reforçar comportamentos sexistas, especialmente pra crianças. Não precisamos reforçar nas meninas o desejo de ser princesas, nem dizer a um garoto que ele tem que jogar futebol e comer todas.

A priminha do meu enteado é uma menina linda, que adora princesas, vestidos. E até semana passada, em todas as reuniões familiares eu sempre fiz elogios do tipo. Mas então estava num táxi, algum programa de rádio com uma pedagoga que explicava o quanto é problemático pra uma criança crescer tendo pais que estão sempre noiados com a aparência, em ser magros, em ser lindos. E a mulher deu exatamente o exemplo de você chegar pra uma criancinha e dizer que ela está linda, que o vestido dela é bonito, que o sapato é bonito.

Que merda a gente está fazendo?

Ela não falou isso, mas foi só aí que eu me toquei “que merda eu estou fazendo? Toda vez que eu faço um elogio da aparência da …, eu reforço pra ela que isso é importante. E depois, quando tem o jantar de família em que ela chega dormindo, e quando acorda descobre que está de calça e blusa, e não com o vestido que ela tinha pensado em usar pra ocasião e começa a chorar, a gente não entende o porquê”.

Sugestão da pedagoga: não fale da roupa. Pergunte que livro ela está lendo, ou do que ela tem brincado. Vivemos um mundo em que a aparência padronizada tem um valor absurdo. Entretanto, podemos e deveríamos policiar nossos pensamentos e o que falamos pra não contribuir, e talvez até combater essa loucura.

Sobre a violência doméstica, se você tem qualquer dúvida, vá papear num posto de atendimento de saúde. Eu trabalhei um tempo numa secretaria municipal de saúde, e o pessoal comentava sobre os tantos casos de violência contra mulheres e crianças, que incluíam fivela de cinto, metais quentes, faca, ferro de passar roupa. E mesmo que não trabalhasse na secretaria, tinha conhecidos pra lá e pra cá. Clientes da loja da minha mãe. Namoradas de amigos. Amigas de amigos.

Quer uns números?

– A ONU estima que 7 entre cada 10 mulheres no mundo foi ou será violentada

– 35% dos assassinatos do mundo são cometidos por um parceiro íntimo (um homem). A quantidade de assassinas é 5%.

– Pelo menos 5 mil mulheres mortas por ano, no mundo, “em nome da honra”. O Brasil é o sétimo do ranking (entre 84) em quantidade de assassinatos de mulheres.

– Duas em cada três pessoas atendidas no SUS em razão de violência doméstica ou sexual são mulheres; em 51,6% dos atendimentos foi registrada reincidência no exercício da violência contra a mulher.

– de 1980 a 2010 foram assassinadas no país cerca de 91 mil mulheres, sendo 43,5 mil só na última década.

– Seis em cada 10 brasileiros conhecem alguma mulher que foi vítima de violência doméstica. Machismo (46%) e alcoolismo (31%) são apontados como principais fatores que contribuem para a violência.

– Cinco mulheres são espancadas a cada 2 minutos no país.

– O parceiro (marido ou namorado) é o responsável por mais 80% dos casos reportados.

http://noticias.terra.com.br/mundo/violencia-contra-mulher/

http://www.compromissoeatitude.org.br/alguns-numeros-sobre-a-violencia-contra-as-mulheres-no-brasil/

 

O próximo infeliz que vier me falar que machismo não existe no Brasil, por favor, considere fazer um voto de 20 anos de silêncio, em que você só poderá ler, estudar, observar e aprender antes de poder expressar qualquer opinião verbal ou oral novamente.

 

==== trechos da entrevista com Maria Berenice

Redes sociais ajudam a disseminar ameaças contra as mulheres?

As redes sociais ajudam a prevenir a violência contra a mulher. As mulheres, que sempre foram muito isoladas, começaram a se sentir mais seguras. Dentro de casa elas tem acesso à informação, relatos de outras mulheres. As redes as encorajam a buscarem seus direitos. É muito mais favorável do que desfavorável.

Por que você deixou a magistratura e se envolveu com a causa LGBT?

Por ter sido vítima da discriminação, comecei a atentar para a questão dos excluídos. A discriminação dói muito. E as mulheres não são discriminadas apenas para entrar na magistratura, mas em todos os âmbitos. Me dei conta de que no direito de família era onde havia mais discriminação e comecei a trabalhar nessa área. Me surpreendeu ver que as pessoas do mesmo sexo não estavam ali. Fui a primeira pessoa do Brasil a dizer: “olha, as pessoas do mesmo sexo têm que ter direitos, são uniões”. O que é família? É um um comprometimento entre as pessoas pela responsabilidade do afeto.

Como você vê a chamada terceira onda do feminismo?

A onda virou marola. Sempre houve uma rejeição plantada pelos homens ao movimento feminista. A ponto de transformarem a expressão feminista em palavrão. “A mulher feminista é feia, mal amada, ninguém quis, sapatão…” Isso atrapalhou muito o movimento. Feminista são todas as pessoas minimamente inteligentes, tanto mulheres como homens, que reconhecem que a igualdade não existe. As mulheres conseguiram alguns ganhos importantes. Queda do tabu da virgindade, surgimento dos métodos contraceptivos, entrada no mercado de trabalho, ainda que ganhando menos. Mas me parece que se conformaram com isso.

Diversões antropológicas no aeroporto

Deve ser coisa de quem passa o dia ou às vezes dias sem ver ninguém exceto o Cris. E não sei se teria essa sensação em qualquer lugar… na rodoviária do Tietê, por exemplo, é bem mais difícil. Mas é o aeroporto de Guarulhos numa noite do final de fevereiro, muita gente de chinelo, camiseta, shorts. Apesar das roupas não serem das melhores, deve ser principalmente a expressão das pessoas. Ansiedade-expectativa de quem espera alguém chegar, abraços, felicidade espalhada no ar, uma vez vi até aquelas cenas em que um rapaz de terno aguarda com um ramalhete de lírios. A cara boa de quem chega.

Eu não chego assim. Desembarco com olheiras de quem assistiu tvzinha demais no avião, de quem dormiu torto, de quem tem cabelo oleoso e não achou ainda uma embalagem de shampoo a seco pequena o suficiente pra poder passar pelo raio-x e carregar na bolsa, e também meio descabelada, porque fico sonhando com o spray milagroso, mas a verdade é que nem me repenteio, nem carrego pente, não retoco a maquiagem.

Mas estou sendo rigorosa. Talvez, apesar de tudo isso, eu também desembarque com essa aura de alegria e pilhas recarregadas de quem voltou de férias felizes.

Esperando gente querida vindo de Casablanca. O voo atrasa. Fome. Não sei se eles vão ter jantado no avião, se terão fome ou não, eu sou o chofer, vou fazer o que os chofers fazem: comem num horário que não atrapalhe o trabalho.

Tostex, perto do desembarque internacional. Atendentes simpáticos com toucas engraçadas, como se fossem gnomos de uma fábrica de gomas coloridas. Fotos bonitas dos lanches, execução ruim. Excesso de margarina, uma das fatias do meu pão pingava. Pouco tomate. Nada grande coisa. Orgulhos bobos, como poder balançar um não com a cabeça quando a moça pergunta açúcar ou adoçante pro cappuccino, eu falando com o Cris pelo celular, sorrio e recuso. Capuccino já é tão doce.

Enquanto esperava meu lanche, eu já tinha reparado na criatura. Uma das mais assustadora pra se topar num aeroporto nos dias de hoje, ainda mais no desembarque internacional. Um pernilongo pousado na mesa ao lado. Penso várias vezes em matá-lo, mas:

1 – sou vesga, erro 70% dos tapas, ou mais

2 – não parece apropriado alarmar as pessoas ao meu redor

Então em vez de exterminar mais uma das ameaças aéreas ambulantes, fico só olhando, tentando não achar que talvez estejam picando minhas pernas, minhas costas, e é claro que em algum momento o pernilongo some de vista. Mas parece que não levei picadas. Ainda.

Porque daqui a algumas horas estarei numa cidade do interior de São Paulo, dessas que estão com epidemia de dengue. Meu pai pegou dengue. Eu tinha pensado em passar pelo ridículo de ir com minhas roupas de trilha, calça comprida, camisa de manga longa, repelente. Sou um atrator de pernilongos, se estou perto, outras pessoas não são picadas. Mas veja bem, é fácil esquecer essas coisas quando você está jogando Minecraft e interrompe pra fazer sua mala, e em vez de pegar as improváveis roupas de trilha, pega só uma muda de roupa, uma escova de dente, o notebook e acha que está pronta pra sair.

[meus queridos chegam. A partir daqui escrevo dois dias depois]

Meus queridos aparecem na minha frente. Minha irmã com aquela cara de quem procura alguém, até que me vê. Eu só fecho a tampa do notebook, meu sobrinho vem correndo, rindo, gritando um “Tataaaaaá”. Ajoelho pra abraçá-lo e tento erguê-lo. Nada. Não devo ter segurado direito, pego nele pelas axilas com firmeza, tento de novo. Nada. Só me resta levantar, pego ele pela mão e vamos ao encontro da minha irmã e do meu cunhado. Beijos e abraços e depois os comentários sobre meu fracasso:

Minha irmã: “Você tentou pegar ele no colo e não conseguiu, pensa que não vi? éh, minha filha, 28kg, acha que é fácil?”

Meu cunhado: “tinha um homem que viu vocês, ele ficou rindo”.

Vinte e oito quilos. Como é que ele cresce tanto? É com muita dificuldade que troco o galão de água, de 20 litros, e sempre com ajuda de uma cadeira de apoio, pra primeiro colocar o galão na cadeira, e depois subir galão e suporte pra pia. Minha mochila de câmeras-notebook pesa uns 12kg, e já é uma tortura. Vinte e oito estava mesmo além do meu alcance.

Caminhamos um pouco, porque eu sempre esqueço que pra pegar alguém no terminal dois eu tenho que estacionar o carro pras bandas da esquerda, e não da direita, e logo estamos no carro. Acomodamos a bagagem com facilidade e seguimos rumo à casa dos meus pais. Seria uma das viagens mais tensas que já fiz: chuva o caminho inteiro, caminhões espirrando água pelas rodas, daquele jeito que atrapalha muito a visão, água acumulada na pista e às vezes o leve pânico de sentir o carro não totalmente colado no chão – isso porque eu caí de 120 pra 100km/h, às vezes até 90. Sentia que estava pressionando a mandíbula, contraindo o abdomem, segurando o volante forte demais e sabia que uma parte da tensão era a responsabilidade por levar uma carga tão preciosa.

Enfim, chegamos. É um trajeto curto, duas horas e pouco de viagem, sem trânsito, sem problemas, só a chuva. Pra voltar pra São Paulo no dia seguinte, logo depois do almoço, é mais chuva, meia hora parada na Bandeirantes porque houve acidentes com cavalos atropelados, e depois errar o caminho do Waze por não confiar totalmente no que ele está me dizendo, tentar ir pra outro caminho, ir parar pros lados de Osasco, pegar a marginal sob chuva intensa e ainda ter que ficar lendo avisos “alagamento a 500m”, várias vezes. Não é um atraso grande, chego 15 minutos depois do que podia ter chegado, ainda a tempo de participar do almoço tardio do Cris e do Daniel.

Avôs: uma das sete maravilhas do mundo

Post escrito no ano passado. Só quem teve bons avós sabe.

No shopping Paulista, tentando comprar uma presilha pro cabelo. Um estande da Papoulla. Aparece uma senhora bem velhinha, dessas de cabelo totalmente branco, devia ter mais de 80 anos, mas toda arrumadinha, de brinco, batom, tailleur cor-de-rosa. Pergunta pra atendente “Que dia é hoje?” “Que dia é hoje?? Sábado!”. Perguntou mais alguma coisa que eu não consegui ouvir, e depois foi embora.

A bestinha da atendente vai reclamar com a outra “Só me faltava essa! Aparece uma maluca aqui pra perguntar que dia é hoje!! Veja se tem cabimento!”.

Quem lê o Batman, ou assistiu ao plágio no Sherlock Holmes com o Robert Downey Jr, sabe que há aqueles momentos em que você consegue pensar, num lapso de segundo, em diversas formas de desarmar-abater-matar alguém. Sem verbalizar mentalmente, mas com uma grande sensação de raiva, senti-pensei em diversas respostas pra bestinha que iam de xingar a explicar que qualquer um pode não saber que dia é hoje, ou sobre a indulgência com os idosos, a paciência dos vendedores, se ela teve mãe ou avô ou se nasceu de chocadeira, pelo menos poderia aprender nos filmes e nos livros que os mais velhos merecem respeito.

Sem olhar pra ela. Sem nem saber o rosto, eu nem saberia reconhecer, olho pouco pra bípedes sem plumas. Só ouvi a voz de gente besta e senti a indignação. Mas concluí que não valia a pena, só fui embora pensando que não queria comprar nada daquela loja.

Gente velha faz muita bobagem, o tempo todo. Atrapalham o trânsito, causam filas, tumultuam o supermercado, fazem perguntas idiotas, não entendem as coisas. Tem alguns que se sentem no direito de furar qualquer fila “porque sou velho e não tenho tempo a perder”. Mas fora os metidões, o que eu penso todas as vezes é “podia ser minha vó. Podia ser meu vô”.

Você não conviveu com avós? Ou seus avós não eram legais? Perdeu uma das sete maravilhas do mundo. Assista aos filmes com avós legais, e sonhe. Eles são todas essas imagens boas e muito mais.

Meu avô, por exemplo, tinha uma franqueza de matar. Os dois, aliás. Meu avô era capaz de dizer pra mãe do recém-nascido “disseram que o bebê era feinho, mas não é tão feio assim”. Quando alguém tentava explicar pro meu avô que ele não podia falar tudo que pensava, ele dizia “eu tenho mais de xx anos. Tudo que vem da minha boca é santo”. Tem uma foto ótima dele numa festa de fim de ano usando uma máscara de mergulhador e simulando que estava andando com pés de pato. Deve estar com minha irmã, preciso resgatar.

Minha vó era a criatura mais doce e engraçada que podia existir. Uma paz, uma bondade, misturados com um gosto por coisas caras (mas não as bestas, as de valor), argúcia, sensibilidade. Olha eu tentando ir pra Maresias no Carnaval: acho que tinha uns 20 anos. Eu e uma amiga da mesma idade, mais dois amigos de uns 26, 27 anos, e meus pais tentando falar não, não e não, sem ter coragem de dizer “não quero deixar porque vocês vão lá fazer sexo grupal”. Minha mãe: “Quero saber como é que vocês vão dormir, onde vocês vão dormir” (é impressionante a fixação que as pessoas têm por onde dormir, como se de dia ninguém fizesse nada). Antes de eu responder, minha vó responde “ai, vão dormir todos juntinhos, só você não sabe”. Eu rio até hoje, que saudade dela.

Velhos causam transtornos, velhos atrapalham, velhos demoram pra entender as coisas, e esquecem as coisas, e são desajeitados. Mas lembre sempre que podia ser o seu avô, ou os meus avôs, e que eu daria uma voadora na sua cara se te visse maltratando algum deles.

Mitos, fotolivros, selfies. Ou, por que tudo que você fotografar de família, amigos ou de si ainda é pouco

Claro, sem chegar em níveis de crônicas de Millôr Fernandes. Mas dentro de um limite do razoável, acredite em mim: todo mundo devia ter mais fotos de si e das pessoas queridas. Há vários motivos:

– as fotos são uma ilusão da realidade. Ilusão no sentido de recorte, é um pedacinho que você decidiu destacar e valorizar. Uma grande oportunidade para fixar aquela imagem boa.

– as imagens nos ajudam a montar uma história e um sentido para nossas vidas. E não precisam ser só de imagens boas. Durante um período bem conturbado da minha vida eu tinha a foto de uma pena no chão. Uma pena branca meio desfragmentada, provavelmente de um pombo-doméstico. Dia nublado, luz triste, cena triste. Uma foto que eu ficava reolhando.

– relembrar é mais do que viver, é reinventar nosso passado. Vocês sabem que a memória não é algo fixo – nem confiável. Nesse processo de metamorfose constante, as imagens certas podem ajudar a guardar as coisas certas – que em geral são as coisas boas, mas nada impede que você guarde uma imagem ruim para não se esquecer por que não confia mais em tal pessoa.

Um dos caras com que eu saía – maldito racional calculista, não entendia por que os casais deviam falar coisas doces um para o outro. “Eu gosto de você, você gosta de mim. Já sabemos disso. Por que as pessoas precisam ficar repetindo essas coisas um para o outro o tempo todo?”, e eu explicava “porque existem os momentos ruins. E quando você está triste ou bravo com alguém, você se ancora na lembrança de todas as vezes que a pessoa falou que gostava tanto de você, e como você é importante pra ela. E isso pode ajudá-la a perdoar, a transcender”.

(Aliás, “eu gosto de você” e similares sinceros são o outro artigo que nunca é demais, assim como as fotos boas. Claro, tem que ser sincero. E ainda que a gente possa gostar de alguém só por gostar, penso que não é certo investir sua amizade em alguém que não tem a mesma consideração por você. Pérolas aos porcos.)

Aproveitemos que hoje em dia fotografar já não é ridículo como na época do japonês estereotipado, e registremos a alegria.

Como disse o Campbell, o tempo não volta. O que volta é a vontade de voltar no tempo.