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A primavera depois da crise

Sabem que eu tento ficar prestando atenção em tudo que acontece, e inventar, criar, produzir sentido e significado.

Quando trabalhava na consultoria, todo mundo sabia que havia uma morosidade até o carnaval. Não sei como é isso nos outros lugares, mas na consultoria, a maioria dos projetos eram contratados só depois do carnaval, vai entender esse país.

Talvez não seja só na consultoria, e talvez haja alguma questão energética dominando o Brasil. Mas queria compartilhar que nos últimos dias, ouvi novidades de várias pessoas. Novos negócios, novos projetos, contratações, retomadas, mudanças de cidade, respostas positivas sobre financiamentos.

Parece mais bonito ainda porque respiramos esse clima de esperança de que 2018 será bom, que a gente já passou tempo demais mergulhados na crise.

Espero que você também esteja respirando esses novos ares.

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Continuo afastada do mundo passarinheiro. Vai fazer três meses sem dar um pio (perdoem o trocadilho).

Ontem num jantar com um casal de quem gosto bastante, estava falando do 16personalities, que é divertido como horóscopo, e soube que o pai da … é de capricórnio. Ela é de áries, e falou que se dá bem com o pai. Eu contei do tal diálogo no treinamento funcional, em que as pessoas fizeram 5 segundos de silêncio quando falei que eu era de capricórnio, e a minha instrutora falou “nossa, meu pai é de capricórnio”, eu entendi, falei “é difícil, não?”, “é, é difícil”, e continuei: “Não é que a pessoa seja exatamente brava, é que se ela vê algo que acha errado, ela não se aguenta.” Minha instrutora concordou na hora, falou um “é!” quase maravilhado, e minha amiga do jantar de ontem também concordou que era isso mesmo.

Depois fiquei pensando que taí minha explicação nua e crua. Eu mesma falei, e eu mesma não tinha pensado o quanto é verdade em um nível profundo. Sou uma besta chifruda (mas não corna, vamos deixar claro). Forte, acostumada a perambular por terrenos perigosos, íngremes e difíceis, com esses chifres que podem te dar uma cabeçada e te derrubar.

Uma besta chifruda forte e com um baixíssimo grau de tolerância pra injustiça. Sem tolerância pra injustiça, corrupção, favorecimentos, abusos, sem paciência com fraquezas e carências.

Eu não me aguento. Me envolvi de corpo e alma na tal questão da proibição de fotografias nos parques, meu sangue ferve quando ouço ou leio comentários homofóbicos, xenofóbicos, machistas, a favor de tortura ou de Bolsonaro. No fim do ano passado soube de ações lideradas por alguns guias pra criar reserva de mercado — algo muito prejudicial pro desenvolvimento do birdwatching, e sua eventual contribuição pra valorizar e proteger a natureza, e desci o cacete num dos líderes — sem citar nomes, mas ele sabia que era com ele, tanto que depois tive que aguentar um longo email sobre o quanto ele estava magoado comigo, mais outros argumentos que misturavam o trabalho bom que ele já fez, com essa atitude de fechar o mercado.

Estou afastada da comunidade e não sei quando volto. Acho que na verdade, me sinto muito sem ligação com os birdwatchers como grupo, uma sensação de falta de sintonia nos nossos valores. Não preciso de lifers, não acho que os números significam alguma coisa, não gosto da competição, como grupo o que vejo é uma valorização do ego e vaidades, vi centenas de pessoas incapazes de gastar 30 segundos pra assinar uma petição ou manifestar apoio pra um tema, mesmo sendo um tema como “vamos acabar com a proibição de fotografia nos parques?”. Vejo tanta gente preocupada com direitos autorais, ganhos pessoais, e incapazes de pensar no big picture da valorização da natureza brasileira. E na questão estética, vejo uma tapadice sobre o que é uma boa foto, é uma noção tão rasa, alardeada aos quatro ventos.

Estou falando dessas coisas porque, ainda que eu continue gostando muito de fotos e divulgação, que ande trabalhando em Pinterest e ilustrações, silk screen, me sinto cada vez mais afastada dos birdwatchers. A primavera depois da crise é mais difícil pra quem não tem certeza de pra onde quer ir.

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Mas queria deixar claro que essa incerteza não é deprê. Pra mim essas incertezas são meu espaço de voo.

Cerejeiras em Campos do Jordão – shut up and shoot

Pra quem não sabe as floradas são momentos imperdíveis para fotografar aves. As de cerejeiras, por exemplo, são um espetáculo. Flores lindas (e eu nem sou tão fã de cor de rosa) e, graças ao cenário, as fotos sempre ficam especiais.

As cerejeiras são da Ásia e há várias espécies plantadas no Brasil. As flores não duram muito tempo (acho que no máximo umas 2 semanas), mas como há várias espécies com inícios de florações diferentes, numa cidade como Campos do Jordão é possível ver as flores de meados de junho a início de setembro.

O início da floração também varia por condições climáticas. As flores só aparecem depois das árvores perderem todas as folhas, e outro dia descobri que há produtos usados para esse fim.

Fui pra Campos neste fim de semana, viagem com a família, mas como as pessoas normais não gostam de acordar cedo, sempre dá pra sair pra passarinhar. No domingo eu e o Cris fomos ao Parque das Cerejeiras, o que tem o festival, não o que fica ao lado do Corpo de Bombeiros. A gente não tinha muito tempo. As árvores estavam lindas, incríveis, mas estava difícil fotografar. Com tantas flores, as aves ficavam dispersas pelo parque, diferente de outros anos em que as fotografei em lugares com poucas árvores floridas.

Cris: “o que você está achando?”

Eu: “muito difícil. Os beija-flores ficam voando no alto, está difícil focar, o fundo dos tiribas também está ruim estão no contraluz, não vi nenhum beija-flor-de-topete até agora, só tem amazilia e papo-branco, alguns besourinhos, vi um beija-flor-preto, um tesoura, não vi gaturamos”

Cris: “vou te falar algo que você já falou pra mim: shut up and shoot”

Ri bastante. “Shut up and fish” é uma música da Maddie & Tae – não que eu soubesse quem elas são, a gente ouviu na rádio por acaso numa das viagens pros EUA e nos divertimos com o refrão. Nessa mesma viagem, estávamos fotografando nascer do sol num desses lugares populares, que tem um monte de fotógrafos, já tinha passado o momento mais bonito e o Cris começou a falar do quanto aquele lugar era incrível bla-bla, eu achei errado ter a voz dele quebrando o silêncio e talvez a contemplação dos outros, daí falei pra ele “shut up and fish”, e ele entendeu.

E como vingança é um prato que se come frio, no domingo ele aproveitou pra dar o troco, mas foi num ótimo momento. Pensei que era mesmo bobagem ficar pensando em espécies ou dificuldades de luz, e fotografei mais um pouco.

Até o início de setembro ainda é provável encontrar cerejeiras floridas em Campos do Jordão. Se você estiver por lá, fique atento. Pelas minhas experiências em outros anos, a atividade maior começa depois das 10h, acho que os raios de sol aumentam a produção do néctar.

Caso você vá no feriado de 7 de setembro, tente viajar em horários e dias alternativos. Teve uma vez que a gente levou 1h30 pra conseguir sair da cidade.

Aves dinossauros

Não sei se vocês estão ligados nessa conversa, mas há cada vez mais consenso de que as aves são dinossauros: os dinossauros que sobreviveram ao meteoro que dizimou todos os outros dinossauros, 66 milhões de anos atrás, e também acabou com 75% a 93% de todos os mamíferos.

Esse meteoro caiu onde agora é a Península de Yucatan, no México, deixou uma cratera de 180km e teve a força de 10 bilhões de bombas atômicas. Levantou tanta poeira que o planeta inteiro ficou isolado da luz do sol durante 2 anos e a temperatura caiu 16 graus. Após esse período a poeira começou a se dissipar, mas ainda foram mais 6 anos até voltar ao nível pré-meteoro.

Esse cenário foi apresentado no encontro da Geological Society of America, em Denver, em setembro do ano passado, e teve como base uma simulação feita num computador com dados bastante acurados.

As plantas morreram, os herbívoros morreram, logo os carnívoros também não tinham do que se alimentar. Não sei como eles se viraram, mas sei que os dinossauros aves que sobreviveram eram os pequenos granívoros, que conseguiram se alimentar de sementes durante esse período terrível.

Além do meteoro, alguns dizem que uma intensa atividade vulcânica na Índia também foi responsável pela extinção de várias espécies, mas o papel do asteroide ou cometa é indiscutível.

E vocês têm lido sobre as descobertas no nordeste da China nos últimos 30 anos, no Jehol Biota? Muitos fósseis incrivelmente preservados, inclusive de aves dinossauros que mostram as penas com detalhes. Vale a pena olhar as imagens, é lindo demais.

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Algumas imagens de internet:

As ilustrações que mostram como as aves dinossauros podem ter sido são muito parecidas com as aves atuais, obviamente.  Fora o fato de bico com dentinhos. Agora todas as vezes que vejo fotos de aves, especialmente quando estou editando as minhas fotos, não consigo deixar de pensar no meteoro, no período sem sol, que elas existem há uns 140 milhões de anos. (Pra ter uma ideia, os primeiros hominídeos são de 3,4 milhões de anos, e o Homo sapiens tem uns 300 mil anos — até há poucos meses achava-se que eram 200 mil anos).

Não sei explicar o motivo, mas essa conexão com os dinossauros me faz amar ainda mais as aves.

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Se você tem interesse no tema:

Pelo menos o céu eles não podem taxar e controlar

Na verdade, se junto com o céu estivesse alguma formação icônica de um parque, a foto não é mais totalmente sua.

Nesses dias em que voltei a me envolver com a comunidade dos birdwatchers conversei com algumas pessoas que já foram proibidas de fotografar num parque — e nunca mais voltaram. Alguns me falaram de problemas no parque tal, conversamos mais, ela me fala “mas deixa eu checar como está agora, porque já faz um tempo que eu fui”.

Eu sei como é.

É como minha relação com o Horto de Campos do Jordão. Depois que me proibiram de fotografar, em 2009,  não tive mais interesse em voltar. Nesses 8 anos voltei lá três vezes — e olha que vou várias vezes por ano pra Campos. Oito anos em que eu poderia ter feito vários registros dentro do parque e compartilhado as fotos com a administração, feito divulgação do lugar.

Faz mais de 10 anos que as câmeras digitais são populares no Brasil. São 10 anos em que dezenas de milhares de pessoas poderiam ter fotografado com alegria e dedicação as Unidades de Conservação brasileiras. Pra registrar, fiscalizar, promover, proteger.  Mas em vez de criar esse vínculo com a população, o que nossas autarquias fizeram nesses 10 anos? “Tem autorização para fotografar?”

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Em março de 2016 foi publicada a portaria estadual 236, que descriminalizou o porte de câmera grande. No fim de semana passado fui ao Horto, almoçar no restaurante D. Chica, e aproveitei pra fazer mais um experimento — de andar com a câmera à mostra. Nenhum problema. Em vez de seguranças dizendo que é proibido fotografar, havia funcionários com camisetas do parque, com aquele jeito de gente pra quem você pode pedir informação, você olha pra pessoa e fala bom dia.

As fotos deste post foram feitas em Wenceslau Braz – MG, logo depois da divisa com Campos do Jordão. Tudo numa manhã só.

Ainda que não seja mais proibido fotografar nas UCs da Fundação Florestal, confesso que foi uma alegria grande pegar esse nascer do sol maravilhoso sabendo que eu tinha acabado de sair do parque e que as fotos eram só minhas. Como falei no outro post, eu, e provavelmente outras pessoas, podendo escolher sempre vamos pra beira de estrada fora do parque. Mesmo sendo altamente improvável fazer algo comercial com a foto, ninguém quer se sentir amarrado.

A portaria que descriminaliza o birdwatching nas UCs da Fundação Florestal foi um grande passo, mas queremos mais. Não basta sermos apenas tolerados, queremos o fim do controle sobre as fotos, da política que tolhe iniciativas, que castra nossa vontade de registrar e divulgar as Unidades de Conservação.

Precisamos de uma mudança de cultura. Chega de gestor que acha que cidadão precisa pedir autorização pra tudo. Gestores: buscar controle total é um erro. Tratem as pessoas como gente, como seres humanos. Incentivem alianças, iniciativa e criatividade. Burocracia e controle é o caminho errado, é o caminho que vocês seguiram até hoje, e veja aonde levou.

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Saio de férias amanhã, não sei se consigo blogar durante a viagem. Se não conseguir, volto no início de agosto.

 

Qual a importância de incentivar a fotografia e divulgação dos parques e por que a mentalidade de fichas e controles é extremamente prejudicial a essa divulgação

No geral os gestores já entendem que a fotografia e divulgação do parque é algo positivo e desejável. Eles costumam nos falar “somos a favor da fotografia, podem fotografar, gostamos da divulgação”.

Podem fotografar. Basta preencher esse formulário dando seu nome, RG, CPF, endereço e declarando que você não fará uso comercial dessas imagens.

 

A exigência do formulário não é feita para qualquer pessoa que esteja fotografando, só àqueles que portam “câmeras profissionais ou semi-profissionais” — termos usados pelos gestores para nos explicar qual o critério para ser abordado.

Respondemos que:

1 – Não existe equipamento profissional. Profissional é a pessoa, caso ela consiga fotos boas o suficiente pra viver de fotografia. Um bom fotógrafo consegue fotos ótimas com uma compacta, com um celular.

2 – A mera posse de um equipamento top não transforma um amador num profissional, a câmera não tira fotos sozinha.

3 – Mesmo quando um amador consegue fotos de ótima qualidade, isso não significa que ele fará uso comercial daquelas imagens.

 

Sabemos que há uma lei federal que exige controle e pagamento de taxas no caso de fotografia comercial. Mas no caso específico de fotografia de natureza, o mercado brasileiro é tão pífio que essa obsessão por controle e formulários não faz o menor sentido.

– O Brasil não tem uma tradição cultural de pessoas que compram fotos, ainda mais fotos de natureza.

– Não existe fotógrafo de natureza que tenha ficado rico vendendo fotos ou livros. Sei do caso de um fotógrafo que conseguiu levantar bastante dinheiro com livros, mas por causa de uma licitação do governo. De outra forma, fotos ou livros de natureza são sempre um mercado difícil e incerto.  Aliás, qualquer publicação no Brasil é uma aventura.

– Quantos fotógrafos profissionais de renome existem no Brasil? Pouquíssimos. E o nome mais famoso, Sebastião Salgado, não fez a fama fotografando natureza brasileira. A estimativa é de mais de 50 mil fotógrafos de aves, amadores. Muitos deles têm fotos lindas, mas isso não é suficiente pra transformar a pessoa num profissional.

– A grande prova do quanto o mercado de fotos de natureza é pífio é a pequena quantidade de fotógrafos famosos e o deserto de publicações. Entre numa livraria e veja quantos livros há no país com a maior biodiversidade do mundo. Tenham certeza disso: existe muita gente apaixonada por fotografia de natureza, e que conseguem fotos bonitas. Mas isso não transforma a pessoa num profissional, não há mercado.

– Leiam entrevistas dos profissionais. Mesmo quem conseguiu algum renome, publicar livros, dá conselhos como “não largue o seu trabalho para virar fotógrafo de natureza, você tem que ter uma atividade que paga as contas”.

– O mercado publicitário pode pagar valores altos por uma foto. Mas não num volume suficiente pra criar um mercado, fora que em geral é muito raro uma agência comprar uma foto, ela vai contratar um fotógrafo para produzir uma foto com as características tais.

 

Não há mercado de fotografia de natureza no Brasil, e a tendência é piorar. A cada ano, a cada mês, há muito mais pessoas comprando câmeras, ou melhorando o equipamento que já têm, e tirando suas próprias fotos. Vocês têm ideia do valor sentimental de uma foto feita por você mesmo? A do colega, ou do profissional, pode ser perfeita tecnicamente, muito mais impressionante, mas ela nunca vai superar o valor sentimental da sua própria foto.

O Wikiaves recebe apenas uma fração das fotos produzidas no país, e mesmo assim já está casa dos 2 milhões de fotos. Como alguém pode ganhar dinheiro com algo tão abundante?

Não há mercado pra fotos de natureza. Pessoas físicas não compram fotos, elas querem tirar suas próprias fotos. Empresas compram imagens, mas os bancos de imagem são cada vez mais abrangentes e baratos. A natureza brasileira é apenas um tema entre milhares.

Qualquer pessoa com um mínimo de conhecimento de fotografia de natureza sabe dessas coisas, e esse é um dos motivos da gente ficar tão revoltado com as restrições à fotografia de natureza, com o discurso “sua câmera é profissional” e “precisamos controlar o uso comercial das imagens”. Essas frases significam que os gestores que passam as orientações aos seguranças não entendem nada de fotografia. A fotografia é uma das principais atividades de qualquer turista, talvez a principal. Mas os gestores dos parques acham que não precisam se atualizar sobre um tema tão importante.

 

A grande maioria dos fotógrafos de natureza nunca vai ganhar nenhum dinheiro com suas fotos, pelo contrário, só gastamos, e gastamos muito. Há sempre um upgrade de equipamento, seja a câmera ou o computador ou o software de edição de imagens, seguro do equipamento, cursos, gastamos com viagens, guias, hospedagem, alimentação, gasolina, roupas, sapatos, repelentes, protetor solar, mochila, há uma lista sem fim de gastos.

E adivinhe: adoramos. Adoramos fazer esses passeios em meio à natureza, contemplar, fotografar. E sermos os donos das nossas fotos. Pra que elas sejam nossas, e possamos fazer o que quisermos com ela. A probabilidade de conseguir ganhar dinheiro com uma imagem é ínfima, mas entenda o valor emocional da nossa atividade, dos nossos passeios, da nossa paixão: as fotos são nossas. A ideia de que um parque vai nos dizer que a foto não é nossa é insuportável.

Essa mentalidade de burocracia e controle faz um enorme desserviço pra divulgação da natureza. Estados Unidos, Europa, não existe essa história de controlar o que as pessoas fotografam, o que facilita muito a divulgação dos lugares naturais. As pessoas fotografam, inclusive os profissionais, e todo mundo pode divulgar as fotos com orgulho, e dizer “Foi no parque tal, vocês precisam conhecer, esse lugar é incrível”.

Já aqui no Brasil, sabem como é? Eu, e imagino que muitas pessoas, não sentem a menor vontade de fotografar cenários bonitos das Unidades de Conservação porque sabemos que aquelas imagens não nos pertencem. Há cenários lindos nas UCs? Há. Mas também tem muitas belezas em beiras de estrada, muito melhor gastar meu tempo fotografando algo que eu nunca terei que enfrentar um perrengue ridículo.

E quando você fotografa um bicho, ou uma flor, algo que a imagem não diz onde foi feito, que pode ter sido em qualquer lugar? O melhor também é só dizer o nome da cidade, área rural, mas se tiver sido dentro de um parque, melhor não falar disso porque assim a foto será sempre sua.

Isso quando você vai fotografar dentro de um parque. Porque eu, por exemplo, se puder escolher prefiro fotografar nas áreas externas ao parque, em geral o habitat é parecido, a maioria dos bichos que estão dentro do parque também estão na estrada do lado de fora, e assim nunca terei um pingo de preocupação.

Entendem como essa mentalidade de querer controlar e possuir as fotos das pessoas causa uma tragédia pra divulgação da natureza brasileira? E tragédia exponencial, porque quanto mais competente o fotógrafo, mais ele tem motivos pra não querer problema jurídico, em ter o direito de ser sempre dono da foto sem dever nada pra ninguém. Mais motivo ainda pro amador competente, ou o profissional, querer fotografar em áreas particulares ou beiras de estrada, e não num parque.

 

Então, prezados gestores, espero ter conseguido explicar como essa política de “é só um formulário, basta dizer que não fará uso comercial” prejudica de forma tão grave a divulgação da natureza brasileira.

Por favor. Se não acreditam em mim contratem um consultor, ou arrumem alguém que entende de fotografia e peçam pra pessoa lhe dizer qual o tamanho do mercado de fotografia de natureza no Brasil, e qual o valor emocional que um amador dá para suas próprias fotos. E vejam como vocês têm podado, há anos, o registro e divulgação da natureza brasileira.

Você reconhece falso dualismo e valores masculinos x valores femininos?

Confluência de esferas da sua vida. Quanto mais a gente não precisar viver uma vida segmentada, e sim poder ser quem somos, falar do que gostamos, demonstrar nossos valores pra qualquer um, melhor é a nossa vida. Estamos praticando não ter vergonha de nos expor, muitas vezes testando a tolerância do outro, mas também exercitando-a, expandindo seus limites.

Nesta semana consegui juntar birdwatching com feminismo. De forma leve neste post, que foi bastante lido porque um dos meus colegas que é bem mais famoso e conectado do que eu compartilhou e recomendou: http://virtude-ag.com/o-que-e-uma-boa-fotografia-de-natureza/, e de forma bem mais declarada aqui: http://virtude-ag.com/qual-a-relacao-entre-3×4-padrao-de-beleza/, que foi escrito no dia seguinte como um desenvolvimento de um dos problemas apresentado. Este com certeza menos gente leu, nem coloquei no Facebook, talvez coloque quando voltar de viagem.

Escolhi não falar no texto “sou feminista”, mas falo de questões feministas. Imposição de padrão de beleza, o viés dos jurados. Digo que nosso julgamento é influenciado por diversos fatores, inclusive se você é homem ou mulher, mas decidi não jogar na cara que um concurso de fotos que só tem homem  no júri nunca será justo com as mulheres, que foi o que aconteceu nos anos do concurso do Avistar. Já vi uma conversa entre fotógrafas mulheres, dizendo que uma mulher nunca tinha ganhado um prêmio. Na verdade eu ganhei em 2009 o segundo lugar na categoria melhor registro, na época em que ainda valia dinheiro, mas não vem ao caso agora, o fato é que se só tem homens no júri, ou principalmente homens, não é nenhuma surpresa que só homens ganhem os prêmios, afinal, os valores femininos e masculinos são diferentes.

Escrevi os textos e não falei “são textos feministas”, porque isso teria feito muita gente ou não ler, ou ler com olhos bem azedos. Mas como não falei que são textos feministas, a maioria das pessoas adorou, elogiou, no mesmo dia 8 pessoas quiseram ser minhas amigas. Dois amigos não gostaram tanto.

 

Não deixe as pessoas te embrulharem com argumentos tortos

Esses textos que andei escrevendo no Virtude falam mal da principal estética de fotografia de aves brasileiras, algo que eu batizei candidamente de 3×4-Sensação. Eu sei. Poderia ter chamado só de 3×4, como a maioria das pessoas fala, e deixaria de irritar muita gente que provavelmente se sentiu pessoalmente ofendida. Cris: “por que você fez isso? Você poderia unir mais gente se fosse menos provocativa”, eu: “Eu já sofri muito na vida”, Cris: “Sofreu????”, “Sofri. Sofro com frequência. Sou obrigada a ler e ouvir muita besteira. Eu preciso me divertir um pouco também”.

Chamar de Sensação tem um lado de molecagem mas também é um teste. Se você não consegue enxergar o quanto temos sido sensacionalistas aplicando esse estilo, com essa luxúria por penas super-definidas, se você se irritou em vez de só sorrir, talvez sua visão esteja um tanto estreita.

Esse meu amigo se incomodou.

Ele me falou que já se incomodou por não ganhar pontos no Wikiaves, mas agora não se incomoda mais, que todo mundo começa com esse estilo de 3×4 e depois evolui o estilo, que as mudanças vão acontecer naturalmente, que não devemos criar antagonismos, que melhor fotografar o 3×4 do que não fotografar nada, ou pior, até mesmo fazer coisas que prejudiquem a natureza, que ele (provavelmente ele quis dizer “diferente de você”) tem cultivado muito a tolerância, e que o mais importante é ajudar o Wikiaves.

Esse cara é muito gente boa e há anos me ajuda em diversos projetos, gosto bastante dele. Mas pra mim é um exemplo do típico birdwatcher homem brasileiro. Essa mentalidade de “não vamos criar conflitos, deixa cada um ser o que quer, as coisas vão acontecer naturalmente” já ouvi de vários. Coincidência ou não, em geral são caras do mainstream. Faz sentido, certo? Se não é problema pra você, quando alguém começa a espernear, a reação natural não é dizer “está tudo bem, não sei por que você está reclamando”?.

Quanto aos argumentos do meu amigo, talvez você não tenha entendido tudo porque não está por dentro do mundo do birdwatching brasileiro, mas provavelmente você intuiu as diversas falácias, especialmente essa de dizer “melhor o 3×4 do que não fotografar nada ou até prejudicar a natureza”, típica estratégia torta de várias discussões. Como se só houvesse essas duas opções e você sempre cria um cenário catastrófico à alternativa que seu oponente está criticando. Seria a mesma lógica de “Os homens estupram mulheres, mas em geral elas têm pelo menos 11 anos. Melhor isso do que estuprar crianças de 5, ou bebês, ou, pior ainda – matar” – pesado, eu sei, e pra deixar claro, meu amigo não tem nenhuma relação com discursos ostensivamente machistas. Escrevi pesado assim pra ficar claro o mecanismo do falso dualismo, se alguém tentar usar contra você, talvez esse exemplo te ajude a identificar por que tem algo estranho na argumentação do outro.

Ah, e o argumento do acontecer naturalmente também é bem ruim e bem errado. A maioria das mudanças grandes e importantes não aconteceram naturalmente: elas foram fruto do trabalho duro, às vezes regado com sangue-suor-lágrimas, de quem queria ver o mundo diferente.  Uma imagem exagerada pro meu caso, mas bem verdadeira pra tantas lutas, e são tantas que eu comecei a citar aqui e apaguei, pra não dispersar demais. Só pra reforçar: é mentira que as mudanças acontecem naturalmente.  As mudanças acontecem porque alguém lutou por elas.

E se você ler os meus textos compridos no Virtude, verá que meu objetivo é exatamente o contrário do que meu amigo falou. Não quero que as pessoas parem de fotografar ou façam mal à natureza: quero que todo mundo possa se apaixonar pela fotografia, não só os que têm dinheiro pra comprar as câmeras caras capazes de produzir os 3×4-Sensação.

 

Diferenças entre valores femininos e masculinos na relação com a fotografia

O outro amigo que não gostou muito do texto comentou o quanto é difícil ser um fotógrafo generalista (acho que foi porque eu sugeri que as pessoas fotografassem diversos temas, não só as aves, dei exemplos de painéis com paisagens e macro). Ele falou que é muito raro ter alguém que arrebenta em fauna, paisagem, macro, que em geral a pessoa só consegue ser boa num campo. O Cris estava passando perto de mim, leu minha tela, e disse que concordava totalmente com ele. Os manos querem fotos pra arrebentar.

Mas sei que eu, e outras minas, não estamos atrás de fotos pra arrebentar, pra deixar todo mundo embasbacado com o quanto somos foda. Um dos nossos maiores prazeres é dizer “você pode ver isso, foi num lugar comum assim, comece a fotografar também, você vai adorar, precisa ver como faz bem pra alma”.

Ah, e antes que você grite que você é homem mas também é mina, queria dizer que os mano e as mina é uma referência a valores, não importa o sexo. Competição, ostentação e arrebentar são valores masculinos. Contemplação, compartilhar, se importar mais com as emoções e menos com aspectos técnicos são valores femininos.

A gente se fudeu de novo na Batalha pela Terra Média? – O caso do Butantan

Queridos leitores,

talvez vocês tenham visto as denúncias contra o Butantan. Este é um dos poucos casos em que conheço pessoalmente gente capaz de dar informações em primeira mão, e esse meu colega me disse que a saída de Jorge Kalil é uma grande injustiça e tragédia pro Instituto.

O Butantan era minha esperança de pequena ilha de primeiro mundo no meio do Brasil. Um lugar que estava dando certo, dando lucro, investindo em pesquisa, produzindo vacinas, próximos de conseguir a vacina pra dengue e fazendo pesquisa de zika e chikungunya. E, o que mais me move: investindo em ações a favor da natureza. O tal Observatório de Aves. Apoio ao Avistar. Projetos pra monitorar outras espécies de fauna fora as aves.

Agora vai tudo por água abaixo, ou no mínimo vai ter essa injustiça atroz de jogar na lama o nome do homem que possibilitou tudo isso.

Se puder apoiar, por favor, assine a petição, compartilhe, peça pra outros assinarem também: https://secure.avaaz.org/po/petition/Governador_Geraldo_Alckmin_Apoie_o_Prof_Kalil_no_Instituto_Butantan/?copy&utm_source=sharetools&utm_medium=copy&utm_campaign=petition-409838-Governador_Geraldo_Alckmin_Apoie_o_Prof_Kalil_no_Instituto_Butantan&utm_term=noHash%2Bpo

E aqui tem o site que funcionários do Butantan montaram pra explicar o caso e reunir informações: https://salveobutantan.wixsite.com/defendaobutantan/blog

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Fazia tempo que eu não xingava. Mas putaqueopariu, que merda. Também fazia tempo que eu não chorava de desgosto, mas agora me vejo com os olhos molhados, de raiva, de pensar como as coisas estavam indo bem e a facilidade com que os Orcs destroem tudo.

Não terminou, mas do jeito como a grande imprensa foi comprada ou manipulada pelos inimigos de Kalil, ou por quem vai lucrar com a saída de Kalil, parece irreversível. Parece que perdemos. Parece que nos fudemos de novo.

Pra mim é doído como a vitória de Trump. Eu sei que a vitória de Trump tem um âmbito muito maior. Mas emocionalmente, o que estava acontecendo no Butantan era minha esperança de instituição pública capaz de investir na natureza. Com dinheiro, poder, competência, amor.

O que vai acontecer com o trabalho deles? Não sei.

Nas minhas panfletagens no Facebook, é claro que alguém ia falar que não põe a mão no fogo.

Esta foi a minha resposta ao colega:

“Um colega me disse que as denúncias têm que ser investigadas e que ele não coloca a mão no fogo por ninguém. Claro, a justiça é para todos. Mas escrevi um pouco sobre a diferença de investigação e crucificação, e por que eu estou colocando minha mão no fogo pelo Butantan.

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Você sabe o que é manipulação da opinião pública? Esse é um tema importante porque está acontecendo o tempo inteiro em assuntos crucias para a vida de todos os cidadãos. O impeachment de Dilma aconteceu graças a essa manipulação. Eu era a favor da saída dela por vários motivos, mas também tenho a clareza de que houve um grande movimento dos meios de comunicação pra insuflar as pessoas. E que não teria havido manifestações públicas, como houve, se não fosse por essa manipulação.

Na eleição presidencial dos Estados Unidos os apoiadores de Trump conseguiram diminuir a quantidade de pessoas dispostas a votar em Hillary com uma estratégia de difundir uma série de notícias falsas nas redes sociais. E agora deu no que deu. O homem mais poderoso do planeta diz que não acredita em aquecimento global, vai acabar com os incentivos pro desenvolvimento de energia limpa e voltar a investir em energia fóssil, vai voltar a investir em arsenal atômico, e mais uma baciada de perspectivas sombrias pros Estados Unidos e pro mundo.

Eu já tinha visitado o Instituto Butantan alguns anos atrás. Era um lugar decrépito e deprimente, como a maioria dos museus e institutos no Brasil. Você sabe como é agora? Você foi lá recentemente? Você sabe o que é ter uma instituição pública que dá lucro, tem poder e prestígio, tem funcionários que se orgulham de trabalhar nela, investe em pesquisa, vai conseguir criar algo como uma vacina pra dengue, acredita na importância da ecologia, faz monitoramento de fauna?

Tudo isso aconteceu graças à gestão de Jorge Kalil. Não era assim até 2011. Antes da entrada de Kalil o Butantan tinha passado por um incêndio, por desvio de dinheiro, e também pela construção desse elefante branco que é a tal fábrica de hemoderivados de R$ 240 milhões, com tecnologia que ninguém sabe se vai mesmo funcionar, e sem ter garantia de fornecimento da matéria prima, o plasma, que não pode ser adquirido de nenhuma forma, o controle é da União, que resolveu concentrar tudo no Hemocentro em Pernambuco.

Jorge Kalil não está passando por um processo justo e honesto de investigação. Seus inimigos estão conseguindo destruir a reputação de um homem que já foi presidente da Sociedade Mundial de Imunologia e que tinha conseguido realizar um trabalho fabuloso no Butantan. Os inimigos de Kalil conseguiram fazer com que os grandes meios de comunicação fiquem divulgando a construção da fábrica de R$ 240 milhões como se fosse obra dele – o G1 diz claramente que a fábrica foi construída entre 2011 e 2014, quando na verdade foi antes de 2012, é fácil checar isso na internet. Alguns meios de comunicação, como a rádio, acho que a Jovem Pan, foi um pouco mais esperta, checou, e viu que fábrica não era obra dele, mas então a acusação é de não terminá-la e colocá-la pra funcionar. Na entrevista de Kalil pra Folha ele disse que a fábrica nunca saiu do radar deles, mas que havia negociações com o governo pra obter o plasma, e também muitas dúvidas se a tecnologia comprada iria funcionar. As reportagens dizem que pra fábrica começar a funcionar vai exigir mais algumas centenas de milhões de investimento (e pelo visto, sem certeza se vai dar certo). Kalil não priorizou isso.

A tal auditoria interna citada na imprensa aconteceu dois anos atrás. Eia. Dois anos atrás? E por que as tais irregularidades estão sendo denunciadas só agora? Coincide com a saída de André Franco Montoro da Fundação Butantan. As matérias dos principais portais dizem que Montoro pediu demissão por não concordar com o que estava acontecendo com o Butantan, e denunciou. Mas já li uma outra fonte que diz que Montoro estava pra ser demitido por seguir um caminho divergente das diretrizes da Fundação, então ele pediu demissão antes.

Na maioria das vezes a gente nem enxerga as cordas da manipulação da opinião pública, ou então não temos proximidade suficiente com o tema para conseguir investigar melhor. Mas desta vez eu tinha uma vantagem: conheço o Luciano Lima, e coloco minha mão no fogo por ele. Pela dedicação, integridade, amor à natureza, competência, por tudo que tem feito pela natureza no Brasil, desde a época da Lagoa da Turfeira.

Quando recebi o link do Guto Carvalho, do site defendaobutanta, repassei sem pensar, porque também confio no Guto. Mas antes de me envolver mais com o tema, quis ouvir do próprio Luciano. Se a saída de Kalil era mesmo uma tragédia pro Butantan. Ele disse que sim. Que todos estavam batalhando muito em manifestações, protestos, tentativas de audiência. Pra mim é o suficiente. Se alguém por quem eu coloco minha mão no fogo diz que a luta é justa, então pra mim é justa.

Talvez não dê em nada. Os inimigos de Kalil conseguiram fazer um trabalho incrível com a imprensa e a maioria das opiniões gerais que eu vejo são como a sua ou bem agressivas. É uma tristeza imensa, uma injustiça sem tamanho. Na melhor das hipóteses o substituto de Kalil vai continuar os projetos que ele iniciou e ficar com a fama. Ou talvez tudo seja interrompido. Observatório de aves, monitoramento de fauna, apoio ao Avistar? Tudo bobagem corta tudo. Vacina pra dengue? Não, a equipe de Kalil é um bando de incompetentes, era mentira que eles estavam na fase III, não conseguiram nada, não temos nada. Daí daqui a um ou dois anos algum laboratório particular diz que conseguiu, e vai ganhar bastante dinheiro com isso.

No geral eu sou pessimista. E no fundo acho que neste caso o mal venceu. Mas não é por isso que vou deixar de tentar. Vou mandar email pro Alckimin como a Lis sugeriu, vou montar um post pro Virtude, ontem fiquei umas duas horas pedindo por favor pra um monte de gente pra assinar e divulgar. E mesmo que o mal vença, pelo menos saberei que fiz minha parte na tentativa de combatê-lo. Abraços.”

Estamos realmente vivendo uma batalha pela Terra Média? – Parte 1 – realidade e ficção e realidade