Category Archives: Capricornianos

Resoluções de aniversário

Num dos dias de janeiro eu completei 40 anos. Um tempo atrás li no WhatsApp meus colegas do colegial lamentarem a chegada aos 40, e eu sei por que não é assim pra mim. Não me sinto velha porque sempre fui velha. Eu não era mais ágil, forte e resistente, não era mais impulsiva ou mais alegre, não agia de forma inconsequente, não bebia todas.

Alain de Botton disse que todo mundo que não se sente envergonhado de quem era um ano atrás não está aprendendo o suficiente. Frases impactantes. Mais impactantes ainda pra quem acha que está sempre certa.

Sentir vergonha não será fácil porque nunca faço coisas impensadas, tudo está sempre ancorado, relacionado, medido. Tudo tem suas explicações e vejo o presente como fruto do passado. Não costumo fazer coisas idiotas, e quando machuco tinha objetivos de que não me arrependo.

Mas sou capaz de pensar o que mudou e ver que prefiro o agora ao passado.

Tenho uma lista de coisas sobre mim e sobre a minha vida pra me orgulhar, mas não sei em como transformar isso, hoje, neste momento, em algo bom pro blog, algo que não pareça besta.

Mas acho que tem uma coisa que eu posso fazer. Posso escrever e, portanto, assumir um compromisso moral comigo mesma, que eu quero cada vez mais esquecer as coisas ruins do passado. Quero parar de ficar lembrando das coisas que o Cris me fez e me magoaram, quero que isso fique tão distante como se fosse em outra vida. Também quero parar de ficar pensando no meu desgosto com a comunidade dos birdwatchers, tanto por ações individuais, como na resposta em grupo (a tal falta de comprometimento com assuntos sérios).

Vou pensar em estratégias pra me purificar deles. Há pelo menos duas coisas que me ocorrem agora:

– Pro Cris eu tenho que me proibir de pensar ou falar “você sempre faz tal coisa”. Ou eu vou não me importar, ou vou falar pra ele “não faça tal coisa dessa forma, por causa disso e disso. Eu gostaria que você fizesse assim”.

– Pros birdwatchers, já faz um tempo que eu não me sinto mais chateada com as tais pessoas. Consigo me imaginar conversando com elas, passando um tempo com elas (quando estou brava com alguém não suporto nem a ideia de ter que ver a pessoa). Como grupo que não quer agir, apenas dar likes, é mais do que na hora de eu reconhecer que a humanidade é assim e se eu ficar brava com isso vou ficar brava minha vida toda.

E de forma geral, tenho que incorporar de verdade o reconhecimento de que as coisas são difíceis e morosas, seja pra mudar pessoas (e eu sou do tipo que acredita que as pessoas podem aprender e mudar, porque vejo o quanto Cris mudou, como eu mudei), seja na relação com grupos ou organizações.

Acho que não contei que no final do ano eu estava bem chateada com o Inaturalist, e pensando se eu queria continuar subindo minhas fotos lá. No meio de dezembro escrevi uma mensagem pra três das pessoas que mais me ajudaram e foram gentis comigo, pra desejar Boas Festas e explicar minha ausência. Um deles, o Jakob, conseguiu me fazer ver como eu estava sendo infantil. “Você tem ideia de quantas vezes eu fui c-o-m-p-l-e-t-a-m-e-n-t-e ignorado nas dúvidas e problemas que eu postei? (…) Sei como é difícil quando a gente é apaixonado por algo”.

E isso me fez ver que eu estava mesmo sendo uma cretina mimada idiota. Chateada de pensar que era porque são questões do Brasil, e que se fossem problemas no mapa dos Estados Unidos, eles consertariam. Idiota. É claro que sim. O Brasil não é nada pro site ainda, há pouquíssimos registros. Quando o Brasil tiver pelo menos tantos registros quantos dos Estados Unidos, e eles continuarem não se importando, daí eu posso começar a pensar em discriminação.

Mais paciência.

Mais compreensão.

Mais fortaleza.

Mais gentileza, mais amor, tanto na forma de pensar o mundo como na hora de me relacionar com ele, e com as pessoas.

Ainda não é uma rotina budista de compaixão e bondade, não me sinto próxima do momento de largar a espada. Mas sei que seria uma pessoa melhor se pudesse temperar os dias com mais gentileza nas palavras e no coração.

Capricórnio

Quem acredita em astrologia? Pra previsões diárias eu já vi que não funciona. Mas pra delinear pessoas, caramba, como têm tantas coisas que batem.

Hoje na minha aula de treinamento funcional (faço 1h uma vez por semana, e às vezes falto porque viajo. Mesmo assim, tem me transformado) as meninas estavam falando sobre Virgem. “E qual o seu signo?”. Capricórnio. Dois segundos de silêncio pesado. “Uau. Eu nunca iria imaginar. Você parece tão calma. Achava que você era sagitário… Minha mãe é sagitário, sagitário é bonzinho, não é? Meu pai é capricórnio”.

Eu sabia o que falar: difícil, não?

“É, é difícil”.

Não é que a pessoa seja exatamente brava, é que se ela vê algo que acha errado, ela não se aguenta.

´”é! É isso mesmo”.

No fim da aula chegou a outra professora, e a Gabi falou “adivinha que signo ela é”, a Thais ficou me olhando e falou “Libra?”, “Não! Capricórnio. Dá pra imaginar? A gente nunca ia adivinhar”.

Claro que não, eu estou numa aula de ginástica, de vez em quando papeando sobre os assuntos correntes (hoje era só meninas, então uma delas estava falando sobre cólica e coletor menstrual). Quem iria imaginar que eu sou o ser que mata a maioria dos signos e carrega 300% de raiva?

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Mas é a verdade. Claro que a gente não é assim o tempo todo pra tudo, nós escolhemos as nossas brigas. O Cris — outro capricórnio, mas de dezembro, parece tão sossegado, e meus colegas birdwatchers adoram ele, comentam como ele é tranquilo, da paz. Só porque eles nunca tiveram que enfrentar uma situação em que as opiniões deles divergiam.

“Hoje eu briguei com…” — não preciso terminar a frase, o Daniel já está sorrindo e fazendo aquela cara que a gente gosta de fazer, que são os dedos formando um L maiúsculo encostados na boca entreaberta, e um ar de surpresa bem falsa.

Já consegui até brigar com um dos administradores e fundadores do Inaturalist, o que me fez dar um tempo na intensidade de postagens de lá. Eu tive que fazer a mesma pergunta quatro vezes ao longo de quatro semanas, quando ele finalmente se dignou a gastar uns minutos pra analisar meu problema em vez de ficar falando que era erro meu no enquadramento do mapa, ele viu que estava errado. Ele consertou o mapa do Central Park, mas falou que não ia consertar o mecanismo de busca geral e tornar automática a inserção de novas espécies, iria continuar manual. Porque não. Imagina como eu fiquei feliz.

E todas as coisas cortantes e doídas que já falei pra família, amigos. Eu sei que as pessoas não gostam de ouvir. Algumas param de falar comigo. Mas o que é o certo, é o certo, e só porque dói não vai deixar de ser o certo. Somos o que somos, e se não consideramos defeito, não faremos nada pra mudar.

John Singer Sargent

O Sargent. Quanto mais olho, mais penso que atualmente é meu artista favorito. Já fui bem fascinada pelo Klimt, Munch, Schiele, Hopper. E Sorolla é muito bom, mas o Sargent tem um quê hipnotizante, graças a sua fase de retratos destruidores-de-amizades e com olhares tão intensos.

Acho que é isso que me atrai tanto agora. Essa capacidade de retratar as pessoas. Que faz transparecer poses tão humanas. Personalidade. Orgulho. Vaidade. Arrogância. Bondade. Ingenuidade. Malícia. Sensualidade. E todo mundo percebia, é claro.

“Every time I paint a portrait I lose a friend”.

Queria conseguir fotografar gente do jeito que o Sargent pintava retratos (mas sem a parte de perder os amigos). Colo aqui umas notas, que demonstram a consciência dele da técnica, e que explicam em parte as pinturas:

Sargent’s Notes

     1.   Painting is an interpretation of tone. Colour drawn with a brush.

    2.   Keep the planes free and simple, drawing a full brush down the whole contour of a cheek.

     3.   Always paint one thing into another and not side by side until they touch.

     4.   The thicker your paint—the more your color flows.

     5.  Simplify, omit all but the most essential elements—values, especially the values. You must clarify the values.

     6.  The secret of painting is in the half tone of each plane, in economizing the accents and in the handling of the lights.

     7.  You begin with the middle tones and work up from it . . . so that you deal last with your lightest lights and darkest darks, you avoid false accents.

      8.  Paint in all the half tones and the generalized passages quite thick.

     9.  It is impossible for a painter to try to repaint a head where the understructure was wrong.

http://keenewilson.com/page/2947/john-singer-sargents-painting-techniques

Uma seleção dos tais retratos

 

Exemplos de outras obras lindas

 

Um desenho a carvão do Yeats!

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Um dos quadros mais famosos dele é o Madame X, hoje no Metropolitan. Ficavam dizendo que o quadro, de 1884, causou muito porque tinha uma alcinha de vestido escorregando pelo ombro, e eu não conseguia enxergar a tal alcinha. Depois descobri que criticaram tanto que ele repintou a alça. E encontrei algo que mostrava a imagem original. As coisas que eram motivo de escândalo no passado…

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Auto-retrato

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Capricorniano do mesmo dia que eu. A meu ver, um retrato que expressa bastante do orgulho caprino de quem se sabe (ou pelo menos se acha) muito bom. Estranho pensar por que os amigos se ofendiam com os retratos.

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Ainda sob o tema de bons retratos, vou compartilhar aqui um cartaz que adorei. Festival de Primavera de Sevilha, o cartaz de 2013. Vi num boteco na viagem de 2015, fui até pesquisar sobre o assunto, infelizmente os outros cartazes não são tão bons. Bonitos, mas esse se destaca pela intensidade do olhar da moça, o movimento do braço como se fosse o registro de algo fugaz, não a pose para um retrato. Uma imagem que realmente prende o olhar. E foi legal achar essa foto da apresentação do cartaz, com a presença da modelo. Uma moça bem bonita, mas o que traz a distinção à pintura é a habilidade do artista em transferir essa aura pensativa e de efêmero.

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O latido do esquilo: o Cris acha você feia

O que é beleza? O que é ser uma menina bonita, uma mulher bonita? Quando essas coisas passam a importar, e quando deixam de importar? O que você faz com pessoas amadas que falam coisas pra te machucar? Como não cair numa situação de engolir sapo, mas também não partir pra vingança ou infantilidades?

Sempre soube que não fazia parte do grupo das meninas bonitas e descoladas. Desde que eu tinha uns 12 anos eu sei conversar sobre muitas coisas com as pessoas, sei ouvir, vejo que as pessoas gostam de conversar comigo e me falam coisas pessoais, confidências. E nunca achei que isso significava alguma coisa. Pata. Idiota. Fucking padrão de beleza imposto pela mídia.

Saí de Limeira, fui pra faculdade, aprendi um monte de coisas. Recebi o aval da minha mãe pra namorar 🙂 Até então ela dizia que não podia, que atrapalhava os estudos. Mas daí quando sua filha vai chegando aos 20, e nada de apresentar um namorado, você começa a ficar preocupada que vai ter uma filha encalhada – uma ideia que me divertia bastante, confesso. Os anos de educação repressora pareciam bem vingados ante a preocupação de que sua filha não vai arrumar ninguém.

Mas eu não estava encalhada e sozinha, só não contava isso pros meus pais. Aos 20 e poucos anos eu já tinha feito a grande descoberta: o padrão de beleza não importa. Só homens idiotas ficam com alguém com base apenas na aparência. Tem muita gente procurando companhia e experiências, e eu tinha três grandes vantagens: saber conversar sobre muitas coisas, ser mulher, não ter medo de sexo.

Eu sabia que não era bonita como uma moça loira de olhos azuis é bonita, uma morena de longos cabelos e corpo cheio de curvas é bonita, ou uma ruiva de pele bem branca é bonita. Mas mesmo sendo uma japonesa baixinha de óculos e cabelo curto, eu me sentia bem na fita no meu nicho ecológico. Uma sensação boa de segurança, a ponto de só achar engraçado se um cara com quem eu estava saindo vinha me contar que fulana tinha falado mal de mim “ela falou que eu estou saindo com uma japonesa feinha”, eu sorria por dentro e pensava (mas não falava pra ele) “Inveja, sua gorda. Você é quem queria estar catando meu lolito”.

Hoje eu sei que quando comecei a namorar o Cris na consultoria, isso deixou várias pessoas pasmas. Por que um sócio-diretor recém-separado, descendente de europeus, 1,80m, vai gastar seu tempo com uma japonesa pobre, baixinha, feia, gordinha, sem graça? Por quê? Homens e mulheres se perguntavam isso.

Pois é. Estou recontando isso pra explicar o quanto eu estou acostumada e não me importo com os maldizeres sobre mim.

Muitas vezes já quis ter outra casca, já me senti uma Ferrari num chassi de Fusca, mas faz tempo que isso não importa mais. Há mais de 10 anos assumi um compromisso de fidelidade, e só tem uma pessoa cuja opinião sobre minha aparência conta. É o Cris. O cretino que é o amor da minha vida, e que em menos de um ano e meio conseguiu me fazer sangrar três vezes, ao falar coisas que ele disse que eram brincadeira mas machucaram muito. Ele é a única pessoa capaz de machucar tanto, porque é o meu amor. A única pessoa pra quem me importa se ele me acha feia ou bonita. E conseguiu três vezes me falar que estou velha ou feia.

Dói. Dói dele ter que aguentar minha fúria e se desculpar por horas. De me escorrerem lágrimas frias de ódio, de eu tremer de raiva e desgosto. Dói de na terceira vez eu falar “chega. É a terceira vez em menos de um ano e meio, é muita coisa. Eu não vou ser vítima disso, eu não quero me sujeitar a você. Vou parar de me importar com a sua opinião. Vou encontrar alguém que goste de mim como eu sou. Estou cansada de você me falar que eu sou feia, que as pessoas de Okinawa são feias e portanto que a minha família é feia, chega disso”.

Eu não sei bem o que eu ia fazer. Não estava pensando em separação, e sim em algo como voltar a usar roupas pra chamar atenção, talvez flertar por aí e me sentir paparicada por homens que iam gostar de papear com uma japonesa coxuda, relativamente peituda, de lábios carnudos, que gosta de fotografia de natureza, viajou pra vários países, sabe conversar sobre um monte de coisas. Recompor meu pedaço de amor próprio que meu amor-cretino é capaz de destroçar.

Horas discutindo. Não uma discussão. Eu vociferando, ele tentando apaziguar, explicar, se desculpar. Num dos momentos eu queria ter jogado ele pela janela do trem, se estivéssemos num trem “eu não sei por que faço isso. Fico envergonhado”. Envergonhado? Envergonhado? Constrangido? Aborrecido? Ah, mas vá pra putaqueopariu, enfia o constrangimento no cu. Não falei, só pensei, me sentia cansada demais pra xingar.

Por fim, o que trouxe a paz pra nos deixar dormir foi ele falar que desde criança ele fala coisas pra machucar as pessoas. Que ele não sabe por que faz isso, mas faz. Dizer que ele tem orgulho de ver que o Daniel se preocupa em ser gentil e falar coisas legais pras pessoas, e que ele sabe que isso tem uma boa influência minha. Que eu faço ele querer ser uma pessoa melhor, e que se a gente é uma família feliz e unida, é por minha causa, que ele não sabe como seriam as coisas se eu não estivesse. Eu falei como foi horrível ele dizer que estava envergonhado, e usamos uma das famosas técnicas de reconciliação, que é perguntar pro outro o que você devia ter falado. Diga “me perdoa. Você é o meu amor e não sei por que falei isso, preciso que você me perdoe”. Ele falou que queria ter falado isso, mas achava que ainda não podia, que ainda não merecia.

Porque ele estava sinceramente arrependido, e porque eu sei que é sério e verdade essa história de gostar de machucar as pessoas, eu perdoei. Dormimos. Acordei moída, tive os sonhos típicos de insegurança (sonhar que você não se formou na faculdade. Verdade verdadeira é que eu não sei se peguei meu diploma na USP, então é um motivo a mais pra sonhar com isso, mas eu sei por que esses sonhos acontecem). Já estávamos bem a ponto de nos abraçar, de não haver mais uma névoa de gelo ao meu redor deixando todas as outras pessoas do lugar levemente desconfortáveis.

Agora está tudo bem, como se nada tivesse acontecido?

Claro que não.

O Cris é o amor da minha vida, a pessoa com quem espero viver a vida toda, até o fim. Mas o papel de vítima passiva nunca combinou comigo. Uma coisa é você ser destroçada porque o amor da sua vida deixou de te amar, ou mudou de país, ou mesmo morreu. É uma dor horrível, mas é algo que acontece porque você amava muito, uma dor diretamente proporcional ao tamanho do seu amor. Outra coisa é você se sentir destroçada porque seu amor tem um lado sádico, e ele sabe qual é o ponto que é como enfiar a mão dentro de você e torcer suas entranhas.

Não tenho vontade de me vingar. Não é uma vontade de também causar uma dor grande – detesto vê-lo sofrer com qualquer coisa, seja dissabores do trabalho, ou alguma coisa do poker, ou mesmo quando tem um ponto de sangue no queixo porque ele se cortou fazendo a barba.

Não sei. Castigo talvez. As três vezes que ele fez isso foi na frente de outras pessoas, eu só fiquei quieta e depois quebrei o pau em particular. Não sei se vou mudar de opinião, mas neste momento a ideia de falar do assunto na frente de qualquer um se ele voltar a fazer me agrada. De estabelecer algum castigo. Algo como três meses sem poder ir ao clube de poker, e o dinheiro que ele iria gastar com os torneios ele tem que entregar pra mim, pra eu fazer o que eu quiser, pra eu gastar comigo ou doar pra quem eu quiser. Não temos questões com dinheiro. Eu gasto o que eu quero, ele gasta o que ele quer, porque somos dois capricornianos comedidos que nunca gastam demais. Mas a ideia da abstinência de uma das coisas que ele mais gosta de fazer pode ser o tchans.

Não sei. Alguma coisa pra não me sentir mais vítima… ele passou um bom tempo dizendo que era sem querer, que nós sempre brincamos sobre muitas coisas e que eu não me importo. É verdade que eu não me importo quando ele fala coisas zoeiras sobre eu ser burra, vileira, suburbana, não saber fazer contas, confundir palavras, não ler rótulos – nada disso me ofende e essas coisas só são faladas porque nós dois achamos engraçado, nós dois nos divertimos com isso. Mas ele sabe que a questão da aparência é algo que dói como o inferno, porque levou muitos anos pra eu aprender a gostar de mim, e eu não vou deixar que nenhum homem, muito menos o amor da minha vida, banque o sádico com o meu amor próprio.

Não engoli a história do sem querer, ou isso é uma questão sua. Ele sabe muito bem que minha aparência é uma questão pra mim, meu calcanhar de Aquiles, e recentemente já tinham acontecido dois incidentes em que o céu caiu na cabeça dele porque ele me falou uma frase ruim. Três ou quatro palavras com repercussões terríveis. Você sabe que isso machuca muito. Se você “esquece” que não pode falar aquilo, mesmo que ache que está num contexto de brincadeira, ou você é uma pessoa desalmada ou um idiota completo. Nenhuma das alternativas prestava. Ou melhor, se fosse isso, era algo pra considerar a separação. Porque eu não quero viver com alguém pra quem os sentimentos dos outros não importam, ou que é um idiota completo. Mas acredito que algumas pessoas fazem coisas pra machucar as outras… ainda mais se é algo que acontece desde a infância. O prazer sádico de saber que você pode falar algo que vai machucar muito. Isso eu entendo. Entendo, mas não quer dizer que vou aceitar tranquilamente. Ele vai ter que lutar pra mudar isso. E sempre que fizer isso vai ter minha espada sobre ele, tanto na forma de horas de sermão, como em algum outro mecanismo punitivo pra aprender a não fazer mais.

Estou expondo algo tão pessoal num texto comprido assim, e se você chegou até aqui, imagino que tem interesse no assunto. Por ser vítima ou abusador. Compartilho no blog meu lado mais frágil porque espero que este post te ajude a lidar com o seu lado mais frágil. A reconhecer que ele existe. E não permitir que as pessoas te maltratem, mesmo que seja o amor da sua vida, mesmo que sejam quatro palavras. Se doeu, tira a limpo. Exija perdão. Não deixe que o outro te diga que você está exagerando ou que aquilo é uma bobagem. A gente sabe onde dói. Não é uma questão de ser hipersensível, ficar ofendida com tudo, você entende que é um outro patamar, o patamar de lágrimas frias de ódio. Não permita que as pessoas façam isso com você. Se afaste da pessoa, ou se é como meu caso, alguém que você ama e não quer se afastar, no mínimo discuta o assunto à exaustão, e procure formas de ajudar a evitar que aconteça de novo.

No estágio de evolução moral, somos capazes de fazer ou não fazer coisas porque temos empatia e sabemos que aquilo vai agradar ou machucar alguém. Mas há um estágio anterior, em que deixamos de fazer algumas coisas só pelo receio da punição. O Cris sabe que me falar que eu sou feia me machuca como o inferno. Se isso não é o suficiente pra ele lembrar que não pode falar, a gente volta pro estágio punitivo. Três meses sem H2.

Por causa desse incidente, não consegui fazer o post de retrospectiva 2015, ou contar que consegui mesmo publicar o livro sobre o blog, ou agradecer pelos emails bonitos, desculpem. Mas esse era o assunto pungente do momento, e queria compartilhar aqui. Não seja vítima. Não deixe as pessoas te machucarem por prazeres sádicos. Se afaste da pessoa. Se não puder se afastar, encontre uma forma de discutir o assunto e procurar formas de diminuir as chances de voltar a acontecer. Aja com honra e justiça. Obrigada por acompanhar o blog, obrigada pelo carinho, nos vemos em 2016.

Quase esqueci do PS: o latido do esquilo é uma ideia boa de um livro do Rick Riordan (sempre dou uma passada de olhos nos livros do Daniel, pra saber o que ele está lendo, pra poder papear com ele sobre o livro. Nesse livro do Magnus Chase, mitologia viking, ele fala de um esquilo que guarda a árvore que leva aos portais dos nove mundos. O esquilo não só tem dentes e garras mortíferas, ele tem um latido que faz cada pessoa ouvir as coisas mais dolorosas possíveis, pra cada um é diferente. Eles dizem que o latido é pior do que a mordida do esquilo. Pensei que era uma ideia muito boa. Algo que faz você descobrir qual é a coisa que mais te dói. Acho que só por algum mecanismo mágico eu poderia ter certeza de que “você é feia”, falado pelo Cris, é a coisa mais doída que eu posso ouvir de alguém. Mas nesse momento parece ser. E pensar bastante no assunto, escrever sobre o assunto, publicar na internet, já faz doer bem menos.

Você é o amor da minha vida, Cris. Mas ninguém vai bancar o sádico comigo. Se o seu lado negro aparecer de novo, vai encontrar de novo a minha espada, na forma de horas de sermão – que eu sei que é um perrengue no porte de sabugo enfiado no cu. E provavelmente mais algum castigo, pela reincidência. O melhor é não deixar acontecer de novo. Mas se acontecer eu estarei preparada.

PPS: contei pro Cris sobre o castigo. Comentários contraditórios de sentimentos conflitantes. Dizer que eu era muito boazinha em pensar em três meses em vez de um ano, e depois dizer que três meses já era muita coisa. Garanti que não era. “E se eu não cumprir o castigo?”, “Penso num pior”, “E se eu não concordar, não cumprir?”, “Então a gente se separa”, “Imagina! Só estava brincando”. Eu não estava. Amo muito o Cris. Mas também me amo muito, e não serei vítima de abusos. Se ele perpetuar situações de me machucar, ele não merece mais o meu amor.

Sonhos com a mega sena: bancar a produção de seriados com o Elvis. E pensamentos sobre capricornianos.

Eu sei que há muitas coisas bem mais importantes pra se fazer com o dinheiro, mas nesses dias em que a gente fica sonhando com mega sena acumulada, antes de projetos filantrópicos, antes mesmo das questões da natureza, o primeiro pensamento que me vem é mecenas cultural. Bancar seriados e filmes com personagens bons, aquela ideia do quanto a ficção pode moldar o mundo, e eu estou mentindo, não é isso ainda.

A primeira vontade que me vem é bancar alguma coisa relacionada com o Elvis. Fico pensando que com dinheiro suficiente, não é possível que a gente não encontre um cover decente, que seria possível convencer o Lucky Rocket que ele tem que atuar, e eu não queria que fosse um filme só, talvez algo como um seriado, pra poder vê-lo por muitas horas caminhando, sorrindo, cantando, dançando, movendo-se com a elegância do tigre.

Então veio essa ideia: um pub, ou um bar, ou uma pequena casa de shows, talvez até mais de uma, em países diversos. Um lugar mágico portal dimensional em que as celebridades de diversos tempos vão lá se apresentar para uma audiência discreta, que sabe o que está acontecendo e mantém um pacto de silêncio sob a pena de nunca mais serem admitidos. A gente inventa mais alguma coisa no roteiro, talvez a ideia de que alguns dos artistas (incluindo o Elvis) não querem voltar pra época deles, e sim viver em 2015-2016, e um grupo de pessoas que vai ajudá-los a viver no agora.

A desculpa pra poder assistir a shows com covers incríveis do Elvis, do Frank, da Nina Simone, Johnny Cash, Beatles, James Brown, Jim Morrison, Joe Cocker, Aretha Franklin, The Carpenters, Janis, Chucky Berry, Roy Orbison, Marvin Gaye. E Elis Regina, Tom Jobim, Tim Maia, Cássia Eller, Nara Leão

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Esse é o tipo de artifício capaz de mudar minha sintonia nos dias sombrios. Eu devia mesmo fazer uma lista de vídeos ou músicas de emergência:

E tudo isso é mais incrível ainda porque nunca esqueço que ele é capricorniano. Essas criaturas áridas.

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Cinco coisas que você não pode falar para capricornianos

[um post antigo do outro blog que eu ainda não tinha transferido. Que comecem as comemorações pra esse signo que merece mortes dolorosas. Ou melhor: que não merecem, mas é compreensível que aconteçam]

Há uma estranha sensação reconfortante quando a gente pensa que tem coisas que não são pura loucura nossa, e sim herança cultural, familiar, astrológica.

Obrigada, Marcelo. Thank you, Elaine Edelson.

http://thewholecosmos.com/index.php?option=com_content&task=blogcategory&id=138&Itemid=211

Com grifos meus

Top 5 things NOT to say to Capricorn (Capricorn Rising sign).

1. Relax Yeah, ah. Well that’s not going to happen any time soon. Capricorn is one of the workaholic signs. Even if they check off everything on their ‘To Do’ list, they’ll organize all the ‘to do’ lists and start a database for reference. Capricorns love to work. They feel they have to atone for some past grievance they think their God has against them. The only way to get your Capricorn to relax is to shoot them with a Rhino tranquillizer and while they’re in their induced coma, feed them stock quotes and news intravenously. Or…you could sway them with a working vacation. (That’s the best I can think of being a Capricorn Rising sign myself.)

2. You’re wrong. Well, okay. If you said that to a Virgo, they’d get defensive. If you say this to a Capricorn they become simultaneously repentant, demoralized, AND paralyzed on the spot. Be gentle with your Capricorn. Let them know that their information might be incorrect but that they did a good job researching…(all those sleepless nights and self denial and such.) They don’t have to self-flagellate or anything…just correct the info. Then get them some chips. They like to crunch on crunchy things when they’re stressed.

3. I don’t give a damn. You don’t? Then you won’t have Capricorn on your side for very long. Capricorn is dedicated to serving humanity. They ponder the route. They consider the opinions. They take their time. They need to be surrounded by passionate and caring people who are ready to make a difference. If you don’t give a damn, Capricorn will…and attempt to ignite your enthusiasm. (They tend to care-take the needy to feel needed.) These stoic people just don’t give up. They go the distance and then some. Makes you wonder if they’re androids. Sometimes you just wanna scream at them, “Lighten up!” When you least expect it, they put on a gorilla suit and bring you flowers at your office. Why? Because Capricorn gives a damn.

4. C’mon. Let’s ditch in this line. No one will know. Oh NO? Capricorn will know. They’re the record keepers of social behaviors. You must atone for your actions or else Capricorn will stare you down and make you feel so uncomfortable, you’ll have to face your own conscience. They like to think of themselves as social police. They have the responsible gene. Capricorn knows that there’s a big EYE scanning all thoughts and actions so they obey the law. BUT some Capricorns are so freaked by authority and the idea of Godly punishment that they figure they might as well do something wrong so they become addicted to chemicals. These Capricorns need reassurance that they’re not inherently bad, just irresponsible. Wow. Telling them that will throw them into rehab faster than you can say, “All rise for the honorable Judge….”

5. Do it this way. Oh…really? You think telling your Capricorn (or Cap Rising) friend what to do is going to motivate them? You know where you can stick that statement…right up your…oh, sorry. Capricorn’s prefer the more Victorian approach to reprimand. Be polite, be gracious, and above all, be articulate. Capricorns admire authority figures who lead by pristine example. Be pure of heart and it will help Capricorn to lighten up on themselves. Capricorns can be so funny in a dry kind of way. In fact, once you stop telling them what to do and how to do it, they’ll turn to you with choice words that will show you who’s boss. They win. The end.

 

Por que capricornianos merecem mortes dolorosas

“Capricorns can be so funny in a dry kind of way.”

Dry. É uma das nossas palavras-chave. Somos secos, austeros, não relaxamos e não confraternizamos. A gente acha que está relaxando, mas é possível deixar de lado quem realmente somos? Temos qualquer chance de estar em um lugar e não olhar, não julgar, não pensar no que está errado, no que deveria ser melhor, tanto para o lugar quanto para as pessoas?

Então por mais que a gente disfarce, se alguém olhar um pouco mais fundo, vai ver nos nossos olhos que estamos pensando, julgando e, geralmente, dando notas baixas pra tudo.

E entenda, não de um jeito idiota. Não é estar num restaurante de beira de estrada e se incomodar com prato riscado ou lascado. É o “grana padanno” do restaurante besta. Temos um senso muito grande de justiça, nunca humilharíamos pessoas humildes e simples. Mas entre os que têm pretensões, para quem se acha, para quem tem poder, dinheiro, fleuma, pose, acha que tem intelecto… para esses não há desconto.

Temos dificuldade com a small talk. Em falar de assuntos da moda, novidades de revistas, manchetes de jornal, novela, fashion week, lançamento de filmes, bienal de artes ou de livros. Não somos regidos por novidades e pelo o que está acontecendo no mundo agora, temos nossos próprios valores e prioridades.

Saturno nos rege. O que nos dá uma terrível consciência sobre a passagem de tempo e desperdício, tanto de tempo como de talentos nossos ou dos outros.

Sabemos como fazer as coisas funcionarem, nos importamos com o bem do mundo, queremos fazer coisas importantes.

Animais chifrudos incompreendidos, sem graça, falando de assuntos inconvenientes.

Não sabemos confraternizar. Somos chatos. Acusados de ser muquiranas e, infelizmente é preciso reconhecer que é verdade. Como pensamos e julgamos muito, compramos pouco, preferimos guardar dinheiro para coisas que realmente valem a pena e não têm substitutos, como viagens. Temos pouco objetos de desejo só pela aura, pela fama. Não sei se vocês têm ideia do quanto a maioria das coisas que se compram não valem a pena.

Não sabemos contar piadas nem histórias boas. Nos aproximamos das pessoas quando elas realmente precisam de ajuda, mas muita gente não gosta de lembrar dos momentos em que estiveram fracos e pequenos, eles não serão uma voz de defesa.

Considero uma grande fraqueza não ter charme social, não ser capaz de tecer laços de camaradagem informal que não precisam de algum evento sério e importante. E não acho que é injustiça cósmica se terminamos na fogueira ou na cruz. Quem mandou seguir o que acreditamos ser o certo, em vez de seguir o que rege o mundo.