Category Archives: Família

Divagações sobre ser chata e difícil

– em geral não tenho problemas pra comer. Não consigo comer comida muito salgada, oleosa, ou muita fritura, mas acho que aí não é uma questão de frescura, e sim de saúde.  Tenho predisposição genética a pressão alta. Ainda não comecei a tomar remédio (como meus pais e irmãos tomam, há anos), mas um dia vou ter que tomar. A maioria das pessoas sabe o que é pressão alta, então se peço pouco sal, ou se falo que não posso comer porque está muito salgado, e digo que tenho pressão alta (é mais fácil do que explicar que tenho predisposição a), todo mundo entende, ninguém acha que é frescura.

– não tenho problema pra dormir. Durmo em qualquer lugar, em qualquer canto, a qualquer hora.

– consigo ouvir toneladas de bobagem e fazer cara de paisagem. Não preciso responder tudo de que eu discordo, sou capaz de ouvir muitas atrocidades e ficar quieta, se decidir que não vale a pena falar.

– além de ser capaz de ouvir atrocidades, sou capaz de ouvir conversas chatas e não dar mostras do quanto aquilo é chato. Ouço e até interajo.

– raramente falo demais. O mais comum é falar de algo de forma breve, e só vou falar bastante sobre o assunto se a pessoa estiver realmente interessada. Mesmo quando no grupo as pessoas focam em mim, perguntam de alguma viagem, eu falo de forma breve e logo emendo com um “mas e você, pra onde vocês foram nessas férias?”

– tenho um timbre de voz baixo.

– não sei contar causos ou piadas. É uma falta de charme social, mas ao mesmo tempo fará com que eu nunca seja a sem noção do grupo que vai contar causos ou piadas repetidas, todas as vezes.

– em geral não fico enchendo o saco das pessoas pra fazerem alguma coisa de tal forma. Ou aceito que não sou eu que estou fazendo, e que as pessoas fazem as coisas de formas diferentes, ou então assumo o comando e eu mesma faço. Mas é muito raro ficar dando ordens sobre como as coisas devem ser feitas.

– não sou totalitária. Qualquer coisa que eu faça com outras pessoas dou espaço pros outros darem opinião ou manifestarem seus gostos.

— x — x

Acho que o principal motivo do Cris dizer que eu sou difícil, muito difícil, como sou difícil é essa minha mania idiota de prestar atenção no que as pessoas falam. Avaliar palavras e motivos. Dizer que a tal “brincadeira” tem uma motivação, uma mágoa, um espinho, uma indireta e que eu quero falar sobre isso. Ou dizer que a tal brincadeira me machuca, e eu já pedi várias vezes pra não falar assim, por que você continua?

Por exemplo, o Cris pode brincar o quanto quiser sobre eu fazer coisas burras, não me importo. Porque não tenho nenhuma dúvida sobre minha inteligência em temas que me importam, e em geral eu também acho engraçado os comentários sobre as áreas em que eu faço coisas idiotas.

Mas eu já expliquei várias vezes que meu calcanhar de Aquiles é minha aparência, e quando ele faz brincadeiras sobre eu ser feia, daí o céu cai na cabeça dele.

Ou quando ele diz “quem aguenta essa Claudia”, eu nunca aceito que foi só uma brincadeirinha, uma frase sem consequências, e eu que sou chata demais em ligar pra isso. Ainda mais porque já tivemos longas conversas sobre o quanto eu discordo da ideia de que ninguém mais se interessaria por mim além dele, como é algo ruim falar isso de alguém, que eu me considero uma pessoa cheia de qualidades e atributos e não vou permitir que alguém mine essa confiança de mim, e que os casais que dão certo são os que cultivam elogios mútuos, grandes e generosos.

Qualquer pessoa tem inúmeros aspectos pra se criticar. É uma escolha se você vai focar nos pontos que você criticaria, ou nos pontos que você aprova. E infelizmente muitos casais fazem a escolha errada, e o casamento acaba, ou são pais que decidem focar nos pontos pra se criticar do filho e criam uma pessoa cheia de tristeza e insegurança.

— x —- x

– Provavelmente meus colegas do primeiro grau me consideram bem chata e difícil porque eu decidi sair do grupo, porque fiquei mortalmente ofendida que um dos membros falasse que todo mundo que foi torturado pela ditadura brasileira mereceu — e as pessoas aceitavam e riam.

Se eu topasse com frequência com situações em que as pessoas tratam com leviandade a violência contra o outro, se tivesse que lidar com gente machista, xenofóbica, homofóbica, racista, com certeza eu teria fama de gente bem chata — supondo que houvesse espaço pra eu me manifestar. Entendo que há situações, quando você tem um comércio, por exemplo, é a escolha entre fazer cara de paisagem ou perder o cliente.

— x — x

– Lembrei de uma outra situação em que sou chamada de MUITO CHATA assim, com maiúsculas, pela minha mãe. Quando ela tem que marcar médico e enrola pra marcar. E eu ligo pra ela todos os dias, às vezes três vezes por dia, até que ela marque. Sou a chata por ajudá-la a cuidar com rapidez de algo de saúde, que se for protelado corre o risco de se tornar algo grave. Mas esse é um caso extremo, em geral não cobro as pessoas.

 

#partiudescansou tio Ki guerreiro

Muitos livros e CDs. Muitos. Uma estante e prateleiras cheias deles. Hoje eu sei que existem bibliotecas bem maiores, mas quando você é criança parecia bastante. Eu reparava como o meu pai se sentia à vontade, tanto pra entrar na casa quanto pra olhar, escolher, pegar emprestado. E esse meu tio era sempre um sossego só “peguem o que vocês quiserem. Já viram esse? É legal por tal coisa”.

Quando li Xogum, com uns 12 anos acho, era do tio Ki. O Enigma do Oito, com o apaixonante Solarin, um dos loiros da minha vida. Provavelmente meu tio tinha livros do Tolkien, mas a edição que eu li, quando tinha uns 13 anos, em três volumes, era do meu pai. CDs da Enya, conversas sobre acupuntura, terapia cromática, terapia de cristais.

Bondade, generosidade, paciência, tranquilidade. Não lembro de vê-lo irritado. Estava sempre sorrindo, e querendo nos dar coisas. Salgados e lanches do bar. Emprestava os livros e CDs e não havia pressa ou cobrança.

Ele e meu pai tinham muitas coisas em comum. Interesses culturais, sociais. Três anos atrás meu tio também estava se interessando por fotografia, assim como meu pai. Começaram a falar de viajar juntos, ir pro Pantanal.

Tenho certeza de que eles teriam feito viagens ótimas. Eu teria ajudado a montar as viagens. Talvez fosse com eles em alguma dessas viagens, e teríamos muito o que conversar sobre fotos e sobre os bichos. Quem sabe eles se tornassem até um pouco birdwatchers. Meu pai nunca quis viajar sem minha mãe, não por não saber viajar sozinho, mas por não ter coragem de deixá-la sozinha. Mas quem sabe ela e a tia Neusa tomassem coragem de ir junto e encontrassem diversão também.

— x — x

A vida é estranha e inexplicável.

Uma das maiores questões, que qualquer religião tenta responder, é “por que coisas ruins acontecem com pessoas boas?”.

Meu pai e a família dele são espíritas, e os espíritas têm explicações que remontam a outras vidas, a karmas. Não sei se são verdade, só sei que elas fazem sentido como explicação. Uma historinha racional… mas que no coração nunca faz sentido, você olha e nunca faz sentido, por que o que realmente pode fazer você se conformar que um homem tão bom como o meu tio Ki de repente se veja na pior prisão do mundo? Emparedado e incomunicável, mas consciente.

Um AVC que pegou o tronco cerebral. Quase três anos numa cama, sem conseguir mover nada. Nada. Nem mesmo piscar pra tentar dizer sim ou não ou indicar letras pra formar palavras. Mas estava lá. Não sei se ele estava consciente o tempo todo, mas numa das vezes que fui visitá-lo, depois de passar um tempo falando de viagens, fotos, filmes, não consegui não falar que eu não sabia por que essas coisas aconteciam, mas que só restava a gente acreditar que tinha um motivo e que um dia a gente ia conseguir entender. E ele chorou. Uma outra vez em que o filho dele passou por lá durante nossa visita, ele estava indo trabalhar, falou “tchau pai, te amo”, e deu um beijo na testa dele, e parecia que meu tio tentava mexer os lábios, um tremor. Era como se o corpo dele fosse uma máquina emperrada que já não podia obedecer nenhum comando, nem mesmo pra um beijo no filho.

Nos primeiros meses a gente tinha esperança de milagres. Desses milagres que acontecem às vezes… tinha tanta gente rezando, fazendo Reiki, mandando boas energias, curas à distância. Os médicos diziam que não tinha como ele melhorar, pelo contrário, que ele só iria definhar. Mas no começo a gente ainda acredita em milagres. Eu mesma fiz minhas mentalizações, dessas em que você agradece pela pessoa estar curada, imaginava ele e meu pai num barquinho no Pantanal, com as câmeras, bem contentes, sorrindo, luz bonita de céu meio nublado, não muito calor.

Então passaram os primeiros meses, fez um ano, depois mais meses, outro ano. Quase três anos. Eu nem tinha mais coragem de perguntar pro meu pai, porque sabia que não havia novidade alguma, nenhuma notícia boa, ou ele teria me contado.

Nos nossos últimos Natais, eu, meus irmãos e meus pais tínhamos combinado que em vez de presentes, a gente converteria em dinheiro pra família do meu tio. Eles tinham muitos gastos. Ele ficava na casa dele, mas sempre tinha uma enfermeira junto. A Maçonaria também ajudava com dinheiro, e tenho certeza que outras pessoas também. Uma pessoa muito querida.

— x — x

Ninguém liga no telefone fixo, só a mãe do Cris. Ou durante o dia pode ser alguém tentando me vender algo, pedir doação, ou me ler um trecho da Bíblia. A gente estava começando a preparar o jantar, era de noite, mandei o Cris atender “deve ser sua mãe”, mas não era a mãe do Cris, era a minha.

Pra contar que tinha acabado.

— x —

Foi o fim de quase três anos torturado preso no seu próprio corpo consciente e incomunicável. E a família é espírita, eles têm certeza de que a alma do meu tio continua. Eu devia só comemorar, não? A gente devia só comemorar.

Mas em vez de só comemoração, o que eu sentia era tristeza. Tristeza dessas que você quer beber muito e ficar falando da pessoa, tristeza dessas que te faz ligar bêbada pro seu pai (eu ainda não tinha falado com ele, só com a minha mãe),

“pai, eu já comi, já bebi bastante, e essa tristeza não passa, não passa”

Eu não tinha ligado e falado “meu sentimentos, que droga, como ele faz falta”, eu liguei pra contar que estava bêbada e a dor não passava. Então ouvi uma pergunta engraçada, era como se ele tivesse pensado por dois segundos e perguntou de forma meio abrupta “o que você bebeu?”

“Vodca e espumante”

“Ah, Clau, não fica assim. Você sabe que agora ele descansou. Agora ele está bem. Não posso falar mais agora, tenho que ir lá com a Tereza. A gente se vê amanhã” — não sei se o comentário seria diferente se eu tivesse bebido cerveja, ou pinga, ou vinho tinto, ou uísque, ou margaritas.

Tomamos duas garrafas de espumante. Não. Um espumante e um champagne. Porque a gente não tem mais nenhuma garrafa de vinho em casa. Já chegamos a ter mais de 30 no armário que agora tem os gibis, mas essa história de querer emagrecer fez a gente mudar a assinatura da Wine, e chegamos onde chegamos: na miséria alcoólica.

Fui dormir pensando na Liberdade. Compraria muitos motis e outros doces, além de bentôs, e chegaria no velório gloriosamente distribuindo comida pras pessoas.

Pura fantasia.

A realidade foi de repente olhar no celular e ler “enterro às 14h”, só que são 11h, você acabou de sair da cama, está a 150km do cemitério e bebeu muito na noite anterior, não pode só sair, tem que comer algo. Você pensa “Chego às 13h30, fico meia hora no velório, não será o fim da picada”, mas no caminho sua irmã liga pra explicar que o corpo vai sair do velório às 13h15.

Chegamos no momento em que o carro da funerária já estava saindo da Maçonaria, senti que muita gente olhava pra mim, porque sou uma japonesa de cabelo avermelhado descendo de um carro no momento em que o carro da funerária está saindo. Logo vi meu pai e eu não tinha certeza se ele estava bravo comigo, ele não tinha atendido minha ligação. Me abraçou, pedi desculpas, ele falou “imagine, não tem importância”. (Depois meu pai me disse que tinha tentado convencer meu primo que enterro às 14h era difícil pra quem vinha de outras cidades – e pra quem tinha bebido o morto na noite anterior foi quase impossível, mas meu primo queria encerrar esse capítulo. Eu nunca imaginei que o enterro seria cedo).

Fui pro cemitério. Consegui ainda falar com meus primos e tios antes do caixão descer. Minha irmã tinha falado que talvez abrissem de novo o caixão no cemitério, mas não, foi direto pro túmulo dos Komesu. Onde estão os pais do meu pai, e a irmã do meu pai que morreu aos 22. E agora tem o caixão do tio Ki. O paletó de madeira. Restos de um corpo que tinha emperrado não se sabe por que, ninguém sabe por que, acabando com todos os sonhos das lindas viagens juntos nessa vida.

As viagens que não aconteceram. As fotos que eles não tiraram juntos.

A gente pode acreditar que há um sentido, uma explicação, e que toda essa tortura serviu pra alguma coisa bem importante.

Ou também dá pra pensar que não há motivo algum. Merdas acontecem, a qualquer momento, pra qualquer um. Mesmo pra pessoas boas. Mesmo pras melhores pessoas.

Eu acho que a alma do meu tio continua. Não sou espírita, mas comprei a explicação da Anne Rice, a ideia de que algumas almas têm solidez e força de vontade o suficiente pra continuarem existindo mesmo depois que o corpo morre. Acho que nem todos continuam (pensa nas pessoas que vocês conhecem… não faz sentido que os chuchus simplesmente se desintegrem? Se não tem nada lá, vai continuar o quê?), mas se algumas continuam, tenho certeza de que meu tio é uma delas. E ele continua existindo. Como uma criatura de luz, que por algum motivo bizarro teve que viver emparedado por três anos, mas agora zerou esse perrengue e está livre, feliz, na companhia de pessoas muito amadas.

Foi guerreiro, tio. Faz muita falta, mas todos estão felizes de te ver livre da prisão. Quem sabe, numa outra vida, vamos passear e fotografar juntos.

Com muito amor,

Claudia

O que é uma família?

Ontem depois de conseguir largar o avatar de Fúria fui fazer as compras sob a chuva de Campos do Jordão. Vendo as árvores, carros, casas, tudo com aquele brilho de água e sol filtrado pelas nuvens, pensando em definições poéticas sobre o que nos torna uma família. Que não é DNA ou documento em cartório que nos torna uma família, e sim o fato de que passamos muito tempo juntos, ficamos felizes em nos ver, sentimos saudades quando estamos longe, preparamos comida uns para os outros, trabalhamos para prover nossa família, sabemos em um piscar de olhos, pela expressão do rosto, o jeito de respirar ou de se mover, o tom da voz, se o outro não está bem, seja um resfriado ou uma tristeza. Damos broncas uns nos outros e todo mundo tem direito de réplica. Somos uma família porque nos amamos, cuidamos uns dos outros, e temos intimidade o suficiente para falar pro outro quando ele está seguindo pelo caminho errado.

Bonito, não?

Nos 50 minutos entre ir até o centro da cidade, fazer as compras, voltar, era bem bonito. Daí voltei pra cá, querendo escrever frases bonitas sobre o que é ser família, mas logo que cheguei tive uma discussão idiota com o Daniel sobre uma coisa do Minecraft, e primeiro fiz o que sempre faço quando me irrito com alguém: vou embora. Peguei meu notebook e saí do QG. Depois tive que voltar pro QG pra começar a preparar o almoço, e fiquei lá na pia da cozinha, aquele silêncio pesado entre a gente porque em situações normais estamos sempre falando, mesmo que seja qualquer bobagem, e eu sabia que estava errada. Eu sou o adulto, ele é a criança. Fui até ele e falei “desculpe por ter pegado sem querer o seu XP”, ele me deu um abraço apertado, e completei “e você também pode me pedir desculpas por eu ter ido até o outro mundo pegar o lápis-lazuli pra você, e você nem ter falado obrigado, só ficou reclamando do XP” (algo que levava 5 minutos pra ele coletar de novo, por isso eu tinha ficado irritada com ele).

A poesia e o devaneio já tinham ido embora. Se eu fosse escrever, teria que falar que somos uma família porque somos capazes de nos perdoar mesmo quando alguém rouba seu XP, ou quando você é tratado como um escravo. O que não seria totalmente nonsense, os jogos ajudam muito no desenvolvimento de habilidades emocionais, mas isso é assunto pra outro post.

Por enquanto, família é um assunto sombrio porque vivemos dias em que eu não posso apenas escrever frases que falam do nosso amor, carinho e devoção uns com os outros, porque isso não é uma família. Graças à odiosa bancada evangélica, corremos o risco de ter uma lei que dirá que família é um homem e uma mulher, e eventualmente a prole decorrente. Esse arranjo é que poderá ter direitos civis como licença-maternidade, pensão, e até mesmo dias no calendário escolar pra se louvar a família nesses moldes. Os outros arranjos, especialmente os que envolverem famílias não-heterossexuais, estão banidos dos direitos civis, mais expostos ainda ao bullying que resulta em insultos, violência física e até linchamentos, estupros e assassinatos.

A possibilidade da vitória dos deputados evangélicos é assustadoramente sombria, não só pelo teor das leis, mas principalmente pelo show de horrores das declarações de quem defende o estatuto. Eles não estão negando que há amor, carinho, afeto, cuidados entre diversos arranjos de pessoas, inclusive as homossexuais. Eles simplesmente estão falando que amor e assistência mútua não são a base do que define uma família! O que define uma família é ser macho e fêmea procriando, e foda-se se é com descaso, negligência, violência, abusos – como tem acontecido até agora. Já reparou como os casos de violência doméstica, pedofilia, incestos, estupros de menores em 90% dos casos envolvem um casal hetero, a ação de um homem hetero e em geral o silêncio sofrido e ou a conivência de uma mulher hetero que sabe mas não denuncia os abusos contra as crianças?

“Porém, o deputado Evandro Gussi (PV-SP) argumentou que o conceito de família está na Constituição: “A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 reconheceu um dado que é da natureza. Porque o afeto, como já bem delineou o deputado Diego Garcia em seu relatório, não é critério constitutivo de família. As pessoas que quiserem ter o afeto que tenham, e o Estado vai garantir isso. Daí a transformar em entidade estável, que garante a procriação e a formação de pessoas, é outra conversa. Não estamos querendo impor nada, pelo contrário. Nós humildemente estamos reconhecendo o que a natureza prescreve.” “

http://www.cartacapital.com.br/blogs/parlatorio/comissao-aprova-conceito-de-familia-como-uniao-entre-homem-e-mulher-8893.html

Os deputados evangélicos têm assumido na cara dura que afeto não tem nenhuma, nenhuma influência na definição de família. O deputado que propôs o estatuto, o nefasto Anderson Ferreira, falou

“O arranjo familiar baseado no amor e no afeto é algo novo em nossa sociedade, não é o padrão. (…)

As famílias hoje estão à mercê da grave epidemia das drogas e álcool, da violência doméstica, da falta de saúde e educação, da gravidez na adolescência.”

http://epoca.globo.com/vida/noticia/2015/03/o-estatuto-da-familia-vai-bassegurar-direitosb.html

E ele quer perpetuar isso. Ao defenderem que afeto não tem relação com o que é uma família.

“Frases como a do deputado Ronaldo Fonseca (Pros-DF) causam perplexidade aos estudiosos do Direito “faz necessário diferenciar família das relações de mero afeto, convívio e mútua assistência; sejam essas últimas relações entre pessoas de mesmo sexo ou de sexos diferentes, havendo ou não prática sexual entre essas pessoas”.”

http://flaviotartuce.jusbrasil.com.br/artigos/168518202/se-estatuto-da-familia-for-aprovado-stf-o-declarara-inconstitucional-por-jose-fernando-simao

Deputados evangélicos, vocês estão errados. A maioria dos problemas do mundo tem origem num lar desestruturado. Lares sem amor, sem afeto, sem assistência mútua. Ao longo dos 200 mil anos de história da humanidade, família já teve diversos conceitos diferentes, mas estamos em 2016. Família já não é uma questão de ter muita gente trabalhando pela sobrevivência da tribo, família já não é uma questão de ter descedentes pra quem passar a herança ou fazer alianças políticas. Nosso atual arranjo social já não exige que a família tenha principalmente objetivos utilitários. A família deveria ter como base apenas o amor, afeto e assistência mútua, e isso nos traria cada vez mais pessoas criadas sob as diretrizes de bem comum, compaixão, tolerância, bondade, justiça. Parem de usar a família para fins políticos, como tentar impor suas crenças religiosos, essa época já devia ter acabado faz tempo. A base da nossa sociedade deveria ser amor e afeto, não imposição e controle.

Pedofilia é muito mais comum do que se imagina

Infelizmente a verdade é que abusar de quem não pode se defender faz parte da história da humanidade. Meninos e meninas estão sujeitos. E, o pior, são poucos os que conseguem denunciar o que aconteceu, a reação mais comum é medo ou vergonha.

A rede marista fez um vídeo bem legal, que conheci porque minha prima Camila Murakami compartilhou:

Esteja atento também a mudanças de comportamento das crianças ou adolescentes. Quando precisar conversar, faça de forma muito gentil, que deixe claro que a criança ou adolescente não tem culpa. Nunca entre no discurso de “você anda com shorts muito curto, falei pra não usar maquiagem”. Nada disso, nada-nada-nada. Não tem nada que justifique abuso.

O cenário é grave. Veja os números só daquilo que foi denunciado:

“De acordo com o Disque 100, serviço da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República que recebe denúncias de violação de direitos humanos, em 2014, foram registradas 91.342 denúncias envolvendo crianças e adolescentes. Deste total, 25% são casos de violência sexual, tendo a maioria das vítimas (30,3%) entre 4 e 11 anos. Há, também, registro de 71 casos de exploração sexual no turismo.” Mais informações aqui:

http://www.andi.org.br/infancia-e-juventude/pauta/campanha-defenda-se-alerta-criancas-sobre-os-riscos-da-violencia-sexual-n

E outras notícias aqui:

Cajati – SP: http://g1.globo.com/sp/santos-regiao/noticia/2015/10/professor-de-escola-de-sp-e-suspeito-de-estuprar-em-sala-de-aula-monstro.html

“Quando soube do suposto abuso, Débora alertou outras mães sobre o crime cometido pelo professor. Após a reunião de mães, outros casos passaram a ser relatados por crianças que já foram alunas do suspeito.

A dona de casa Cleia Patrícia Pontes, mãe de uma ex-aluna do professor, soube do caso vivido pela filha de Débora e resolveu questionar a própria filha sobre as atitudes do docente. “Do ano passado para cá passei a ficar desconfiada. Ela estava vindo da escola com atitudes estranhas. Ela me pedia para tomar banho toda hora, chorava, tinha dia que pedia para faltar, não queria conversar. Nunca ia imaginar que estava acontecendo algo disso dentro da escola”, fala.

Outra mãe que acusa o professor de abusar sexualmente da filha é Cristiane Izabel da Silva Pontes. Ela conta que a criança passou a usar um short por baixo do uniforme da escola para evitar os abusos do professor. “Minha filha pediu para que mudasse de sala. A diretora não mudou, então ela começou a usar um short por baixo do uniforme e apertar o cinto. Só depois disso tudo que ela me contou a verdade sobre o professor”.”

 

São Paulo – capital: http://noticias.r7.com/cidade-alerta/video/professor-de-ingles-e-preso-acusado-de-pedofilia-em-sao-paulo-52780a500cf2f42be5184ed0

Guarulhos – SP: http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2014/04/professor-e-preso-acusado-de-assediar-28-alunos-em-guarulhos.html, http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/dois-professores-sao-presos-suspeitos-por-pedofilia-dentro-de-escola-em-guarulhos-sp/

Monte Aprazível – SP: http://www.diariodaregiao.com.br/cidades/professor-acusado-de-pedofilia-pode-pegar-at%C3%A9-25-anos-de-pris%C3%A3o-1.49016

Itaporã – MS: http://www.campograndenews.com.br/cidades/interior/professor-de-escola-municipal-e-preso-acusado-de-pedofilia

Caxias do Sul – RS: http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2014/08/professor-condenado-por-pedofilia-e-suspeito-de-novos-abusos-em-escola-estadual-de-caxias-4572043.html

Florianópolis – SC: http://ndonline.com.br/florianopolis/noticias/245798-professor-de-educacao-infantil-de-mondai-e-preso-por-pedofilia-em-florianopolis.html

Marajó – Pa: http://www.segup.pa.gov.br/node/1956

Meu profundo respeito por quem me xinga do fundo do coração

“E você, e você também: vão tomar no cu por não terem ido no meu casamento. Vão tomar no cu. Vocês não imaginam como me doeu quando eu entrei na igreja e vi que da nossa família só tinha a Simone, o Fábio, a tia Luzia e o tio Zé”.

Desde o começo da conversa eu já tinha me aproximado e colocado as duas mãos sobre os ombros dele, quase como um abraço, pra dar aquela certeza de que ele podia falar tudo que ele quisesse e que eu estava ouvindo.

Se ele estava bêbado? E daí. O álcool não transforma ninguém, só tira travas e inibições. “Não leve em consideração o que eu falei, estava bêbado”, imagine, os bêbados são os mais confiáveis pra verdade.

Fui xingada do fundo do coração, e meu coração se encheu de amor. Depois pensei no Franzen contando sobre as discussões amorosas por celular, berradas a plenos pulmões, e que o enchiam de esperança na humanidade. Pensando na catarse de poder falar pra alguém que te magoou, enchendo a boca, “vai tomar no cu”.

O Cris e o Daniel já tinham vindo me chamar pra ir embora três vezes. O Daniel estava quase chorando. Era mais de meia-noite e a gente tinha 2h de estrada. Por fim o Cris me falou “eu vou embora com o Daniel, você pode ficar” (não era o fim da picada, estava cheio de parentes pra pegar uma carona e depois um ônibus no dia seguinte, ou um hotel e ônibus no dia seguinte), mas não foi preciso, a Virgínia me arrancou de lá, garantindo pro Renato que eu tinha entendido tudo.

Em meio ao vai tomar no seu cu por não ter ido ao meu casamento, e todos os outros palavrões não verbalizados mas que estavam nas entrelinhas pelas outras situações que nos afastaram, eu achava que estava ouvindo uma grande declaração de amor, dor e saudade.

Se fantasio, se interpreto errado, não sei. Talvez. Mas desde então só consigo fazer planos de convencer pessoas magoadas do passado que o passado é passado, que o que doeu fica pra trás, mas que os laços de amor e amizade não se dissolvem assim tão facilmente.

Fico pensando em festas e encontros. Em noitadas de buraco, no estilo clássico meio rouba-monte e ter que ficar prestando atenção pra ver se o coringa não mudou de lugar. Em tardes preparando comida. Pão-de-queijo desses que você tem que ralar o queijo, escaldar o polvinho. Rabanadas. Bolinho de chuva. Pão caseiro. Coxinhas, bolinhas de queijo.

Penso nos meus avós. Como eles ficariam contentes de ver isso, de ver os netos juntos de novo.

Eu vou tentar, Renato. Obrigada pela coragem de falar assim. Não quero discutir nada das questões do passado, e acho que você também não. Não importa. A gente vai deixar as coisas ruins do passado pra trás, mas tem uma montanha de coisas boas pra frente.

O discurso contraditório e maligno de Anderson Ferreira, deputado evangélico autor da proposta do Estatuto da Família

Não sabe o que é o Estatuto da Família? Proposta de lei para definir que família é apenas casal heterossexual. Casal homossexual não pode mais adotar crianças e provavelmente perde direitos civis, como programas pra família no SUS. Filhos de casais homossexuais são obrigados a declarar isso na escola. Volta da matéria “Educação Moral e Cívica”. Dia da família celebrado oficialmente nas escolas em 21 de outubro, pra humilhar qualquer criança que não tenha pais hetero. Ah, e olha a palhaçada de sempre: a proposta foi escrita por um deputado evangélico, Anderson Ferreira, arquivada, depois ressuscitada e tenta ser votada às pressas, graças a Eduardo Cunha, o excelentíssimo líder da Câmara e também evangélico, e a comissão designada para analisar a validade da proposta é composta por vários evangélicos, incluindo o presidente dessa comissão, o deputado Sóstenes Cavalcante  que já falou que considera a união entre homossexuais inconstitucional.

Mais informações aqui: http://claudiakomesu.club/entenda-a-imoralidade-do-estatuto-da-familia-escrito-por-um-deputado-evangelico-analisado-por-uma-comissao-evangelica/

Comentários sobre várias declarações de Anderson Ferreira

É preciso ter estômago para ler a entrevista toda, mas é importante ler as declarações diretas da criatura que quer implantar oficialmente nas escolas brasileiras a postura de ódio, recriminação e bullying contra crianças que não tenham pais heterossexuais, além de impedir que casais homossexuais adotem crianças e tenham os direitos civis que casais heterossexuais têm.

http://www.revistaforum.com.br/blog/2014/02/a-familia-e-um-casal-heterossexual-diz-autor-do-estatuto-da-familia-leia-entrevista/

Selecionei alguns trechos, tanto desta entrevista como de outros sites:

Anderson Ferreira – … Vamos lá, casamento homossexual: a maioria da população é cristã, 80% da população é cristã, então, 80% da população não concorda com o casamento homossexual…

O repórter da Fórum diz que ele está errado sobre a % da população que não concorda com o casamento homossexual, fala em 55% de aprovação – e Anderson Ferreira responde “Isso não é a realidade, essas pesquisas não representam a população”. As pesquisas que Anderson Ferreira diz que são mentiras são do Ibope e da Hello Research:

http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/ibope-maioria-no-pais-e-contra-legalizacao-da-maconha-e-casamento-gay/ – 4/set/2014

“Os homens são os que mais rejeitam o casamento entre pessoas do mesmo sexo: 58% deles são contra. Já entre as mulheres, são 49% contra e 44% a favor. Há faixas do eleitorado que são majoritariamente favoráveis à bandeira da comunidade gay: 51% entre os mais jovens, com idade entre 16 e 24 anos, e 55% entre os mais escolarizados, com curso superior.”

http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/quase-50-dos-brasileiros-sao-contra-casamentos-gays Pesquisa da Hello Research em maio de 2015

49% dos brasileiros são contra a união entre pessoas do mesmo sexo

21% declararam ser indiferentes ao tema e 30% totalmente a favor do casamento gay

“Fórum-  Mas o senhor considera as famílias homoparentais?

Ferreira – Tenho um princípio, sou representante de um segmento, o dos evangélicos, este é o meu conceito. (…)

Tudo isso ocorre numa desestruturação familiar. Uma família estruturada [obs minha: estruturada nesse caso significa ser um homem e uma mulher] não é alvo das drogas, da pedofilia, não é alvo da exploração sexual. O que nós queremos é que haja esse debate e que a sociedade possa ser ouvida.

Fórum – Mas, deputado, temos muito exemplos e relatos de famílias muito bem estruturadas que têm caso de drogadição, de pedofilia. A sua consideração é um tanto contraditória, não? 

Ferreira – Não, isso é posicionamento. Na vida, temos que ter posicionamento

Fórum – Hoje em dia temos muitos jovens que são filhos de casais homossexuais. Tendo uma matéria dessa, baseada no Estatuto que o senhor apresentou, não criaria um ambiente discriminatório para esses jovens dentro da sala de aula?

Ferreira – Depende do ponto de vista que você está enxergando. O conceito pra mim de família é um casal heterossexual.”

 

Nesta entrevista para a Época, Anderson Ferreira diz “As famílias hoje estão à mercê da grave epidemia das drogas e álcool, da violência doméstica, da falta de saúde e educação, da gravidez na adolescência.” http://epoca.globo.com/vida/noticia/2015/03/o-estatuto-da-familia-vai-bassegurar-direitosb.html

Epa. Na visão de Anderson Ferreira 80% da população é cristã e não concorda com o casamento entre homossexuais, então 80% da população brasileira só pode ser heterossexual. Em vários momentos ele fala como os homossexuais são uma minoria. Como ele pode relacionar homossexualidade com os problemas atuais da família brasileira? Aliás, os problemas atuais não são a prova de que o modelo atual não está bem calibrado?

Com certeza está mal calibrado. Nessa mesma entrevista, Anderson Ferreira diz “O arranjo familiar baseado no amor e no afeto é algo novo em nossa sociedade, não é o padrão”.

O arranjo familiar baseado no amor e no afeto não é o padrão. Mas se fosse o padrão, se esse fosse o ideal a ser buscado quando você decide com quem você quer casar, seja uma relação homo ou hetero ou sei lá o quê, com certeza haveria menos violência, drogas e problemas.

Aliás, dizer que a luta contra o casamento homossexual favorece a diminuição da violência e pedofilia é uma grande cara de pau porque a maioria dos casos de violência doméstica e pedofilia são praticados em famílias heterossexuais, por homens contra mulheres e crianças. Eu tinha uma noção por causa de seriados, depois fui ler um pouco e também achei esta notícia do Estadão de março de 2009:

“O perfil do agressor típico é o homem de 22 a 45 anos que tem laços de parentesco com a vítima. A maior parte dos agressores é padrasto da criança, seguido por pais, tios e avós”

http://www.estadao.com.br/noticias/geral,estudo-mostra-que-pedofilos-geralmente-sao-parentes-no-brasil,333365

 

No artigo da Época Anderson Ferreira também diz “Como estará a cabeça desse filho adotado daqui a dez, 15 ou 20 anos?” http://epoca.globo.com/vida/noticia/2015/03/o-estatuto-da-familia-vai-bassegurar-direitosb.html

Já existe a resposta pra isso. Estados Unidos, Inglaterra, Austrália pesquisam o assunto há décadas. Agora em junho um professor da Universidade de Oregon divulgou uma pesquisa que analisou 19 mil estudos e artigos relacionados com filhos de casais homossexuais, entre 1977 e 2013. A conclusão é que não há diferença entre crianças criadas por casais homo ou heterossexuais. http://nypost.com/2015/06/24/gay-parents-or-straight-parents-kids-are-equally-screwed-study/

Anderson Ferreira com certeza conhece os estudos feitos em outros países. Dizer que não sabe o que vai acontecer com uma criança criada por pais homossexuais é manipulação política.

 

Outro argumento: uma criança criada por um casal homossexual geralmente será uma criança tirada de um orfanato. Ela terá pais diferentes. Provavelmente ela vai sofrer algum bullying, talvez apanhe. Algumas morrem, como aconteceu recentemente. http://extra.globo.com/noticias/brasil/morre-adolescente-que-teria-sido-agredido-por-ter-pais-gays-15548894.html. (Situações totalmente revoltantes, e que são alimentadas por gente como Anderson Ferreira). Mas apesar das chances do sofrimento pela discriminação social, não tenho dúvida nenhuma de que a vida dessa criança será um milhão de vezes melhor do que a vida no orfanato.

 

Atualização em out/16: olha que notícia legal. O Dicionário Houaiss mudou a definição de “família”

antes era: “família  1. grupo de pessoas vivendo sob o mesmo teto (esp. o pai, a mãe e os filhos)”

agora é: “família 1. núcleo social de pessoas unidas por laços afetivos, que geralmente compartilham o mesmo espaço e mantém entre si uma relação solidária”

http://www.brasilpost.com.br/2016/05/09/dicionario-houaiss-palavr_n_9873224.html

 

Não consegui encontrar informações de como está a votação e a chance de aprovação, só uma de abril de 2016 dizendo que a bancada BBB (Bala, Boi, Bíblia) estava esperançosa de conseguir aprová-la ainda em 2016, já que apoiou o processo de impeachment de Dilma. Aliás, a bancada está na esperança de aprovar a legalização da discriminação sexual e do bullying, a alteração do Estatuto do Desarmamento, alterações nas demarcações de terras indígenas, e coisas como Estatuto do Nasciturno, que torna mais difícil ainda a vida da mulher que engravidou do estuprador. Essa bancada é só coisa boa.
http://brasil.elpais.com/brasil/2016/04/25/politica/1461616678_820806.html 

Entenda a imoralidade do Estatuto da Família – escrito por um deputado evangélico, analisado por uma comissão evangélica

http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/familia-gay-e-inconstitucional-diz-deputado/ 17/maio-2015
Este post é apenas trechos do artigo de Wilson Lima, sem qualquer comentário meu fora o título e a foto de capa, que é do Diário de Pernambuco.

“Pastor evangélico ligado ao líder da Assembleia de Deus Silas Malafaia, o deputado Sóstenes Cavalcante (PSD-RJ) preside a comissão especial criada para analisar o Projeto de Lei 6583/13, o chamado Estatuto da Família. No que depender do deputado, que pretende pautar a votação da proposta no mês que vem, casais homossexuais não poderão mais adotar filhos. Embora não seja o responsável pelo relatório final, o deputado diz ser totalmente contrário a qualquer constituição familiar cujo núcleo não seja formado por um homem e uma mulher. Para ele, a união entre pessoas do mesmo sexo não forma uma família e é “inconstitucional”.

(…)

A proposta tramita em caráter terminativo, o que dispensa a obrigatoriedade de sua passagem pelo plenário. Mas o deputado reconhece que, devido à polêmica que o tema suscita, haverá recurso para que a discussão seja estendida a todos os parlamentares no início do segundo semestre.

(…)

Só homem e mulher

Apresentado pelo deputado Anderson Ferreira (PR-PE), o Estatuto da Família pretende restringir a “entidade familiar como o núcleo social formado a partir da união entre um homem e uma mulher, por meio de casamento ou união estável, ou ainda por comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes”.

A partir deste núcleo, o projeto lista uma série de proteções na área da saúde, educação, que o Estado deve conceder a esse tipo específico de família, como, por exemplo, atenção integral dos membros da família por meio do Sistema Único de Saúde (SUS) e do Programa de Saúde da Família. Os críticos do projeto afirmam que os casais homoafetivos, por exemplo, poderiam não ter mais esse tipo de assistência especificada no Estatuto da Família.

O projeto também  prevê a instituição da disciplina “Educação para família” e até o Dia de Valorização da Família, que ocorreria no dia 21 de outubro de cada ano.

(…)

Outras matérias que tramitam na Câmara também tentam vetar núcleos familiares formados por casais homossexuais. A deputada Júlia Marinho (PSC-PA), outra integrante da bancada evangélica da Câmara, por exemplo, apresentou um projeto de lei com o intuito de alterar o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), de maneira que seja proibida a adoção de crianças por casais homoafetivos.

Direitos humanos

Deputado em primeiro mandato, o pastor Sóstenes Cavalcante se elegeu com o apoio do também pastor Silas Malafaia, um dos mais influentes líderes evangélicos do país e ferrenho opositor dos homossexuais. O deputado assumiu a presidência da comissão especial do Estatuto da Família após acordo costurado por Eduardo Cunha, também evangélico.

Sóstenes lançou candidatura avulsa à presidência da Comissão de Direitos Humanos, à revelia do seu partido, o PSD. Para não criar embaraços com o PT, a liderança do partido passou o deputado para a suplência, o que lhe retirou o direito de disputar a presidência. Como recompensa, assumiu o comando das discussões do Estatuto da Família.”