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Feliz Ano Novo 5775

Amanhã é a comemoração da virada do ano judaico. Dia 25 de setembro começa o ano de 5775.

Os pais do Cris são judeus romenos (mas não ortodoxos), vindos da Romênia, com leve sotaque e tudo. Faz vários anos que participo de celebrações de Pessach (a Páscoa judaica – libertação do cativeiro egípicio) e de Rosh Hashana (o Ano Novo), e só neste ano me ocorreu que estou desperdiçando muitas oportunidades por ver esses encontros apenas pelo lado social-familiar, e não pelo lado simbólico.

Não sou judia. E na verdade não tenho religião nenhuma mas, como bem falou Alain de Botton, isso não é motivo para não aproveitar as coisas boas que as religiões destilaram durante milênios. Eu, por exemplo, tenho a oportunidade de passar por duas datas no ano que marcam o início de um novo ciclo.

Em São Paulo, Higienópolis é o bairro dos judeus, e que reúne vários judeus ortodoxos (comentário inútil: na BHphotovideo, em NY, você tem a oportunidade de ver o que judeus ortodoxos podem fazer quando não estão nem na Sinagoga. Vários trabalham na loja). Em Higienópolis é muito legal caminhar pelas ruas aos entardecer no dia da celebração da virada. As pessoas com roupas de festa, as crianças tão arrumadinhas, os judeus ortodoxos com aquela cara de ortodoxos.

A virada de ano é uma data móvel – na comparação com o nosso calendário. Às vezes coincide com os dias próximos do início da primavera, mas pode ser no início de setembro, ou até no início de outubro. Aqui no Brasil, hereges como eu têm uma associação a mais: a primavera.

A recomendação é comer algo doce no dia da virada, para que você tenha um ano doce. No 210 Diner, em Higienópolis, você pode comer um prato típico de Rosh Hashana, a Matze Ball Soup – consommé de frango com uma bolona de Matze. Quando vem no capricho, a bolona vem bem temperada com cebola, o que não é muito tradicional, mas fica ótimo. Faz um tempo que não vou no Diner, mas se continuar o mesmo, é um lugar muito bem recomendado. Trilha sonora, ambiente e cardápio pra se sentir em Nova York. Aparentemente eles não colocaram cardápio de sobremesa no site, mas há duas muito boas: os wafles com sorvete são especiais, o wafle é crocante por fora e macio por dentro, e o Devil’s Food Cake é referência, nunca comemos um tão bom.

Shana Tová!

E algumas fotos não ortodoxas de um ortodoxo: Yoel Weisshaus posando pra American Apparel:

Pessoas distintas

É claro que não estou escrevendo loucamente nestas semanas. Escrevo faz tempo, tenho um monte de textos guardados, e decidi que ia colocar num blog. O texto abaixo tem vários anos, mas me ajuda a lembrar que eu sempre devia prestar atenção nas pessoas distintas, e registrar o que vi:

O pequeno milagre foi ver duas pessoas distintas hoje. A segunda foi a mulher bonita com sorriso de santa. A primeira foi um professor de latim, sânscrito, história grega antiga, ou qualquer coisa do tipo. Parecia. Camisa, cardigan, frágil, resfriado, muito branco e com olhos azuis grandes. Mais de 45. Comecei a prestar atenção nele porque a hora que olhei, ele parecia comer um sonho. Ou algum outro doce de padaria, grande e sem graça. Nunca vi alguém naquela padaria comer um doce grande e sem graça no balcão.

Na hora de pagar, a fila no caixa era grande. No tempo de dar a volta no balcão dos pães, o baixinho insolente metido a segurança mudou o encaminhamento da fila, e eu tive que dar a volta de novo no balcão. O professor e sua acompanhante, uma loira de cabelo frisado, bronzeada, vileira, vinham em direção ao final da fila. Deixei espaço para eles, o professor perguntou se eu estava na fila, disse que sim, mas que ele passasse a minha frente, porque eles estavam antes na fila. “não, eu estava no lugar errado da fila, não vou furar fila”, com uma voz correta, cordial. Enquanto isso, a loira vileira olhava as revistas e quando voltou à fila, posicionou-se na minha frente. Ele cutucou o braço dela e a chamou pra trás. “Aqui”, “imagine, a gente já estava na fila”, “Não. Aqui atrás”. Ela detestou, e enquanto a fila andava devagar, ela ficava meio emparelhada comigo e às vezes esbarrava na minha bolsa ou no meu cotovelo. E se queixava “parece que todo mundo resolve ir embora de uma vez”, meu professor: “não, é impressão sua”, “não é não. Até agora não tinha ninguém na fila, de repente todo mundo resolve levantar pra ir embora”, “você também. É, você também levantou pra ir embora”.

Eu queria dar um beijo nele, dizer que me casaria com ele se já não fosse casada.

Por que os brasileiros são tão legais?

Durante esses 30 dias de copa do mundo não escrevi um a sobre o assunto, em nenhum lugar. Mas agora acabou, assisti a vários jogos, e mesmo pensando que não era bom o Brasil ganhar (pra não embalar os loas à Dilma) foi triste ver o 7×1 – que nem vi, depois do terceiro gol achei sofrido demais e saí da sala.

Há todas as questões doídas. Corrupção, dívida, elefantes brancos, eta-tristeza-da-porra de pensar o que seriam 13 bilhões de dólares bem aplicados em educação em vez de circo. Vou falar o que sobre isso? Nada a falar, nada pra resolver.

Mas temos aqui o grande legado mundial da copa. Algo que muitos turistas já sabiam isoladamente, e agora é alardeado nos principais jornais do mundo: o quanto somos legais. Sorridentes, alegres, gentis, animados, solícitos, dados, gente boa. Por que será, não? Aqui vai minha hipótese sobre essa incrível simpatia brasileira. Continue reading Por que os brasileiros são tão legais?